A Única Exceção do Rei
33 Baronesa de Phalnn
Notas iniciais

A última coisa que eu gostaria naquele dia era ver Thranduil.
Os dias estavam quentes e muito agitados na cidade de Bree, ao qual paramos para um longo período de descanso após meses viajando. Mirph e Matilda, era de se notar, estavam cada vez mais exigentes, entretanto, satisfeitas com nossas novas descobertas e estudos feitos ao longo desse tempo.
Não era para menos: ambas eram tratadas como ladys por onde quer que fôssemos, e graças ao meu status de baronesa viúva éramos respeitadas e bem-vindas em qualquer meio social. As joias e toda a riqueza que Thranduil me dera serviu para nos manter.
Era muito, confesso. Bem mais do que eu imaginava. As joias dos elfos eram supervalorizadas pelos homens e bastou a venda de apenas algumas delas para conseguir certa fortuna. Claro, minhas irmãs não tinham conhecimento sobre tais coisas, disse a elas que tudo o que tinha viera da fortuna dos anões que foram distribuídas. Os vestidos cravejados de diamantes e as demais pedrarias que o rei elfo tanto adorava ver adornando o meu corpo ainda estavam guardados e muito bem protegidos.
O anel de noivado que Kirkel me dera eu usava como símbolo de um casamento falso – o meu com o barão de Phalnn.
Mirph e Matilda não puderam usar tal sobrenome a partir do momento em que colocamos os pés fora de Valle. Expliquei para ambas o meu plano e tudo correria muito bem, desde que não descobrissem que se tratava de três jovens solteiras e com uma fortuna convidativa. Ser baronesa abriu as portas de casas, palácios, fazendas e cidades como um passe de mágica.
Chegamos a Bree satisfeitas com a longa jornada. Meu peito encheu-se de orgulho ao perceber que havia feito pelas minhas irmãs em poucos meses o que ambas não aprenderam em anos. Estavam mais delicadas, mais prendadas e principalmente cheias de conhecimento. Treinavam constantemente etiqueta, caligrafia, pintura e costura.
Acredito que esse foi um importante passo para não cairmos em depressão. Até conseguir sair de Valle, ambas andavam tristes, cabisbaixas e sem energia, sendo invadidas noites e mais noites por pesadelos. Já eu mal conseguia dormir. Um acúmulo de estresse e ansiedade tomava conta do meu corpo dos pés à cabeça e já não me deixava raciocinar como antes.
Desde o dia em que decidi fugir da casa dos meus pais se passaram dois anos e meio, e cá estou eu finalmente conseguindo fazer aquilo que tanto queria naquela época. Talvez se soubesse que precisavam de tantos sacrifícios para conseguir tal coisa, meus pés não se moveriam um centímetro sequer pra fora da porta. Me pego pensando como eu estaria agora se tivesse ficado, e ao mesmo tempo me pego imaginando praguejando enquanto cozinho para Kirkel em nossa casa, desejando que eu tivesse a coragem de fugir aos 17 anos.
Bem, não há mais como voltar atrás e descobrir como seria a minha vida se eu não tivesse conhecido Thranduil e enfrentado todos os obstáculos que me trouxeram até aqui.
— Matilda está se engraçando com o filho do dono da estalagem. – Mirph comunica e me olha um tanto preocupada. – Estão há horas lá fora treinando espada. Acredita nisso?
Suspiro e deixo o livro de lado para dar atenção para a irmã do meio. Matilda sempre gostou de jogar sua graça para qualquer um que estivesse usando um par de calças, apesar de desdenhar deles depois.
— Diga a ele para se lembrar que jurou compromisso com o fazendeiro de nome estranho há menos de duas semanas. Ele não gostará nada se souber que sua pretendente está tão à vontade com outro por aí e eu não me responsabilizo pelas suas inconsequências.
— Não sei o que ela vê nesses homens. – Mirph balbuciou, sentando-se ao meu lado na cama.
