Notas iniciais
oi quase cumpri a promessa. O seguinte estará no ar ainda essa semana! ;) BOA LEITURA.

Naruto estava sentado na escrivaninha. Seu quarto era grande demais, parte porque já fora casado e dormia com uma mulher ali, parte porque era espaçoso, e parte porque, assumia facilmente, era vaidoso e gostava de ter muitas coisas.

No momento, revivia a cena doentia de Fugaku abusando e assassinando um rapaz no meio do mato, em seu reino. Sua cabeça andava um pouco pesada ultimamente. Só conseguia pensar em seu pai morrendo, no ódio que sentia por Fugaku e na falta de vontade de reinar sem o rei, sem seu pai. Sua mãe precisaria dele mais do que nunca, mas ele também precisava de ajuda.

Nunca soube ao certo porque preferiu esconder o que aconteceu naquele dia no meio do mato de todos, mas achava que tinha muito mais a ver com vergonha e orgulho. Quando presenciou aquela atrocidade, não teve ação. Não quis impedir Fugaku, porque tinha medo dele. O Uchiha não tinha medo de apunhalar alguém brutalmente, e tinha certeza que ele seria morto naquele dia se se intrometesse.

E admitir era vergonhoso.

Foi dormir com os olhos cansados, um pouco embaçados. Se fosse do gosto de Hinata, gostaria de se casar com ela. Jamais a obrigaria, mas talvez tivesse de convencê-la a construir uma família e laços mais profundos. Ser rainha. Seus motivos eram egoístas, infelizmente. Por mais que adorasse Hinata do fundo do coração, queria um amor para substituir outro.

Queria alguém que curasse o enorme vazio que seu pai deixara.

O papa chegara mais cedo do que o esperado, mas Gaara estava preparado. A quantidade de pessoas que carregava consigo era assombrosa, o ruivo podia contar mais de trinta dentro de sua sala.

— Eu agradeço que tenha aceito meu convite tão imediatamente. — Gaara fez uma reverencia discreta ao mesmo tempo em que o papa. Os dois se olharam diretamente.

— Eu fico feliz que esteja pronto para aceitar a presença de Deus em sua casa.

Gaara se sentiu estranho com aquelas palavras. Sentiu como se o papa soubesse o que se passava debaixo daquele teto, como se Deus realmente não estivesse ali.

— Gostaria de me instalar primeiro e recuperar as energias. Amanhã começarei o abençoamento.

O ruivo assentiu, abaixando a cabeça em respeito. Olhou para um de seus guardas pessoais que vigiavam o quarto dele e de Ino e meneou a cabeça, deixando para o rapaz um comando que combinaram muito antes da presença papal na casa.

— Será possível que você não consegue se controlar? — Neji perguntou ao passar por uma Tenten irada. A morena comia goiabada com uma ferocidade desnecessária e parecia não se importar com a sujeira que fazia no próprio rosto.

— Não. — Ela falou de boca cheia, coisa que o irritava muito.

— Coma de boca fechada. — Ele repreendeu sério, muito mais bravo que quando ela ordenou seus guardas no lugar dele.

Nisso ela conseguiu respeitá-lo. Ficou quieta. O moreno afastou os enormes cabelos, estupefato com o que acabara de acontecer em sua casa.

— O que você pretende fazer?

Era a pergunta que ela com certeza não queria escutar. Ainda assim, mesmo após toda a proteção que o reino oferecia, que Neji oferecia, ela acabara por entender seu lugar. De invasora.

Era difícil para a moça aquela situação, pois sentia que não pertencia a lugar algum. Por um pequeno instante, entretanto, pensou que havia encontrado algo muito parecido com seu lugar. Todos aqueles dias lhe pareciam um pequeno e colorido instante prestes a se findar.

Já era de seu costume dar adeus, e aquele certamente seria o mais difícil de todos. Talvez sequer devesse dizê-lo, para que não machucasse tanto a si mesma.

— Não sei. — Respondeu dura, deixando implícito que não havia mais nada a ser dito.

Tenten fez uma pequena trouchinha de alimentos quando viu o rei se retirar resoluto da cozinha. Ainda iria se aproveitar da boa vontade dele, porque além de saber que ele não ficaria bravo com seus costumeiros furtos de comida, sabia que não o veria nunca mais. Nunca mais ninguém bateria em sua porta pedindo por uma rebelde que disseminava ódio entre o povo. Nunca mais ninguém pisaria ali para machucá-la, ou pior, para machucá-lo. Mesmo quando começou a arrumar suas roupas que havia ganhado de Hina, não entendia porque estava prestes a chorar.

Segurava as lágrimas há algum tempo, imaginando a noite caindo, ela se esgueirando pelos portões e indo embora sem nunca mais ouvir a voz suave e arrastada de Neji e vislumbrar sua benevolência.

