A Aposta.
24 Penúltimo capitulo - Capítulo 23 - A volta/A perda de um Mongestern
Notas iniciais
O plano seria bem sucedido. Naquele momento, não haveria ninguém para atrapalhá-lo. Teria que fazer como Maia pediu. Era necessário. Era extremamente necessário.
Sabia que, naquele instante, estavam todos na ala norte do castelo, terminando os preparativos do chá de bebê. Caminhou a passos lentos pela copa, pela cozinha, pelos corredores, pelo vestíbulo e enfim chegou ao quarto.
A princesa estava no banho, cantarolando uma suave música e acariciando a pequena protuberância em seu ventre quando Anthony adentrou o mesmo. Trazia uma adaga embalada no coldre e um sorriso superficial no rosto. Sempre fora bom na arte de matar e isso dava-lhe um prazer estupendo.
Anos atrás, ele estava devendo vinte mil libras a um mexicano drogado que comandava um quartel na Bolívia. Maia livrou-o de sua sujeira, pagando a tal quantia e, em troca, ele ficou lhe devendo um favor. Aquela era a cobrança. Não tinha nada contra a princesa, mas preferia ver a cabeça dela ao invés da sua em jogo.
Clarissa cantarolava a música cada vez mais alto, uma antiga cantiga de ninar inglesa, para com o seu feto.
The Queen of Hearts
she made some tarts
all on a summer's day.
The Knave of Hearts,
he stole those tarts
and took them clean away
The King of Hearts
called for the tarts
and beat the Knave full sore.
The Knave of Hearts
brought back the tarts
and vowed he'd steal no more.
Rapidamente, Anthony adentrou o banheiro. Localizou-a — Nua, de costas para a porta, com todo o vapor da água quente tapando seu corpo pelo vidro do box. Depois de alguns segundos, ele escondeu-se atrás da porta e esperou pelo final de seu banho. Se ela teria que morrer, que pelo menos morresse limpinha.
Não demorou muito, contudo, e ela já estava enrolando-se em um roupão felpudo enquanto secava os pés no tapete para sair da área molhada. Seu longo cabelo ruivo estava enrolado no topo da cabeça em um coque desleixado — para não ser molhado — e seu colo pálido estava desnudo pelo decote do roupão.
– Eu juro que deixei a porta fechada... — Murmurou para consigo mesma, assombrada, para logo depois perceber que era apenas bobagem de sua mente. Caminhou mais alguns passos para fora de seu banheiro privativo quando foi surpreendida. Uma mão forte segurou em seu quadril enquanto outra tapou sua boca.
Ela, sorrindo e pensando que fosse Jace, lambeu a mão na tentativa de fazê-lo soltá-la. E funcionou. Quando Anthony à soltou e ela virou-se, teve uma baita surpresa.
– Você não é Jace! — Murmurou, dando um passo para trás e vendo-o desembainhar a adaga.
– Não, não sou, docinho. — Respondeu com um sorriso psicopata. No segundo seguinte já estava indo para cima dela.
– Soco-...
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Ajeitou o terno, nervoso. Não sentia-se bem, muito menos feliz. Queria voltar para sua pequena e confortável casa, sentar-se ao lado de sua tia Catherine e beijar sua namorada quase noiva — Hellen.
Não via seu futuro ali, no meio dos ricos e esnobes, mas a soberana Jocelyn convocou-o e esse não era um pedido negável.
Sebastian era um jovem pomposo, galante e educado. Nunca fora de discutir, mas também nunca abaixou a cabeça. Mal conheceu seu pai, não lembrava-se de sua mãe e só tinha a babá a quem chamava de tia — Catherine.
Um estrondo foi-se ouvido quando Dorotha pediu para que ele adentrasse o escritório.
– Runrum... — Pigarreou antes de tomar suas palavras, reverenciando. — Majestade.
Jocelyn ficou de pé e analisou todo o homem. Seu cabelo, sem dúvidas, era igual ao de Valentim. Suas feições também, mas com um traço mais suave e francês. Ele tinha um leve sotaque, algo adocicado e gostoso de se ouvir, como mel ou açúcar derretido. Era tão belo — ou até mais que — Valentim, mas algo em seu porte, totalmente contrário ao do antigo rei, era encantador e não intimidante.