— Certamente está curiosa sobre o que eles têm no meio de suas pernas. — Comentei, rindo ao me lembrar das conversas que tive com minhas irmãs sobre homens. Ambas não tinham noção do quanto o sexo masculino era diferente do feminino e, ao descobrir através de minhas palavras e figuras de um livro, ambas tiveram uma reação um tanto inusitada; Mirph jurou que aquela era a coisa mais feia que já havia visto em toda a sua vida, já Matilda mostrou-se aflorar apenas com algumas ilustrações.
Mirph suspirou e olhou pela janela, procurando o rosto familiar de Matilda entre os arbustos perto da fonte. Ela estava concentrada entre a flecha e o tronco que seria sua vítima.
— Acha que ela já perdeu a pureza? – Minha irmã questiona, me encarando um pouco espantada. Matilda acabara de completar seus dezessete anos e estava tão bela que chamava a atenção por onde passava.
Ponderei a resposta. Diria que não de imediato, entretanto, lembrei-me de que havia me entrego para Thranduil pouco tempo depois que completei dezoito anos, e, se eu havia feito aquilo sem pudor algum, Matilda também poderia fazer. E Mirph, mas esta se mostrava bem mais madura do que eu esperava.
— Provavelmente está escolhendo com qual de seus pretendentes deve se casar e entregar algo tão precioso. – Respondi um tanto seca.
— Fala como se fosse negócios. – Mirph cutucou e eu corei um pouco.
— Para algumas mulheres são. – A fitei com firmeza. – Não falo de meretrizes, mulheres da vida que trocam algumas horas de prazer por dinheiro, mas sim de ladys que fisgam seus parceiros esperando receber bens materiais em troca.
— Acha que Matilda seria capaz? – Questionou preocupada, desviando seu olhar para a janela mais uma vez.
— É mais comum do que parece, Mirph. Nem todas as pessoas conseguem amar, algumas delas apenas se casam por negócios. Ou acredita que casamentos arranjados tem por finalidade o amor? O mundo é cheio de particularidades. Cada criatura inserida nele tem as suas.
Ela voltou seu olhar para o meu mais uma vez e se sentou na cadeira perto da cama.
— Resuma suas particularidades para mim, então. Gostaria de ouvir sua história. – Pediu, deixando transparecer sua curiosidade.
Me surpreendi com o seu pedido. Nem eu mesma havia pensado sobre minhas particularidades e minha complicada história resumidamente. Ela era tão extensa!
— Sou uma mulher que praticamente foi obrigada a se casar e que fugiu de casa por causa disso. Fim!
Mirph riu, mas não se satisfez com tal resposta.
— Mel, você era a garota mais sonhadora e apaixonada que eu conhecia. Você deve ter se apaixonado por alguém em algum momento, e esse alguém não era Kirkel. Foram seis meses longe de casa, sei que algo aconteceu.
Tentei desviar minhas lembranças sobre Thranduil enquanto ouvia a pergunta dela. Não, não havia nada mais em minha história que valesse a pena.
— Me apaixonei por Kirkel momentos antes de tomar a decisão me casar com ele. Entretanto, não estava pronta. Creio que algum dia ainda nos casaremos. – A resposta foi tão fria que pude sentir o entusiasmo de minha irmã se esvair.
— Mas e o príncipe encantado que você tanto queria encontrar? Andamos pelo mundo, foi cortejada por tantos homens! Alguns belíssimos, gentis, ricos, contudo, seu olhar de desprezo feria até a lã mais grossa de suas roupas. Não entendo o que mudou. Está tão diferente daquela irmã sonhadora e cheia de desejos que tínhamos.
Desilusão — era o que eu queria responder. Contudo me calei e reservei para mim.
— A vida encarregou de me tornar assim. – Falei alguns segundos depois. – Homens com promessas vazias, feitos de aparências não me chamam mais a atenção.
