A Arte do Caos

20 Cap 20: Um recomeço pode ser uma esperança...


– Eu realmente não me lembro de quando passei a ser sua inimiga, Acnologia. – falou Shinuky quase frustrada, mas não se importou com a rispidez com a qual o Dragão lhe tratou. Aqueles olhos estavam mais banhados com tristeza do que pensou.

Não desfez a forma Draconiana. Observou que ela trazia consigo algo nas mãos; parecia feito de pano. Grunhiu para a recém chegada, mas a imperatriz não se deu ao trabalho de ouví-lo. Largou o que quer que tenha trazido no chão e foi em direção ao mini altar em que o corpo, um dia vivido, agora repousava mórbido. Acnologia se postou em frente a ela como uma cobra que se enrola e sibila em ameaça.

Ela suspirou.

– Ela era minha amiga também,Acnologia, eu tenho o direito de vê-la. Você sabe que não estou aqui para fazer nenhum mau, ainda mais a alguém que não tem condições nem mesmo de tentar se defender.Estou aqui para vê-la. – A voz firme e decidida o fez ceder, mas isso não queria dizer que gostou da idéia. Já não tinha sobrado muito de Lucy; somente seu corpo e lembranças, e, esse pouco que ainda existia, parecia ser a única coisa que mantinha o Dragão em um estado menos insano, e faria tudo para não perdê-lo.

Shinuky se aproximou do corpo mórbido o olhando com pesar. Apesar de estar a centímetros, não quis tocá-la para não ousar interromper seu descanso. Suspirou, um pouco de melancolia encheu seus olhos. Era triste ver alguém tão jovem e bom perecer em nome da ganância do homem. É sempre a ganância; até mesmo em conceitos bíblicos todo mal começa com a ganância. Adão, Eva e uma simples maçã. Caim que matou o irmão Abel. A humanidade as vezes enoja. Nunca satisfeitos, sempre querendo mais. Acho que viver de uma maneira confortável e pacifica não é o bastante. É necessário se mostrar de maneira inútil para os outros através da fortuna e poder.

–Sabe, você poderia ter tido a decência de me avisar o que tinha ocorrido. – Murmurou sem tirar os olhos do corpo inerte da Heartphilia. Ergueu a mão levando-a ao próprio peito, bem acima de seu coração, e enfiou-a lá. Seu punho inteiro transpassou o próprio corpo como se fosse um fantasma. Puxou a mão de volta e nela havia uma luz branca e negra, mesclada em várias cores que se moviam por toda a esfera; esta piscava em momentos ritmados, aumentando e diminuindo a luz de diversas cores. Acnologia, sem saber o que era, rosnou, se preparando para atacá-la se necessário e como antes ela o ignorou. – Levei três meses para juntar a energia necessária. – Murmurou, ainda com os olhos voltados para a maga. – Isso pode doer.

E então, enfiou a esfera bem em cima do coração de Lucy. Acnologia pulou para atacá-la, mas antes que conseguisse, uma dor infernal se apossou de sua cabeça e seus ossos queimaram. Caiu no chão se retorcendo e rugindo de dor. Shinuky começou a sussurrar palavras que poucas pessoas conheciam. A marca, que desde sua morte permanecera negra, começou a adquirir um tom vermelho brilhante, quase como glitter, que se mesclava entre vermelho sangue e alguns tons derivados. Vários minutos se passaram, as veias de Lucy começaram a ganhar uma coloração branca e a se destacar, como se a mais pura energia estivesse sendo injetada em suas artérias. Assim que todo seu corpo foi contaminado com a energia, suas veias foram voltando ao normal, ao mesmo tempo em que a marca voltava a assumir a coloração que um dia fora.

Shinuky sentia o queimar em sua palma, por estar com as mãos exatamente em cima do Dragão que retomava sua cor azul, mas não se importou. Assim que todo o vermelho e negro foi retirado das linhas que compunham aquele desenho marcado na pele, a imperatriz retirou as mãos de cima de seu coração.

O corpo de Lucy arqueou ao mesmo tempo em que ela respirou fundo, como se acabasse de sair de um afogamento e seus olhos se abriram, mas logo ela retornou a inércia inicial com os olhos fechados, porém agora havia batimentos e uma respiração tranqüila. Assim que a dor que assolava seu corpo cessou, Acnologia arregalou os olhos dracônicos, sem acreditar que ouvia outra vez os batimentos da maga.

