7 Dias na Toscana
1 As Mesmas Pirâmides
### Kara's POV ###
A CatCo já estava agitada: telefones tocando, grampeadores batendo contra as mesas, canetas rabiscando papéis e dedos ágeis deslizando pelos teclados. O caos de todas as minhas manhãs.
As portas do elevador se abriram e um sorriso largo surgiu em meu rosto ao ver James atravessando a redação com a câmera pendurada no ombro. Provavelmente estava analisando algumas fotos recém-tiradas ou ajustando as configurações para mais um dia de trabalho.
— Bom dia, Jimmy! Trouxe café.
— Bom dia, senhorita Sorriso! — respondeu ele.
O olhar que veio em seguida era familiar demais. James reparou que eu estava mais feliz do que o normal e claramente estava chegando a conclusões equivocadas.
Fingi não perceber. Sou ótima nisso.
Arrumei os óculos no rosto e caminhei até ele com os copos de café. James pegou o dele e continuou me encarando com aquela expressão suspeita.
— O que foi?
— Você e o Matthew finalmente se resolveram? — perguntou, mexendo as sobrancelhas de forma sugestiva.
Segui pelo corredor ao seu lado e senti um desconforto imediato se instalar no estômago. A sensação subiu pela garganta e deixou um gosto amargo na boca.
Ótimo. Gastrite.
Peguei algumas pastas deixadas sobre minha mesa e larguei a bandeja com os dois cafés restantes. Nia ainda não tinha chegado, então o dela ficaria ali esperando.
— Na verdade, não. Não nos resolvemos. Obrigada por me lembrar disso.
Meu tom foi carregado de uma ironia educada que não enganou ninguém. O sorriso desapareceu do meu rosto e, de repente, eu já não tinha tanta vontade de tomar café.
— Estou feliz porque a Alex quer assistir a um filme hoje. Vai ser a oportunidade perfeita para sentar e conversar sobre tudo o que aconteceu na semana passada.
James pareceu genuinamente arrependido por ter tocado no assunto do meu relacionamento fracassado e agarrou a mudança de tema como um salva-vidas.
— Como ela está?
Com as pastas nos braços, fiz um gesto para que me acompanhasse até uma das salas vazias ao fundo da agência. Fechei a porta de vidro atrás de nós e me virei para ele.
— Não muito bem. O trabalho era tudo para ela. Agora, afastada da CIA, tenho medo de que surte de vez e acabe se metendo em problemas ainda maiores.
Deixei as pastas sobre a mesa e cruzei os braços.
James deu um gole no café antes de se aproximar.
— E a Maggie? Tentou se explicar ou...
— Nada. Ter sido pega em flagrante traindo a minha irmã provavelmente foi o último prego no caixão. Não acho que ela tenha coragem de nos procurar depois do que aconteceu no bar do Al.
A última semana tinha sido um desastre.
Além do afastamento da CIA, Alex estava enfrentando sérios problemas para controlar a própria raiva. Na tentativa de animá-la, sugeri uma noite de cerveja no bar do Al.
Não funcionou.
Além de desempregada, minha irmã terminou a noite solteira e na delegacia depois de socar o cara com quem Maggie estava saindo.
Pois é.
A namorada sapatão da minha irmã acabou se mostrando não tão sapatão assim.
— De qualquer forma, tudo ainda é muito recente. Alex está magoada, ressentida e furiosa. Voltou a praticar muay thai, e eu estou torcendo para que isso ajude.
— Se precisarem de mim, você sabe onde me encontrar.
James fez o gesto de um telefone com a mão e piscou para mim.
— Eu sei. Obrigada, Jimmy.
Então me lembrei de uma tarefa importante.
Abri a primeira pasta da pilha sobre a mesa, retirei uma folha cheia de nomes e entreguei a ele. Alguns estavam marcados em vermelho.
— Preciso que encontre essas pessoas. Principalmente as que estão destacadas. Elas são suspeitas de participar de um esquema de roubo de dados de consumidores. A Nia levantou essa lista e quer expor todos eles quando a análise dos IPs ficar pronta.