Mirph falaria mais uma vez, entretanto Matilda entrou no quarto tão rápido quanto às flechas que lançava nas árvores.
— Não sabem das últimas! – ela começou sem ao menos se importar com a delicadeza, deixando-se notar sua empolgação exagerada.
— O que houve?
— Teremos um rei na mesa de jantar esta noite. O dono da estalagem manda convocar-nos, já que nossa querida irmã – ela disse, apontando para mim – é baronesa viúva. Pediu encarecidamente que a entregasse esse convite.
Ela depositou o pedaço de pergaminho em minhas mãos. Não era nada demais, apenas um bilhete simples com a escrita um tanto precária convidando para o jantar às oito da noite.
— E qual é o rei que está de visita? – Mirph perguntou, fitando uma Matilda saltitante em sua frente.
— Ninguém menos do que o rei da Floresta das Trevas, Thranduil.
O que Thranduil estava fazendo naquelas bandas? Era o que pensava enquanto encarava aquela calda enorme deslizando pelo chão no salão principal. Ele estava com vestes cinzas e aquela coroa exagerada de folhas em sua cabeça.
O que eu estava fazendo ali, o encarando? Era o maior mistério da noite, confesso. Matilda estava tão empolgada que, mesmo dizendo que estava com dor de cabeça e provavelmente uma infecção alimentar inventada por mim de última hora sob o pretexto de não ir ao tal jantar, ela não se deu por vencida. Trouxera-me tantos remédios e ervas para curar a tal doença que me vi sendo obrigada a cumprir com a promessa de que iria.
A última vez que vira o rei foi depois da batalha em Valle, quando salvei sua vida da mira de um orc. Lembro-me de cuspir apenas algumas palavras para ele, deixando-o ciente de que seu soldado mais fiel estava à beira da morte apenas uns metros dali.
Depois disso nunca mais o vi. E não fazia de questão de vê-lo ou de explicar exatamente o que estava acontecendo, afinal, tinha me dado conta de que minha vida apenas eu tomo conta.
O salão estava cheio, pessoas falavam alto como se todos fossem surdos. Ele caminhava até o anfitrião, trocando palavras delicadas e frias como a entonação de sua voz. Odiava aglomerações, sabia disso. Trocava palavras apenas quando era necessário e seu dever. Provavelmente fugiria daquele local quente e cheio de curiosos em pouco tempo.
Escondida atrás de uma parede, o observava com extremo cuidado para não ser notada por ele, e, apesar de ceder com os pedidos calorosos de minha irmã, planejava ficar no anonimato.
— Senhora Phalnn, posso lhe fazer companhia? – O filho do dono aproximou-se, estendendo seu braço sem esperar resposta. Ele tinha a voz suave e um sorriso amável.
— Claro... como se chama?
— Tadeus. – se apresentou cordial.
Tomei seu braço um pouco receosa.
— Matilda disse-me que tem apenas 20 anos. Por ser viúva, pensei que fosse um pouco mais velha. – ele começou num tom amigável enquanto me arrastava até o salão que Thranduil estava. Senti o sangue do meu rosto sumir de imediato quando me vi no meio, quase próximo a ele.
— Sim, eu me casei muito nova. – inventei qualquer coisa e o fiz parar exatamente onde estávamos antes que o rei desviasse o seu olhar. – 15 anos já estava noiva, com 16 me casei e me tornei viúva aos 19.
— Interessante. – comentou, me conduzindo novamente até o pai que conversava com o rei. Inferno! – Sei que é das bandas da Cidade do Lago, por acaso conhece o rei de Mirkwood?
Quando me dei conta, estávamos frente a frente. Thranduil desviou seu olhar do dono do lugar para o filho, e dele para mim.
— Melrise?! – ele pronunciou meu primeiro nome em bom som um tanto chocado, sem se importar com as demais presenças e as cordialidades.