Se destransformou, tornando-se humano em uma fração de segundo, mais rápido do que jamais fez na vida e correu em direção ao corpo, não ligando para o fato de estar nu. A primeira coisa que fez foi abraçá-la, colocando o ouvido em seu peito para ver se o som que ouvia era realmente verídico. Arfou, em um misto de sentimentos quando viu que o bombear molhado do sangue pertencia a ela. Olhou para o rosto angelical vendo a cor retornar aos poucos a suas bochechas e corpo.

Lágrimas recomeçaram a cair, mas dessa vez acompanhadas da mais pura felicidade.

–Lucy. – chamou carinhosamente, pegando o rosto delicado entre as mãos, enquanto as lágrimas caiam aguardando ansiosamente em expectativa o momento em que ela abriria os olhos achocolatados e lhe daria o sorriso mais belo de todos. Mas isso não aconteceu no tempo que pensou. –Lucy! – Chamou com um pouco mais de apreensão.

–Ela não vai acordar agora.

A voz lhe chamou a atenção. Virou-se para Shinuky que agora estava sentada, apoiando as costas em um dos cristais que se erguia verticalmente. Seus lábios formavam uma linha fina, estava pálida, com os olhos fechados massageando a testa. Parecia que ela iria vomitar ou desmaiar a qualquer momento.

–Vai levar algumas horas para que seu organismo termine de fazer as reparações próprias para se locomover de novo. É como uma pessoa que acorda do coma e precisa dormir para que o cérebro execute alguns reparos dos danos causados pelo tempo de inércia. – murmurou rapidamente com a voz um pouco fraca.

–Você a ressuscitou? – as palavras pularam de sua boca antes que pensasse em detê-las.

A garota dobrou as pernas, apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos; permaneceu de olhos fechados tentando controlar a fraqueza que se arrebatou sob seu corpo.

–Ressuscitar envolve muito mais energia e também um preço. Uma vida pela outra, essa é a regra básica para o equilíbrio mágico. Quando Lucy foi morta, coisa que você não me contou, ela não morreu de verdade. – Acnologia tentou não pensar nisso, pois a dor da lembrança vinha da mesma maneira, mesmo ela estando viva. – Fiquei sabendo da situação e invadi o conselho. Lá descobri o que ocorreu. Quando drenaram a magia dela para usar como catalisador no processo de fusão com Lázaros, sua ligação começou a ficar instável, e, devido ao eminente perigo, a Marca começou a trabalhar em meios emergenciais de salvá-la. Quando a resistência física não foi o bastante, ela optou por uma resolução drástica, ativada no momento em que o corpo dela adquiriu danos demais para se manter funcional: a marca selou sua alma, dando assim a impressão que ela estava morta. Se ela tivesse mesmo morrido você teria ido junto.

Respirou fundo, finalmente abrindo os olhos para encará-lo, mas permaneceu sentada.

–Não havia completado o período dos 14 dias que eu lhe falei, esse era o único recurso na ocasião.

O Dragão sorriu, e voltou a encarar Lucy enquanto acariciava seus cabelos. Esperou meses a olhando naquele pedestal, poderia esperar mais algumas horas para vê-la abrir os olhos. Shinuky esperou mais um pouco, deixando-o curtir o momento. Levantou-se com dificuldade, mantendo o cristal como apoio.

–Acnologia. – chamou. O garoto voltou os olhos para si. – O que fiz foi pegar um pouco de minha energia vital pura a cada dia, até ter o suficiente para fazer com que sua alma saísse da inércia. É como dar um empurrão no motor. Para tirar o lacre no qual ela foi envolvida, precisei usar de uma técnica que possui um preço. – isso fez o Dragão ficar mais sério e atento as palavras. – Eu tive que forçar sua ligação a se reconectar com ela, obrigando-a a assumir seu ultimo estágio. – Suspirou. – Lucy se tornou imortal ao tempo, e, como conseqüência, se tornou estéril. Seu corpo será incapaz de gerar vida, já que ela precisou da energia de outro para voltar a viver.

Acnologia baixou os olhos. Não importava muito para si se iria ter filhos ou não, afinal não se pode sentir falta daquilo que nunca teve. A idéia de ter um filho com ela lhe agradava de certo modo, mas também não fazia falta ou diferença. Tê-la já era o bastante. Só não sabia como Lucy reagiria a isso.

–Imortal ao tempo? – questionou.

–Sim. O tempo não passará para ela da mesma forma que não passa para você, já que agora estão completamente conectados. Mas ao contrario de você ela não poderá sobreviver a ferimentos graves. – Fez uma pausa e pensou um pouco. – Acnologia. – chamou com seriedade. – Não sou capaz de fazer o mesmo truque duas vezes. Cuide bem dela.

