A Última Garrafa de Dorwinion - Frimmel
6 O Rato, o Rei e a Bênção
O Conselho Real de Ithilien era um espetáculo de tédio solene.
Em torno da grande mesa de madeira petrificada, doze dos mais sábios elfos discutiam rotas comerciais de vinho e a poda das árvores ancestrais. Frieren estava sentada à cabeceira, o rosto apoiado em uma mão pálida, os olhos fixos em um feixe de luz que atravessava o vitral e iluminava a poeira flutuante.
Ela estava fisicamente presente, vestida em veludo azul profundo e prata, mas sua mente estava presa nas masmorras, enrolada na escuridão úmida junto ao humano.
As palavras dos conselheiros soavam como o zumbido de insetos distantes. Frieren não conseguia parar de analisar a sensação que tivera na cela. A insolência dele. A maneira como ele a olhou — não como uma divindade intocável, mas como uma mulher. E, acima de tudo, a competência brutal daquelas mãos sujas de sangue. Havia uma familiaridade nele que coçava no fundo de sua memória milenar, um eco de algo que ela deveria recordar, mas que escapava como fumaça.
— Minha Rainha? — A voz de um conselheiro rompeu seu devaneio. — Vossa Majestade concorda com a taxação dos mercadores de Rohan?
Frieren piscou, voltando à realidade. Antes que pudesse formular uma resposta vaga, uma mão pesada pousou sobre seu ombro. Legolas estava de pé ao lado dela, e a tensão em seus dedos irradiava calor.
— A Rainha está indisposta — cortou Legolas, a voz afiada como uma adaga recém armada. — A sessão está encerrada. Saiam. Todos.
Os conselheiros, percebendo a tempestade silenciosa nos olhos do Rei, recolheram seus pergaminhos e se retiraram com reverências apressadas. Assim que as portas duplas se fecharam, o silêncio no salão tornou-se sufocante.
— Você não ouviu uma palavra do que foi dito na última hora — acusou Legolas, girando a cadeira dela para que o encarasse. — Sua mente está com ele. Com o prisioneiro.
— Ele salvou uma criança élfica, Legolas — defendeu-se Frieren, mantendo a voz calma, embora seu coração tivesse acelerado. — É natural que eu esteja... intrigada. O fato de um humano possuir tal habilidade é—
— É feitiçaria! — explodiu Legolas, andando de um lado para o outro, a capa verde esvoaçando. — Nenhum homem possui tal dom. Ele usou magia negra para seduzir a morte e enganar seus olhos. E temo que tenha usado o mesmo para nublar seu julgamento.
— Meu julgamento é claro — retrucou ela, levantando-se e encarando o marido. — Eu vi técnica, não magia. Vi suor e esforço.
Frieren deu um passo em direção a ele, os olhos faiscando com uma determinação rara.
— Você fala em execução com a leveza de quem despeja vinho, Legolas. Mas pense. Pense no berço vazio no quarto ao lado. Pense no silêncio que engole Ithilien a cada ano que passa. Se matarmos esse homem, e se ele for realmente capaz de replicar o que fez... estaremos assinando nossa própria sentença de extinção.
Legolas parou de andar. Ele se virou lentamente, e a máscara de fúria deu lugar a um medo gélido, algo que ele raramente deixava transparecer.
— E se o deixarmos viver? — sussurrou ele, aproximando-se dela até que estivessem a centímetros de distância, a respiração dele quente contra o rosto dela. — Se permitirmos que um humano, com suas mãos sujas e vida efêmera, toque no que há de mais sagrado para nós? Você não entende, Frieren? A sobrevivência a qualquer custo é o caminho das sombras. Se ele corromper nossa essência com truques vis, o que sobrará para ser salvo?
— Sobrarão nossos filhos — respondeu Frieren, implacável. — Prefiro uma raça que sobrevive com ajuda imperfeita do que uma raça pura que se torna apenas pó e memória. Não deixe seu orgulho, ou seu ciúme, condenar nosso povo ao esquecimento eterno.
A acusação de ciúme fez a mandíbula de Legolas trincar, os olhos estreitando-se perigosamente. O silêncio esticou-se entre eles, tenso como a corda de um arco prestes a arrebentar.
— Então vamos ver o que ele diz quando eu arrancar a verdade dele — rosnou Legolas, agarrando o pulso de Frieren com força possessiva, ignorando o argumento dela, mas sentindo o peso dele. — Leve-me até ele. Agora. Vou expor essa farsa antes de executá-lo.
Frieren não resistiu. Ela sabia que negar só alimentaria a paranoia do marido. Eles desceram as escadas em espiral rumo às celas, o ar ficando mais frio a cada degrau. Legolas emanava uma aura assassina. Ele não estava apenas protegendo o reino; estava protegendo sua propriedade. O interesse, por menor que fosse, que ele detectara nos olhos da esposa era uma ofensa imperdoável.
Ao chegarem à cela, Legolas dispensou os guardas com um gesto brusco e escancarou a porta.
Himmel estava na mesma posição, encostado na parede de pedra, girando um pedaço de palha entre os dedos. Ao ver a luz invadir o recinto e a figura imponente do Rei Elfo bloquear a saída, ele não estremeceu. Pelo contrário, um sorriso preguiçoso e insolente curvou seus lábios.
Legolas congelou.
