9 Crimes
3 O Crime de Helia
Notas iniciais
São Paulo, 22 de junho de 1986.
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Minha querida Dafne,
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Tudo bem por aí, minha pequena? Saiba que peço todas as noites a Deus que seja muito feliz. Em sua última carta você dizia algo sobre a promoção em seu emprego. Seu pai e eu ficamos muito felizes e orgulhosos de você, querida. Sempre soubemos que iria bem, não importando onde estivesse, o que fizesse ou com quem.
Você venceu aquela faculdade, minha filha! Você venceu!!
Sei que está sozinha aí, nessa cidade tão distante de mim que é Porto Alegre. Mas você está bem, não é? Está feliz, sei que está. Não tardará até encontrar alguém que a faça amar como seu pai o fez comigo. E quero que se lembre de que estaremos sempre aqui, torcendo por você.
Por favor, não fique preocupada conosco. Perdoe-me se lhe deixei angustiada pelo tom da carta. Estamos todos bem por aqui. Estamos com muitas saudades de você. O que, na verdade, preciso tratar com você é algo muito delicado para uma carta, mas já passa da hora de lhe dizer.
Dafne, querida, quando esteve aqui em dezembro para o Natal, você viu seus três avós. Eles estavam felizes e bem de saúde. Falaram em você por várias semanas. Principalmente seu avô Rossi. Ele transbordava de orgulho de sua netinha. Falava que sua falecida avó sorria do céu todas as noites de tanta felicidade.
Meu amor... ele nos deixou dia catorze de janeiro.
Não houve dor, muito menos sofrimento. Ele morreu dormindo, meu anjo, com um sorriso nos lábios. O médico disse que algumas células do cérebro pararam de funcionar, não sei bem como lhe dizer... desculpe-me querida, por não ter lhe dito isso antes.
Quando fomos aí em março, não tive forças para dizê-lo a você. Como estragar sua felicidade? Minha Dafne, sei como era apegada a ele. Seu retrato ainda estava no criado-mudo ao lado da cama de seu avô; ele não a esqueceu por um segundo. Por favor, entenda-me!! Seu pai chorou tanto, ele ainda está muito fragilizado. Ficou só no mundo. Ele tem apenas a nós, minha querida.
Sei que fui injusta ao esconder-lhe isso. Você tinha todo o direito de saber... ai céus, fui tola, estúpida, egoísta! Deus sabe a agonia que passei todos estes meses. Neste segundo, tem lágrimas no meu rosto! Estou desabafando em um pedaço de papel, contando aquilo que deveria ter sido dito ao vivo, diante de você.
Eu te amo, Dafne, e sempre amarei minha menininha de cachos louros. Sabe que nunca faria algo para magoá-la. Sei que está doendo em você. Doeu em todos nós. Ainda dói em seu pai. Chore, meu anjo, deixe a dor instalar-se e depois partir. É a única cura que existe para ela.
Acima de tudo, minha flor, tenha sempre em mente isto: você fez os últimos anos de seu avô muito, muito felizes. Rossi poderia ter perdido Lisa, mas ele ganhou você. Ele te amou, meu amor, como só um avô pode amar. Não se esqueça.
Espero que perdoe sua mãe, e compreenderei se você não se sentir bem em responder esta carta. Um dia nos reencontraremos, e poderei eu olhar em seus olhos novamente? Perdoe-me por esconder a morte dele por tanto tempo. Mas sei que ele não queria atrapalhar sua vida, não queria ser um fardo em um momento tão alegre para você, Dafne.
Se bem que, penso eu, em meio a todo o meu arrependimento: as pessoas que amamos nunca serão fardos.
Papai e mamãe amam você, e que Deus a cubra de bênçãos.
Beijos, Helia.
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