O Dragão não respondeu. Aquela experiência fatídica havia impregnado cada célula do seu ser a ponto de qualquer mínimo risco ser tolerado com o mais severo dos rigores. Lucy jamais sairia da frente de seus olhos. Agora eram procurados pelo conselho, com toda a certeza, então iria arrumar um lugar no qual ela jamais correria algum risco.

Ouviu passos arrastados e virou o rosto, vendo a imperatriz cambalear um pouco enquanto andava em direção a entrada da caverna de cristais. Só ai notou o quão foi desgastante aquilo que fez. Sorriu.

–Shinuky, — chamou. Ela o olhou. – Obrigado. Sou profundamente grato. Talvez um dia possa compensá-la.

A garota sorriu, verdadeiramente.

–Você me agradeceria... – um bolo de tecidos foi arremessado na cara do Dragão. –Se colocasse uma roupa! – exclamou, já recuperando um pouco do humor corriqueiro. – Lucy pode achar lindo ver você todo peladão, mas eu terei pesadelos horrendos.

O Dragão riu um pouco, tirando o tecido do rosto, sem se importar com a ligeira ofensa. Hoje ela merecia ser perdoada por qualquer disparate ofensivo ou de caráter irônico que queira lhe jogar. Colocou uma calça de algodão semelhante a um moletom negro sem pestanejar. Percebeu que havia também uma blusa comum e uma pequena muda de roupa feminina. Seu sorriso alargou. Shinuky sempre pensava em tudo.

–Ei! – ela exclamou.

Por reflexo, agarrou o que lhe foi arremessado. Olhou ara sua mão e viu um par de chaves anexado a um chaveiro com um lobo talhado em madeira. Ergueu o olhar.

–Acho que se lembra da minha antiga casinha nas montanhas dos Alpes. Fique com ela. Será um bom lugar para vocês dois no momento, você sabe se virar lá. Eu a abasteci com algumas coisas básicas, mas o resto vocês terão que arrumar. Creio que não será muito difícil. – Disse apontando para alguns cristais com gemas rubis.

–Obrigado. – agradeceu serenamente. Era só o que podia fazer.

Prometeu a si mesmo valorizar mais a amizade de Shinuky. Ela tinha feito mais por si em meia hora do que jamais conseguiria pagar por toda a vida.

Ela abanou a mão em um movimento de descarte e seguiu pela saída, um pouco cambaleante ainda, mas bem o bastante para voltar para casa.

–Ah, e mais uma coisa! –ela gritou da porta. Não se virou para olhá-la. – Já estamos na primavera. – E depois saiu.

O Dragão não esboçou reação com a nova informação. Colocou o resto das roupas dobradas aos pés de Lucy. A esperaria acordar. Olhou em volta por toda a parede da caverna em busca de um cristal pequeno no inicio de sua formação. Não queria depredar um santuário tão belo como aquele, mas precisava de um pouco de dinheiro, então focaria no menor dano possível.

Avistou um a alguns metros na parede a esquerda. Ele tinha cerca de trinta centímetros. Transformou sua mão direita, fazendo-a se encher de escamas e chamas. Socou o pequeno cristal que possuía pequenas gemas vermelhas e verdes em seu interior, estilhaçando-o. Eles poderiam até ser indestrutíveis, porém suas escamas eram bem mais duras; era isso que o tornava tão forte, ser inatingível, mas admitia que sentia as juntas de seus dedos latejarem provando a dureza dos cristais.

Pegou as pequenas gemas brutas do chão e as colocou no bolso. Logo caminhou para o pedestal e sentou-se no chão bem ao lado do corpo agora vívido. Fechou os olhos pondo um sorriso no rosto. Não dormia à muitas semanas e não dormiria agora, a esperaria acordar primeiro.

Várias horas serenas se passaram até que seus ouvidos poderosos captaram uma mudança na respiração tranqüila. Levantou-se rapidamente esperando para ver aqueles lindos e formosos olhos chocolates outra vez. Mal podia agüentar a expectativa em seu corpo. Seus olhos começaram a se abrir dando leves piscadas para tentar focar em algo. Assim que as esferas chocolates ficaram totalmente visíveis sentiu todo seu corpo se tornar mel. Toda a angústia que passou há meses sumiu e pela primeira vez em muito tempo sentiu seu coração bater no peito.

Segurou o rosto pequeno em suas mãos e respirou pela primeira vez sentindo de verdade o doce sabor do oxigênio.