A fúria cega deu lugar a um reconhecimento gelado. Os olhos de elfo, capazes de ver um pardal a léguas de distância, focaram no rosto do humano. Dez anos haviam endurecido os traços, criado barba e cicatrizes, mas a essência arrogante era a mesma.
— Você... — sussurrou Legolas, a incredulidade misturando-se ao ódio. — O rato da cabana.
Himmel soltou uma risada baixa, levantando-se devagar, limpando a poeira das calças como se estivesse em uma sala de estar, e não diante de seu carrasco.
— Majestade — cumprimentou Himmel, com uma reverência exagerada e zombeteira. — Vejo que sua memória é tão afiada quanto dizem as lendas. E vejo também que continua o mesmo... sempre decidindo com a cabeça quente, e não com a sabedoria que um imortal deveria ter.
A referência ao conselho vulgar que Legolas lhe dera anos atrás — sobre pensar com a "cabeça de cima" — atingiu o elfo como um tapa. Legolas sacou sua espada élfica num movimento fluido, a lâmina zunindo ao cortar o ar, parando a milímetros da garganta de Himmel.
— Eu deveria ter castrado você naquele dia — sibilou Legolas, a ponta da espada tremendo de raiva contida. — E depois cortado sua garganta. Teria poupado o ar do meu reino de ser contaminado pela sua respiração.
— Legolas, não! — Frieren interpôs-se, colocando a mão sobre o braço armado do marido.
Mas ela não estava olhando para a espada. Ela estava olhando para Himmel, de olhos arregalados, enquanto as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixavam com um estalo ensurdecedor em sua mente.
A cabana. O parto do natimorto. O garoto que trouxera a água quente. A família de parteiras.
— É você... — Frieren sussurrou, a mão cobrindo a boca em choque. — Você é o filho dela. O irmão das quatro meninas.
Himmel desviou o olhar da lâmina para encontrar os olhos de Frieren. A ironia desapareceu, restando apenas aquela intensidade dolorosa.
— Sou o único que sobrou, Frieren. O fogo levou todas elas.
— A linhagem de Yavanna... — murmurou ela, a mente trabalhando rápido. — Mas é impossível. A bênção é matrilinear. Passa de mãe para filha. Os homens da sua família nunca possuíram o dom. Como? Como você fez aquilo ontem?
— Eu não sei — respondeu Himmel, e pela primeira vez, parecia sincero. — Talvez o fogo tenha mudado as regras. Talvez Yavanna tenha sentido pena do último sobrevivente. Ou talvez... eu apenas prestei mais atenção do que qualquer filha jamais prestou, porque eu sabia que um dia precisaria disso para chegar até você.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Legolas olhava de Himmel para Frieren, vendo a conexão invisível se formar, a compreensão mútua de uma tragédia compartilhada. O ciúme queimou seu peito, ácido e vil. Ele queria matar aquele humano ali mesmo. Mas ele era um Rei. E seu reino estava morrendo sem crianças.
— Ele é a chave, Legolas — disse Frieren, virando-se para o marido, assumindo sua postura de Rainha, fria e pragmática, embora por dentro estivesse em tumulto. — Ele carrega o conhecimento perdido. Se o matarmos, condenamos nossa raça à extinção.
Legolas trincou os dentes, os músculos da mandíbula saltando. Ele olhou para Himmel, que sustentou o olhar sem medo, desafiando-o. O elfo sabia que Frieren estava certa. Mas sabia também que manter aquele homem vivo era convidar uma serpente para sua cama.
— Ele não é um mago — continuou Frieren, pressionando. — Ele é um milagre biológico. Precisamos dele.
Legolas embainhou a espada com violência, o som metálico ecoando na cela.
— Muito bem — cuspiu ele. — Solte-o.
Himmel sorriu, mas o sorriso morreu quando Legolas o agarrou pelo colarinho, puxando-o para perto, rosto a rosto.
— Você será o Parteiro Real — decretou Legolas, a voz baixa e perigosa. — Viverá no palácio, sob minha vigilância constante. Mas ouça bem, rato: eu vejo como você olha para ela. Eu vejo a doença em sua mente.
Legolas apertou o colarinho até Himmel engasgar levemente.
— Se você tocar em um fio de cabelo dela que não seja por necessidade médica... Se você ousar desrespeitar minha corte ou minha cama... Eu não vou apenas matá-lo. Eu vou entregá-lo aos orcs das montanhas e garantir que você viva tempo suficiente para implorar pela morte. Fui claro?
Himmel, mesmo com o ar faltando, conseguiu manter o escárnio nos olhos.
— Cristalino, meu Senhor.
Legolas o soltou com um empurrão, fazendo-o bater contra a parede, e saiu da cela, a capa girando furiosamente.
— Limpe-o e traga-o — ordenou o Rei sem olhar para trás. — Temos trabalho a fazer.
Frieren ficou sozinha com Himmel por um momento. Ela deveria estar aliviada, mas sentia um frio na barriga que não tinha nome.
— Você brinca com fogo, Himmel — disse ela suavemente.
Himmel ajeitou a roupa, o sorriso torto voltando ao lugar.
— Eu nasci no fogo, Frieren. É o frio desse castelo que me preocupa.
Frieren balançou a cabeça, incapaz de conter um leve sorriso, e gesticulou para que ele a seguisse. O jogo havia começado, e nenhum dos três sabia quem sairia queimado no final.
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