Notas iniciais
Sim, eu sei que o título do capítulo é tendencioso... Não me matem.

O amanhecer em Ithilien não trouxe a luz purificadora que Frieren esperava. Em vez disso, o sol nasceu pálido, filtrado por nuvens de chumbo, lançando uma luz cinzenta sobre o palácio que parecia expor cada pecado cometido na noite anterior.

Frieren estava em seus aposentos, penteando os cabelos diante do espelho de prata. Suas mãos tremiam levemente. Cada vez que a escova tocava seu couro cabeludo, ela sentia o fantasma dos dedos de Himmel.

A porta se abriu sem aviso.

Legolas entrou. Ele vestia sua túnica cerimonial de veludo verde-musgo, bordada com fios de ouro que formavam os padrões da Árvore Branca. Ele parou atrás dela, encontrando o olhar da esposa no reflexo do espelho.

Ele não gritou. Não quebrou móveis. Em vez disso, inclinou-se e cheirou o pescoço dela, exatamente onde Himmel havia deixado beijos febris horas antes.

— Você cheira a tempestade, minha Rainha — sussurrou ele, as mãos pousando nos ombros dela com um peso possessivo. E a algo mais. Algo... rústico.

Frieren sustentou o olhar dele, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela sabia que ele sabia. O olfato de um elfo não podia ser enganado, e a ausência dela na cama real não passara despercebida. Mas Legolas, em sua arrogância milenar, escolheu o jogo do poder em vez do confronto direto.

— O cheiro da chuva impregna a pedra — respondeu ela, a voz firme.

Legolas sorriu, um curvar de lábios que não alcançou os olhos.

— Cuidado, Frieren. A chuva alimenta a floresta, mas lama demais apodrece as raízes. — Ele apertou os ombros dela, cravando levemente as unhas na pele. — Hoje recebemos os humanos. Certifique-se de que seu bichinho de estimação se comporte. Se ele me envergonhar, ou se ele ousar olhar para o que é meu com cobiça... eu não precisarei executá-lo. Há destinos piores do que a morte nas masmorras de Mordor.

Ele beijou o topo da cabeça dela e saiu, deixando para trás um rastro de medo frio.

Ao meio-dia, os portões de Ithilien se abriram.

A comitiva de Rohan era um contraste brutal com a elegância etérea dos elfos. Enquanto os guardas de Legolas permaneciam imóveis como estátuas de mármore, segurando lanças de freixo polido, os humanos entraram com barulho e vida. Cavalos de guerra batiam os cascos no calçamento, armaduras de couro e ferro rangiam, e o cheiro de suor, fumo e cavalos invadiu o ar perfumado de jasmins.

À frente, cavalgava o Lorde Eomer, velho e marcado por batalhas, e ao seu lado, Lady Eowyn. Ela era jovem, com cabelos da cor do trigo maduro e olhos cinzentos que examinavam o palácio élfico com uma mistura de temor e curiosidade.

A cerimônia de recepção seguiu o antigo protocolo do Pacto das Águas. Legolas ofereceu vinho em taças de cristal; Eomer ofereceu peles de lobo branco e espadas de aço forjado. Era a troca simbólica entre a imortalidade e a sobrevivência, entre a arte e a guerra.

Frieren observava de seu trono elevado, ao lado de Legolas. Mas seus olhos buscavam Himmel.

Ele estava de pé junto aos conselheiros, vestindo uma túnica formal que parecia estranha em seus ombros largos. Ele não olhava para ela. Seus olhos estavam fixos no chão.

Quando a cerimônia terminou e os músicos começaram a tocar uma melodia lenta, Legolas desceu do estrado. Frieren o viu caminhar até Himmel. O Rei Elfo colocou a mão no ombro do humano — um gesto que parecia amigável para a corte, mas Frieren viu a tensão no maxilar de Himmel.

Legolas inclinou-se e sussurrou algo no ouvido dele.

Foi breve. Não durou mais que um segundo. Mas o efeito foi devastador.

Himmel, o homem que desafiara a morte em partos sangrentos, o mercenário que rira na cara de guardas armados, estremeceu. Seu rosto perdeu toda a cor, tornando-se uma máscara de horror absoluto. Seus olhos se ergueram e encontraram os de Frieren por um instante — um olhar de despedida tão profundo que ela sentiu o ar faltar.

Então, ele baixou a cabeça em submissão. Legolas sorriu, deu dois tapinhas no rosto dele e afastou-se, vitorioso.