— Então eu sou o stalker da operação?
— Não qualquer stalker. O melhor stalker.
Pisquei para ele e segui em direção à porta. Enquanto caminhava, disse fazendo careta:
— Depois preciso ver as fotos do lançamento da coleção outono-inverno da Rojas. Andrea conseguiu exclusividade para a CatCo e vamos ter que fazer um trabalho impecável se quisermos evitar o veneno dela.
James respondeu imitando o som de uma cascavel.
Segurei a risada e fui para minha sala.
Nia já estava lá.
Pelo jeito, tinha acabado de colar um post-it no meu monitor e congelou no lugar ao perceber que eu a havia flagrado.
Acabei rindo.
Havia algo adoravelmente interiorano no jeito de Nia Nal. Como estagiária há apenas três meses, ela dividia a sala comigo e, oficialmente, era minha responsabilidade.
— Comprei o café certo desta vez?
— Sim! Obrigada, Kara!
Peguei o post-it verde-limão e sorri ao ler a mensagem.
Não, Tempo, não zombarás de minhas mudanças!
As pirâmides que novamente construíste
Não me parecem novas, nem estranhas;
Apenas as mesmas com novas vestimentas.
William Shakespeare
— As mesmas pirâmides... Shakespeare devia ser um sujeito interessante. Você gosta de poesia? — Observei-a disfarçadamente enquanto guardava o post-it.
Sentada atrás do monitor, Nia assentiu sem hesitar.
— Muito.
— A gente podia ir a um sarau qualquer dia desses. Ouvi dizer que uma livraria aqui perto organiza encontros noturnos com declamação de poesia e degustação de vinhos.
— Parece incrível.
— Você gosta de vinho?
— Não bebo muito. Acho que sou meio fraca para álcool, mas gosto, sim. E gosto de poesia também.
— Ótimo. Vou confirmar os horários e te aviso.
Sentei-me diante do computador, sentindo-me uma colega de trabalho receptiva e aproveitando a perspectiva de que eu devia sentir orgulho de mim mesma por isso.
Nia certamente estava sendo mais bem recebida como estagiária do que eu há alguns anos.
Afastei as memórias ruins que bagunçaram meus pensamentos e encarei a tela inicial do monitor.
Abrir minha caixa de e-mails era sempre uma aventura. Às vezes significava trabalho extra. Em outras, uma dor de cabeça monumental.
Naquele dia foi a segunda opção.
A capa da próxima edição da revista apareceu logo na primeira mensagem recebida.
E lá estava ela.
Lena Luthor. Uma mulher imponente e confiante, estonteantemente bela e exageradamente rica, olhando para a câmera como se o mundo inteiro lhe pertencesse.
A matéria destacava sua ascensão meteórica à presidência da Luthor Corp e a impressionante valorização das ações da empresa sob seu comando.
Revirei os olhos e fechei o e-mail antes mesmo de terminar a leitura.
As mesmas pirâmides.
Shakespeare estava certo.
Algumas coisas nunca mudavam.
Lena Luthor era uma pedra no meu sapato desde muito antes de se tornar uma das mulheres mais influentes do país. Ver seu rosto estampado em jornais, revistas e portais de notícia era como alguém insistir em cutucar uma cicatriz que ainda não havia terminado de fechar.
Eu odiava aquilo.
Odiava lembrar que um dia fomos amigas, que dividimos segredos, que ela dormiu na minha cama, usou minhas roupas, comeu da minha comida — algo que eu mal tolerava até de minha irmã.
Meu dedo pairou sobre o mouse por alguns segundos antes que eu finalmente fechasse a imagem.
Bebi meu café e mergulhei no trabalho.
A manhã transcorreu sem grandes problemas, exceto por um pequeno surto de Cat Grant quando Jennifer Lawrence pediu, pela terceira vez, para remarcar uma entrevista e um ensaio fotográfico relacionados ao seu novo filme com Jared Leto.
