A Arte do Caos
21 Cap 21:O que acontece quando monstros tem pesadelos?
Sentia-se sufocado. Era estranho. Estava dentro de um local de corredores largos, tapeçaria cara que parecia se estender por vários e vários quilômetros, mas sentia-se incapaz de respirar; seu peito apertava. Os candelabros cheios de velas à sua volta não ajudavam em nada. Estava correndo pelo que pareciam horas em uma direção que não sabia, mas algo em seu inconsciente lhe dizia para correr.
Tinha de chegar a algum lugar que não sabia onde.
Correu por mais intermináveis minutos pelo tapete longo. Seu desespero começava a se espalhar. A agonia lhe tomava, seu fôlego começava a ficar escasso e seus músculos ardiam, até que, por fim, encontrou uma porta. Sentiu uma necessidade desesperadora de abri-la o mais rápido possível e o fez.
A sala era branca do chão ao teto; não havia nada em seu interior, não sabia onde começava ou acabava. Olhou para trás, a porta tinha desaparecido. Olhou para frente outra vez, e viu aquilo que mais mexia com seus pesadelos. Lucy estava lá, à sua frente, caída no chão, um buraco se abria em seu abdômen, manchando o vestido tão branco quanto as paredes. Um rastros de sangue se fazia presente no chão e a poça de sua origem só aumentava.
–Acno... – ela chamou em um suplicio, os lábios carnudos manchados de vermelhos de sangue.
Sua respiração se tornou arfante e rápida. Olhou para suas mãos e elas estavam cheias de sangue... sangue de Lucy!
Começou a se sentir asfixiado, respirava rápido e largamente, mas não sentia o oxigênio em suas veias. Entrou em pânico, o desespero começou a tomá-lo e, outra vez, sentiu aquele buraco estrondoso em seu peito. O medo o invadiu por completo.
–Lucy!!! – gritou correndo em direção ao corpo ensanguentado.
Esticou a mão para pegá-la, mas ela sumiu. O chão se abriu a seus pés e foi engolido pela escuridão, caindo em um abismo sem fim...
–Acno!!!
Abriu os olhos acordando em um pulo. Um par de olhos achocolatados estava fitando os seus azulados com preocupação, suas pequenas mãos estavam segurando seu rosto. Foi ai que notou que estava se transformando, as escamas aparecendo por todo seu corpo e os dedões finos acariciavam as olheiras escamosas no limiar de seus olhos, suas chamas fizeram um belo estrago nos lençóis.
Aos poucos sua respiração arfante foi se acalmando, foi ficando menos tenso e suas mãos pararam se cerrar os punhos. Pousou ambas na cintura fina e foi voltando ao normal calmamente. Lucy esperou paciente ate o pânico e as escamas desaparecerem de suas feições.
–Calma.- murmurou sinuosamente – Foi só um pesadelo. Não é real. – completou mesmo sem saber do que se tratava.
Respirou pausadamente e profundamente mais duas vezes. Voltou a analisar o estrago do lençol.
–Desculpe. — Murmurou. A voz rouca e ainda tentando retirar as imagens da cabeça.
–Tudo bem. – falou ela dando-lhe um meio sorriso. Continuou acariciando suas bochechas. – Quer contar do que se trata? – perguntou serena.
Ele negou com a cabeça.
Suspirou.
–Fiquei preocupada. Você ficou inquieto e começou a se transformar. Tem certeza que não quer falar?
Balançou a cabeça outra vez. Tinha medo de falar e sua voz denunciar seu pânico. Oque não sabia era que os olhos analíticos de Lucy analisavam os seus com um toque materno, e rapidamente perceberam o que ocorreu. Conseguia ver o quanto ele estava assustado por dentro; sabia que ele não iria pregar os olhos esta noite.
Estalou a língua tendo uma ideia. Saiu dos braços do garoto, que por um instante se apavorou com o movimento, mas antes que se pronunciasse, ela o chamou.
–Venha. – chamou, ajeitando-se nos travesseiros em suas costas e ficando de barriga para cima. –Vamos, ande. Eu não vou chamar de novo. – Murmurou batendo na própria barriga. – Minha vez de te servir de travesseiro. – brincou.