–Acno... – ela falou em um sussurro, os olhos confusos e cansados. Ergueu a mão lentamente para segurar uma das palmas dele que estavam em suas bochechas. Arquejou com o toque das mãos pequenas nas suas; mais lágrimas começaram a descer de seus olhos. Por um instante pensou que fosse um sonho.

–Lucy. – sussurrou de volta, o nome saindocomo um doce chocolate de sua boca. Não resistiu e a abraçou, certificando-se de que ela jamais sairia de lá outra vez. – Graças a Deus! – desabafou, mesmo que jamais tivesse acreditado ou posto fé em um Deus, agradecia muito por ela estar viva. – Nunca mais faça isso comigo! – Sua voz saia como uma ordem, mas o sussurro era melancólico e agradecido.

A maga sentia as lagrimas espessas caindo em seu pescoço. Estava confusa. Nunca vira Acnologia chorar, então por que chorava? O que tinha acontecido? Que lugar era aquele?Por que ele estava semi-nu e parecendo que ia desabar? E, mais importante, por que sentia que havia falhado com ele?

–O que... o que aconteceu?- Sua voz saia rouca, como se não falasse há anos. O abraço dele estava se tornando apertado demais, e sentia que seu corpo não estava em boas condições. Estava rígido demais. – Você está me apertando. – Falou depois de um pigarro, a voz começando a voltar ao normal.

Acnologia rapidamente afrouxou o abraço, mas não o desfez. Ergueu o rosto manchado com lagrimas e segurou os fios loiros; Precisava fazer isso. Beijou-a, finalmente voltando a sentir a maciez dos lábios quentes e carnudos, sentindo-a corresponder um pouco confusa, mas ainda sim lhe dizendo que estava viva outra vez. Sua língua entrou desesperada em sua boca, provando de cada canto e de cada parte como se fosse a primeira vez. Seu maxilar prensava com força o dela, buscando cada vez mais do contato.

Lucy nunca o tinha visto tão ávido assim, quase desesperado. Não desgrudou até que todas as mínimas moléculas de oxigênio se exaurissem.

O Dragão colou sua testa com a dela, de olhos fechados e com um sorriso nos lábios enquanto ofegava. Sentia-se completo de novo. Sentia-se vivo.

–O que aconteceu? – perguntou novamente agora com a voz mais firme. Ela se ergueu para se sentar, e Acnologia a ajudou, mas permaneceu com as mãos em sua cintura, sem deixar que um centímetro as separasse.

O corpo de Lucy estava rígido demais, realmente parecia que ela havia acordado de um coma, porém ela não apresentava sinais de desnutrição devido aos cristais que conservaram seu corpo.

O Dragão mordeu os lábios por um momento. Respirou fundo e suspirou tentando não deixar as lembranças encherem sua cabeça.

–Houve um... acidente. – tentou falar franzindo os lábios. Acidente não era a palavra correta para a situação, mas era mais fácil colocar assim. – Todo o grupo foi... capturado. Eles usaram gás sonífero. – Lucy sentiu os punhos se fecharem bruscamente em suas costas. Ele sentia raiva e culpa por ter sido capturado em um truque tão ridículo. – Quando acordei senti o cheiro do seu sangue. – tentou com todas as forças afastar a lembrança, mas sua voz se tornou melancólica. – Eu perdi a cabeça e, quando a encontrei, já era tarde. – murmurou quase em um sussurro. – Você estava morta. – Sua voz saiu falha. Fechou os olhos inspirando fundo lembrando a si mesmo que ela estava ali agora, e que isso seria apenas um passado distante.

A Heartphilia abriu e fechou a boca várias vezes incrédula. Como assim tinha morrido? Sabia que não estava morta, podia se sentir viva. Lembrava-se de ter protegido Wendy e depois... um apagão completo.

–Eu... o que... como? – gaguejou sem entender.

Ele abriu os olhos e lhe deu um sorriso amarelo.

– Digamos que agora estou devendo muito a Shinuky.

Ela rapidamente compreendeu a situação. Respirou um pouco para digerir os fatos, formando uma pausa na conversa.

–Lucy... – ele chamou. Sua voz um pouco séria, hesitante e temerosa. Desviou o olhar. Ela o conhecia bem o bastante para saber que aquilo era sinal de algo que ele não queria contar. – Quando... quando Shinuky te trouxe de volta ela disse que minha ligação havia selado sua alma para protegê-la. Por isso você ‘morreu’. Ela usou um feitiço para te ligar de maneira definitiva a mim, mas isso tem um preço. – Murmurou abaixando a cabeça, temeroso e sem jeito. Lucy segurou seu rosto com as mãos e o olhou nos olhos, lhe dizendo mudamente para continuar. – Você agora não envelhece. É imortal ao tempo e... por isso, se tornou estérea.