Foi como se todos os olhares estivessem voltados para as quatro pessoas que estavam ali naquele meio no momento em que o rei se deixou chamar um pouco mais a atenção. Senti como se estivesse num sonho surreal.
— Como vai, majestade? – cumprimentei, reverenciando-o como as regras de etiqueta mandavam.
— Conhece a baronesa de Phalnn? – Tadeus perguntou para ele enquanto sentia o desespero gritar dentro de mim.
— Baronesa... – Thranduil fez uma longa pausa enquanto me analisava. Coraria diante essa atitude se ainda me restasse algum sangue em minhas bochechas. – Certamente. Como vai o... quinto barão de Phalnn?
Perguntou um tanto sarcástico. Claro que ele sabia que meu avô levou para o túmulo o quarto título e não havia um quinto.
— Morto na batalha dos cinco exércitos por um orc.
O rei corou levemente ao se deparar com minha resposta. Emiti um leve sorriso.
— Ah, sim. – Recuperou sua postura. – Meus pêsames. Ele era um homem muito responsável e admirável.
— Tinha o ego inflado, mas, é... ele era sim.
O clima estava visivelmente tenso. Thranduil e eu nos encarávamos dando respostas afiadas e tal atitude fora notada pelos demais. Boatos surgiriam mais tarde sobre isso e eu teria que inventar mais alguma mentira acima do desconforto de nossas presenças.
Gostaria que tivessem me trocado de lugar durante o jantar, entretanto soube por Tadeus que meu assento era estratégico. Acharam que Thranduil se sentiria mais à vontade sabendo que havia outras pessoas da realeza ao seu redor. Bree era uma cidade perfeita para se hospedar quem estava de passagem. Não oferecia muitos pontos turísticos, mas haviam confortáveis estalagens e boa comida. Estabelecer relações entre os hóspedes era a maior recompensa da cidade, já que ali ficavam as pessoas mais importantes que viajavam. O pai de Tadeus – que eu não me recordo o nome – era um anfitrião bondoso e muito astuto, que acumulava dinheiro hospedando pessoas com cargos importantes e criando laços de afetos.
Algumas belas moças tentavam chamar a atenção do rei cheia de sorrisos e piscadelas alucinantes, seus olhares cheios de esperança em conseguir ao menos alguns segundos da cortesia do elfo, que fazia certo esforço para parecer um pouco mais amável do que ele era.
— Belíssima louça. – Thranduil elogiou, concentrando-se ao dono da estalagem. Ele nunca elogiava nada, creio que estava tentando arrumar algum assunto para desviar sua atenção de minha presença.
— Presentes dos Hobbits. – Esclareceu, botando um longo sorriso em seu rosto corado e bochechas gordas. – Eles são caprichosos e muito bons com objetos de decoração e porcelana.
— Hobbits... claro. – Thranduil balbuciou. – Conheci um a alguns meses. Muito esperto, inteligente e corajoso.
— Hobbits corajosos? – O senhor riu, surpreso com a declaração do rei. – Pelo que eu conheço, eles são tão covardes que se você alterar a voz, correm.
— Não este. Ficaria surpreso se soubesse que ele foi peça fundamental para a guerra que ocorreu na Montanha Solitária.
— Bilbo Bolseiro. – Entrei na conversa sem ao menos ser convidada, recebendo os olhares de ambos em minha direção. – Foi o hobbit que recuperou a pedra Arken da montanha e enfureceu o dragão. A história é real.
— O senhor Bolseiro é tão valente quanto meus soldados, isso posso lhe garantir. – Elogiou mais uma vez, me fazendo notar que quando ele realmente gostava de algo, não poupava suas exaltações.
— Bem, não discutirei com quem presenciou a batalha, não é mesmo? – O senhor se deu por vencido, impressionado. – Mas adoraria saber mais sobre a guerra e o dragão. Dizem que era o último da Terra.