Consegui conter os danos levando muffins sem glúten para a sala da chefe.
Pouco depois do almoço, Cat já havia recuperado a compostura e a redação voltou ao seu estado normal de caos controlado.
À tarde, James e eu fomos ao fórum de National City para cobrir um julgamento que dominava os noticiários locais.
Um político influente havia sido acusado de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro e, desde que as denúncias vieram à tona, o caso se tornara assunto obrigatório em qualquer conversa.
James conseguiu excelentes fotos do sujeito deixando o prédio ao lado de seu advogado.
Já eu não tive a mesma sorte.
Tentei arrancar ao menos uma declaração, mas ele passou direto por mim sem dizer uma única palavra, claramente decidido a não piorar ainda mais a própria situação.
À tarde, fui com James cobrir um julgamento que acontecia no fórum de Seattle. Um político da cidade teve seu envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro exposto na internet alguns dias antes, e o caso não saía da boca do povo.
James conseguiu ótimas fotos do canalha deixando o fórum ao lado do advogado, mas eu não arranquei sequer uma declaração. O sujeito passou direto por mim, claramente decidido a não piorar ainda mais a própria situação.
Por mais produtivo que o dia estivesse sendo, eu só conseguia pensar em ir para casa.
Eu raramente demonstrava cansaço, mas estava exausta. Havia também uma inquietação difícil de explicar, como se precisasse encontrar Alex o quanto antes.
A sensação ficou ainda mais forte quando Nia, sem motivo aparente, anunciou que eu poderia sair mais cedo.
— Você pode ir para casa. Eu cubro a coletiva do fim da tarde.
— Tem certeza? — perguntei imediatamente. Não parecia justo deixá-la com mais trabalho.
— Tenho! Eu já vou precisar ficar até mais tarde hoje mesmo e...
A frase morreu no meio do caminho.
Aproximando-se pelo corredor vinha o novo funcionário da T.I., que eu conhecia apenas como Dox.
Nia perdeu completamente o raciocínio.
Aquilo foi tão óbvio que precisei fazer um esforço para não rir.
Dox nos cumprimentou com um aceno educado antes de seguir seu caminho. Tinha um ar sério e misterioso que provavelmente explicava parte do interesse da minha estagiária.
Voltei a olhar para ela.
— E...?
O pequeno sorriso que surgiu no canto da minha boca foi suficiente para deixá-la vermelha.
Nia começou a apertar compulsivamente a caneta retrátil.
— E eu acho que sua irmã está precisando de você — respondeu, tentando recuperar a compostura. — Sei que mal a conheço, mas me parece um bom momento para vocês passarem um tempo juntas.
Ela deu de ombros.
— Considere isso um... conselho de sensitiva.
Sorri.
Nia tinha um jeito sonhador que era muito característico dela. Às vezes me lembrava Luna Lovegood, uma das minhas personagens favoritas de Harry Potter.
Talvez por isso fosse tão difícil não gostar dela.
— Tudo bem, Nia Sensitiva. Eu aceito.
Peguei minha bolsa e apontei para ela.
— E agradeço muito. Fico te devendo uma.
O sorriso orgulhoso que ela abriu quase me fez acreditar que realmente possuía poderes psíquicos.
### Lena’s POV ###
Entrei na sala de reuniões exatamente sete minutos atrasada.
Não oito.
Não seis.
Sete.
Tempo suficiente para deixar os investidores impacientes e os membros do conselho desconfortáveis.
Assim que a porta de vidro se abriu, vinte pares de olhos se voltaram para mim. Não pedi desculpas. Tampouco ofereci explicações.
Apenas atravessei a sala no ritmo tranquilo dos meus saltos, depositei a pasta de couro sobre a mesa e ocupei meu lugar na cabeceira.
A minha cadeira.
— Podemos começar agora.
O homem sentado à minha direita pigarreou.
— Na verdade, Lena, nós já começamos.
Ergui os olhos para ele.
— Então imagino que tenha chegado à mesma conclusão que eu.
O investidor franziu a testa.
