Levantei imediatamente procurando o dono da voz. A adrenalina percorreu-me a espinha e então me pus em posição de luta, puxei a arma da lateral da minha calça e apontei-a em direção a porta. Os joelhos levemente flexionados me davam grandes chances de escapatória se as coisas ficassem mais feias.

Uma, duas, três batidas secas. Caminhei lentamente até a porta, posicionei a arma a minha direita e a abri com a maior cautela possível.

– Jessie! — comprimentou-me Heitor sorrindo.

– Heitor — devolvi o comprimento tensa.

Devo ter empalidecido.

– Ta tudo bem? — disse ele passando a porta.

Jessie Millers — repreendi-me — Você tem uma arma apontada, GUARDE-A.

Coloquei a arma na parte de trás da calça e a cobri com a camiseta larga.

– Jessie? — ele me encarou.

– O quê? — cai na realidade — Ãn... Tá tudo bem sim. Eu só achei que tinha escutado alguma coisa, foi só... Isso.

– Você mente muito mal sabia?

I don't think so!

– Mal? Eu nem minto — ironizei.

– Isso é mentira, então já está mentindo, e mentindo muito mal — ele cruzou os braços como vitorioso.

– Todos os filhos de Atena são convencidos assim ou isso é uma peculiaridade sua? — sorri pra soar provocativo.

Ele riu descruzando os braços. Olhou para o lado como um criminoso que analisa o local antes de cometer um crime, se aproximou e escorou na parede com a mão direita. Nós estávamos tão próximos, eu pudia sentir a sua respiração próxima do meu ouvido e isso arrepiou-me a epiderme.

– Você é linda — ele disse num sussurro — Linda demais.

– E você mente muito mal — tentei imitá-lo.

Ele sorriu por último e seus lábios tocaram os meus.

Foi mágico. A sensação, o sabor... Tudo. Meu corpo explodiu em tantas emoções e pela primeira vez não as controlei, eu não queria controlar.

Sua mão se arrastou ao longo da minha cintura. Tudo tão bom, tão perfeito...

A ARMA NA PARTE DE TRÁS JESSIE, A-AR-MA!!!!!!

Segurei sua mão antes que encontrasse a surpresa na minhas costas. Desviei a cabeça para lateral e o beijo acabou.

– Eu... Eu não... — disse ele tentando se explicar.

– Você não? — perguntei.

Claro que ele não Jessie. Já deu uma olhadinha em você garota? Ele tem a filha de Afrodite, deusa do amor, da beleza... Aquelas coisas que você não tem.

– Sim, quer dizer... Sim. Mas você... — ele me olhou perplexo.

– Talvez estejamos indo rápido — tentei sorrir — Nós temos tempo, não temos?

– Claro, claro. Eu só... — ele passou a mão pela nuca tentando se concertar — Me desculpe.

– Pare de pedir desculpas — o repreendi.

Só depois percebi que fui extremamente rude.

– Certo, me desculpe.

– Heitor! — o encarei com uma das sombrancelhas levantadas.

– Tudo bem, tudo bem. Desc... — ele se interrompeu — Eu... — competou a frase respirando fundo.

Abri os braços em gesto de solidariedade (sim, bem lá no fundo eu sei ser uma pessoa gentil e amorosa). Sem hesitar Heitor me abraçou, senti seu perfume amadeirado e eu adorei!

– Eu não sei porque... Na verdade eu sei... Eu só.... Oi? Pelos deuses o que eu tô falando? — ele começou a ficar todo atrapalhado.

– Ei, tá tudo bem... Sou só eu, não precisa ficar nervoso – sorri do jeito mais doce que pude.

– Só você? É você! Eu nunca... Você me deixa num tal estado que não entendo – ele acariciou meu rosto e sorriu como uma criança –É sério, você tem que me dizer o que se passa com os seus olhos.

– Meus olhos? – respondi – o que têm eles?

– São lindos – ele sorriu e me beijou mais uma vez.

Ah seu beijo! Tão bom, tão envolvente...

Ele colocou a mão por dentro da minha blusa e acariciou-me desde a barriga até encontrar a arma nas costas.

– Você está segura, não vai precisar disso – ele sorriu segurando minha arma.

– Ninguém nunca me desarmou assim – sorri tímida.

– Espero ser o único a te desarmar assim – ele se virou pra colocar a arma em cima da mesinha ao lado do sofá.

– Acredite em mim, ninguém jamais me desarmou assim... E eu adorei – sorri maliciosa.

– Acho que podemos praticar mais vezes – ele sorriu de novo.

Esse garoto vai ser a minha morte.

– A fogueira... Vamos? – ele estendeu a mão para mim.

Eu o encarei por alguns segundos e aí me dei conta, era a vida me dando uma escolha e eu decidi aceita-la.

– Só um segundo, preciso fazer algo – sorri e fui ao meu quarto.

Guardei meu celular e adaga que estava na minha cintura no baú com o resto das minhas tralhas, tranquei-o e o escondi de novo. – Lis Millers está morta – disse a mim mesma – e jamais voltará.