Ele deu um meio sorriso e aceitou o convite. Abraçou a cintura pequena e afundou o rosto em seus seios, se aconchegando lá. Conseguia ouvir claramente o ressoar das batidas do coração de Lucy, que se tornaram uma musica adorável para seus ouvidos; uma bela canção de ninar. A maga levou uma das mãos aos fios negros fazendo um cafuné e a outra foi para as costas nuas contornando de leve os músculos com as pontas dos dedos. Deu um beijo em meio a cabeleira semi -espetada e começou a cantarolar baixinho até que ele adormecesse outra vez, todavia sem ser enclausurado em um profundo pesadelo. Não agiu muito diferente; o peso e o corpo quente de Acnologia é como um cobertor em si, lhe empalando em sono profundo.
#*#*#*#*#*#*#*#*#
O vento fazia um barulho suave trazendo a brisa a seu rosto. O cheiro de água doce, terra, e madeira velha impregnou suas narinas. Sentia que o musgo abaixo de seus pés estava úmido mesmo por baixo de suas sandálias, mas não era o bastante para faze-lo escorregar da pedra a qual estava encima e agachado. Estava divagando sobre o sonho que havia tido na noite anterior. Não pensou que se transformaria por algo assim..ou quase se transformaria, no caso. Sua mente não estava bem. Foi algo muito mais difícil para si do que pensou quando deixou Lucy em casa e foi para a floresta.
Agora lá estava; no meio de um lago encima de uma das poucas pedras que despontavam da superfície. Sua mente estava em outro local, mas seus instintos ainda estavam ligados quase em automático.
Conseguia ouvir a leve movimentação subaquática, o peso do corpo de quase cinqüenta quilosrastejando como um predador ágio de olho em si; sentia o cheiro pairando pelo ar. Em um instante a superfície da pequena lagoa meio pantanosa estava completamente lisa, no segundo seguinte uma boca cheia de dentes emergia rapidamente em sua direção. Para a infelicidade da criatura, poucas coisas no mundo eram mais rápidas que os reflexos do homem à sua frente.
Acnologia segurou a mandíbula do animal reptiliano, erguendo-o para cima, e impedindo sua mordida voraz. Enfiou a outra mão por cima do animal, e puxou seu focinho juntamente com sua cabeça. Um estalo percorreu a clareira; o Dragão matou o crocodilo com misericórdia e sem sofrimento. Rápido e limpo.
Ao contrario de seres humanos, ele possuía empatia por animais, e não gostava de fazê-los sofrer quando iria usá-los como alimento; era uma medida compensatória. Ao contrario dos homens, animais não matam por ganância; ou matam para comer ou para se defender, nunca pelo prazer de fazê-lo. Não seria justo tirar cruelmente a vida de um ser que jamais lhe fará mal de propósito.
Jogou o corpo pesado nas costas e andou para fora do lago, por cima das pedras que permaneciam acima da superfície. Enfiou a outra mão no bolso, tirando uma pequena cordinha de um metro enrolada como um barbante, e amarrou o focinho do animal já morto, logo fazendo o mesmo com a outra ponte, porém, ao invés da boca do animal, amarrou-a em uma arvore de modo que o réptil morto ficasse pendurado à sua frente. Tirou do bolsouma faca de dois a três centímetros meio curvada; era um utensílio usado por caçadores para tirar o couro do animal, separando-o da carne.
Como regra geral a primeira coisa que se faz com um animal que acaba-se de abater é retirar as entranhas; intestino, estomago, bexiga etc. O intestino abriga a maior quantidade de bactérias que estão presentes no seu corpo, na realidade cerca de 10% de todo o seu peso seco (ou seja, retirando os 75% de água que o constitui) é o peso das bactérias. Muitos milhares de milhões de bactérias que, assim que você morre, começam a se espalhar por todo seu corpo. Já o estomago, com seu incrível Ph de 2,5, caso se rompa, estraga toda a carne do corpo do animal em segundos. O mesmo vale para a bexiga, embora não possua um liquido acido como o estomago, ela possui vários componentes que o matariam caso infectem a carne.
Acnologia sabia disso tudo. Em uma situação normal a primeira coisa que faria era remover as entranhas, mas isso não seria algo muito inteligente de se fazer quando se tratava de crocodilos, jacarés e outros derivados. Se você retirasse as entranhas ficaria muito mais difícil remover o couro depois,pois ela ficaria frouxa e sem sustentação lhe dando mais trabalho do que deveria e, como existia um prazo de cerca de 4 a 6 horas para que as entranhas fossem removidas antes de infectar a carne, não seria incômodo nenhum desgrudar o couro da carne primeiro. Sendo assim, começou a abrir a couraça e enquanto trabalhava pensava nos acontecimentos recentes.