Essa era a parte mais delicada e difícil de contar. Sua voz tinha falhado. Nunca havia perguntado a Lucy se um dia ela gostaria de ser mãe. Isso parecia tão tolo, mas ao mesmo tempo tão significante. Estava começando a sentir a agonia tomá-lo de novo pela falta de resposta.

Os olhos da garota ficaram um pouco tristes. De fato um dia, talvez, gostaria de ser mãe. Havia um instinto materno enraizado em toda mulher para isso. Mas não se pode sentir falta daquilo que nunca se teve. Ergueu os olhos para Acnologia olhando-o realmente nos olhos pela primeira vez; Atravessou as íris azuis e o olhou na alma. Foi lá que descobriu que sua maternidade poderia não ser usada em um possível filho, mas sim na pessoa a sua frente.

Viu os olhos tristes, a agonia os rondando nas bordas; teve vontade de chorar. Pela primeira vez pensou no quanto deve ter sido difícil para ele ter agüentado tudo sozinho. Não poderia nem se quer imaginar. Via nos olhos daquele homem que lhe olhava com tamanha preocupação que ele precisava ser consolado; precisava tirar toda aquela tristeza mórbida do corpo dele.

Nesse momento não ligou mais para filhos ou imortalidade; apenas para o homem a sua frente.

O abraçou o mais forte que seu corpo, ainda um pouco debilitado, conseguia.Acnologia ficou em choque por um instante; tinha pensado que ela teria outra reação, mas não negou o abraço. A apertou de volta enfiando o rosto na curva de seu pescoço, respirando aquele cheiro inebriante que infestava seus pulmões de prazer. Ficou assim por um longo tempo, sentindo o corpo pequeno escondido e protegido em seus braços, se drogando com a sensação de se sentir vivo de novo.

–Acno. – chamou ao pé de seu ouvido, sem desfazer o abraço. Ele não respondeu, mas sabia que estava ouvindo. – E meus amigos?

Seus músculos travaram. Ficou tenso e engoliu várias vezes antes de se forçar a responder.

– Eu... eu não sei. – murmurou derrotado. – Quando te encontrei naquele estado eu perdi o controle. Quando me recuperei te trouxe para cá. Não saí desde então. Acho... acho que ainda pensam que está morta. – a palavra saiu falha. O sentiu apertar ainda mais os braços a sua volta. –Sei que Lahar veio a nosso encalço, mas... depois ele foi embora e não nos procuraram desde então.

Lucy apoiou o queixo no ombro do Dragão para absorver as informações. Se Lahar veio atrás de ambos, significa que eram procurados definitivamente pelo conselho; sem chance de disfarce. O conselheiro poderia estar fazendo vista grossa, mas duvidava que outros fariam o mesmo. A Fairy Tail pensava que estava morta. Iria resolver isso; não hoje, mas em breve. Sentia um pouco de medo em pensar na possível reação deles, entretanto não lhe custaria tentar.

Logo processou a ultima informação.

–Você perdeu o controle? – qual era o tipo de definição para isso? Quer dizer... O que ele tinha feito?

–Sim. – sussurrou quase inaudível.

Não queria ter de se lembrar de como quis se entregar a insanidade quando a viu morta. Não era uma lembrança saudável; não era algo no qual gostaria de tentar a si mesmo a fazer quando entrasse em uma situação delicada.

Lucy ficou pensativa por um instante.

–Matou alguém? – questionou. Sua voz não era acusatória ou nervosa. Era apática.

Acnologia hesitou.

–Sim. – murmurou mais baixo ainda. Por alguma razão quis completar. – Matei quase todos que se aliaram ao projeto de Hizame, inclusive aquela que te matou. Apenas isso. – falou rapidamente. Queria que ela soubesse que mesmo fora de controle não machucou seus amigos. Naquele dia seu foco estava definido.

Sentiu-se estranha. Algo lhe dizia que deveria se sentir culpada ou com algum remorso, mas não sentia. Não possuía nenhum ressentimento por isso. Aquelas pessoas tentaram fazer mal a seus amigos e, se Acnologia não estivesse lá, é muito provável que isso tivesse realmente ocorrido. Não conhecia aquelas pessoas para sentir algo por elas. Não fazia diferença. É o mesmo que se sente por saber que alguém morreu do outro lado do mundo. Você não sente nada por que nunca a conheceu.