— Que conclusão?
Abri a pasta com calma.
— Que a proposta da Westbridge Capital é um desastre financeiro.
O silêncio foi imediato.
Deslizei algumas cópias pela mesa.
— Página três.
Ninguém respondeu.
— Eu espero.
Os executivos começaram a folhear os documentos. Alguns tentavam esconder o desconforto atrás de expressões profissionais, outros simplesmente pareciam perdidos.
Cruzei as mãos sobre a mesa e apoiei o queixo sobre os dedos entrelaçados.
Esperei.
Porque sabia exatamente o que encontrariam.
— Isso não pode estar certo — alguém murmurou.
— Está.
— A projeção de crescimento...
— É falsa.
— Como você sabe?
Sorri.
Não muito.
Apenas o suficiente.
— Porque eu comprei a empresa que forneceu os dados ontem à noite.
A sala inteira congelou.
Cruzei as pernas sob a mesa.
— O diretor financeiro deles estava mentindo para os acionistas.
Mais silêncio.
— Vocês estavam prestes a investir oitocentos milhões de dólares numa fraude.
Inclinei levemente a cabeça.
— Felizmente eu faço o meu trabalho.
O comentário arrancou alguns olhares constrangidos.
O homem que mais contestava minhas decisões nos últimos meses respirou fundo antes de falar.
— Você poderia ter nos informado antes da reunião.
— Poderia.
— Então por que não fez?
Abri um sorriso lento.
Daqueles que raramente significavam algo bom para quem estava do outro lado da mesa.
— Porque eu queria descobrir quem votaria a favor da proposta sem sequer ler os relatórios.
Ninguém respondeu.
Exatamente como eu esperava.
Recolhi os documentos espalhados à minha frente.
— A reunião acabou.
— Acabou?
— Sim.
— Ainda temos cinco pautas.
— Não temos mais.
Levantei-me.
— Eu já resolvi as cinco.
Virei as costas antes que alguém tivesse a coragem de me questionar.
Quando alcancei a porta, pude sentir os olhares me acompanhando.
Era quase engraçado.
Homens e mulheres acostumados a comandar empresas bilionárias pareciam alunos flagrados despreparados por uma professora particularmente cruel.
A porta se fechou atrás de mim. Só então permiti que um sorriso satisfeito surgisse em meus lábios. Poder nunca teve relação com volume. Poder era entrar numa sala cheia de pessoas importantes e fazê-las perceber que nenhuma delas era a pessoa mais inteligente dali.
Por dentro, no entanto, eu estava exausta.
Liderar uma empresa significava passar metade do tempo tomando decisões e a outra metade convencendo pessoas ricas de que você já havia tomado a decisão correta.
Ao dobrar o corredor que levava ao meu escritório, encontrei Eve sentada à mesa da recepção.
Ela ergueu os olhos imediatamente.
Sempre fazia isso.
Como se soubesse exatamente o momento em que eu apareceria.
— Como foi a reunião? — perguntou.
Parei diante de sua mesa.
— Monótona.
— Isso significa que você venceu?
— Significa que eles perderam.
O canto da boca dela se ergueu em um sorriso. O meu favorito. Discreto, reservado, como se fosse algo que apenas eu tivesse o privilégio de ver.
Eve estendeu uma pasta.
— Os documentos da aquisição já foram assinados.
— Ótimo.
Peguei a pasta, mas não me afastei, e ela também não voltou a olhar para o computador. Por alguns segundos, ficamos apenas ali, observando uma à outra.
— Você ainda não almoçou — comentou.
— E você percebeu isso como?
— Porque está com aquela expressão.
— Que expressão?
— A de alguém que está prestes a intimidar um diretor financeiro inocente porque está com fome.
Ri pelo nariz.
— Eu jamais faria isso.
— Claro que não.
A ironia em sua voz fez meu sorriso aumentar.
Inclinei-me levemente sobre a mesa.
— Está me chamando de cruel, Eve?
— Eu jamais teria coragem.
— Mentirosa.