Na manhã seguinte, Frieren não esperou. Ignorando o protocolo e os guardas, ela correu para a Ala Leste.

Ao entrar nos aposentos de Himmel, encontrou o caos. Baús estavam abertos, roupas espalhadas. Ele não estava desfazendo as malas; estava fazendo-as.

— O que significa isso? — exigiu ela, fechando a porta e encostando-se nela para recuperar o fôlego.

Himmel parou de dobrar uma camisa de linho. Ele não se virou imediatamente. Quando o fez, seu rosto estava fechado, duro como pedra.

— Significa que estou partindo, Majestade.

— Partindo? — Frieren avançou, a descrença colorindo sua voz. — O acordo era o casamento! Você deveria ficar aqui, no palácio, com sua esposa. Esse era o único jeito de...

— O acordo mudou — cortou Himmel, a voz fria e impessoal. — Lady Eowyn sente falta das planícies. Ela não quer viver em uma floresta de pedra e magia. Eu concordei em me mudar para as terras de Rohan. Vamos viver na fronteira.

— Você... concordou? — Frieren sentiu as pernas fraquejarem. — Você vai embora? Para sempre?

— É o melhor para todos — disse ele, voltando a enfiar livros num caixote com uma violência desnecessária. — Eu nunca pertenci a este lugar, Frieren. Foi um sonho febril. Eu sou humano. Meu lugar é entre os meus, envelhecendo, sangrando e morrendo na lama, não brincando de imortal.

— E nós? — sussurrou ela, a dor da rejeição queimando mais do que a fúria. — E a noite passada? O que você me disse... que viveria apenas para me ver... era mentira?

Himmel parou. Suas costas estavam rígidas.

— Foi um erro — disse ele, áspero. — Foi o vinho e o desespero de um prisioneiro. Esqueça. Volte para seu Rei, cuide do seu filho e deixe-me ir.

A fúria de Frieren explodiu.

— Como você ousa? — Ela o agarrou pelo braço, forçando-o a encará-la. — Eu me entreguei a você! Eu arrisquei tudo! E você aceita o exílio com essa facilidade covarde? O que Legolas te disse? O que ele ameaçou?

— Ele não precisou ameaçar nada! — gritou Himmel, soltando-se dela. — Eu escolhi ir! Porque eu cansei, Frieren! Cansei de ser o segundo. Cansei de ser o brinquedo da Rainha. Eu quero uma vida real.

Era mentira. Frieren viu nos olhos dele. Viu o terror brilhando lá no fundo, viu o sacrificio que ele estava fazendo. Legolas devia ter ameaçado algo que Himmel valorizava mais do que a própria vida. E só havia uma coisa que Himmel valorizava mais do que a vida.

Ela.

A compreensão a atingiu. Himmel estava partindo para salvá-la. Para salvar o filho que ela carregava.

O silêncio caiu entre eles, pesado e triste.

Himmel viu que ela tinha entendido. A máscara de frieza rachou, e o homem apaixonado emergiu uma última vez.

Ele deu um passo à frente e segurou o rosto dela entre as mãos. Seus dedos eram ásperos, quentes, reais.

— Você é o ser mais incrível que já caminhou sob o sol ou a lua — sussurrou ele, a voz embargada. — Eu vivi treze anos com a sua imagem gravada na minha alma. E eu vou morrer, seja daqui a cinquenta anos ou amanhã, com o gosto do seu beijo nos meus lábios.

Ele abaixou a cabeça e a beijou. Não foi um beijo de desejo como na noite anterior. Foi um beijo de adoração. Um beijo de despedida. Suave, lento e devastadoramente triste.

— Eu te amarei até que as estrelas caiam, Frieren — prometeu ele contra a boca dela. — Mas eu não posso ficar. Se eu ficar... a escuridão vencerá.

Ele se afastou, pegou seu alforje e caminhou até a porta.

— Adeus, minha Rainha.

Frieren ficou parada no meio do quarto, ouvindo os passos dele desaparecerem no corredor. Ela levou a mão aos lábios, onde o calor dele ainda persistia, e sentiu a primeira lágrima escorrer. Ela era imortal, poderosa e Rainha. Mas naquele momento, enquanto o homem que amava partia para o esquecimento humano, ela nunca se sentiu tão pequena e impotente.

Notas finais
Peço desculpas pelo capítulo minúsculo, mas eu não tive forças para desenvolver ainda mais sofrimento kkkkk.