A Arma do Olimpo
11 Capítulo 11
Os últimos meses tem sido incríveis. Comecei a frequentar as aulas de mitologia, o clube de caça, as aulas de luta com espadas (embora eu tenha dado uma surra no meu professor no primeiro dia em que nos vimos), a caça a bandeira tem sido cada vez mais emocionante, Heitor tem sido cada vez mais...Heitor. É como se a Jessie tivesse se tornado real, tornando-se quem realmente eu sou, caçar coisas não fazia mais parte da minha vida... Apaguei as inscrições na minha porta, movi toda a minha tralha para o porão, varri todo o sal do meu chalé/monumento, nunca mais bebi uma gota de álcool, a vida parecia perfeita agora.
Mas uma vez nessa, não há como cair fora. Não há como esquecer, não há como deixar para trás... Quando enterramos nosso passado ficamos a deriva do fantasma que irá nos perseguir.
– Por favor Quíron– implorou Annabeth com os olhos cheio de esperança.
– São as regras Annabeth, sinto muito mas não há nada que eu possa fazer – disse Quíron do jeito mais compreensivo que eu já vira.
– Jessie! –Quíron sorriu logo que me viu entrar na sala do Conselho.
– Eu perdi alguma coisa? – disse eu confusa ao sentar-me na cadeira de Zeus.
– Sim, precisamos esclarecer uma coisa sobre a excursão ao Olimpo –Quíron soou preocupado.
– Nós ficamos para trás –Annabeth disse quase chorando.
– Os líderes dos três grandes têm por obrigação proteger o acampamento em eventos como este – disse Percy– E como Hades não tem chalé por aqui o líder do chalé de Atena também fica.
– Você, Percy e Annabeth devem ficar – disse-me Quíron– Heitor também ficará.
– Por que? – minha pergunta soou mais curiosa do que deveria.
– Ele não tem permissão para deixar o acampamento – começou Annabeth.
– Isso é particular – interrompeu Quíron – Sinto muito querida, prometo que haverá uma oportunidade para vocês.
– Por mim tudo bem – consenti – A ideia de encontrar o cara com o grande raio não me é muito convidativa ainda.
– E não deveria ser mesmo – disse o maluco do cacho de uva... Digo, Dionísio – O Olimpo não é lugar pra criaturas como você.
– Criaturas como eu? – indaguei confusa.
– Dionísio! –Quíron se impôs.
Ow shit. Algumas vezes eu esqueço que Quíron é metade cavalo.
– Isso é ridículo – Dionísio cuspiu as palavras deixando a sala.
– Sinto muito por isso.
– Não tem problema algum Quíron – tentei soar gentil.
– Ótimo! – ele sorriu novamente – Partimos esta tarde, por favor, preparem seus chalés para a viagem.
Todos deixaram o conselho contentes e satisfeitos (principalmente Clarice, ela ainda não superou o nosso primeiro encontro) exceto Percy e Annabeth.
– Está tudo bem? – perguntei.
– Vai ficar – ela me sorriu amarelo.
– Então, onde vamos ficar? – perguntou Percy tentando melhorar o clima.
– Por mim tanto faz – dei de ombros.
– É melhor que fiquemos na Casa Grande – respondeu Annabeth – Pelo menos ficamos todos juntos, sem contar que é estrategicamente melhor.
– Tudo bem – sorri –Vou arrumar minhas coisas, encontro vocês em duas horas?
Eles apenas sorriram. Ah sim, eles queriam conversar em particular então deixei a sala.
Quando deixei a Casa Grande vi Heitor saindo do chalé de Afrodite todo sorridente, bobo, seus olhos brilhavam como se ele fosse uma criança.
– Angella– revirei os olhos.
Continuei andando de cabeça baixa na intenção de que ele não me visse, mas depois de meses fora da minha antiga vida acho que perdi minha capacidade de ser discreta.
– Jess! – ele sorriu mais ainda.
– Heitor! – fingi entusiasmo.
– Do que você estava se escondendo? – ele disse ao passar os braços ao redor da minha cintura.
– Não do que, de quem – sorri cínica.
– De quem estava se escondendo? – ele me fitou com aqueles grandes e lindos olhos.
– De você– respondi ao tirar os braços dele de cima de mim.
– Eu não entendi – seu sorriso desapareceu.
Revirei os olhos.
– Você cheira a perfume de Angella– dei a volta para continuar meu caminho – Sai fora Heitor, você pode ter me enganado com esse papinho quando eu cheguei aqui, mas não vai acontecer mais.
– Jess... – ele começou num tom triste.
– Jessie! Pra você é Jessie – dei as costas pra ele e saí andando.
Tentei andar.
– Isso, me dê às costas. Faça como você sempre faz – disse ele quase gritando – Todas as vezes que eu me aproximo você se fecha nesse seu mundinho e me coloca pra correr. Você sabe tudo de mim e não é capaz de me dizer nada sobre você ou o seu passado. O que você fez ein Jessie? Até quando vai ficar aqui? Vai fugir de novo como quando você fugiu e veio parar aqui?
– Como se atreve seu rato de biblioteca? – me virei para revidar — Faz assim, cuide da sua vida e deixe que da minha cuido eu. Não preciso de babá e muito menos de um nerd egoísta que pensa que sabe das coisas do mundo.
– Escute aqui sua punk maluca...
– Não, escute você! Eu não quero saber das suas desculpas “ah não é nada disso que você está pensando”. Guarde isso pra quem se importa. Fui clara?
– Cristalina – disse ele.
Eu podia ver sua expressão ficar rígida, podia ver como seu maxilar se travando na tentativa de não chorar. Ele merecia mais, mais do que eu. Ele já tinha mais.
Quando me virei para ir embora deparei-me com todos os meio sangues encarando-nos pelo recente barraco.
– O show acabou, podem ir aproveitar o Olimpo agora – virei-me para encarar Heitor – A bruxa má do oeste sai de cena.
Podia ouvir os murmúrios daquela gente intrometida enquanto caminhava para o meu chalé e esbarrava em meia dúzia deles. Meus passos se tornaram mais pesados que o normal e então eu não ligava mais se estavam me encarando ou se eu não era mais invisível, só queria entrar no meu maldito chalé e esquecer do mundo.
– ‘Cristalina’ ele disse – repeti para mim mesma enquanto estava deitada no sofá fitando a imensidão branca– como ele pode ser tão... Tão...
As luzes piscaram. De novo.
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