A Arquiteta de Universos
1 A Arquiteta de Universos
A arquiteta de universos
Ela se sentava debaixo da árvore no parque se escondendo do sol. Era início da tarde, acabava de sair da escola e fazia a pausa rotineira antes de chegar em casa, como em toda sexta-feira. Era estranho como sempre fazia a mesma coisa, odiava seguir regras, mas aquela era sua pequena ordem pessoal, e não a desobedecia nunca. Jogava sua mochila para trás, usando-a como travesseiro e se esticava na grama olhando para o verde das folhas logo acima. O parque não era muito movimentado a esse horário, então conseguia se isolar, se sentia bem sem as pessoas.
Silêncio...
Aquele era seu canto no mundo, gostava de deitar ali por vários minutos, fechava os olhos e se distanciava de todos os problemas que tinha. Era seu momento preferido, poder se livrar do mundo e ser dona de sua própria mente, era a única sensação de liberdade que tinha.
Esse é o meu lar.
Chegava em casa atrasada para o almoço, seus pais sempre reclamando. Se livrava dos calçados e abraçava a família, pegava a irmã mais nova no colo, e inventava alguma desculpa para ter demorado tanto a chegar. Era sua rotina, acordava, ia para a escola, voltava para casa.
Siga a ordem.
Saía da aula se questionando o motivo de precisar estar ali. Não entendia as regras daquele mundo, por que precisava estudar? Sabia que deveria ter uma educação para conseguir trabalhar na vida adulta, mas não entendia o motivo de ter de seguir aquela mesma história.
É para o seu futuro!
Sentava debaixo da amendoeira, irritada. Estava mais cedo dessa vez, havia fugido da aula. Jogava a mochila para longe e pensava nas obrigações. Dessa vez não conseguia se livrar dos pensamentos, estava incomodada demais para isso. Queria aproveitar a vida, mas percebia que estava presa, precisava seguir a mesma história todos os dias, seu destino havia sido planejado por outros. Olhava as pessoas que estavam pelo parque, sentia algo de errado, por que elas aceitavam viver sob aquela ordem?
Estude, trabalhe, sirva.
Ela não queria aquela vida. Não via significado em viver daquela forma, precisando se preocupar com um futuro que nunca chegaria e nunca aproveitando completamente a vida. Não entendia nem mesmo a existência da própria vida. Não havia pedido para nascer, sentia-se violada por ser obrigada a viver naquele mundo. Parecia fazer muito mais sentido simplesmente não existir.
Eu não sou uma escrava.
Fechava os olhos e tentava se livrar dos sentidos. Ignorava o mundo ao redor, queria saber como seria não existir, embora fosse impossível imaginar isso. Via as outras pessoas aceitando aquele mundo e se perguntava como conseguiam ser tão submissos, não era possível que eles fossem conscientes e ainda assim seguissem aquelas regras. Qual era o objetivo de estar ali?
Chega dessas regras.
Entrava na floresta ainda de uniforme. Havia enchido sua mochila de comida e se preparava para não voltar para casa. Queria fugir daquela rotina, sentia que seria mais livre se pudesse se livrar das regras. Se livrava daquelas pessoas ocas de seu mundo, pensava que quando sentissem sua falta já estaria longe. Andava perdida por entre as árvores, mas não se preocupava em ter um caminho, queria apenas sumir.
Volte para casa…
Estava longe a alguns dias, sentia falta de algum conforto, não estava bem. O lanche que levara já havia acabado, mas sabia pescar e tentava usar isso a seu favor. Lutava contra os insetos e sentia fome, pensava se deveria voltar para sua vida, mas afastava os pensamentos. Se encolhia em sua cabana e sonhava com um mundo diferente, criava histórias com suas próprias regras, não precisava se prender a lógica do mundo.
Tão frio…
Tentava abrir os olhos uma última vez. Sentia o efeito do veneno no seu corpo ouvindo a serpente rastejando para sua toca. Já não tinha mais esperanças de continuar, e se questionava se aquela tinha sido a decisão certa. Sabia que estava prestes a morrer, mas se sentia livre, sem culpa. Pensava que agora pelo menos poderia se voltar para seus pensamentos sem ter mais nenhuma preocupação.
Esse é o meu mundo.
Não havia som, não havia luz, não havia nada para sentir. Não tinha os olhos para abrir, sabia que agora era apenas ela. Procurava alguma coisa no limbo, mas não havia nada, era difícil organizar qualquer pensamento sem nada para se guiar, mas conseguia, pouco a pouco ia formando em si alguma estrutura. Pensava em como chegara ali, se lembrava da vida, mas não se apegava às regras, apenas existia. E estava bem com isso. Ela sonhava, criava um mundo próprio, e lentamente arquitetava o seu universo. Cada pensamento que tinha era apenas seu, e podia seguir as regras que quisesse. Estava sozinha em si, mas criava tudo o que queria, histórias, cenários, tudo. Vidas eram forjadas em sua mente, e só então percebia do que se tratava a existência.
Olhava para sua vida, percebia agora que não era uma prisão que era forçada a estar, e sim um pequeno sonho. Era livre para criar o mundo que quisesse, mas qual seria o sentido se não experimentasse viver sob as regras deles? Entendia que a vida era apenas um jogo, no qual entrava para se divertir, e observando de fora, agora poderia criar uma nova história talvez mais interessante. E era tudo o que tinha para fazer, se colocava naquele mundo que criara sabendo que uma hora o deixaria, como havia feito tantas vezes. Era a diversão dela, sua própria deusa arquiteta de universos.
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