A Última Garrafa de Dorwinion - Frimmel

10 O Ladrão de Cinzas (Flashback)


Nove anos atrás.

A estrada que cortava o vale ao norte da Floresta das Trevas era pouco mais que uma cicatriz de lama e pedra. A chuva caía fina e persistente, transformando o mundo em um borrão cinzento, um espelho melancólico do humor do Rei Elfo.

Legolas cavalgava à frente de sua guarda pessoal. O garanhão branco, Arod, bufava impaciente, as narinas dilatadas pelo cheiro de chuva e ozônio. Eles retornavam de uma viagem diplomática às Montanhas de Ferro, onde Legolas visitara seu velho amigo, Gimli. A visita fora agradável, regada a hidromel e nostalgia, mas o retorno parecia carregar um peso agourento.

— Majestade — chamou um dos tenentes, apontando para uma coluna de fumaça negra que subia, espessa e oleosa, contra o céu chumbado. — Parece haver problemas adiante.

Legolas estreitou os olhos de falcão. Aquela não era fumaça de lareira. Era o cheiro inconfundível de destruição. Madeira tratada, tecido, carne... e magia residual.

— Vamos — ordenou ele, esporeando o cavalo.

Ao chegarem à clareira, o cenário era desolador. O que antes fora uma habitação humana agora era um esqueleto de vigas carbonizadas. O fogo não deixara nada. O teto desabara, as paredes eram montículos de cinzas quentes. Para Legolas, aquilo não evocava memória alguma; era apenas mais uma cicatriz na terra, mais uma prova da fragilidade das construções e das vidas humanas, que queimavam tão rápido quanto palha seca.

E no meio daquele cemitério de destroços, havia uma figura.

Era um garoto, não mais que um adolescente, magro como um galho seco. Ele estava coberto da cabeça aos pés por uma fuligem negra que o tornava quase invisível contra os escombros. Ele cavava freneticamente com as mãos nuas, movendo vigas que ainda fumegavam, sem se importar com as queimaduras.

Legolas desmontou com a leveza de uma folha caindo.

— Garoto — chamou ele. A voz élfica cortou o som da chuva.

A figura parou. O garoto girou nos calcanhares, segurando um pedaço de ferro retorcido como se fosse uma espada. Seus olhos, a única parte limpa de seu rosto, brilhavam com o branco do pânico e da fúria selvagem.

Legolas não o reconheceu. A fuligem era uma máscara perfeita, e quatro anos haviam esticado os membros daquele menino, transformando-o em um espectro de fome e luto. Para o Rei, ele era apenas mais um órfão humano, uma vítima anônima da crueldade aleatória da Terra Média. O destino, pensou Legolas com frieza, parecia se divertir castigando essa raça efêmera.

— Não se aproxime! — rosnou o garoto, a voz falhando, rouca pela fumaça inalada.

— Abaixe isso — disse Legolas, calmo, mas com autoridade. Ele retirou o capuz, revelando as orelhas pontudas e o cabelo loiro platinado, mas o garoto estava atordoado demais, cego pela dor, para processar quem estava diante dele. Para Himmel, aquele elfo majestoso era apenas mais um perigo, mais um abutre vindo saquear o que restava.

— Não há nada aqui para vocês — cuspiu Himmel, apertando o ferro contra o peito. — O fogo levou tudo. Elas... elas se foram.

Legolas sentiu uma pontada de piedade, um sentimento raro para ele quando se tratava de humanos desconhecidos. Havia algo na tenacidade daquele moleque, na maneira como ele defendia uma pilha de lixo como se fosse um tesouro, que lhe inspirava um respeito distante.

— Guardem as armas — ordenou Legolas aos seus homens. Ele se aproximou devagar, retirando um odre de água e um pacote de lembas de seu alforje. — Não viemos saquear, criança. Beba.

Himmel hesitou. A sede era uma lixa em sua garganta. Ele olhou para o odre, depois para o elfo. A mão de Legolas estava estendida, a pele imaculada contrastando com a sujeira do mundo ao redor.

Himmel largou o ferro e pegou o odre, bebendo com sofreguidão, a água escorrendo pelo queixo sujo, criando rios de pele limpa na máscara de fuligem.

— Para onde você vai? — perguntou Legolas.

— Não tenho para onde ir — respondeu Himmel, limpando a boca com as costas da mão.

— Suba — disse Legolas, indicando um dos cavalos de carga. — Nós o deixaremos na próxima vila humana, em Bri. Lá você encontrará abrigo.

