A Última Filha de Astra

1 Capítulo I - Bela Normalidade


Notas iniciais
Eu já tinha postado essa história no Nyah há alguns anos - não sei quanto tempo, minha memória é péssima - com outro título e com personagens com nomes diferentes, mas quando não fiquei feliz com o rumo que ela estava tomando resolvi exclui-la. Por muito tempo sofri com um bloqueio criativo e consequentemente não escrevi e postei muitas fanfics, mas finalmente retornei. Espero que vocês gostem dessa nossa versão, mesmo que não tenham lido a antiga versão. Com carinho, Mandy Cruz.

Capítulo I – Bela Normalidade.

Luna Albuquerque

A Sr ª. Beaumont, a professora de francês da minha classe, não é uma pessoa de personalidade ou de aparência agradável, seu rosto pálido e enrugado parece petrificado no mesmo semblante de descontentamento e tédio desde que a conheço, seus olhos amendoados duas pedras de gelo e quando ela olha para alguém há um brilho desdenhoso em suas pupilas que me faz sentir tão pequena, por isso quando a mesma passa ao lado da minha carteira no meio da prova não posso me impedir de encolher em direção a parede, afastando-me o máximo que consigo dela. Sinto seu olhar intenso pousar sobre mim por alguns instantes antes dela prosseguir com sua caminhada até o fundo da sala. Pergunto-me se ela tem consciência de como sua presença é opressora para os alunos ou se a Sr ª Beaumont age dessa maneira de propósito porque ela é simplesmente uma mulher sádica.

Mordisco o interior da bochecha e encaro desesperadamente a folha de prova. Por que entre as línguas estrangeiras disponíveis para cursar eu tive que escolher logo francês? Quero dizer, a língua mais falada não é o inglês – tecnicamente é o madarim, mas isso não vêm ao caso. Afinal de contas, em quantos lugares do mundo se fala francês além da França? Eu tinha estudado tanto nas últimas semanas com Cataline e Sofia e para quê? Esquecer todo o conhecimento adquirido como mágica no exato momento em que segurei em minhas mãos a folha de prova! Ainda assim, no fundo da mente escuto a voz do meu irmão dizendo que isso era apenas nervosismo inicial, ele me pedia calma com seu tom de voz tranquilo e falava para me concentrar, pois todo o conhecimento retornaria, então é isso que faço, fecho os olhos, respirando profundamente e expiro e quando finalmente abro os olhos não há nada. Não está funcionando! Meu Deus, não está funcionando! O que eu vou fazer? Se eu não passar nessa matéria eu estarei tão ferrada, meus pais vão enlouquecer e Felipe vai tripudiar de mim pelo resto do ano. Ok, Luna, não é momento para desespero, eu ainda tenho quarenta minutos de aula… e quem eu tô querendo enganar? Só tenho quarenta minutos e uma prova inteira sem respostas, é lógico que não vou conseguir terminar essa bagaça! Respiro profundamente novamente, é vou ter que chutar. Essa não é primeira vez que faço isso e provavelmente não será a última, mas é como meu pai diz, é melhor escrever alguma baboseira e ter tentado do que não escrever nada e falhar mesmo assim.

Quarenta minutos depois e a Sr ª. Beaumont para em minha frente, sobrancelhas arqueadas e lábios curvados em um sorriso feral ao me ver ainda escrevendo, observo-a com olhos esbugalhados quando ela brutalmente tira do me alcance a folha de prova, sem poder fazer nada para impedi-la. Suspiro ao recolher meus pertences, pelo menos tinha respondido sete questões e meia, posso dizer que sai no lucro, não é mesmo? Tanto faz nessa altura do campeonato, pois embora seja o intervalo, ainda tenho que encarar mais duas provas mais tarde antes de enfim me ver livre para hibernar no meu dormitório até a próxima segunda-feira. Sigo Catalina e Sofia em direção ao refeitório, atenta em sua conversa sobre a prova, entretanto sem dar minha opinião.

A comida de sexta-feira no refeitório é uma das melhores da semana, porque saímos da rotina de alimentação saudável e nos é permitido escolher entre hambúrguer, pizza, batata frita e qualquer outro alimento proibido nos demais dias. É realmente empolgante, mas não é motivo para todos os alunos agirem como animais para conseguir um pedaço de carne. Cara, tem comida para todo mundo, não há necessidade de tamanha algazarra!

— Ele é muito estranho. – Catalina chama minha atenção com sua fala e imediatamente acompanho seu olhar até o aluno novo.

— Quem em sã consciência se transfere no meio das provas? – Sofia acrescenta logo em seguida.

Verifico o aluno novo com certo desgosto quando noto sua maneira de vestir, jaqueta de couro sobre uma camisa branca, calça jeans e tênis surrado. O que ele era? O estereótipo de Bad Boy ambulante? Eu ainda escutei que ele tinha uma moto Harley Davison no estacionamento da escola, apesar de nenhum de nós ter idade o suficiente para dirigir, eu sei que não deveria tomar como verdade as fofocas ditas nos corredores, porém é difícil de as ignorar quando o aluno novo emana uma aura gritante de “menino mau” e misterioso.

— Ele é um clichê, eu até acho que nossa Regina George perderá seu lugar como maior clichê da escola se ele continuar se vestido e agindo dessa forma. – Comento após dar uma mordida em hambúrguer.

Sofia gargalha e Catalina me olha com o cenho franzido.

— Eu realmente não entende porque vocês continuam chamando Rebeca de Regina George, o filme Menina Malvadas não é tão bom assim. – Catalina retruca cruzando os braços. Ela não está defendo Rebeca, ninguém do nosso grupo gosta de Rebeca, na minha opinião ela só está exausta de nossos comentários sobre Meninas Malvadas e acredite tanto Sofia e eu podemos ser chatas quando se trata de fazer referências.

— Nós chamamos Rebeca de Regina George, porque ela fale a age como tal. – Respondo simplesmente e tomo um pouco do meu refrigerante.

— E nunca mais repita que Meninas Malvadas não é um filme tão bom. Isso é blasfêmia! Meninas Malvadas é barro! – Sofia brinca e eu quase engasgo com o refrigerante quando começo a rir. – Mas mudando de assunto, o estudante novo até que é uma graça. – Apoiando a cabeça nas mãos, Sofia solta um suspiro sonhador e eu reviro os olhos.

Não vou mentir, o clichê ambulante é de fato bonito. Ele é alto, mais alto do que Catalina que tem 1,81, ele não é extremamente musculoso e nem extremamente magro, seu formato de rosto é quadrado e é emoldurado por um cabelo escuro aparentemente sedoso e constantemente bagunçado. E como odeio admitir, seus olhos são lindos quando não estão escondidos atrás do óculos escuros, sendo azuis-claros e brilhantes.

— Ele é suspeito. – Catalina murmura.

— E você é paranoica, deixa o pobre rapaz em paz, ele não fez nada, além do mais nós deveríamos estar mais preocupadas com a prova de matemática que vai começar daqui a dez minutos do que a vida alheia. – Rebato.

— Deus salve minha alma agora, porque depois dessa prova eu provavelmente estarei morta. E já deixo avisado que não inclui nenhuma das duas no meu testamento, então nem cheguem perto da minha coleção de livros. É sério, mantenham suas garras longe dos meu livros do Harry Potter! – Sofia fala e Catalina a empurra.