Notas iniciais
Obrigadinha pela paciência meus xuxu colhido na horta do Kirkel hushahusauhusauhhushua Boa leitura ♥

A notícia de que voltaríamos para Valle não foi bem recebida por minhas irmãs. Ambas andavam bem preocupadas com a solidão de uma casa sem nossos pais, com a lembrança da guerra e o fogo do dragão, com as pessoas que convivíamos a tantos anos e já não estariam mais lá. Entretanto, sabiam que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde pois, não pretendia morar em outras bandas da Terra Média e elas voltariam comigo. Mais tarde, quando se casassem, poderiam decidir onde morar. Perguntaram insistentemente porque não daríamos continuidade com nossa viagem, já que o objetivo seria explorar toda a terra e estudarmos cada cultura que nela continha, contudo, expliquei que havia recebido notícias de que a cidade não andava nada bem e Kirkel estava depressivo.

— Kirkel não é mais problema seu. — Matilda protestou, bufando. — Já não são mais noivos.

— Não somos, mas ele está só nesse mundo. Não há mais ninguém que o possa consolar, além de que boa parte de sua depressão é culpa minha. — respondi, preparando as malas e decidida sobre nossa partida. — Ainda faltam meses para concluirmos nosso curso de volta, Matilda, não se preocupe.

— Por mim, eu nunca voltaria. — Mirph comentou, observando a conversa da porta do meu quarto. — Não há nada em Valle que valha a pena para mim.

— Posteriormente, quando se casarem, poderão se mudar para outro lugar e viajar o mundo.

— Mas eu não quero me casar para ter que viajar. Quero viajar com liberdade, como fazemos agora. — Ela protestou, fazendo bico.

— Está falando como você, Melrise. — Matilda observou. — Daqui a pouco foge.

— Daremos um jeito, Mirph. Prometo que procurarei um jeito de ambas conseguirem fazer mais viagens em paz. Mas por favor, precisamos voltar. É um pedido mais do que especial de socorro, não entendem? A cidade não é minha, mas sinto que tenho um dever para com Kirkel...

— Tudo bem. — Mirph aceitou, fazendo uma careta ao tentar sorrir, já Matilda apenas se levantou da beira da cama e saiu do quarto.

— Saímos amanhã de manhã. — Alertei, sem ao menos receber resposta de volta.

Tentei manter distância de Thranduil nos dias que se seguiram desde a conversa. Ele me observava a cada passo, e confesso que pouco me agradava saber que surgiram boatos de extremo mal gosto sobre nós. Algumas vezes, ele dava um jeito de me empurrar para alguma sala e cochichar ordens e sugestões para que eu conseguisse cumprir com os desejos dele acima de Kirkel. Como eu faria aquilo sem que ele descobrisse meus planos para com o elfo me dava insônia. Planos e mais planos foram arquitetados em minha mente, repassando tudo e me fazendo sentir como uma marionete nas mãos do rei. Entretanto, estava feliz por conseguir ficar frente a frente com ele, trocar informações e segredos sem que me sentisse mal, sem que as lembranças de nosso romance torturassem minha mente e meu corpo todas as vezes que eu o sentia tão perto...

Contudo, percebi o quanto ainda o amava quando, por um deslize, ele voltou a me chamar de Ris. Eu amava o som da sua voz rouca sussurrando segredos na calada da noite, tão cauteloso e ao mesmo tempo tão à vontade perto de mim. Havíamos trocado segredos tão profundos em toda a nossa convivência que poderíamos acabar com a reputação um do outro apenas com algumas palavras, entretanto, ele ainda confiava em mim... e eu nele.

Nossa história não havia tido um fim, como eu havia imaginado quando me fui e decidi deixar tudo pra trás. Porque parece que, por mais que eu tente fugir dele, em algum momento nossos caminhos se cruzam e cá estamos nós de novo, face a face, trocando confidências e dependendo um do outro.

De alguma maneira Thranduil conseguiu uma carruagem para nós e dois de seus elfos para nos acompanhar até Valle. Quando vi, tentei não fazer cara de quem gostaria de mata-lo por estar chamando a atenção dos demais.

— Elfos? — Mirph comentou ao se deparar com nossos acompanhantes.

— Vossa majestade ordenou que as acompanhasse neste trajeto. — Uma das criaturas explicou. — Conhecemos atalhos que facilitarão a sua volta.

— Mas por que o rei ordenaria isso? — Matilda perguntou, voltando-se para mim.

— É de extremo interesse do rei elfo que Kirkel volte a plantar em suas terras. — Tentei explicar sem me comprometer, mas recebi um olhar argumentador de Mirph que não gostei nada. — Algumas das notícias que recebi vieram dele.

Matilda franziu o cenho encarando os dois ruivos à nossa frente, ambos montados em cavalos brancos e vestindo peças de couro bruto e espadas embainhadas em suas cinturas.