Lucy estava preocupada e isso era óbvio. Ela sabia que ele não estava bem, não só pelo fato de ter tido um pesadelo, como também pela maneira estranha que agiu pela manha. Pouco tempo depois do Sol nascer eles foram para um vilarejo pequeno e distante ao sul, comprar alguns mantimentos e outras coisas mais, além de trocarem uma das gemas que tinham pego. O problema começou quando Acnologia insistiu em ir sozinho; até parece que ela iria deixá-lo sozinho para comprar mantimentos. Homens não são exatamente exímios em se lembrar do que uma residência precisa, e, após uma breve discussão, um único olhar duro dos olhos achocolatados o fez ver que tinha perdido a briga. O povo do vilarejo era tão simples e o local tão pequeno que eles nem precisaram de disfarces.
Quanto menor e mais longe o vilarejo for das grandes cidades, menor a chance de eles saberem de alguma coisa. O único problema é que quando surgia uma fofoca ela se espalha ainda mais rápido. Não que se importasse, já que estava fora de seus planos retornar tão cedo. Entretanto, por via das duvidas, deram nomes falsos quando eram questionados.
O que compraram foi o mais básico como alguns grãos, ervas medicinais e equipamentos de limpeza. Aproveitaram para adquirir algumas roupas também. Pegaram tudo em grande quantidade para não retornarem antes do fim da primavera. Não compraram nenhuma carne ou algo do gênero já que o Dragão saberia adquiri-las na floresta. E foi justamente o que fez.
Assim que retornaram, deixou Lucy arrumando as coisas e saiu de casa. Passou algumas horas sobrevoando o território, fazendo um rascunho do que seria sua Zona de conforto; uma área a qual criaria um perímetro de constante vigilância e caça. Desse modo poderia vigiar as trilhas dos animais, saber qual poderia ser predado em cada época do ano e, claro, cuidar para que a população de animas permaneça constante; Todo caçador que se preze sabe que tem de conservar a floresta e o território em que caça para que os animais permaneçam e continuem lhes servindo de alimento. Para isso é necessário moderação. Se você erradicar a espécie e não respeitar as condições para que elas vivam e se reproduzam seu alimento rapidamente some.
Além de que este perímetro a ser vigiado impediria visitas indesejadas.
Seria mais fácil proteger Lucy.
Enquanto sobrevoava percebeu uma grande quantidade de animais grandes na floresta que o cercava. Era primavera, a maioria dos animais saía de suas tocas nesta época e não queria caçar lá. Não queria abater um animal grande antes do inverno. O calor da primavera estragaria a carne antes que conseguisse consumir o animal por completo e se tinha uma coisa que odiava era o desperdício. Com toda a certeza não mataria um animal de 250Kg para jogar metade fora. Por isso decidiu ir para o sul, voando até uma área pantanosa onde conseguiria algo menor.
Jacarés eram uma boa pedida. Tinham um gosto semelhante a frango.
Ergueu uma sobrancelha. Na verdade quase todo animal fora os convencionais de carne vermelha tinham um gosto semelhante a frango. Até cobras. Vai saber.
Terminou de descolar o couro da carne, deixando-o grudado apenas na parte de trás, na linha da coluna onde ficaria fácil remover o resto mesmo que removesse as tripas. Deixaria o couro lá para usá-lo de sacola para a carcaça.
Abriu a barriga do animal e removeu entranhas com as mãos, deixando apenas o aproveitável. Retirou glândulas e tudo mais que não poderia ser comido ou servir para algo. A segunda regra válida para um caçador era remover as entranhas e sair dali com a carcaça o mais rápido possível, antes que atraíssem outros predadores. Mas neste caso tudo variava de acordo com a pessoa e ambiente. Caso você esteja no inverno em um território onde há lobos, remova as entranhas e saia correndo, caso contrario você será a sobremesa.
Estava em um pântano, portanto poderia atrair alguns felinos indesejados ao invés de lobos, mas nesta hipótese a sobremesa seria a onça. Todavia era bastante experiente para ser rápido e fazer o certo. Deixou as entranhas no chão, e alçou vôo com a carcaça envolta no próprio couro.