Ela desviou os olhos por um instante. Aquele pequeno gesto de timidez sempre me pegava desprevenida. Talvez porque fosse raro. Talvez porque, em um mundo cheio de pessoas que queriam algo de mim, Eve fosse uma das poucas que pareciam simplesmente gostar da minha companhia.
— Reservei uma mesa no restaurante do terraço — disse ela, voltando a me encarar. — Imaginei que você esqueceria de comer.
— E se eu tivesse outros planos?
— Você não tinha.
Sorri.
— Gosto quando você está certa.
— Eu sei.
A resposta veio rápida demais. Os olhos dela se arregalaram logo depois e eu arqueei uma sobrancelha.
— Ah, você sabe?
As bochechas de Eve ganharam um tom rosado. Adorável. Absolutamente adorável. Endireitei-me e segurei a pasta contra o peito.
— Venha comigo.
— Para o almoço?
— Apenas me siga.
[...]
A porta do escritório foi escancarada e mamãe entrou acompanhada de Lex. Os dois discutiam tão concentrados um no outro que, a princípio, mal perceberam o que interrompiam.
Eve saiu de baixo da mesa tão rápido que cheguei a duvidar que fosse humana. Em um movimento impressionante, apanhou a garrafa de whisky e começou a servir meu copo enquanto tentava limpar discretamente o batom borrado.
— Lena, você acredita nisso? — Lex apontou para mamãe, indignado, apoiando as mãos na cintura.
Ao mesmo tempo, tratei de abaixar o vestido e me recompor na cadeira.
— Ela enlouqueceu de vez!
— Se você disser isso mais uma vez, vou mostrar o estrago que um salto alto pode fazer no seu intestino! Só não decidi ainda se ele entra por cima ou por baixo! — retrucou Lilian.
Então ela se virou para mim.
O olhar furioso suavizou ao encontrar Eve na sala. Primeiro veio a confusão. Depois, a desconfiança.
— Oh, Ms. Tessmacher. Poderia buscar meu chá? Sem açúcar e com leite desnatado, por favor.
Rolei os olhos diante da falsa delicadeza de mamãe.
Eve não perdeu tempo. Saiu da sala tão rápido que provavelmente estava agradecendo mentalmente pela oportunidade de escapar.
Achei que o problema tivesse ido embora junto com ela. Achei errado.
Vi Lex usar um lápis para erguer minha calcinha de renda preta, abandonada sobre a mesa. A expressão de puro horror em seu rosto me arrancou uma gargalhada debochada.
— Você cheira cocaína em banheiros públicos. Não finja que tem nojo de uma calcinha da sua irmã.
Meu comentário fez Lex largar o lápis imediatamente, como se tivesse encostado em material radioativo.
— Que nojo!
Ele começou a balançar as mãos no ar, visivelmente perturbado.
Mamãe pigarreou para chamar minha atenção e apontou discretamente para o canto da própria boca.
Batom.
Droga.
Limpei a marca o mais rápido possível, calcei os sapatos e me levantei, assumindo minha posição habitual nas discussões familiares: a única adulta presente.
— Olha, sinceramente, estou sem tempo para essa conversinha, Lex. Diz logo o que aconteceu. A mamãe claramente está aqui contra a própria vontade e parece muito interessada em enfiar esse sapato na sua bunda.
Caminhei até o sofá e me sentei no meio, alternando o olhar entre os dois enquanto tomava mais um gole de whisky.
— Lilian vai se casar.
Cuspi a bebida no tapete.
Mamãe jogou as mãos para o alto.
— Francamente! Qual é a surpresa? Estou viúva há quase quinze anos!
Larguei o copo sobre a mesa de centro.
— Não tem graça, Lilian. Que tipo de piada é essa?
— Não é uma piada.
— Eu disse que ela está louca! — Lex insistiu.
Mamãe arrancou o sapato do pé e o lançou na direção dele.
A pontaria foi tão perfeita que arrancou a peruca do lugar.