Quando a noite caiu e o silêncio habitual se fez após o jantar, Neji disse que ia pro escritório dele, o lugar debaixo da escada em que se beijaram. Tenten percebeu que ele deixara na mesa todas as joias que usava, como fazia todas as noites após a janta, para a empregada recolher e as guardar em seu devido lugar. Como ainda não haviam sido recolhidas, a morena apanhou a pulseira que mais gostava dele, a que não tinha nenhum pingente, só era uma fina linha de ouro. Correu escada acima e, sentindo-se pronta para fugir, tomou todos os seus pertences do quarto.



Ele assumiu o nome da rainha. Foi o primeiro rei a descartar seu nome, mas não em nome do reino que era mais de sua rainha do que dele, mas sim em nome do amor.

Há muitas lendas sobre Minato Namikaze Uzumaki, muitas histórias divertidas sobre o rapaz que era do povo e se tornou rei, mas ainda era do povo. Neste dia tão triste, gostaria de contar a minha história com ele.

Nós estávamos cavalgando entre amigos, gostávamos de invadir as terras do país do lago apenas por diversão. Ele sempre nos garantiu que os dois reinos estavam em paz, e que aquela pequena invasão não resultaria em nada, mas em uma de nossas cavalgadas presenciamos algo horrível e macabro. Dois homens encapuzados enterravam um animal sanguinolento, enquanto um terceiro segurava uma mulher que chorava languidamente nas mãos de seu algoz. Minato desceu do cavalo na hora, sequer parou para pensar na possibilidade enorme de romper a paz que ele dizia manter com aquele reino. Deseimbanhou sua espada e se anunciou como príncipe, usando seu poder por uma nobre causa. Ele não era de se gabar, mal parecia um nobre, era só um príncipezinho em crescimento. Mas naquele dia pude ver com o que um rei de verdade se parecia. Ele salvou a mocinha, se indispôs com o reino do lago e ainda ofereceu abrigo a ela. Tudo sem saber que a bendita era Kushina Uzumaki, a filha do homem que pretendia os apresentar quando ela atingisse os dezesseis anos. Ela tinha quinze, ele dezoito, e voltamos da cavalgada em silêncio, observando-o conversar e confortar uma moça bonita em cima de seu cavalo.

Na época eu não sabia, mas aprendi com ele do que se tratava amor e respeito. Ele nos reinou assim, como fez com seu casamento. Nos carregou nas costas, conversando, nos confortando e nos lembrando que a justiça é mais importante que o status.”

Hinata leu aquilo e se sentiu tonta. Sem saliva, desnorteada. Aquele pedaço de jornal viera nas mãos do cocheiro, e ela se aproveitou daquilo para mostrar ao seu primo. Partiu do reino de Naruto com a missão de informar o seu reino sobre o acontecido e sobre a data do enterro.

As imagens de Naruto chorando ainda eram as que mais a machucavam. Ele era um homem tão cheio de vida… Parecia que tinha se tornado o contrário, cheio de morte e trevas. Os olhos, ela podiam jurar, estavam dois tons mais escuros que sempre. Os cílios loiros sempre molhados pesavam, batiam numa frequência anormal. Ele estava em ruínas, e ela sabia que tinha que voltar para ele o mais rápido possível.



Tenten desceu as escadas bem devagar, pois não queria que ele a escutasse de seu escritório. Quando alcançou o chão, percebeu que o falatório na área de fora da cozinha indicava que os soldados e guardas comiam. Foi para fora sem entender porque estava tudo limpo, sem ninguém vigiando o reino. Apertou forte a pulseira de Neji entre os dedos, olhando para a lua enquanto atravessava os jardins pelas pilastras e arbustos, diminuindo a chance de ser vista. Quando chegava na anti-penúltima pilastra, os portões enormes se abriram, e uma carruagem entrou rapidamente. O alarde logo trouxe o rei aos jardins.

A morena escorregou na pilastra até se esconder completamente atrás dela e dos arbustos. Era uma excelente chance de sair, era só se aproveitar assim que dessem as costas. A tarefa, no entanto, ganhou um impedimento:

— Chamem a Tenten no quarto dela. — O rei gritou aos quatro ventos, parecia desesperado. Ela temeu pelo que aquele chamado desesperado queria dizer. Beijou a pulseira dele demoradamente, arranjando forças para levantar e dar as costas àquele lugar que mais parecia seu lar.

— Ela não está aqui, majestade! — Gritou o guarda da janela do quarto dela. Correu, então. Como se sua vida dependesse daquela corrida desenfreada até o portão.

Quando ultrapassou aquele gigantesco portão, o grito de Neji parecia tão, mas tão distante, que começou a achar que era sua mente brincando com a sua profunda tristeza.

Ele sequer a viu, como podia estar gritando por ela?

Ino não conseguia dormir, mas Gaara deitou e dormiu instantaneamente. Devia estar exausto, ela o viu trabalhando o dia todo.

Da janela do quarto dele.

Gaara não disse nada depois de passar o dia todo fora. Alisou os cabelos dela, a abraçou e for dormir. Mas pela primeira vez ele a deixou insatisfeita. E ela não conseguiu parar de pensar nisso até a manhã seguinte, quando se aproveitou de que ele dormia para sair do quarto.