Thranduil conversava com o senhor enquanto meus olhos vagavam até minhas irmãs que estavam sentadas juntas no meio da mesa, a 4 pessoas de distância de mim. A ordem das cadeiras era composta de acordo com o cargo de cada pessoa ali presente, por isso o rei elfo estava na ponta dela, pois era o cargo mais alto. Ao seu lado esquerdo estava eu, e no direito o dono com o seu filho logo após ele. Não me sentia confortável sabendo que estava ocupando uma função mentirosa, mas nada era pior do que saber que passaria por toda aquela tortura durante todo o jantar.
Os minutos pareciam horas. Cada prato servido era consumido por mim sem ao menos sentir o gosto. O olhar do rei recaia sobre o meu de tempos em tempos cheios de dúvidas e o meu sobre o dele. Mas precisava fingir naturalidade perante os outros, sorrindo de vez em quando e sendo cordial entre uma resposta e outra.
— Soube que está à procura de uma donzela para se casar. – O senhor chamou minha atenção com tal pergunta voltada ao rei.
Me choquei com a informação e podia jurar que todo o sangue que havia voltado para meu rosto se esvaiu mais uma vez.
— Boatos. – Ele esclareceu. – Não estou à procura de uma rainha. Aconteceu que houve uma proposta bem inusitada de um senhor. Ofereceu-me a mão de sua filha em troca de alianças há alguns meses atrás. Confesso que me senti tentado... a moça era belíssima. – Ele sorria enquanto falava. Minhas pernas começaram a tremer ansiosas com aquela conversa. – Mas não o quis, ofereci ao meu filho. Entretanto, Légolas parece ter entrado num modo anti casamentos atualmente ao presenciar sua pretendente se apaixonar por outro. Não o forcei a nada, afinal, sei como é triste ser rejeitado por alguém que tem tanto apreço.
— O coração dos elfos são misteriosos, não acha Tadeus?
— Não somos como humanos, senhor Hashid. Temos que dar tempo ao tempo para certas feridas cicatrizarem, e este tempo, por vezes, demora tanto quanto a vida inteira de vocês.
Não pude deixar de pensar se suas palavras se referiam à mim. Tentei parar de dar ouvidos, mas não consegui deixar a curiosidade de lado. O tempo naquela mesa parecia não ter fim.
Quando finalmente todos os pratos foram servidos me despedi gentilmente de cada um ali presente, deixando a ordem para Mirph e Matilda se retirarem no máximo vinte minutos mais tarde.
Quando cheguei ao meu quarto pude sentir o corpo relaxar e a tensão se esvair aos poucos. Eu só podia estar sonhando e não era um sonho nada agradável.
Retirei o vestido apertado e cheio de adornos que havia colocado naquela noite. Vestia-me de preto ainda em sinal de luto cobrindo meu corpo com a mentira da viuvez. Thranduil não me desmascarou perante os demais convidados, para minha sorte.
Mas parece que quanto mais eu tento me afastar dele, mais perto eu fico. Estou a quilômetros de casa e de seu reino, entretanto cá estamos nós no mesmo lugar, ocupando o mesmo ambiente e presenciando o mesmo jantar. Quais as chances de isso acontecer?
Adormeci entre um pensamento e outro, desejando que meu corpo não reclamasse em dores as tensões sofridas nas últimas horas. Foram meses para conseguir me controlar perante lembranças que mexiam comigo de forma negativa e parar de vomitar toda a vez que alguma delas vinham.
Me despertei quando um barulho no corredor de portas e alguns passos delicados, e esperava que Mirph ou Matilda aparecesse. Alguns segundos depois, batidas em minha porta. Me levantei um pouco sonolenta para atender certa de que era alguma de minhas irmãs, mas a figura do rei apareceu diante meus olhos mais uma vez naquela noite conturbada.
— Pois não? – perguntei ao me deparar com Thranduil já em seus trajes de dormir parado no corredor.
