A Arquiteta de Universos
2 A Arquiteta de Universos - Versão alternativa
Notas iniciais
A arquiteta de universos
Não pedimos para nascer. Não pedimos para surgir nesse mundo caótico, nem poderíamos. O que éramos antes de sermos criados? Nada? Não podíamos pensar em onde iríamos, não estávamos em lugar algum. É tão injusto emergir na existência sem nem ao menos poder decidir se queremos, tão injusto ser fruto de algo que nem sequer pediu nossa opinião…
Abrimos os olhos e então estamos aqui. Perdidos, soltos numa imensidão ilógica… Tudo se conecta tão facilmente que é assustador pensar a respeito. Mas quem me chamou? Quem foi o arquiteto desse universo, quem foi o artesão que me colocou aqui?
E então tudo se apaga por um curto momento, e toda a informação se transforma em sentidos.
Essa é a sua vida. Aproveite.
Ouço sussurros me guiando, mas não por muito tempo. Logo se apagam e estou sozinha em minha mente. Sozinha, como tantos outros, em um mundo que não me pertence.
Ela estava sempre no mesmo parque, sempre no mesmo horário. Não parecia querer mudar sua rotina, embora mostrasse frequentemente que odiava seguir regras. Talvez aquela fosse diferente, afinal, era sua própria regra. Aparecia sempre depois da escola, ainda de mochila e uniforme. Sentava debaixo da mesma árvore, protegida do sol pelas folhas verdes da amendoeira. E ficava ali, de olhos fechados, aproveitando o vento e relaxando. Gastava sempre dez, vinte minutos de seu tempo sem fazer nada além de descansar.
Tempo...
Ela odiava a ideia do tempo. Se recusava a usar relógios, se recusava a chegar na hora, se recusava a comemorar os anos. Esquecia os aniversários, esquecia as datas, se perdia no tempo. Não queria saber que horas eram, nem quantos dias faltavam para a próxima prova. Não queria saber o quanto poderia dormir, nem quando precisaria voltar para casa. Queria apenas viver cada momento, e como desejava poder voltar em cada um e fazê-los durar pela eternidade.
Você não pode viver assim! Precisa ser mais responsável, cuidar da sua vida! Pense no seu futuro.
Não havia nada que ela repudiasse mais do que a palavra “responsabilidade”. Afinal, por que ela precisava se preocupar com o resultado de tudo? Queria poder fazer o que sentisse vontade, sem se preocupar com o depois. Era assim que o mundo devia funcionar na mente dela.
Chegava em casa desejando não precisar sair de novo, cumprimentava os pais, brincava com o cachorro, pegava a pequena irmã no colo, e corria para o banho. Era a mesma coisa todos os dias. Se deitava na cama após o jantar sabendo que teria que acordar no dia seguinte. Queria esquecer aquilo, mas não conseguia.
Está tudo tão… Chato.
Saía da aula rotineira e caminhava em direção ao parque. Sentava debaixo da mesma amendoeira. Observava o movimento, havia mais gente ali dessa vez, mas ainda estava tranquilo. Fechava os olhos, tentava não pensar em nada., sempre teve curiosidade de conhecer o vazio. Se concentrava por alguns segundos em limpar sua mente de todas as distrações, queria um quadro em branco para construir seu mundo. Logo criava formas em sua própria imaginação. Um castelo, um lago, uma casa. Era diferente, era sempre diferente. Havia dias em que ela recriava sua própria vida com algumas alterações, e em outros dias tentava criar um universo completamente novo, tentava se soltar das regras da física, mas nem sempre conseguia.
Chegava em casa, cumprimentava os pais, brincava com o cachorro, pegava a bebê no colo e corria para o banho. Era a mesma coisa todo dia. Todo santo dia. Ela odiava aquela rotina, e por mais que tentasse quebrar, mais era sufocada pelas regras daquele mundo.
Você precisa fazer seus trabalhos! Sua única obrigação é estudar, então faça isso!
Se sentava debaixo da árvore. Estava mais cedo dessa vez, havia fugido da escola. Não era a primeira vez o que o fazia. Jogava a mochila para longe, irritada. Olhava ao redor para ter a certeza de que ninguém conhecido estava por perto, e então fechava os olhos voltando a sonhar. Gostava de estar ali, era o único lugar que tirava dela a sensação de estar presa. Não aguentava a rotina da escola, tantas regras que precisava seguir… Sempre o mesmo uniforme branco e azul, sempre os mesmos livros grossos e chatos, sempre os mesmos professores autoritários. Não entendia por que precisava passar por aquilo, não escolheu estudar. Sabia que precisava de uma formação boa para trabalhar, é claro, mas não era aquela vida que queria seguir. Preferia poder ir para a natureza, viver como achasse certo, mas sabia que fugir seria uma missão quase impossível.