— Você confia neles? — Ela perguntou prendendo-se a cada detalhe em sua volta.

Suspirei e me dei conta de que aquilo não foi o combinado com o rei, mas como dizer isso sem levantar suspeitas?

— Claro... são elfos. Incapazes de fazer mal a alguém injustamente. — Forcei um sorriso, engolindo em seco logo após. Eu não tinha certeza sobre essa informação.

— Certo, podemos partir? — o elfo maior perguntou. Ele tinha muitas sardas, voz grossa e um corpo robusto.

Busquei ao redor procurando os olhos do rei em algum lugar. Sabia que estaria de olho em mim mais uma vez, com a esperança de que aceitasse a companhia sem fazer escândalo ou protestar.

— Tudo bem. — Cedi, desistindo de encontra-lo escondido atrás de alguma janela ou pilastra da estalagem. — Vamos.

Não há nada de interessante para se contar sobre essa viagem de volta além do fato de que foi muito mais cansativo do que esperava. A cada cidade mandava um cartão para Bard e Kirkel na esperança de que pudesse chegar lá antes de mim. Entretanto, os elfos eram rápidos e tinham urgência, os cavalos eram muito velozes e não pudemos parar por muito tempo em lugar algum a não ser para abastecer a comida, cuidar da higiene pessoal e de vez em quando os elfos dormiam, mas isso aconteceu apenas quatro ou cinco vezes durante toda a viagem! Já nós dormíamos dentro da carruagem, revezando de vez em quando o assento maior para nosso conforto.

Em longos quatro meses escutei Mirph e Matilda reclamarem de tédio e dores que, por muitas vezes, nem existiam. Matilda, principalmente, pois estava acostumada a lidar com muitas pessoas nos últimos tempos e, como os elfos mal trocavam uma palavra sequer conosco, parecia que estava também entrando num estado depressivo por falta de atenção.

As coisas em Valle já estavam um pouco diferentes quando chegamos. Kirkel já não estava em um estado tão depressivo quanto Thranduil dissera e isso me confortou ao ouvir da boca de Bard.

— Estou muito feliz por vê-las novamente. — Bard me abraçou emocionado. — Espero que a viagem tenha sido agradável e cheia de experiências.

— Foi muito proveitosa, admito. — Respondia, sentando-me no sofá da pequena sala de estar da casa que estávamos antes de partirmos. — Mas confesso que voltei por causa de Kirkel. Soube que ele não estava bem.

— Como disse, ficou em estado petrificado por alguns meses quando partiu, mas está se recuperando aos poucos. Tenho trabalhado com ele para que entenda que não está sozinho, Kirkel é como um irmão para mim.

— Ele está morando com você?

— Algumas vezes por semana ele dorme lá em casa, contudo, montou um pequeno cômodo em suas terras para trabalhar nelas. Dorme lá porque fica um pouco longe daqui... na verdade, acho que ele não suporta as lembranças que o local traz e prefere ficar por lá sozinho. — Bard concluiu.

— Então, ele voltou a plantar em suas terras? Isso é maravilhoso. — sorri sob essa perspectiva, afinal não teria tanto trabalho para convencê-lo quanto imaginei.

Servi uma xícara de chá para Bard, que logo aceitou.

— Sim, porém com extrema lentidão. Ele tem conhecimento do estado que estamos e sabe que precisamos voltar a plantar para alimentar o nosso povo, pelo menos. A colheita de café foi bastante fraca, mas deu para a população. Contudo, os elfos e anões precisam buscar longe ainda, fora as demais iguarias que as terras de Kirkel oferecia. — Ele esclareceu, uma veia saltando de sua testa e suas palavras carregadas de preocupação. — As terras que antes pertenciam ao senhor da cidade do lago estão inóspitas e, durante o verão, o cheiro lá atraiu tantos predadores e espantou a população que gostaria de toma-las para plantar. Está insustentável! Apenas as terras de Kirkel agora poderiam nos salvar.

Conseguia ver no olhar de Bard uma súplica e um pedido de socorro. Ele tentava não dizer que precisava de apoio para implorar ao amigo, mas eu sabia que entre as linhas de suas palavras o pedido estava lá. E eu não precisava ouvi-lo, Thranduil já havia feito por ele. Contudo, não contaria a Bard sobre o elfo, ele não precisava saber dos detalhes de nossa negociação.

— Poderia me dizer a localização exata de Kirkel neste momento? Quero vê-lo. — Pedi, notando a esperança reacender no olhar dele. — Só peço um favor, Bard. Precisa convencer às pessoas a voltarem a trabalhar.

