8 De Outubro De Um Ano Qualquer
1 Capítulo 1 - 8 de Outubro de um ano qualquer.
Notas iniciais
8 de Outubro de um ano qualquer.
Estou sentada em uma varanda desconhecida de uma casa abandonada em uma rua deserta da calçada desbotada. A cadeira em que estou sentada é desconfortável, dura e manca, sua madeira está sendo lentamente devorada por vários cupins miseráveis enquanto estou aqui. Só espero que eles não confundam minha bunda com uma madeira, pois graças à insônia minha palidez tem ficado mais perceptível e meu peso tem diminuído.
Tempo desgastado com seu céu sabor de limão e nublado. Ventos suaves o suficiente para acariciar meus poros abertos, eu gosto disso, desse cheiro, jeito, cor e sabor natural das coisas terem. Este cheiro de chuva seca acompanhado do chacoalhar dos galhos das árvores... Inspiram-me. Às vezes essas simplicidades para mim chegam a ser quase afrodisíacas.
Calçada desgastada completamente cheia de buracos de uma rua monótona, duas junções culpadas pelo meu estado vegetativo de agora. Afogada em um mar de estrelas de um brilho fosco empobrecidas de esperanças.
Fico assim todas as vezes que me sento neste lugar.
Tento encontrar meus sentimentos, mas já nem me lembro mais aonde foi que os perdi e quando foi à última vez que eu os senti. Do meu modo desligado de ser devo tê-los abandonado inconseqüentemente em uma encruzilhada de um planeta qualquer.
Encaro a rua com esses meus olhos sabor de amêndoas queimadas, os mesmos olhos das pálpebras dilatadas de sono, os mesmos olhos imersos em seu véu de olheiras. Minha visão está tão turva de cansaço que ao observar o horizonte encardido fico com uma leve vontade de adormecer, uma vontade da qual não consigo realizar.
Esses meus lábios ressecados de palavras vazias e sem importância alguma retratam a mais bela imagem da fome graças à falta de vontade de saciar meu estômago.
Fico aqui observando o horizonte encardido completar seu ciclo transformando-se em um oceano negro com gotas de lágrimas embranquecidas como péloras sem sabor.
Repito esta mesma rotina em meu interior todas às vezes que me sinto indiferente ou fora deste espelho complexo. São tantas as faces que tenho aqui e está é só uma das muitas que tenho.
O meu subconsciente fica perguntando ao meu consciente quantos mais oceanos negros com gotas de lágrimas e tempos desgastados com seus céus sabor de limão e nublados terei de assistir diante dos meus olhos oco-amendoados para poder conseguir levantar desta cadeira manca e lentamente devorada pelos cupins e conseguir caminhar no meio do nada em busca dos meus sentimentos inacessíveis. E sabe a resposta que meu consciente dá ao seu pequeno irmão subconsciente? Que ele jamais vai ser capaz de se levantar dessa cadeira, que seus olhos oco-amendoados e queimados jamais serão preenchidos e que por mais que ele tente nunca vai conseguir quebrar esta barreira cristalizada entre seus sentimentos e seu coração e que ele sempre irá permanecer sentado e parado observando o ciclo dos mares e tempos encardidos passarem sem poder fazer nada.
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