– Você deve ser Sebastian... — Murmurou, segurando na saia do vestido para fazer uma sutil reverência. — Sente-se, por favor.
Ele assentiu, assentando-se em uma das cadeiras confortáveis e luxuosas. — Se me permite perguntar, Senhora... — Ousou, alisando a gravata desconfortável. — Por qual motivo chamou-me aqui?
– Hum... — Jocelyn soltou, enquanto via seu marido vivo na sua frente com feições mais jovens. A saudade assombrou seu peito, apertando dolorosamente seu coração frágil. — Eu... Tenho assuntos a tratar convosco, Sebastian. Assuntos do meu marido e de, possível e muito provavelmente seu pai.
Soou meio rude e meio suspeito de sua parte, mas era a forte emoção que sentia — tirando toda a coesão de seus pensamentos.
– Assuntos? — O jovem perguntou, assombrado. — Oh, a senhora vai pegar a casa que papai... hum, quer dizer, o Rei Valentim nos emprestou? — Suspirou. — Eu... já trabalho. Não se incomode com isso, Majestade. Tia Catherine irá ficar bem. Eu posso me, hum, virar. Não precisa de tanto alarde.
Jocelyn riu suavemente, tendo em vista o rumo para qual aquela conversa levou. Ele, um homem de vinte e quatro anos completos, estava com medo dela tirar o único bem o qual Valentim deixou? Sentia, no fundo, pena por ele achar que ela seria tão rude a esse ponto.
– Oh, não, não. — Corrigiu-o. — Não quero a casa, Sebastian. Não vim para tomar-lhe nada, querido. Apenas para entregar o que é seu por direito.
– O que é meu? — Murmurou, surpreso. — Pap... O rei deixou algo mais para mim?
– Bem... — Soltou um sorriso de canto. — De certa forma, sim.
– E o que seria? Um cavalo? Oh, não diga-me que é um cavalo! — Alegrou-se.
– Hum, não é necessariamente um cavalo, mas você terá um se quiser. Ou cem. Quantos desejar. — Respondeu com polidez. — Meu marido, vulgo seu pai, deixou algo muito mais precioso, querido. Ele te deixou um reino.
– Um reino? — Engasgou com a própria saliva, levantando-se da cadeira com pressa e assombro. — Não, não, não. Isso não é possível! Eu sou apenas um bastardo.
– Acalme-se, Sebastian. — Pediu, com a voz extremamente calma. — O reino é seu. Isto é, se você quiser, é claro.
– Mas... E Clarissa? Ela não deseja assumir? A última coisa que eu quero é causar problemas para a princesa. — Declarou.
– Bem, querer ela quer. Mas não é o certo para ela. Ela está grávida e pretende se casar em breve. — E então chegou mais perto dele, inclinando-se por sobre a mesa para sussurrar. — Com um americano.
– Oh! — Sebastian não conseguiu segurar as risadas. Sempre pensou que um americano + uma inglesa sempre acabava em confusão. Mas, pelo visto, viu que estava em seu genes herdar aquele traço. Afinal, Hellen era americana também. Pelo visto ele tinha algo similar à sua "irmã". — Hum, para falar a verdade, Majestade...
– Chame-me por Jocelyn. — Rogou, afeiçoando-se cada vez mais ao menino, já homem feito.
– Senhora Jocelyn... — Corrigiu, educado como era. — Minha noiva é americana também. Eu à conheci em uma excursão na frança e então nos apaixonamos. Não acredito que somos superiores, se me permite dizer, Senhora, aos americanos. Apenas vemos o mundo de formas e cores diferentes. Mas, no fundamental, somos todos iguais.