Bard explicou-me que já havia mão de obra pronta, caso Kirkel ceda suas terras para o plantio. Disse-me também que alguns anões estavam dispostos a ajudar, já que estavam sendo bem prejudicados. Após isso, me disse com exatidão onde Kirkel estava, oferecendo-me um cavalo logo após para me locomover até ele. Aceitei o animal e, assim que Bard partiu, tomei fôlego para encarar Kirkel. Talvez ele não fale comigo nunca mais e até mesmo deseje minha morte por tê-lo abandonado mais uma vez sem ao menos pensar em seus sentimentos, mas precisava tentar. Concordava que eu era mesquinha e nunca havia parado para pensar no sofrimento das pessoas ao meu redor com as minhas atitudes: para mim, elas apenas iriam seguir com suas vidas e mal se lembrariam da minha presença posteriormente. Mas, como disse Thranduil há meses atrás: Você acha que não causa impacto na vida de ninguém, mas causa! E, com isso em mente, segui até as terras do meu antigo noivo, tratando de espantar o medo das consequências.

A noite estava caindo e ele provavelmente já teria acabado seu expediente. Segui até uma pequena e simples construção no meio de algumas árvores. Desci do cavalo e o prendi numa delas, batendo na porta logo após.

Contudo, ninguém atendeu. Parecia que estava trancado e vazio. Dei a volta na casa e, mais ao longe avistei uma lagoa. Kirkel estava nela, banhando-se distraído e seminu.

Me aproximei com cautela para não o assustar. Olhava para o lado oposto ao meu, observando o horizonte enquanto passava suas mãos no cabelo, que estava bem maior do que costumava ser. Sentei-me na grama e passei a contemplá-lo pelas costas, ele parecia em paz, aproveitando a companhia da solidão e uma vista realmente magnífica ao seu redor.

Uma cidade. — pensei comigo mesma. — Ali daria uma bela cidade. Com luzes, casas coloridas e um local de lazer. Era plano, limpo, com ar fresco e clima agradável, e, ao contrário de Valle, não seria feita de labirintos e casas tão velhas quando o barro da terra.

Afastei meus pensamentos ao me deparar com Kirk me encarando observar ao redor. Seu rosto transmitia um espanto que era até engraçado, confesso. Ele estava boquiaberto e com o semblante tão branco quanto o de Thranduil.

Não, não sou um fantasma. — era o que eu gostaria de dizer. Também gostaria de correr e abraça-lo, pedir perdão, dizer que ele era muito mais importante para mim do que eu conseguia demonstrar. Gostaria de gritar as mil desculpas que eu arquitetei nesses últimos meses para convence-lo a me perdoar, mas todas elas se foram no instante em que eu percebi que o que eu havia feito não era digno de perdão. De todas as pessoas envolvidas nessa bagunça, Kirk foi o mais afetado. E ele mal sabe dos meus sentimentos acima disso tudo, meus sentimentos para com ele e para com Thranduil. Por um instante compreendi o que se passava dentro dele; talvez me odiasse agora tanto quanto eu já odiei Thranduil. Talvez tenha passado noites chorando e tentando afastar as lembranças que tinha comigo. Porque eu sabia que ele me amava mais do que qualquer coisa nesse mundo, e Thranduil também sabia disso. Sabia que se eu voltasse, Kirkel faria qualquer coisa por mim, assim como eu estou aqui fazendo por ele, e essa conclusão não me agradou em nada.

Segundos nos encarando e eu ainda não conseguia falar nada, porque nada do que pensei em falar seria, de fato, verdadeiro. Tudo era uma manipulação do rei elfo e continuará sendo pelo resto dos nossos dias, tenho plena consciência disso.

Me levantei da grama e arranquei a roupa do meu corpo sem ao menos me preocupar se rasgaria ou não. Kirk me observava, o sangue voltando à sua face e os movimentos à suas pernas. Ele se aproximou da borda quando coloquei meus pés dentro da água e, sem ao menos pronunciar uma palavra, me segurou pela cintura segundos antes de conseguir beijá-lo.

Me entregaria a ele mais uma vez, e por diversas vezes a partir de agora. A mando do rei, confesso. A mando de sua felicidade. A mando do que é o certo. Afinal, ele era humano e eu também, e humanos devem ficar com humanos.

Humanos e elfos não se misturam.

Uma plebeia não pode se casar com um rei.

Quem eu estava pensando que era quando me deixei sonhar com a vida ao lado de Thranduil? Eu não era digna dele, e eu não sou, apesar de ama-lo tanto que dói em minha alma. Apesar de fazer tudo o que ele quer, e saber que ele domina meu corpo e meu ser. Eu era apenas uma tola e humana.

E, como disse, humanos e elfos não se misturam.

Não é?

Notas finais
Perguntinha que já respondi em Príncipe Légolas: humanos e elfos se misturam? suahuhushahshaush Belle e Melrise são bem parecidas, confusas, com sentimentos de inferioridade (apesar da Melrise sem bem mais segura do que a Belle)A Melrise tirará suas próprias conclusões mais tarde. Mas será por vingança? Por amor? Por (SPOILER) achar que a filha merece ser uma princesa? fica ai o questionamento. Até mais!