Ao chegar na casa foi direto para o galpão, terminando de remover a pele escamosa e guardou a carne no frízer de tamanho mediano que serviria de geladeira para estoque no inverno. Arrumou a mesa central onde destrinchou o Jacaré e pendurou o couro perto de uma lareira menor e mais rústica no galpão velho, deixando a pele curtir. Lavou as mãos na pia de pedra amarronzada e guardou a pequena faca, saindo do local.
Passou a mão no rosto, esfregando os olhos com os dedos e dando um suspiro cansado. Sentia-se exausto, não fisicamente, mas mentalmente. Tinha algo o consumindo desde que Lucy tinha acordado. Entrou na pequena casa pela porta da cozinha, dando de cara com uma cena cotidiana porém muito agradável do ponto de vista de alguém que quase perdeu tudo: A maga picava alguns legumes na bancada ao lado do fogão, e assim que o viu entrar abriu um imenso sorriso.
Não pode evitar de sorrir também.
Talvez estivesse enganado.
Talvez fosse apenas um estresse temporário dos maus bocados que passou.
Talvez fosse apenas isso...
#*#*#*#*#*#*#*#*#*#
Acordou ofegante, sentando-se na cama completamente suado e com as mãos trêmulas.
Foi só um sonho!
Levou as mãos ao rosto e massageou as pálpebras com os polegares. Uma mão fina pousou levemente em seus ombros, fazendo uma pressão para acalmá-lo.
–Acno. – murmurou com preocupação evidente na voz.
Suspirou forte, sem a coragem para se virar e encará-la. Desvencilhou-se dos braços finos e saiu da cama, indo em direção a janela para respirar um pouco. O ar frio e úmido da madrugada mesclado com o canto dos grilos e corujas iria ajudá-lo.
–Acnologia!! – seu nome saiu repreensivo, como uma mãe que grita para o filho mal criado. Um pouco de impaciência e irritação também eram perceptíveis. – Você não pode simplesmente ter esses acessos e sair virando a cara sem me dizer nada! – Exclamou Lucy irritadiça, rangendo os dentes. Levantou-se também da cama e andou de um lado para o outro no tapete em uma maneira de extravasar a raiva.
Como queria dar um belo soco nele! Todavia tentava se convencer que violência não era a resposta para a situação. Parou no lugar, respirou fundo e coçou a nuca.
Já fazia duas semanas que a situação estava assim; Acnologia acordava no meio da noite tendo pesadelos e quase todo dia teve que forçá-lo a dormir para que ele não virasse a noite acordado e começasse a ter insônia. Não sabia com o que ele sonhava, só sabia que era ruim o bastante para fazê-lo acordar ofegante. A primeira semana quase inteira ele acordou pela madrugada da mesma forma que hoje. Descobriu que se o mimasse um pouco ele voltava a dormir, sempre com o ouvido grudado em seu coração. Era fofo, mas a situação era preocupante. Depois disso, os pesadelos vieram diminuindo a freqüência, e pararam de discutir para que ele fosse dormir.
Fazia quatro dias que ele dormia bem... e agora isso!
Mordeu o lábio pretendendo acabar com isso de uma vez por todas. Suspirou uma segunda vez e sentou-se na cama, com as costas apoiadas em sua cabeceira.
–Vem cá!- chamou.
O Dragão suspirou em meio a uma lamuria.
–Lucy, eu... – começou se virando, mas o que quer que fosse falar morreu quando viu a expressão da maga. Seus olhos não pediam; eles mandavam. Se ele não fosse ela o puxaria a força. Soltou o ar com força, esfregando os olhos com os polegares outra vez e foi em direção a cama.
–Deita aqui. – murmurou, batendo nas próprias pernas cruzadas.
Acnologia estreitou os olhos por um momento sem compreender, mas cedeu. Deitou-se com a cabeça acomodada no miolo das pernas cruzadas e ficou de barriga para cima, com os braços jogados de qualquer jeito. Lucy Começou a fazer um cafuné em seus cabelos, e, por um momento, pensou que ela usaria o pequeno truque que Shinuky lhe ensinou para fazê-lo dormir em viagens de trem, mas ela não o fez. Ficou assim por alguns minutos, acariciando o couro cabeludo antes de estalar a língua e falar.
