A caminho da Sala Precisa, um retrato da tragédia: corpos, gente agonizando, pessoas gravemente feridas. O cheiro de sangue dominava o ar de Hogwarts.
— Foi para evitar coisas como essa, Blaise, que seu pai... Mas algo tirou a atenção de Sofia. Ela queria seguir reto, sair daquele ambiente cheirando a morte e levar o filho para um lugar seguro, com sorte, a batalha acabaria sem que Blaise se arriscasse ainda mais. Porém, entre os feridos ela viu um garoto, obviamente um menor de idade que voltara escondido para Hogwarts. Ele certamente sentia muita dor: tentava, sem sucesso, se levantar, e chorava muito. Sofia não resistiu, foi até o garoto e perguntou quem era e onde era o ferimento.
— Colin, o garoto respondeu, com dificuldade. – Minhas pernas doem muito, eu não consigo me levantar.
— Porque você não foi com os outros? Você é uma criança!
— Hogwarts... Precisava... de nós.
— Colin, ela disse, gentil. – Olhe para mim. Eu vou curar suas pernas. Vai doer, mas eu preciso que você seja corajoso e não grite.
— Tá bom. Obrigado, ele respondeu com a voz fraca.
Ela executou um feitiço não verbal para consertar os ossos das pernas de Colin, que, apesar da dor, não gritou.
— Agora, você vai sair daqui e se esconder. Cadê sua varinha?!
— Estou sem varinha. Um Comensal me desarmou e ia me dar para Greyback – a pele de Colin se arrepiou só de lembrar – mas dois alunos da Sonserina e a auror Tonks apareceram na hora e começaram a duelar com eles. Mas o Comensal explodiu uma das paredes, e com a explosão eu caí.
Mesmo gravemente ferido, Blaise sentiu uma onda de felicidade e gratidão. Então ele e Theodore não foram os únicos da Sonserina a defender Hogwarts, outros também estavam lutando pela escola.
Valeu a pena, Theodore, Blaise pensou. Sofia pegou a varinha de um bruxo caído perto dali e deu a Colin.
— Temos que ir agora. Prometa que vai procurar um lugar seguro. Você já fez a sua parte. Colin aquiesceu. Sofia voltou para debaixo da capa. Eles seguiram para a Sala Precisa.
— Preciso da sala onde tudo se esconde, Blaise falou, e a porta se abriu.
Montanhas de objetos escondidos há séculos formavam a decoração da Sala. Havia livros, estátuas, vassouras velhas, jóias, tapetes, caldeirões, frascos usados de poção, cadeiras.
— O que foi, filho?! Ela o sentou numa cadeira, Blaise cuspia sangue pela boca.
— Antes do ataque dos dementadores, eu e Luna duelamos com Dolohov e Travers, e nesse duelo eu recebi dois Cruciatus de Dolohov. Nott me salvou. A senhora não sabe o que eles fizeram com Hogwarts. Nós tínhamos que praticar a Maldição Cruciatus nos alunos que recebiam detenções. Uma vez eu quase fui torturado, quando fingi estar bêbado para impedir que os Carrow pegassem Miguel Corner soltando um aluno de primeiro ano que estava acorrentado, mas eu não consegui. Corner foi torturado, e Carrow me derrubou e me chutou várias vezes. Sofia apenas escutava, sentindo raiva, surpresa e indignação. Blaise cuspiu mais sangue.

— Preciso que você fique calmo, filho. Blaise assentiu.


Sofia murmurou encantamentos para estancar o sangue que o filho cuspia, provavelmente a Maldição Cruciatus atingira seus órgãos internos. Lágrimas caíam enquanto ela cuidava do filho amado, tão parecido com ela e também com o marido, o único homem que amara e que lhe fora tirado à força.
— Mãe, Blaise falou, enquanto cuspia sangue, eu preciso saber, como meu pai realmente morreu?
— Vou lhe contar, filho. Apenas escute enquanto eu aplico os feitiços para parar esse sangramento.