Jocelyn sorriu. — Você falou exatamente como Valentim agora. — Disse, secando o esboço de uma lágrima em seu olho. — Bem, eu quero que você conheça sua irmã. Tenho certeza de que ela vai adorá-lo. — Declarou, enquanto erguia-se e enroscava seu braço no de Sebastian para guiá-lo até os aposentos da princesa. — Sabe, ela sempre quis um irmão. Acho que agora, enfim, ela terá um desejo realizado, não é mesmo?
– Oh, sim, é claro, Majes... Senhora. — Respondeu, sorridente. — Eu também sempre quis conhecê-la.
Demoraram alguns minutos, mas assim que adentraram o quarto, desejaram ir embora. Jocelyn caiu ao chão, desmaiada, enquanto Sebastian ficou encarregado de presenciar aquela cena.
Clary estava no chão, desacordada — e estava sangrando.
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– Clary! Meu amor! Onde ela está? Clary! — Jace chegou, apavorado, no hospital. Seus berros eram ouvidos da esquina. Isabelle tentou acalmá-lo, mas de nada adiantou. Estava reunindo-se com o padre para o casamento, mas assim que recebeu o telefonema saiu correndo da igreja.
Viu Jocelyn, Alec, Marie e um estranho sentados na recepção. Jocelyn estava pálida e chorava litros enquanto Marie e o estranho tentavam consolá-la. Era pior do que Jace imaginara, já que Jocelyn sempre mostrava-se forte.
– Onde ela está? — Perguntou, sentindo as lágrimas arderem nos olhos. — Onde ela está?
– Na ala cirúrgica. — Murmurou o desconhecido, erguendo-se para cumprimentá-lo. — Eu sou Sebastian, a propósito.
Jace apertou sua mão rápida e desastradamente. — Jace. — Resmungou, correndo para a porta — que mantinha-se guardada por uma enfermeira. — Senhora, eu preciso entrar, é urgente. Minha noiva está aí dentro e...
– É proibida a entrada de parentes aqui, senhor. — Declarou. — Sente-se, por favor, e espere por notícias médicas.
Ele suspirou, apertando a ponte do nariz antes de direcionar um olhar matador e ameaçador na direção dela.
– Escute aqui, ô Senhora. O amor da minha vida está aí dentro, com um mini-mim dentro da sua barriga. Se a senhora acha que eu vou ficar aqui, de braços cruzados e sem fazer nada, a senhora está muito enganada. Agora dá licença e saia da minha frente antes que eu quebre esse hospital inteiro.
– Jace... — Izzy alertou, puxando seu braço. Mas ele apenas se soltou e voltou a encarar a senhora.
– Senhor, eu terei que chamar a segurança se continuar com essa conduta. — Murmurou, irritada. Jace, de supetão, empurrou-a para o lado.
– Vá e foda-se. Pode chamar até o papa, querida, mas eu vou ir ver a minha princesa. — E entrou pela porta vai-vem. Caminhou apressadamente por aquele local mórbido e quase deserto, procurando por sua princesa em cada sala de cirurgia. Acabou por se chocar contra um doutor, que carregava uma prancheta.
– Posso ajudar? — O Médico perguntou, com a face suspeita.
– Clarissa Adele Fray Mongestern. Eu preciso de notícias dela. Por favor, eu preciso saber como ela está. — Suplicou e o cara assentiu.
– Eu já estava indo dar a notícia à família. Queira me acompanhar, senhor.
A senhora enfermeira estava com um armário ao seu lado, o que Jace supôs ser o segurança. Mas o doutor aliviou sua barra e mandou que a Sra. Cope liberasse o tal armário.
– E então, doutor. É grave? — Perguntou Izzy, pesarosa.
– A paciente foi brutalmente esfaqueada em áreas do abdome. O diafragma fora levemente perfurado, uma costela foi quebrada... Mas nenhum risco sério à saúde dela, além da perda de sangue, é claro.
– Graças a Deus! — Todos soltaram ao mesmo tempo, aliviados, mas o médico não tinha acabado.
– Ela vai ficar bem, mas...
– Mas? — Jace perguntou, assustado.
– As fraturas foram demais para o feto. — Todos encararam o doutor, chocados. — A paciente sofreu um aborto instantâneo. Ela... perdeu o bebê.
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