A Àrvore flamejante
3 Capítulo 2- o Verdadeiro Culto do Pastor
A porta da sala dos professores abre aos poucos, me fazendo cair de cara no chão da mesma. Bato a boca contra o piso, sentindo uma violenta dor no queixo. Poderia estar sangrando agora mesmo! Esperava que pelo menos não tivesse ninguém na sala para me dar uma bronca por isso, eu não aturaria me esborrachar todo e ser expulso por isso, seria no mínimo, extremamente humilhante. Coloco ambas as mãos sobre o queixo, fechando os olhos e praguejando baixinho.
Me levanto lentamente, com os olhos fechados, fazendo uma prece mental para que nenhum professor estivesse na sala dos professores. Por sorte, todos eles poderiam estar em aula ao mesmo tempo, o que me pouparia de explicações desnecessárias sobre a Lizzy ser uma vidente e eu ter de persegui-la pela escola toda. Logo, abro um dos olhos lentamente, esperando encontrar as feições irritadas de algum dos professores. Por isso, sorrio timidamente.
Isso! A sala estava vazia, eu não me encrencaria aquele dia... Pelo menos não até o Pastor dizer para a louca da diretora doppelganger que eu havia fugido da aula dele para correr atrás de Lizzy. Eu simplesmente havia feito um estardalhaço em toda a escola. Expulsão seria muito pouco para mim. E nem isso teria sentido se não encontrasse Lizzy de uma vez! Logo, respiro fundo, me preparando para sair da sala.
É então que noto algo acima da mesa, me fazendo parar bruscamente. Havia um livro em cima da mesa. Na capa de couro negra, estava esculpida uma pequena mascara indígena, semelhante as que mantinha em meu quarto. Eu sabia o que aquilo significava... Era misticismo e esoterismo! Eu podia farejar aquelas coisas de longe! Eu precisava pegar aquele livro... Mas a quem pertencia?
Me aproximo lentamente do livro, olhando a capa sem título. Coloco minhas mãos sobre ele, esperando abri-lo e encontrar o título dentro do mesmo. Porém, encontro ainda melhor do que um título. Eu encontro um nome, o nome de uma pessoa que eu nunca suspeitaria que investigava o esoterismo, Ricardo Campos Reis, mais conhecido como o Pastor. Meu nem tão querido professor, que me assombrava até em meus piores pesadelos. Aquele maldito! Nunca pareceu se interessar por nada disso.
Folheio o livro, notando que não havia sido impresso. Todas as notas do livro foram escritas a mão, assim como as ilustrações do livro, que eu tinha de admitir que eram muito boas. Olho para os lados freneticamente, esperando encontrar o Pastor parado atrás de mim, querendo o livro de volta... Mas ele não estava lá, provavelmente Rafael o havia segurado tempo suficiente para que eu pudesse trazer Lizzy de volta para a sala de aula.
Lentamente, coloco o livro dentro de meu casaco. Como as notas eram a mão, não havia possibilidade alguma de comprar aquele livro. Também sabia que o Pastor não me emprestaria aquele livro, o professor não gostava de mim e me deduraria se soubesse que eu havia invadido (mesmo que despropositalmente) a sala dos professores.
Me viro, saindo da sala professores o mais rápido que podia. Ainda precisaria encontrar Lizzy. O que quer que tivesse acontecido com ela... Eu me sentia imensamente responsável. Ela havia gritado ao me tocar! A minha ligação com o grito era muito óbvia. Só precisava descobrir o que eu havia feito. Será que havia apertado seu braço com muita força... Ou havia algum motivo oculto naquele grito, que parecia completamente sem motivo. Se o motivo fosse sobrenatural, poderia ter alguma ligação com o provável grimório do Pastor, que havia encontrado na sala dos professores. De uma maneira ou outra, eu ajudaria Lizzy, quer ela queira ou não.
Saio sorrateiramente da sala dos professores, fechando a porta lentamente, até que ficasse entreaberta, como estava antes. Queria deixar o mínimo possível de provas de que eu era o provável ladrão de livros. Não era capaz de imaginar o que o Pastor faria comigo, caso descobrisse que eu havia pego seu livro místico secreto. Mordo meu lábio, andando lentamente para longe da porta, ainda procurando por Lizzy, que deveria ter se escondido em algum canto, a essa altura do campeonato.