...
Era noite. Em um quarto à luz de velas, uma mulher olhava para a lareira, aguardando. Havia uma mesa posta para dois. Pela janela, dava para ver o céu estrelado. Finalmente, chegou o momento que Sofia esperava: as chamas ficaram verdes e um homem apareceu. Era alto, usava vestes negras. O homem colocou a varinha sobre a mesa e foi ao seu encontro. Eles se abraçaram e se beijaram.
— Pietro, isso tem que parar! Onde você estava com a cabeça quando aceitou essa missão?!
— Calma, amore mio, ele respondeu, levando a para a janela.
— Como você quer que eu fique calma? E se Você Sabe Quem descobrir que você é um agente duplo?!
— Ele não vai descobrir. E falando nisso, em breve ele pagará por todo o mal que vem causando em nome dessa ideia distorcida de “pureza de sangue”
— E quem o fará pagar? Você, ela respondeu, sarcástica.
— Há uma profecia. Profecia essa que diz que nascerá o bruxo que porá fim a Você Sabe Quem. E não é só isso: eu quase descobri o segredo da imortalidade de Voldemort. Invadi sua casa em Little Hangleton, transfigurado em rato. Mas Nagini, a cobra dele, por pouco não me pegou. – E tudo isso, ele continuou, sorridente, sem precisar daquela marca odiosa na minha pele.
— Como assim?! Mas não são apenas os seus servos e essa Nagini que andam junto a ele?
— Também existem os espiões de Você Sabe Quem dentro do Ministério. Teoricamente, eu sou um deles. Mas na verdade, eu espiono para a Ordem. Não fique surpresa se, caso Voldemort caia, muitos Comensais aleguem Imperius, dentre outros meios de coação, para se justificar diante do juiz.
— Então é verdade, eles ouviram uma voz às suas costas. Um homem de rosto carrancudo e brutal entrara pela lareira, e ouvira cada pedaço da conversa entre Pietro e Sofia.
— Não, Yaxley, você está entendendo errado, respondeu o bruxo, tentando distraí-lo.
— Eu ouvi cada palavra, Pietro Zabini. – AVADA KEDAVRA!
O raio de luz verde encheu a sala, assustando um menininho que há poucos instantes entrara no quarto.
— Avada, Yaxley começou, apontando a varinha para o garoto. Lord Voldemort ordenara que ninguém sobrevivesse. Lá fora, Dolohov queimava a casa, eles haviam desfeito silenciosamente os feitiços de proteção após torturarem a elfa do casal.
Sofia disparou um feitiço em Yaxley antes que ele amaldiçoasse seu filho. O menininho, vendo que o pai não se levantava do chão, começou a chorar.
— Maldito! Você tem coragem de matar um homem, como se não fosse nada, e ainda por cima, de amaldiçoar uma criança de cinco anos de idade?! UMA CRIANÇA!! PORCO IMUNDO!
— Sim, eu tenho, para mim tanto faz. Antes de morrer, o garoto vai apreciar o espetáculo... Crucio!
Sofia se contorceu de dor, sentia como se mil agulhas furassem sua pele, como se a obrigassem a beber ácido, como se estivesse sendo empalada.
O menino chorava e gritava. As chamas começavam a se elevar.
Outro Comensal entrou na sala, chutando o cadáver de uma elfa. Billie, a elfa doméstica do casal, mesmo após ter sido torturada, continuara tentando protegê-los.
— Chega, Yaxley, vamos embora, a Ordem está a caminho!
Os Comensais da Morte desaparataram, deixando Sofia torturada, Blaise órfão de pai e a casa queimando.
...
— Achei que íamos morrer, mas Minerva nos salvou.
— Minerva? A prof. McGonagall?
— Sim, Blaise.
— Mãe... Blaise respondeu, dor e revolta queimando cada partícula de seu ser, agora é a minha chance de me vingar. Ele se levantou.