Levou a mão aos fios negros e os afagou; os braços ao seu redor relaxaram diminuindo a tensão. Permaneceram assim por mais alguns minutos.

–Estou com fome. – murmurou para o Dragão. Realmente sentia-se faminta. Poderiam tratar dos problemas depois, no momento só precisavam um do outro.

Acnologia riu e se afastou um pouco. Pegou a pequena muda de roupas dadas e deu a ela para se trocar. Tanto sua blusa quanto a saia estavam em farrapos.

–Vamos comer então. – falou sorrindo alegremente.

Agora sentia um pouco de conforto em por algo na boca em meses. Também estava faminto e tinha recuperado boa parte do apetite. Lucy tinha um efeito muito grande em si.

A maga se virou de costas para se vestir, e dessa vez Acnologia não ligou para seu corpo nu. Neste momento estavam querendo apenas companhia.

–Quanto tempo eu fiquei... bem, você sabe. – Questionou terminando de por a blusa e se virando. Não queria usar esta palavra com ele, pois percebia seu desconforto em se quer pensar nela.

Ele balançou a cabeça algumas vezes tentando fazer a cronologia.

–Alguns meses. – murmurou. – Eu não seu bem.

Mordeu brevemente os lábios. Ainda tinham muito a discutir, todavia era mais viável deixar para depois. Sentiu seu estômago queimar de fome, já dando os sinais de que não comia hámeses. Acnologia se aproximou e Lucy enlaçou seu pescoço enquanto ele segurava sua cintura.

–Esse Lugar é lindo. – murmurou para mudar o repertório e olhando para o teto.

–Também acho. – respondeu simplesmente. Não queria falar que aquele era um lugar digno para ser seu local de descanso eterno. Preferia deixar isso em branco.

–Já que agora somos procurados pelo conselho, onde vamos comer?

Sorriu para a garota a segurando nos braços. Ela deu um gritinho surpreso. Tinha permanecido sem camisa justamente para deixar suas asas saírem.

–Tem um tempo que não vôo. – murmurou brincalhão. – Vamos ver como vou me sair.

Bateu as asas com força no chão, ganhando vários metros de altitude de uma só vez, quase a ponto de bater no teto da caverna. Mergulhou para fora da montanha, indo em direção as nuvens fofas sentindo o vento e o ar puro ao sobrevoar os vales. Lucy riu e se aconchegou a ele.

O Dragão gemeu de satisfação ao sentir aquilo de novo. Sentir a liberdade partilhada uma vez mais; sentir a Heartphilia se ajeitar em si enquanto voa; sentir-se livre e apaixonado. Não trocaria isso por nada no mundo. Deixou o vento frio rasgar suas asas enormes, e agora cheias de escamas azuis. Definiu o rumo para as montanhas semi-invernais sem nenhuma pressa.

Não demorou muito para que conseguisse avistar a pequena casinha de madeira pertencente a Shinuky, escondida em meio as montanhas. Era primavera e conseguia ver algumas arvores dando flores, mas isso não impedia que o topo da montanha possuísse uma cobertura de neve. Aterrissou suavemente em frente a residência colocando Lucy no chão, esperando que ela avaliasse o local.

A casa era simples; nada de extravagante; espaçosa, porém não muito grande. As janelas eram de vidro, mas a parte interna possuía madeira, formando uma janela dupla; uma parte de vidro (para o verão) e outra parte de madeira (para o inverno). Lembrava um pouco aquelas casas do período imperial. Conseguia ver a saída de uma chaminé de pedra, concluindo que a casa possuía uma lareira. Ao lado da residência, bem próximo a porta lateral na parede direita, havia um pequeno galpão, menor que a própria casa. Já tinha visto aquele estilo antes, era para caça.

Aquela casinha era equipada com tudo para que não precisassem sair de maneira freqüente de lá, aproveitando tudo que a floresta oferecia; uma casa para caçador. Só precisariam sair no máximo uma ou duas vezes por mês para comprarem algumas coisas. Provavelmente existia um pequeno canteiro nos fundos para plantar pequenas coisas e o galpão serviria para limpar a caça e manter a carne conservada no inverno.

As paredes da casa possuíam uma cor bege, fazendo contraste com o telhado de pedras negras, que fazia a neve do inverno escoar mais rápido, já o galpão era completamente de madeira, sem cor adicional.

Lucy se virou, erguendo as sobrancelhas. Acnologia sorriu torto.