Himmel não agradeceu. Ele apenas assentiu, derrotado, e montou no cavalo com dificuldade. Durante toda a viagem, ele manteve o capuz de seu manto esfarrapado puxado sobre o rosto, recusando-se a falar, recusando-se a olhar para os seus salvadores. Ele era um buraco negro de silêncio no meio da comitiva brilhante.

A noite caiu fria e úmida. O grupo acampou perto de um riacho. Os elfos, que não precisavam de muito sono, cantavam baixinho canções antigas sobre as estrelas. Himmel fingiu dormir, enrolado em um cobertor élfico que cheirava a pinho e sabão, um cheiro que o enjoava por ser tão limpo em comparação à podridão de sua vida.

Quando a lua foi encoberta por nuvens pesadas, Himmel abriu os olhos.

Ele não era um mendigo. Ele era um sobrevivente. E sobreviventes não dependiam da caridade de estranhos bonitos. Sobreviventes tomavam o que precisavam.

Com movimentos de gato, ele se esgueirou até os suprimentos. Suas mãos, ágeis mesmo tremendo de frio, pegaram pão élfico, um odre de vinho, uma adaga curta com cabo de madrepérola e, num ato de ousadia impensada, uma pequena bolsa de moedas de prata que estava presa à sela de Arod, o cavalo do líder.

Ele se virou para fugir, desaparecendo na escuridão da floresta como fumaça.

Himmel correu por quilômetros, ignorando os galhos que açoitavam seu rosto, ignorando o cansaço. Ele só parou quando seus pulmões queimaram. Encostou-se em uma árvore, ofegante, e olhou para o saque. Aquilo o manteria vivo por meses.

Um estalo de galho seco atrás dele fez seu sangue gelar.

Himmel girou, a adaga roubada em punho.

Legolas estava lá.

O elfo não parecia ter corrido. Ele estava parado, imóvel como uma árvore, o arco longo em mãos, uma flecha já encaixada na corda. A ponta de aço brilhava na escuridão, apontada diretamente para o coração de Himmel.

— Eu lhe ofereci pão e proteção — disse Legolas. A voz não tinha a piedade de antes. Tinha o frio das geleiras. — E você me paga com roubo.

Himmel engoliu em seco. Ele sabia que não podia correr. Não de um elfo.

— Eu precisava — disse Himmel, a voz trêmula mas desafiadora. — Vocês têm tudo. A eternidade, o ouro, a magia. Eu não tenho nada. Minha família virou pó ontem. O que são algumas moedas para um Príncipe Imortal?

Legolas puxou a corda um pouco mais. A tensão no arco gemia suavemente.

Himmel não sabia, mas naquele momento, Legolas lutava contra um instinto sombrio. Havia algo naquele garoto... uma aura de caos, uma mancha na ordem natural das coisas. Uma voz antiga na mente de Legolas sussurrava: Mate-o. Ele trará dor. Ele é uma erva daninha que vai sufocar seu jardim.

O Rei Elfo sentiu o desejo de soltar a flecha. Seria fácil. Seria limpo. Ninguém sentiria falta de um ladrãozinho sujo de fuligem na floresta. Ele viu a sujeira no rosto do garoto, os olhos selvagens... mas não viu quem ele realmente era. A fuligem escondia as feições daquele menino que, quatro anos antes, trouxera água quente para o parto de seu filho morto. Para Legolas, aquele era apenas mais um encontro infeliz com a raça dos homens.

Se ele soubesse... se Legolas tivesse reconhecido o filho da parteira sagrada, talvez o tivesse levado de volta à força. Ou talvez o tivesse matado ali mesmo para cortar o mal pela raiz.

Mas ele viu apenas um rato humano desesperado.

— A misericórdia é um luxo que você acabou de esgotar — disse Legolas, baixando o arco lentamente. — Fique com o ouro. Fique com a lâmina. Mas se eu vir o seu rosto novamente em minhas terras, garoto... a flecha não hesitará.

Himmel não esperou por uma segunda ordem. Ele virou as costas e correu, desaparecendo na noite, levando consigo o ouro élfico que financiaria seus primeiros anos como mercenário.

Legolas ficou observando a escuridão por um longo tempo, sentindo um gosto amargo na boca. Ele guardou a flecha, sem saber que acabara de poupar a vida do homem que, anos depois, roubaria algo muito mais precioso do que moedas de prata: o coração de sua Rainha.