Filha, volte para casa… Somos sua família.
Faria o terceiro dia que estava fora de casa, com fome, no meio de uma floresta desconhecida. A comida que jogara em sua mochila já havia acabado, e sua barraca não parecia tão segura agora que começava a chover. Estava com frio, com medo, mas se sentia feliz. Sem nenhuma pessoa por perto, podia agir como bem entendesse. Lutava contra as moscas, brigava com as formigas, e disputava com os peixes a água corrente do riacho. Os peixes, aqueles que ela ainda tentava se acostumar a comer.
Sozinha… Finalmente sozinha.
Não estava perdida, estava exatamente onde queria estar. Já seria a primeira semana, talvez, ela havia parado de contar. Estava fraca, com febre, sentia medo. Se questionava se ninguém havia procurado por ela, mas sabia que não seria encontrada, havia fugido para isso. Seu acampamento estava coberto por folhas, a barraca já não a mantinha mais seca. Passava a maior parte do tempo perto da fogueira quase apagada tentando se aquecer. Não tinha mais o que comer, já não conseguia mais pescar, não sabia caçar, e não encontrava mais frutos nas árvores. Se perguntava se aquilo era realmente o que queria, mas não tinha opção, não saberia voltar para casa.
Já está na hora, criança. Aceite seu destino.
Tentava abrir os olhos uma última vez. Sentia o efeito do veneno no seu corpo, enquanto a serpente corria para sua toca. Já não tinha mais esperanças de continuar, e se questionava novamente se não conseguiria ser feliz. Queria poder viver sob suas próprias regras, mas agora já não era capaz nem mesmo de viver. Aceitava que aquele era o seu fim enquanto se separava dos sentidos novamente. Esperava que, pelo menos agora, teria a liberdade que queria para viver em seus sonhos.
“Tão… Escuro…”
Ela deixava de sentir seu corpo, deixava de sentir frio, calor, deixava de entender sequer o significado de “sentir”. Se encontrava em um limbo, não havia luz, não havia som, nada. Não conseguia pensar, era como se sua consciência estivesse presa no vazio, e então uma voz aparecia.
Este é o seu julgamento.
A menina sabia que não estava mais viva, e sentia que aquela era a voz de Deus. Não demorava muito para aceitar que sua vida havia acabado, já esperava por isso, só não sabia que aconteceria tão cedo. Tentava encontrar a origem da voz, mas a ouvia ecoando de todos os lados, vinha de dentro dela e a cercava, como se ela fizesse parte daquele discurso.
Você podia seguir as regras, mas não o fez.
Em um único momento, ela observava todas as decisões que fez em sua vida. Via cada erro que cometera, cada boa ação, cada maldade. Sabia que estava sendo analisada, mas não queria aquilo. Sabia que aquela era a voz de Deus querendo levá-la para seu paraíso, ou para seu inferno.
Sabia qual caminho seguir e escolheu ir por outro. Esse será seu castigo.
A garota se recusava a ouvir. Sabia o que estava acontecendo, mas não queria acreditar naquilo. Sentia que o julgamento de Deus era errado. Vivera sua vida sabendo que seria castigada por suas escolhas, mas acreditava que a verdadeira justiça seria feita, e que nem mesmo Deus poderia decidir o que era certo ou errado.
“Então esse é o meu inferno?”
Sua mente era inundada por cenários desconfortáveis, sentia-se pressionada a seguir uma ordem, e cada momento parecia uma tortura sem sentido. Era forçada a viver em um mundo sem escolhas, sem prazer.
“Você não tem poder sobre mim”
Tentava ignorar todos os seus sentidos. Era um fardo, sentia que estava a uma eternidade tentando escapar daquele inferno, tudo era dor, tudo era ordem. Decidida a não se deixar cair naquele mundo de regras, se libertava dos sentidos mais uma vez. Não era fácil apagar o universo ao seu redor, mas conseguia se prender em sua própria mente, e quando finalmente conseguiu se libertar, viu-se de frente para seu quadro em branco. Era como as vezes em que sentava debaixo da árvore, um universo só dela. E sabia que agora aquele era o seu universo, e ninguém mais poderia tirá-la de lá.
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