–Shinuky nos emprestou indefinidamente. – respondeu. – Ela sabe que sei me virar muito bem na floresta e que iríamos precisar de um lugar afastado das grandes cidades, dadas as circunstâncias. – murmurou. Isso o lembrava vagamente de como se conheceram. – Há um vilarejo ao sul, a algumas horas a pé. – Enfiou a mão no bolso pegando algumas das pequenas gemas. – Peguei isso para comprarmos algumas coisas lá.

A garota arregalou os olhos franzindo a testa.

–Acnologia! – repreendeu. Ele sorriu. – Você roubou isso?

O Dragão revirou os olhos.

–Para ser ‘roubo’ elas deveriam pertencer a alguém, o que não é o caso. Alem do mais aquela caverna não vai mudar muito por apenas algumas pedras. – suspirou um pouco pesadamente. – Não vamos poder aparecer por ai com muita freqüência, Lucy. Isso é o bastante por um bom tempo. – Falou colocando as gemas no bolso outra vez, a feição mais séria.

Não queria permitir que ela se aproximasse de algum vilarejo ou cidade. Queria mantê-la ali, onde não há perigo e poderia monitorar constantemente o território estabelecendo uma zona de conforto. Não tinha muita coragem para admitir essa verdade para ela agora; a de que se sentiria melhor se passassem um tempo longe de tudo, longe do mundo cruel que poderia levá-la de si. Mordeu o lábio. Não estava bem o bastante para permitir que ela ficasse longe de suas vistas, por isso deu a desculpa de serem procurados.

Como se não fosse ridículo de tão fácil quebrar o precário sistema de vigilância do conselho.

Lucy suspirou, sabendo que havia algo a mais ali, todavia não insistiu.

–Vamos comer então? – mudou de assunto.

Ele sorriu e pescou a chave no outro bolso, girando o chaveiro nos dedos antes de abrir a porta. Abriu passagem para ela e entrou em seguida.

Lucy sentiu um tapete vermelho bem bordado sob seus pés. As paredes possuíam alguns pequenos quadros abstratos decorando as paredes da entrada. Andando mais um pouco chegavam a sala, onde uma mesa redonda com quatro cadeiras se postava no centro, embaixo de outro tapete e em cima com um forro branco bordado decorado com um vaso de vidro azul.

Um balcão separava a sala da cozinha. Os armários sustentavam a bancada de granito da pia e uma bancada mais longa. Havia uma mesa menor e retangular de madeira no centro da cozinha, a alguns metros da geladeira.

Do outro lado da sala principal, tinha um sofá, virado para a janela com uma pequena mesinha baixa de vidro em cima de um tapete branco felpudo. A vista era magnífica, poderiam ver o por do sol ao longe. Se aventurando um pouco mais pela casa entraram no ultimo cômodo do local. Uma cama de casal, bem próxima a uma janela ainda maior. Um abajur na lateral direita encima de um criado mudo. No lado oposto da cama se encontravam os armários e uma porta que levaria ao banheiro.

Uma pia simples de porcelana branca, um armário de madeira embaixo da mesa, um espelho retangular, até um pouco grande. No lado oposto no canto direito estava uma banheira redonda branca de tamanho mediano. Uma pessoa caberia lá perfeitamente com folga, mas duas precisariam de espremer um pouco. Ao lado esquerdo no canto ficava o vazo. Varas de metal pregadas a porcelana das paredes penduravam as toalhas. Na quina de encontro das duas paredes a direita, havia um chuveiro para banhos rápidos; a água caia pela banheira e ia para o ralo.

Tudo ali era muito simples e modesto; confortável. A casa era o mais auto-suficiente possível. A água da caixa vinha dos rios de água pura que se formavam pelo degelo no topo das montanhas; parte dos alimentos poderiam ser plantados ali, ou na floresta e as lacrimas garantiam energia por bastante tempo. Era algo muito prático.

Foram em direção a cozinha, abrindo uma porta lateral ao lado do fim da bancada da pia. Caminharam uns três metros até o galpão e abriram. Acnologia queria saber se estava tudo a disposição, e, como havia suposto, Shinuky já tinha pensado em tudo. Facas, álcool e todos os equipamentos necessários para a retirada e conservação da carne de um animal estavam ali. No centro, havia uma mesa de metal retangular e estreita perfeita para o trabalho. No canto havia um frízer e acima dele várias prateleiras perfeitas para estocar alimento, principalmente para o período de pico do inverno.

No canto direito algumas toras de madeira já cortadas estavam empilhadas. Precisaria pegar mais depois.

Se virou para Lucy com um sorriso. Aquele lugar era perfeito, sabia muito bem se virar por ali. Devia a Shinuky mais do que supunha.

