7 Pecados Capitais
18 Extra: Quem serei sem quem já fui?
Notas iniciais
Gaara vestiu a capa, mas trancou-se na biblioteca com um café da manhã simples. Nunca aprendeu a ser um nobre de verdade. Suas manias de homem comum, sem grandes riquezas para proteger... Eram todas parte do Gaara amadurecido e lúcido. Ele já foi insano.
Tinha nojo de si mesmo.
Lembrava-se da época em que ele e Kankuro eram amigos. Kankuro fora prometido para o reino, e Gaara seria um líder guerreiro. Seria, se não fosse tão novo. O ruivo ficou irado, e aquela ira crescia com ele. Quando atingiu a maioridade, tornou-se líder soldado. Ele e Kankuro viviam se tratando mal e se machucando nos treinamentos, e mesmo que Kankuro fosse aparentemente bom para o povo, sempre foi indisciplinado. Essa era a desculpa que Gaara dava a si mesmo para o ódio que alimentava-se de seu bom senso e sua sanidade.
A primeira briga perigosa aconteceu no jardim enorme e amarelo do castelo, rodeado de borboletas coloridas e cheiro de natureza – Jardim este que hoje o Sabaku limpou por completo, arrancando quaisquer flor que ameaçasse nascer.
“– Você anda negociando ervas proibidas, meu irmão? – O tom de voz de Gaara fora desnecessariamente alto. O ruivo acabara de irromper até o jardim pisando forte. — Já nos foi alertado pelos Yamanaka que isso fará mal ao nosso povo.
– Então você é o novo rei e não me disseram? – Debochado, Kankuro finalmente olhou-o no olho.
– Esse homem já te enganou antes! – Esganiçada, a voz do mais novo falhou. – Ele enriquece a vila da Lua às custas dos outros reinos. Eles já faliram, e Orochimaru quer fazer o mesmo conosco.
– Pequeno homem... Não me ensine a reinar. Eu não admito!
O pescoço de Gaara foi rapidamente apertado, enquanto Kankuro pela primeira vez perdia a razão com o irmão irritante. A primeira vez de muitas. A sequência com que brigariam seria assustadora.”
Tudo por um homem inconsequente e um garoto intrometido.
Num dia em que as brincadeiras começaram a ficar fatais, Kankuro fez uma cicatriz a ferro quente na cabeça de Gaara, e quando o ruivo se recuperou, pois ficou machucado, matou o próprio irmão. Não era só porque nutriam ódio infundado um pelo outro. Era porque Gaara era ambicioso.
“ – Você sempre quis a minha vida. O meu título de rei. – Kankuro esbravejou,fincando a espada que usava para lutar contra Gaara na terra. Gaara, porém, sustentou a sua em sua mão levemente trêmula.
– Eu sempre quis que você fizesse o certo. Sempre fui decepcionado. Eu quero a coroa porque eu posso fazer melhor.
– Que audácia, pequeno...
A espada transpassou o corpo de Kankuro na altura do coração. Os olhos pesaram, instantaneamente cansados. Dois solitários ofegos quentes e demorados secaram seus lábios.
– ... Gaara.
O ruivo ficou parado diante do corpo do irmão. Gaara apenas olhou para o céu e desejou que Kankuro pudesse perdoá-lo. Fez isso para o bem, e não pro mal. Abaixou, pousando os joelhos exaustos na terra, e fez o sinal da cruz acima da testa do Sabaku mais velho com os dedos. Em seguida picotou-o com uma pequena faca e juntou seus pedaços na floresta.”
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Agora, comer torradas de pão com queijo derretido parecia nojento. Ele nunca gostou. As vezes em que ia visitar o povo, via seu irmão ao seu lado, opaco, acenando para toda a gente e convencendo-os de que tudo estava bem. Ele nunca fizera isso. Nunca pudera ser carismático e convincente. Somente persuasivo.
Seu coração sempre doía quando batia, e estar vivo fora a grande vingança que Kankuro o deixou. Kankuro acreditava em bruxaria, magias, feitiçaria e tudo que pudesse levá-lo a um mundo mais confortável, enquanto ele odiava qualquer coisa que viesse do sobrenatural.
É claro que sabia que uma profetiza estava na casa. Deixá-la ali não foi para uso próprio. Pretendia negociá-la quando o reino dele estivesse declinando. Nunca notou que o reino sempre declinou.
Fechou os olhos e fez uma cruz no ar, sem realmente tocar sua testa. Há quantos anos não pedia ajuda? Nunca negociaria Ino, mas talvez falhasse em protegê-la. As pessoas querem bruxos mortos, queimados. A igreja quer isso. Gaara mais que tudo queria ser como os outros, mas Ino é sua nova agonia. Se alguém descobrir o que ela pode fazer, mesmo seus amigos e aliados, ela estará morta antes que ele possa pensar.
Todos ficarão voltados contra ele. Duvidarão de seu reinado, que muito tem a esconder. Duvidarão de suas convicções, que felizmente são puras.
Descobrirão o quão podre ele já foi, e deduzirão que ainda hoje o é.
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