— Podemos conversar, senhora quinta baronesa de Phalnn? – ele disse sarcástico.
— Claro que não ia deixar isso passar, não é? O que quer?
— Deseja mesmo discutir no corredor da hospedagem? Um tanto arriscado, não acha?
— Quer que o convide para entrar no meu quarto? Está maluco? Se alguém descobrir logo, logo estarão espalhados boatos de que sou sua amante. – alertei.
— Os boatos já foram espalhados, não se preocupe. – Ele disse entrando sem ser convidado em meu quarto e fechando a porta.
— Como é?
— Não acha que nossa atitude diante os outros tenha desperto a curiosidade deles? – continuou sentando-se na poltrona diante a janela. – Mas isso não vem ao caso no momento.
— Então o que quer?
— Apenas saber o que faz aqui e porque está usando um título falso. – perguntou.
— Estou viajando com minhas irmãs, ensinando a elas como viver e, obviamente, o título me foi concedido pelo senhor Bard para que eu pudesse viajar em paz, já que moças solteiras e sozinhas não são respeitadas pelo mundo. Não que isso seja da sua conta.
Thranduil tamborilava os dedos em sua perna pensativo. Ele parecia bem tranquilo naquele momento, ao contrário de mim. Jurei a mim mesma que ele nunca mais me faria sentir insegura quando estivesse em sua presença.
— E o senhor, o que faz aqui?
— Propondo alianças, claro. Já haviam anos, como sabe, que eu não viajava e senti a necessidade e desejo de tomar conta dos negócios do palácio aqui fora pessoalmente.
— Assim tão longe?
— Os produtores perto da Floresta não estão sendo suficientes. Estamos carentes de alguns mantimentos e, quando dei por mim, estava chegando por aqui. Pretendo visitar os Hobbits, já que, aparentemente, são ótimos produtores. – ele esclareceu.
— Mas quando a mercadoria chegar em seu reino provavelmente não estará boa para consumo. Ou, se for o caso da porcelana, pode ser que cheguem quebradas e isso traria prejuízos para ambas as partes. Estamos a meses de distância. – Concluí.
— Você tem razão. – Concordou e se levantou para olhar a lua da janela. – Estou fazendo o que posso, no entanto. O mundo mudou e os humanos estão cada vez mais dono dele, mas vivem tão pouco que precisei conquistar a confiança vagorosamente. Fora que os cidadãos de Valle não querem mais trabalhar por causa da quantidade enorme de ouro que foi dada a eles.
— Não se come ouro. – Respondi para Thranduil. Mas claro, se eles não precisavam mais de emprego para conseguir dinheiro, então não produziam e nem trabalhavam.
— Os humanos estão fora de controle para as bandas de lá. Se não fizerem nada, morrerão de fome. E não consigo fazer trocas com Bard porque a comida está escassa. Eles precisam voltar a plantar.
Thranduil me encarou como se eu tivesse a resposta para a sua busca. Eu não sabia como fazer para que as pessoas conseguissem entender que ainda precisam trabalhar para comer. Afinal, eu nem estava presente mais.
— O seu noivo ainda é o dono das terras. – Ele me lembrou, quase cuspindo o que era óbvio para ele. – O único dono das terras férteis das bandas de lá. Maçã, trigo, leite e seus derivados, café e mais algumas outras coisas que estão sumindo. Consegue entender agora? Preciso que ele forneça as terras para os produtores trabalharem e crie empregos. Os demais produtores morreram e somente ele sabe como comandar o plantio agora. Já ofereci um bom dinheiro nas terras dele, mas ele não quis.
— Procurou Kirkel?
— Sim. Ele e Bard, inclusive para convencer a população a voltar a trabalhar. Mas o senhor Lúmien recusou. Está num estado terrível e depressivo. – Thranduil esclareceu. Aquilo não podia ser verdade.