–Sabe, quanto mais sentimentos você guarda dentro de si mais irá sofrer com eles. – falou sem encará-lo, olhando pela janela a qual ele olhava instantes antes. – Quando eu era pequena, e minha mãe morreu, eu comecei a ter pesadelos com o bicho papão. – Confessou sem hesitação, já que era natural que crianças possuíssem medo disso quando pequenas. – Ele era grande, tinha uns três metros, era magrelo e cinza, como se fosse desnutrido. Não sei bem de onde tirei essa imagem, mas eu tinha muito medo dele. Como você sabe meu pai não era muito ligado a mim nessa época e eu não queria dizer a ele com medo de que isso o atrapalhasse no trabalho. Como não tinha ninguém para contar sobre isso eu guardei tudo para mim mesma.
Houve uma pausa. O Dragão não entendia onde ela queria chegar.
–Foi uma das piores coisas que fiz. Eu continuei tendo pesadelos por muito tempo. Era sempre o mesmo. Isso ocorreu até o dia em que a faxineira da mansão ouviu meu choro. Ela entrou no meu quarto e me perguntou o que aconteceu. Ela teve que insistir um pouco, mas no fim acabei contando. Desde esse dia eu nunca mais tive pesadelos. – e então finalmente baixou os olhos para mergulhar no par de azuis que estavam em seu colo, encarando-a calada e ouvindo atentamente a breve história. – Talvez a única coisa que esteja lhe fazendo ter pesadelos, é o fato você guardar todos os seus sentimentos. Eu confio em você Acnologia, e quero que confie em mim também.
Um silêncio se apoderou de todo o local. O garoto baixou os olhos, refletindo, enquanto relaxava ligeiramente com o cafuné que Lucy lhe fazia.
Estava mais uma vez decepcionado consigo mesmo por não te encontrado a Heartphilia quando pequena. Talvez pudesse tê-la consolado na época, a ajudado e fornecido refugio para que ela não sofresse tanto. Passado era passado, e não adiantava mais mergulhar nele.
Fechou os olhos. O presente também lhe incomodava.Se esquecia de que as dores de cabeça e pesadelos constantes não afetavam só a si próprio como também a ela. Estava explodindo. Não era capaz de permitir que ela andasse sozinha nas cidades, não conseguia deixá-la sem checar todo o perímetro antes, não conseguia parar de se culpar. Sabia que Lucy estava tolerando de maneira amarga seu excesso de controle.
Segurou um dos pulsos finos acariciando seu braço enquanto ela prosseguia com o cafuné. Suspirou.
–Todos os dias eu me lembro de quando te perdi e todas as noites sonho com isso. – Confessou em uma lamuria, sem encará-la. Milhões de perguntas e xingamentos surgiram na mente da Heartphilia, que mordeu os lábios para não soltá-los. Acnologia nunca foi de remoer o passado, o que deu nele? Se ele continuasse assim iria chutá-lo nas bolas. Queria seu gostoso e sexy namorado, e não um romântico masoquista. Respirou fundo para não dizer nada; tinha de se lembrar que talvez tenha sido mais difícil para ele do que pensara e ele tinha de se abrir. – Não consigo pensar na possibilidade de ver você longe, por que tenho a impressão que se eu sair do seu lado vou perdê-la de novo.
Sentiu o corpo dele estremecer em seu colo.
–Não posso permitir isso. Eu...eu... devia ter te protegido. – continuou, mas dessa vez não estava calmo. O stress começou a atravessar seu corpo, e ele começou a murmurar coisas aleatórias, como se falasse consigo mesmo. Acnologia se ergueu de repente e andou de um lado para o outro no quarto apertando as têmporas.
Lucy levantou alarmada. Ele estava agitado demais.
– Acno. – chamou tocando em seu ombro. O Dragão deu um pulo, assustando a garota também, mas logo se acalmou e a abraçou forte.
Mesmo sem entender, retribuiu o gesto. Sua mente agora formulava hipóteses para a pergunta: O que diabos aconteceu aqui? No mesmo instante uma lembrança vaga atravessou sua mente; uma pesquisa supérflua que havia feito com Levy pelo mundo dos livros a um bom tempo. Aquilo explicaria boa parte do comportamento pouco corriqueiro de Acnologia, mas será?
Precisava falar com ela para ter certeza.
–Acno. – murmurou respirando fundo e focando no presente agora. Era estranho. Não costumava imaginar ou se quer pensar na possibilidade de vê-lo de uma forma tão indefesa. Talvez seja por que ele dificilmente passe essa impressão. – Eu nunca mais vou embora. Você mesmo disse que Shinuky me tornou imortal. E... – hesitou, tentando evitar a palavra morte. – você esta aqui agora. – Puxou o rosto dele para encará-lo. – Pare de se prender ao que aconteceu. Eu estou aqui, e quero você aqui também.
