9 Zonas
2 Espiral (revisado)
Conheci Lion por meio da irmã dele. Irmão. Não tenho ideia do gênero que ele/ela prefere, então após passar algumas vergonhas na frente dele/dela descobri que qualquer um o deixa confortável. O irmão dele foi um dos poucos que se inscreveu para um curso intensivo de aprender a ler no acampamento. Uma rara oportunidade já que nos deixam tão no escuro que é um milagre perceber os que conseguem pensar por si mesmos.
Estava frustrada pela falta de controle nos meus dedos. Ergui a cabeça, afastando-a do papel e bufei, olhando para a pessoa que me assistia a algum tempo.
—O que é?
—O que você tá fazendo?
—Escrevendo meu nome.
Ela se inclinou sobre minha cadeira, olhando os garranchos no papel.
—Parece mais uma expressão de socorro.
Ergui uma sobrancelha.
—Ah, mas vai se…
Daí em diante foi uma enxurrada de palavras impróprias que deixaram o professor abismado. No dia seguinte, contudo, Mary se apresentou e me auxiliou na escrita das letras necessárias para conseguir colocar meu nome em um papel. Até o final do curso (interrompido devido um rompante desnecessário do General), continuamos nos comunicando diariamente. Logo, Mary me chamou até sua casa para mostrar sua coleção de livros roubados de ruínas.
Foi meu primeiro contato com Lion. Um garoto mais novo, pelo menos uma distância de quatro anos. Enquanto eu lia os livros de Mary, ele constantemente estava por perto de maneira silenciosa. Não nos comunicamos muito. Era apenas um cumprimento formal ao entrar na casa dos dois, conversar com a mãe deles e em seguida me dedicar a tentar a leitura. Não demorou muito até que eu tomasse a responsabilidade e puxasse conversa com ele.
Meus pensamentos sobre ele incluiam o fato dele ser extremamente parecido ao pai. Algo que o incomodou profundamente quando falei. Curioso. O patriarca da família era visto de uma maneira extremamente positiva por todos na Zona 9, especialmente o da família de Lion.
Nunca houve sinal algum de atração mútua entre nós dois. Pelo menos não da parte dele. Então, após encarar meu reflexo no espelho me pergunto se logo perto de ir embora acabei estragando uma das pouquíssimas amizades que possuo. Ele rejeitou meus avanços. Constrangedoramente saiu usando a desculpa de ter que realizar uma tarefa para sua irmã. Minha visão no espelho não me agrada. Sei que meu corpo mudou devido aos treinamentos por mais de um ano, mas ainda sim sinto que há algo errado. Não gosto dos ombros, nem dos braços. O rosto, pelo menos, não é de se jogar fora.
Lavo-o antes de secar com a toalha ao lado da pia e ir me sentar no canto da cama. Quero tentar tirar da cabeça qualquer pensamento relacionado com a humilhação queimando meu peito. Creio que pelo menos a noite de sono pode lavar algumas das emoções negativas.
***
Lavaram porra nenhuma. Após breves momentos de paz de quando a mente e as memórias demoram ao voltar fui absorvida por toda a vergonha pelas minhas ações e fraquezas. Sento-me na cama considerando se a ideia da missão não seria pelo menos uma oportunidade de morrer longe desse lugar. Não sei se é um bom dia para sair da cama.
Após considerações profundas acabo aceitando que pelo menos tenho que me informar mais dos detalhes do que devo fazer. E como fazer já que é a primeira vez que sou submetida a uma missão assim. Arrasto os pés até as botas e coloco um casaco para esconder a camisa de dormir.
Enquanto me encaminho até a casa de meu pai tento evitar as emoções no meu peito. Talvez evitar não seja o termo correto. Lembro que li em um dos livros de Mary algumas pontuações sobre meditação, especialmente, sobre o controle de emoções. Algo relacionado a reconhecer, associar, investigar e… Qual era a última parte? Bom, não é como se minha memória fosse das melhores. Sei que aplico quase diariamente a configuração. Especialmente no que se dá com minha relação com meus pais.
Sei que sou uma decepção. Nem precisam falar mais com todas as palavras já que tenho plena noção disso desde os 20 anos. Vi muitos colegas e conhecidos se adequando em posições importantes na rebelião, causando algum tipo de efeito. Eu, por outro lado, me prendia a tentar ler e aprender, utilizando disso um meio para escapar de lutas substanciais. Sei que era um meio de fuga, sei que nenhum dos dois gostava de onde eu estava, mas também sei que nunca conseguiria nada além disso.
Decepção. É disso que se trata. Tanto minha quanto deles. Sou decepcionada com a pessoa que me tornei e onde cheguei, por mais que tente ser compreensiva com todas as minhas ações passadas…. Todas parecem tentativas fúteis de fuga de responsabilidade. Vou fazer vinte e cinco anos e ainda sim pareço ter a mesma mentalidade de quando tinha dezesseis. Paro em frente a mansão. A madeira velha range sobre o meu peso conforme subo as escadas.
Tento relaxar os ombros. Aplicar algum conhecimento de controle de respiração, mas nada tira a emoção feia rotulando meu peito. Não quero, mas sou forçada. Engulo seco e bato antes de entrar. A primeira visão que tenho é da mesa longa de reuniões que estava abarrotada de homens no dia anterior. Agora só tem meu pai e seus dois capachos. Da porta consigo ver minha mãe na cozinha.
Prefiro não falar com ela. Nossas conversas raramente são conversas de verdade. Provavelmente devido a nenhuma das duas partes estar interessada em escutar a outra. Lembro que começou há um bom tempo, bem antes de estar consciente sobre minhas ações. Quando falávamos uma com a outra, havia somente sons de concordância enquanto uma de nós se concentrava mais em outra tarefa. Eu falava que conseguia agora escrever meu nome e ela diria “Hm, bem legal.” enquanto desossava algum frango. Ela me contaria sobre um evento que lhe marcou no trabalho e eu diria “Ah, sim.” conforme mudava a página do livro que estava lendo.
Expiro fundo. Odeio essa casa. Odeio o que me faz pensar. Um gosto amargo me invade a boca após passar pelos quadros contendo as fotos dos dois ao longo dos anos. Não é como se eu fizesse questão de estar junto, mas a ausência em qualquer registro me fazia sentir que apesar de ter o suporte financeiro e de ter as palavras de ambos como apoio nenhuma delas era verdadeira.
Um dos capachos de meu pai me pede para esperar no sofá. Então encaro as fotos e caio em uma espiral de sensações ruins que não consigo nomear. Preciso parar com isso. Como posso parar com isso? Suponho que até certa medida seja da natureza humana se enfiar em espirais como essa em busca de algum resquício de autopiedade, ou de se forçar como o mocinho da história.
—Allyson.
Ergo a cabeça. Capacho número 1 inclina a cabeça na direção do escritório no lado leste. Se meu pai quer me ver no escritório é porque não quer que os outros escutem a conversa. Posso esperar mais um esporro, ou, quem sabe, mais um desconforto para levar no peito.
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