Um novo olhar

Até ontem, o inferno tinha uma justificativa


"Konoha, 3 da tarde de um dia que não deveria existir."

Naruto não conseguiu continuar. Nunca teve o hábito de escrever e não seria naquele momento que o desenvolveria. Tentou por precisar, embora antecipasse o fracasso em sua mente. As palavras aglomeradas em seu cérebro se expandiam comprimindo seu sossego em um véu fino. Não queria dizê-las. Se o fizesse apaziguaria o incômodo, no entanto Naruto se forçava a esquecê-las como se pudesse simplesmente empurrá-las para fora de sua mente. Fracassou como vinha fazendo desde a hora que abriu os olhos.

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Fora dormir com a ponta de uma dúvida, no caminho do sono ela se desenrolou feito um novelo e recolhê-lo se tornou seu desafio desde então. Mas Naruto se enganava ao pensar que ela havia surgido no dia anterior. A dúvida viera em pequenas doses, curtas reflexões espaçadas por semanas. "Por que estou pensando nisso?" "É claro que não!" "Que idiotice é essa?!" E naquela manhã as gotas se reuniram num copo de veneno.

Não aceitava. Deveria estar louco, doente ou batido a cabeça, talvez num genjutsu. Era plausível. Aquele pensamento não se formaria se estivesse normal. Convencido disso havia medido sua temperatura, tentado lembrar de algum alimento estragado que comeu. Chegou a perguntar a Kurama se algo suspeito aconteceu na semana, mas nenhuma resposta se alinhou a que ele ansiava. Então, de onde viera aquilo? Perguntou-se, mais vezes do que se fazia necessário, encarou o espelho, não se reconheceu ao se reconhecer. Não podia ser ele. Mas era.

Aquele que olhava para seu quase irmão através da cortina da amargura, que o via distante feito a sombra de um passado mas também com o aperto de quem lamenta a partida. A pessoa que jamais se imaginou ser. Levantou-se, como antes, aflito. Não havia parte da casa capaz de lhe oferecer descanso, contudo a cama o incomodava mais. Só aos justos o sono era permitido. Naruto teve certeza ao perder uma hora inteira tentando voltar a ele. Perdeu também o começo do dia, comeu sem sentir o gosto, molhou o corpo para limpar a alma corrompida. Enxergou o mesmo infeliz que antes.

"Um lixo!", pensou. E proferiu as palavras, deixando vazar de si um pouco da raiva que o consumia. Jurava que sufocaria se não o fizesse, no entanto trocou o alívio pelo remorso na primeira oportunidade. Sofria e queria sofrer. Acreditava merecer cada minuto daquela angústia. Sabia que não, e negava, entregue a um ciclo contínuo.