— Chega! Os dois! — gritei, levantando-me. — Lex, você consegue calar a boca? Porque eu mesma vou ajudar a mamãe a enfiar esse sapato na sua garganta se ouvir mais uma palavra sua pelos próximos dez minutos.
Emburrado, ele deu de ombros e foi até o espelho mais próximo para arrumar a peruca.
Mamãe, por outro lado, pegou minha garrafa de whisky e bebeu diretamente do gargalo.
Arqueei as sobrancelhas.
A situação era mais séria do que eu imaginava.
— Seu noivo é aquele namorado do sul? O ex-agente que você mencionou algumas vezes?
— Sim. Eu o mencionei várias vezes, na verdade. Mas você e seu irmão vivem tão ocupados olhando para o próprio umbigo que nunca sabem do que estou falando.
Ela cruzou os braços, escondendo a mágoa atrás da costumeira expressão severa.
— A data já está marcada. Não vim pedir autorização. Vim comunicar. E convidar.
— Você esqueceu de dizer qual Jeremiah, Lilian — comentou Lex, admirando o próprio reflexo no espelho. — Conta para ela quem vai ser nossa nova parenta.
Encarei mamãe.
Ela desviou o olhar.
E naquele instante eu soube. Soube exatamente qual Jeremiah estava noivo dela. Só não queria acreditar.
— VOCÊ SE ENVOLVEU COM OS DANVERS?!
Minha voz ecoou pelo escritório. Comecei a tremer tanto que precisei me sentar novamente.
— LILIAN! COM OS DANVERS?! EU NÃO ACREDITO NISSO!
Cobri o rosto com as mãos. Meu mundo acabava de desmoronar. Ela ia se casar com um Danvers. E, pior, pretendia trazer aquelas duas toupeiras para dentro da nossa família.
Minha boca secou. De repente, o whisky pareceu amargo.
— Lena Luthor e Kara Danvers novamente! — anunciou Lex, satisfeito. — Agora como irmãs!
Ele estava se divertindo demais com a minha desgraça.
Mas, considerando o histórico da nossa família, se Lex estava no inferno, era minha obrigação como irmã estar lá também.
Perfeito.
### Kara's POV ###
Quando abri a porta do apartamento, não esperava encontrar Alex sentada no sofá.
Pela postura rígida e pela expressão fechada da minha irmã, deduzi imediatamente que alguma coisa estava errada.
— Alex? O que aconteceu?
Deixei sobre o balcão da cozinha a sacola com as compras que havia feito para o jantar. Tinha comprado vinho, alguns ingredientes e planejado cozinhar algo especial antes do filme que assistiríamos mais tarde.
Encontrá-la ali estragava um pouco a surpresa.
Mas, por outro lado, era bom vê-la.
Ou pelo menos eu achava que era.
— Desculpa ter vindo mais cedo. Não consegui esperar.
— Ei, está tudo bem. Eu adoro quando você aparece.
Alex esboçou um sorriso fraco enquanto eu me sentava ao seu lado.
Então ela segurou minha mão.
E não foi um gesto comum.
Foi aquele tipo de aperto que as pessoas usam quando estão prestes a comunicar uma tragédia para uma criança.
A partir dali comecei a empalidecer.
— O papai me ligou hoje.
— Ele está bem? — perguntei imediatamente.
— Está. Forte como um touro. Ele só ligou para dar uma notícia.
— Uma boa notícia, espero.
Sorri, nervosa.
Queria que ela fosse direto ao ponto.
Todo aquele suspense já estava me dando dor de barriga.
Alex respirou fundo.
— Bem... parece que ele e Lilian Luthor vão se casar.
— O quê?
Meu queixo caiu.
— E o jantar de oficialização do noivado vai ser sábado. Na mansão dos Luthor.
— O QUÊ?!
Soltei a mão dela tão rápido que quase me machuquei.
Alex fechou os olhos e abaixou a cabeça. Ela claramente também não estava feliz com aquilo. Mas eu ainda torcia para ser uma pegadinha de gosto duvidoso.
— E você vai ser a madrinha.