Os olhos azuis se derreteram como mel, mesclados com a culpa de estar ausente, não de corpo, mas de espírito.
Beijou-a de forma solene e afetuosa, sentindo o peso em seus ombros desaparecer brutalmente. Sentiu-se mais leve. Puxou o corpo fino para grudá-lo ao seu e foi como se, de repente, nada mais existisse e finalmente estivesse a mercê do mundo. Uma alta dose de endorfina caiu em suas veias, forçando-o a liberar um gemido cálido. Os efeitos da primavera começavam a transparecer.
Em um segundo seus sentidos se tornaram mais apurados sentindo o cheiro embriagante de Lucy outra vez, porém agora de uma maneira excitante e devastadora. A garota percebeu quando o namorado começou a tocá-la e aprofundar o beijo de uma forma mais voraz. Sabia o que viria e enlaçou os braços ao redor do pescoço másculo, puxando-lhe os cabelos com os dedos desesperados.
Nessas duas semanas não haviam se tocado dessa forma. Não havia clima na época. E para o garoto, fazia meses que não podia tocar em sua namorada dessa forma, e isso tudo triplicava todo o tesão que sentia e queria liberar.
Lucy grudou ainda mais seus corpos, roçando sua coxa entre as pernas dele. O Dragão sentiu seu membro pulsar dolorido na bermuda e rosnou. Quebrou o beijo e a jogou na cama, cobrindo rapidamente o corpo sedutor com o seu. A Heartphilia ofegou quando, sem paciência, ele rasgou sua pequena camisola.
Acnologia estava apressado, mas não resistia ao ver Lucy se contorcer diante de seus olhos. Pensando nisso, ignorou seu pênis latejante e abriu as pernas da maga, apertando bem suas coxas com as mãos, tanto para impedi-la de negar o que queria quanto para extravasar sua vontade de se enterrar nela. Respirou fundo, cometendo um erro; sentia agora avidamente o cheiro puro e delicioso, mesclado com o odor de seu sexo onde seu nariz poderoso conseguia captar toda a essência daquilo que levava os homens a loucura; ou no caso os dragões a loucura.
Estremeceu, sentindo um arrepio lhe percorrer a coluna e gemeu, sôfrego, apertando as coxas mais do que deveria, tentando se conter. Suas calças estavam tão apertadas...
Chacoalhou a cabeça para recuperar parte do foco, finalmente fazendo o que ansiava. Lambeu a parte mais sensível da intimidade úmida e Lucy arqueou de prazer. Gostou disso. Iria resistir e dar a ela mais prazer do que jamais teve, em uma forma de compensá-la pelas semanas de presença inconstante.
Sugou o pequeno botão de prazer e ela gemeu mais alto, levando uma das mãos a seus cabelos e puxando-o para mais perto de sua intimidade, implorando por mais. Levou um dos dedos a entrada úmida e a penetrou lentamente enquanto sua língua continuava a brincar com seu clitóris.Ela arfou e ofegou ainda mais.
A cada reação dela seu membro doía, implorando para adentrá-la outra vez, suplicando o conforto, a umidade e os prazeres que somente ela o proporcionava como ninguém. Balançou a cabeça tentando focar no que fazia, ao invés de dar ouvidos a sua vontade massacrante.
Enfiou mais um dedo na cavidade úmida e usou o polegar para massagear sua parte mais sensível. Continuou bombeando os dedos lentamente, até encontrar um segundo ponto sensível em seu interior. Envergou os dedos massageando o local ao mesmo tempo em que apertou seu clitóris. O corpo dela se envergou e ela gritou seu nome. Sorriu presunçoso e repetiu o ato com mais precisão.
E então ela gozou, e teve o prazer de observá-la amolecer e pronunciar seu nome de uma maneira excitante. Removeu os dedos do interior quente e se projetou encima dela uma vez mais, capturando seus lábios carnudos em um beijo sedento.
Afastou-se outra vez para observá-la, e Lucy mordeu os lábios. O hábito de Acnologia de dormir sem camisa estava se mostrando muito útil no momento.