Ando pelo pátio da escola, cabisbaixo, sem encontrar Lizzy em nenhum lugar. Ela não poderia ter ido muito longe, a escola era cercada por guardas e porteiros, o máximo que ela poderia ter feito, era se enfiar em algum canto isolado e escuro. Bem... Da maneira que eu falo, parece que Lizzy vive tendo esses ataques, mas a verdade, é que essa é a primeira vez que acontece.
Olho para baixo, derrotado, sabia que não poderia encontrar Lizzy agora. Provavelmente estavam atrás de mim, para me expulsar também, então já era tarde demais para procurar por ela... Foi então que notei algo muito estranho na escola, algo que mudou completamente o rumo de minhas buscas pela escola.
Havia uma camada grossa de algo semelhante a areia, negra como a noite, perfeitamente disposta no chão, em uma fina trilha, que levava em algum lugar. Observo a trilha, tentando decidir se deveria seguir aquilo ou não. Poderia ser somente uma cama de sujeira espalhada pela escola, ou então algo mais... Algo do mesmo gênero que o grimório e o grito de Lizzy.
Por um instante, era como se o tempo tivesse congelado. Já havia encontrado três Falhas. Aquilo podia ser um sonho. Logo, levo minha mão direita até meu braço, o beliscando com força. Sinto uma dor lancinante no braço, que me faz produzir uma careta amarga. Aquela dor havia sido bem real... Então estava disposto a acreditar que aquilo não era um sonho.
Quando estava prestes a andar na direção da trilha de pó negro, escuto um choro baixinho, então decido seguir na direção dele. O som vinha de um dos brinquedos parquinho, uma casinha de boneca, para onde caminhei devagar. No momento, Lizzy era muito mais importante do que minhas teorias de conspiração. Precisava ajudar minha amiga.
Me abaixo, abrindo a porta da casinha e encontrando Lizzy sentada lá dentro, abraçando as pernas com força. Antes de entrar, olho para a trilha de pó uma ultima vez... Agora, o vento a levava lentamente, apagando todos os registros de que um dia houve uma trilha naquele local. Eu havia perdido a chance completamente agora.
—O que foi aquilo?— pergunto a Lizzy, me ajeitando ao lado dela, encarando profundamente seus olhos verdes.
—Nada Nate, que saco, me deixa em paz— diz Lizzy, se virando, para que não pudesse olhá-la.
Olho para ela, parecia frágil agora. Embora Lizzy fosse uma garota pequena e delicada, sua atitude corajosa e forte a tornava alguém além das aparências. Era praticamente impossível catalogar Elizabeth Ferreira Carvalho como uma garota frágil... Mas era assim que ela aparentava estar naquele exato momento. Frágil, sozinha, abandonada.
—Lembra da terceira série? Quando eu caí da bicicleta e torci o tornozelo?— pergunto a ela. Lizzy continua sem me encarar, olhando para a porta da casinha, que agora ela fechava devagar, parecia estar assustada por algum motivo— Eu pensei que eu fosse morrer. Eu chorei por três horas caído no mato, segurando minha perna e dizendo que Deus estava levando a minha alma. Você lembra o que me disse aquele dia?
—Eu era uma criança Nate, não lembro disso e nem quero lembrar, não importa. Cala a boa e sai daqui— diz Lizzy
—Você me disse: "Deixa de ser mariquinha e levanta, anda"— digo, com um sorriso para ela, vendo um esboço de um sorriso surgir em seu rosto— Depois daquilo, você me ajudou a levantar e me apoiou por dois quilômetros de caminhada até o hospital. Você sabia que eu não estava tão ferido, mas mesmo assim me ajudou, acha que não te ajudaria agora?
Lizzy levanta a cabeça devagar, me encarando, confusa. Podia ver o conflito dentro de sua mente. Por um lado, ela queria me contar, mas por outro, algo a assustava, algo que ela não queria dizer em voz alta, para que não fosse tão real quanto parecia ser. Vejo-a travar uma batalha contra si mesma, enquanto puxava o ar com força antes de dizer algo. Então, ela levanta a cabeça e me encara, com os olhos vidrados, brilhando.
—Eu vi algo Nate, era real— diz Lizzy— Você não entende, eu...
BANG! É então que a porta da casinha se abre bruscamente, fazendo com que Lizzy e eu nos levantássemos com pressa, ambos batendo a cabeça no teto da casinha. Sinto uma forte dor na cabeça, colocando minha mão direita sobre a mesma, enquanto vejo uma das inspetoras paradas diante a porta da casinha.
—Aí estão vocês— diz ela— Tem sorte se conseguirem sair da detenção quando tiverem trinta anos, por mim, seriam detidos até o fim dos tempos.
Fale com o autor