–Vamos comer? – perguntou animada. – Estou faminta.

Voltaram para a casa, fechando as portas pelo caminho. A Heartphilia abriu a geladeira enfiando o rosto em seu interior para analisar as opções. Mordeu o lábio. A casa estava razoavelmente abastecida com o básico, entretanto queria uma refeição mais rápida e pratica. Abriu os armários avistando alguns temperos e outros mantimentos. Pegou alguns deles e dispôs na pia, retornando a geladeira para pegar alguns peixes frescos.

Riu consigo mesma ao se lembrar que Happy iria matá-la por fritá-los em uma frigideira, mas logo suspirou. Não poderia pensar na Fairy Tail no momento. Estava com alguém ainda psicologicamente instável e, até que isso mudasse, deixaria algumas coisas para segundo plano.

Aprontou tudo no fogão e transferiu para a mesa. Acnologia colocou os pratos. Comeram sem muita conversa; O clima estava confortável e tudo que queriam era aproveitar a presença um do outro, sem correr o risco de tocar em um assunto desagradável.

Por incrível que pareça, estavam exaustos. Talvez não fisicamente, mas psicologicamente; Lucy tinha muito o que absorver depois de entrar em um estado de quase morte durante meses e Acnologia ainda estava tendo problemas com seu recente trauma. Tudo que queriam era um banho e uma cama. E assim fizeram.

Shinuky tinha colocado no armário algumas poucas mudas de roupa. Precisariam comprar mais depois. Se jogaram na cama e o Dragão puxou a Heartphilia para seus braços, enterrando o nariz em seu cabelo, gemendo em satisfação. Era a primeira vez que sentia algum conforto em meses.

–Acno. – chamou a maga, já um pouco sonolenta.

–Humm?- resmungou sem querer se mover.

–Me desculpe... por tudo. – falou em um tom ainda mais baixo.

Queria dizer que a culpa não era dela, mas o corpo pequeno relaxou sobre o seu. Suspirou. Talvez houvesse culpa dos dois lados, mas com toda a certeza a maior parcela era dele. Pelo menos era disso que tentava se convencer antes de apagar completamente.

“A luz pensa que viaja mais rápido que tudo, mas está errada. Não importa o quão rápido a luz viaje, ela descobre sempre que a escuridão chegará lá antes e a está esperando.”

Notas finais
# Oi. Primeiro eu gostaria de dizer mil desculpas pelo atraso enorme. Minha mãe viajou, o Wi-fi queimou e estou tendo que estudar feito louca para as provas que virão, por isso ja adianto que pelo menos nos primeiros meses desse ano o tempo entre as postagens será maior. #Vocês perceberam que não há erros? Han? Eu agora tenho uma beta oficial de verdade que corrige meus caps XD XD X3. Ela atende pelo pseudônimo de Bailarina de Porcelana. Obrigada por me ajudar XD. #Terceiro, sim, eu ressuscitei a Lucy, as vocês realmente acham que ficará assim? Os problemas estão só começando queridos! Minha maldade ainda está ativada. MUAHAHAHAHAHA #Meu deus, quantos comentários. Levei uma semana para responder todos XD Por favor continuem a comentar, esses comentários me inspiraram em uma faze muito ruim e me ajudaram a caprichar ainda mais com os capítulos só para deixá-los o melhor possivel para vocês. #MEU JESUS. Três recomendações. É isso mesmo? O.O Nunca me senti tão feliz na minha vida, e elas vieram em um momento que eu estava desinspirada. Ster, Vivian, e BailarinaDePorcelana, vocês me ajudaram muito. Estou imensamente grata a todos vocês por comentarem, favoritarem e recomendaram. Vocês não tem noção so quanto fiquei feliz quando vi isso. É uma sensação de que todo o meu esforço em melhorar cada vez mais por vocês está valendo a pena. Espero que não sejam as ultimas recomendações que receberei, mas vocês realmente me deixaram muito feliz nestes últimos capítulos. # Sobre a chave para as trevas, peço um pouco de paciência. Já disse que estou em um momento bem crítico da fic e quero terminá-la direito. Vou escrever o capítulo com capricho. Aguardem só mais um pouquinho. #Realmente agradeço muito e, para aqueles que tem face, recomendo esta pagina que descobri. https://pt-br.facebook.com/theuniverseoffics Lá vocês podem encontrar ou divulgar fics e até mostrar alguns trechos de suas fics favoritas. #Bjs XD Eu realmente fiquei muito feliz.