— O QUÊ?!
Levantei tão rápido que quase derrubei a mesa de centro. Arranquei os óculos do rosto. Sentia meu corpo inteiro gelar. Meu queixo tremia. Minhas pernas pareciam feitas de gelatina.
— Mas... mas... COMO ASSIM? LILIAN LUTHOR?!
Alex continuou sentada enquanto eu começava a andar de um lado para o outro pela sala.
— Isso é mentira. Jeremiah não pode ter feito isso. Ele sabe o que os Luthor representam para mim. Para nós! E a Lilian é...
Passei as mãos pelos cabelos.
— Ela é uma megera! O que o papai viu nela?!
— Kara, eu sei que você não está feliz. Eu também não estou. Até a mamãe ficou em choque depois de dez anos de divórcio.
Alex se levantou e segurou meus ombros.
— E só Deus sabe o quanto eu queria secar uma garrafa inteira de vodca agora. Mas não dá mais para impedir. Talvez só dê para surtar mesmo. O casamento já foi marcado e o papai parece genuinamente feliz.
Ela suspirou e me puxou para um abraço.
— Tenta pensar pelo lado positivo. Essa pode ser sua chance de se vingar da garota que destruiu sua vida no ensino médio.
— Alex!
Afastei-me imediatamente.
— Eu não vou usar o casamento do nosso pai como ferramenta de vingança. Ele não merece isso.
— Mas a Lena merece.
— Não!
Balancei a cabeça.
— Não, não e não. Tira essa ideia da cabeça. Eu ainda estou tentando processar tudo isso. E essa história de madrinha... sinceramente, eu não levo jeito para essas coisas.
Fui até a cozinha e comecei a separar o vinho, o pacote de Doritos, duas taças e o queijo temperado que havia comprado.
Se o mundo estava acabando, pelo menos eu pretendia enfrentá-lo alimentada.
Levei tudo para a sala.
Alex imediatamente se acomodou no chão, tirando as botas para ficar mais confortável.
Servi o vinho para nós duas enquanto refletia que dar bebida alcoólica para minha irmã talvez não fosse uma grande ideia naquele momento.
Por outro lado...
Era exatamente o tipo de situação que justificava uma exceção.
— Vou colocar uma música que combine com esse momento horroroso.
Alex pegou o controle do som.
Segundos depois, os primeiros acordes de Fuck You, da Lily Allen, ecoaram pela sala.
Não consegui evitar a risada.
— Por que o papai não contou pessoalmente?
Entreguei uma das taças a ela.
— Quero dizer, ele poderia ter vindo aqui.
Alex me lançou um olhar que dizia claramente:
"Não, ele não poderia."
— Acho que ele está receoso justamente por causa dos Luthor. E aposto que essa história do jantar foi ideia da Lilian. Ela deve estar doida para exibir o anel de noivado. O Jeremiah nunca ligou para esse tipo de formalidade.
— Argh...
Estremeci.
— Vai ser um inferno de qualquer jeito. O Lex vai estar lá. A Lena vai estar lá.
Só de pronunciar o nome dela senti um arrepio percorrer minha espinha.
Os olhos verdes daquela desgraçada continuavam me assombrando anos depois. Não bastava estamparem capas de revistas e aparecerem em todos os portais de notícias. Agora Lena Luthor também iria invadir minha vida familiar.
— E eu estou louca para causar! — declarou Alex, erguendo a taça. — Um brinde ao novo casal e a este vinho maravilhoso. Porque tudo o que eu quero é beber até esquecer esse surto coletivo.
Ergui minha taça e ri.
Mas era um riso nervoso. Eu ainda queria que alguém me beliscasse, porque nada daquilo parecia real. Meu pior pesadelo estava acontecendo. E o pior de tudo era não haver nenhuma chance de acordar.
Como Shakespeare escreveu sobre as pirâmides e as mudanças: elas não pareciam novas nem estranhas, apenas as mesmas com novas vestimentas.
Esse era o karma chamado Lena Luthor na minha vida.
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