— Um minuto: está tentando me convencer de que ambos os povos, anões também provavelmente, estão com escassez de comida porque Kirkel parou com a produção pois está depressivo? Não é possível! Ele sempre foi muito responsável com os outros, nunca deixou ninguém passar fome.
— Mas é o que está acontecendo. Sem comida, nada vale o ouro e sem alianças, nada vale um reino. Entende? Não somos autossustentáveis.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— O que acha que tem a ver? – Thranduil alterou sua voz. – Tem tudo a ver. Você acha que não causa impacto na vida de ninguém, mas causa! Ele está desolado por tê-la perdido, tanto quanto....
Ele pausou suas palavras assim que percebera que falaria demais. Mas seria apenas mais uma grande mentira, ele nunca se importou com a minha falta.
— Verei o que faço, obrigada por avisar. – Dei o assunto por encerrado e abri a porta, convidando o rei para se retirar de meus aposentos.
— Eu digo o que fará. – Continuou, fechando a porta sem ao menos se importar se pareceria indelicado. – Voltará lá e o convencerá a ser o que era antes. Inclusive, retornará a ser responsável pela pesca, implantando em suas fazendas criadouros de peixes, pois o lago está podre com tantos cadáveres. E, se assim desejar, outros animais também podem fazer parte posteriormente. Eu darei apoio para esta expansão de negócios já que, como você mesma entendeu, não podemos encomendar mantimentos de tão longe assim.
— Por que não faz tudo isso em suas terras? Deixe Kirkel em paz.
— Porque a floresta é inóspita. Não há como plantarmos um grão sequer sem que ele seja envenenado. – Thranduil passou suas mãos em seu rosto. Ele estava visivelmente chateado. – Porque acha que ofereceram a mão de uma moça em troca de alianças para mim? As coisas estão indo tão mal que quase aceitei, mas a fazenda era longe demais e não me adiantaria muita coisa. Os elfos, anões e humanos já estão enfrentando a escassez, e logo, logo, aceitarão voltar a trabalhar. Ofereço todo o meu apoio para seu noivo e doarei a ferramenta que for preciso, caso ele aceite.
Me senti como uma mercadoria de valor ao ouvi-lo implorar daquela maneira. Entretanto, eu odiava ser tratada como tal. Contudo, não conseguia me sentir bem ao ouvir tudo aquilo e deixar passar sem fazer nada e Thranduil sabia que como eu era. Como disse para Mirph naquela tarde, achava que me casaria com Kirkel posteriormente de qualquer forma. Voltar para ele agora ou anos mais tarde não faria tanta diferença ao meu ver.
— Entendo que esteja preocupado. Voltarei para Valle assim que for possível, até o fim de semana no mais tardar, estarei de partida. – Concordei. – Mas não sei se Kirkel me aceitará de volta e muito menos fazer alianças com você.
— Farei alianças com você, Melrise, caso consiga se casar com ele e convencê-lo de voltar a produzir. Ele não precisa saber. Mais tarde, conversarei com ele sobre isso, quando tudo estiver nos eixos. Mas, me dê alguma esperança de que posso contar com você. Não acredito no que estou para dizer, mas, meu reino está em suas mãos.
Eu queria dizer que não. Uma aliança com Thranduil daquele porte tomaria anos da minha vida e eu estaria ligada a ele para sempre.
— Porque quanto mais eu tento ficar longe de você mais nos aproximamos?
Thranduil sorriu fraco e franziu o cenho.
— Acostume-se. Não sairei tão fácil de sua vida, por mais que queira. –esclareceu e eu bufei. – Prometo que seus segredos estarão guardados comigo até os fins de nossos dias, assim como sei que os meus estão seguros com você.
Senti firmeza em suas palavras.
— Estamos de acordo? – ele perguntou, estendendo sua mão para firmar nosso mais novo laço.
Segurei-a e apertei com firmeza, levantando meu olhar até o dele determinada.
— Estamos.
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