9 Zonas
1 Sem saída (revisado)
Notas iniciais
Não consigo desviar o olhar do quadro. Há o zumbido constante de conversas por trás da minha distração, sei disso. Porém, ainda fico analisando cada aspecto da pintura. Uma mulher sentada de costas, observando uma campina verde. Seu rosto é apenas inclinado para a esquerda, algo em sua mão tirando atenção da paisagem. Talvez por isso a percepção do quadro seja tão inclinada para baixo, para o chão, enquanto o céu acima da grama alta denota os tons mais coloridos que já vi.
Não sou tão boa com palavras, mas algo em manter os olhos no quadro provoca uma emoção estranha no meu peito. Sinto o cenho franzido. Passo os dedos pela testa, sem saber ao certo quando comecei a ter o costume de franzir o cenho ao tentar raciocinar algo ou ler. Tenho problemas de visão?
Limpo o suor da testa usando a barra da blusa de manga longa militar. Passo a língua pelos lábios e levo a mão até o copo em cima da mesa. Antes de beber percebo o final curioso do zumbido de vozes. Ergo o rosto para o resto dos integrantes da mesa.
—Perdão. O calor me distraiu, falaram comigo?
Escuto um suspiro cansado, talvez de decepção, vindo da cadeira principal. Ergo as sobrancelhas pela pontada no peito e apenas bebo o líquido quente que desce junto do nó na minha garganta.
—Allyson. —O nome me incomoda ainda mais, especialmente carregado de desgosto saindo de quem me colocou no mundo —Entendeu sequer uma parte do que discutimos?
—Fala como se eu tivesse algum problema de audição.
—Cuidado com a língua.
—É, eu entendi. — assinto apoiando o copo de volta na mesa — Tem certeza que eu sou a melhor opção?
—Desacato e difamação — um dos indivíduos mais velhos ao lado do meu pai murmura com um sorriso de escárnio.
—Você adora uma confusão, não é? É complicado que eu nunca lembre do seu nome, sempre que te vejo penso “chupa-pica”.
—Allyson!
Um punho bate na mesa. Sempre o do homem prepotente, confiante e que não aceita ser questionado. Ou respeitado, ao que parece. Sequer foi uma ofensa direcionada a ele e já vejo seu rosto vermelho em brasa, suor descendo pela testa. Passo os olhos ao redor. Uma mesa repleta de homens. O que eu estou fazendo aqui? Fico em silêncio, esperando ainda com as pernas cruzadas.
—Você vai conseguir as informações que queremos ou morrer tentando. Tem que ter alguma utilidade pra você aqui.
Poético.
—Sim, senhor.
É mais fácil concordar e lançar uma fuga do que discutir. Passo o olhar pelos outros integrantes, igualmente incomodados com a minha presença. Homens importantes para a Revolução, hein? Um bando de indivíduos que nunca pisaram em trincheiras e que abrem um mapa na mesa direcionando seus peões de um lado para outro, brincando de Deus. De novo, o que estou fazendo aqui?
—Posso me retirar?
—Não.
—Não?
Um dos homens se levanta da cadeira ao lado do General. Fico assistindo sua movimentação. Ele se direciona para a mesa de canto ao final da sala de reuniões, concentrado em mover algumas peças que tilintam como vidro. Nesse meio tempo, dois pares de mãos me assustam ao agarrar meus braços. Arregalo os olhos e antes de ter tempo para raciocinar alguma coisa, meu rosto é empurrado contra a mesa com força o suficiente para fazer o nariz deslocar e sangrar. Solto um grunhido estranho pela boca, sem entender ao certo a posição que me encontro.
—O que tá fazendo? O que tá acontecendo? O que é isso?
O homem que senta ao lado do meu pai reaparece na minha visão periférica portando uma seringa com agulha do tamanho do meu indicador. Antes que eu tenha fôlego o suficiente para gritar, a seringa perfura a veia no meu pescoço causando uma dor descomunal pela violência do líquido que entra no meu organismo.
—Eu não menti quando falei que iria morrer tentando. Caso não volte no tempo estipulado com o que queremos, esse líquido magnético vai paralisar seu coração.