Os planos do garoto eram voltar ao que fazia antes, e só depois adentrar seu interior úmido, porém suas bolas estavam roxas. Fechou os olhos e chacoalhou a cabeça tentando pensar, mas foi surpreendido quando o corpo da garota se chocou contra o seu e capturou seus lábios em um beijo sedento, e, para sua surpresa, a maga desceu as mãos por seu peito, até encontrar a bermuda, e a puxou para baixo. Abandonou seus planos e se levantou para retirar o tecido incômodo, mas Lucy se agarrou a ele, levantando-se junto.
A bermuda caiu a seus pés, e a puxou contra seu corpo. A maga gemeu ao sentir a ereção rígida contra sua coxa.
– Está sentindo? – ele murmurou apertando-a ainda mais contra si, fazendo-a sentir toda a extensão de sua excitação enquanto seu nariz fazia cócegas no pescoço fino. O órgão masculino que roçava nela estava maior do que se lembrava. – Você é uma maldita droga, Lucy.
Ela deu uma risadinha ofegante, talvez por estar entorpecida demais para se dar conta.
Ele gemeu.
– Abstinência não é algo que goste. – lamuriou o Dragão.
Antes que as palavras fossem registradas em sua mente, Acnologia subiu ambas as pernas de Lucy em sua cintura, a prensou na parede e a penetrou sem aviso.Escondeu o rosto em meio aos fios louros e gemeu aliviado, quase alegre, por sentir aquele interior maravilhoso outra vez. Lucy arqueou de encontro ao seu corpo. Ofegou e não esperou mais; começou a estocar com força, faminto por mais. Procurou os lábios dela, e quando os encontrou os devorou.
A Heartphilia quebrou o beijo, fazendo-o olhar um pouco confuso, mas não parou os movimentos. Lucy fechou os olhos e gemeu, puxando a cabeça dele para baixo. Foi quando olhou para o par de montes sedosos, decorados com os pequenos botões rosados, lembrou-se que não deu a devida atenção aos seus seios. Sua boca salivou e rapidamente abocanhou um deles para sanar sua fome.
Lucy arqueou e gozou outra vez. Sentiu seu interior mais apertado e um arrepio lhe passou pela coluna, também estava quase. Desceu a garota de seu colo e a virou. Passou uma das mãos na cintura fina, e levantou uma das pernas grossas, a penetrando por trás.
A maga gemeu excitada com a nova posição de bailarina. Acnologia mordeu seu ombro, estocando ainda mais forte. Fechou os olhos. Estava quase. Desceu sua mão pela cintura fina e apertou o clitóris sensível. Lucy Arqueou para trás, gemendo, atingindo mais um orgasmo. O Dragão não demorou também. Jogou a cabeça para trás e trincou os dentes, mas foi incapaz de conter o urro prazeroso, liberando-se nela com satisfação.
Sentiu- se desnorteado, e quando a garota foi incapaz de sustentar o próprio peso, apoiando em si, quase não agüentou. Por muito pouco não a levou ao chão. Com o restante de energia que lhe sobrara, se retirou do interior convidativo a contra gosto e arrastou-se para a cama junto com ela.
Desabou no colchão macio exausto e a puxou para si. Ficaram assim por um tempo, se recuperando o bastante para falar, entretanto quanto mais consciência recobravam, mais sonolentos ficavam.
Acnologia fez uma nota mental de procurar evitar fazer sexo em pé à noite. Não queria dormir no chão da próxima.
–Me desculpe por... – retomou fôlego. – Por estar meio fora de orbita ultimamente.
Lucy riu, ainda um pouco ofegante. Aconchegou-se no peito musculoso sentindo o próprio corpo subir e descer à medida que ele respirava.
–Se for me recompensar dessa maneira todas às vezes. – falou risonha. – O que deu em você?
Ele riu de olhos fechados.
–Primavera. – respondeu simplesmente. Mesmo que não fosse essa época o Dragão iria fazer o mesmo.
A Heartphlia não entendeu, mas estava cansada demais para questionar. Talvez amanhã, caso se lembrasse. Acnologia a puxou para mais perto, e logo seu corpo relaxou, sucumbindo a um sono tranqüilo.
Lucy suspirou. Precisava ir até Levy para confirmar suas suspeitas e isso significava retornar a Magnólia antes do que imaginou. Não sabia como o namorado reagiria a isso. Fechou os olhos cedendo ao sono. Teria de pensar nisso depois.
“Dizem que amar é dar a alguém a capacidade de destruí-lo, confiando que ele não o fará.”
Fale com o autor