Sinto os olhos saltarem no lugar. Ainda estão pressionando meu rosto contra a mesa, mesmo após a seringa sair do meu pescoço. Estremeço. O que mais vem agora? Não gosto do quão próximos estão os corpos dos dois indivíduos me segurando. Engulo seco, buscando minha voz.
—Puta merda. Já terminaram o showzinho de força?
Os dois soldados me largam. Afasto-me da cadeira de imediato, discretamente tentando não dar as costas a qualquer um dos presentes na sala. Minha visão para no General, sem um pingo de remorso.
—Isso era necessário?
—Com seu histórico de tentativas de fuga, acha mesmo que não era?
Meu coração ainda está acelerado. Meu peito sobe e desce em movimentos rápidos e inconstantes enquanto o maldito fedor de suor masculino chega até a minha língua.
—Você sai amanhã. Agora pode sair.
Ele faz um gesto com a mão, totalmente desinteressado e voltando o olhar aos seus papeis enquanto algum indivíduo sussurra informações no seu ouvido. Se tenho qualquer resquício de dignidade, não lembro. Antes de sair levo o olhar de volta até o quadro na parede da direita.
Só consigo supor que o que senti anteriormente era inveja. Inveja da paz dessa mulher. Inveja da sua possibilidade de… Despreocupadamente estar iludida com algo fútil em sua mão, sem notar a paisagem acima de si.
***
Não chove muito por aqui, mas o ar é úmido e carregado. Especialmente quente se não se deixar algumas janelas abertas em busca de qualquer resquício de vento. Meu pescoço ainda dói terrivelmente. Ou talvez esteja sendo dramática. Não consigo determinar nem mesmo qual meu próprio limite entre o teatro externo e o que sou por dentro.
Recordo o que ocorreu na reunião. Como facilmente me superam em força e agilidade. Isso não me deixa em uma posição confortável, muito menos em relação ao que terei de fazer. Saio do meu mar de remorso e autopiedade ao escutar passos arrastados. Os cabelos escuros e firmemente cacheados são a primeira coisa que vejo antes do homem em si sentar ao meu lado em um dos caixotes de suprimento. Os olhos de um cobre líquido e preguiçoso, sua expressão tranquila e corpo esguio conforme a voz baixa e apática me pergunta:
—Quais as novidades?
Olho para Lion. Ainda tem alguns traços de espinhas perdidos pelo seu rosto. Às vezes esqueço que ele é pelo menos quatro anos mais novo e ainda tem muitas incertezas sobre sua própria aparência. Solto o ar pela boca em um suspiro longo.
—Tomei bem direitinho na caçapa do meu cu.
—Caralho.
—É. Não literal. Pelo menos não ainda.
—Mas o que foi que te passaram pra fazer?
—Um negócio meio sem sentido. Veja só o seguinte: seduzir o filho do ditador. Confia no meu taco?
—Não confiaria nem no meu.
—Exatamente. É tipo a metáfora antiga de sentar no bolo e engolir a pica. Sem saída.
Lion assente, olhando as casas arruinadas.
—Peraí, aí é foda. Por que te mandaram pra isso?
—Boa pergunta. De onde que tenho capacidade pra seduzir o cara? E se ele for gay?
Penso por meio segundo e avalio o rosto de Lion.
—Se ele for gay a bomba cai pra ti.
—Pra mim? Por que pra mim?
—Tá vendo algum outro twink nesse lugar?
—Que porra de twink o que, caralho. Vai se fuder!
Lion empurra meu ombro com o seu. Sorrio. Ele também sorri discretamente. Gosto da relação que temos. Aproximo-me mais do seu corpo e apoio a cabeça no ombro que ele usou para me empurrar.
—Eu tô sem saída dessa vez — confesso baixo, a voz uma oitava mais séria. —Não sei o que fazer.
—Quer conversar sobre?
Distraidamente observo os lábios dele. São mais finos, mas ainda sim avermelhados. Quase chamativos. Não é como se ele fosse me rejeitar quando estou tão perto de ir para a vala.
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