7 Dias na Toscana
2 Boas Maneiras
### Kara’s POV ###
Encarei meu reflexo no espelho, incomodada com a gola do vestido — ou talvez fosse o tecido. Não tinha certeza. A verdade é que nada na minha aparência parecia adequado para um jantar com os Luthor. E mesmo que parecesse, nenhuma roupa seria capaz de disfarçar o tamanho do meu desconforto.
Ainda assim, era o jantar de noivado do meu pai.
Não era o momento de me preocupar com a armação torta dos meus óculos, com a espinha que havia surgido na minha testa nem com as dores físicas que me acompanhavam havia dois dias. Segundo o aplicativo de monitoramento do meu ciclo menstrual, aquilo era apenas um aviso amigável de que minha menstruação estava a caminho.
Eu não estava feliz com aquele evento. Sentia náuseas só de pensar na cerimônia de casamento. Mesmo assim, tratei de colocar um sorriso no rosto quando Alex chegou de Uber para irmos juntas.
Assim que entrei no carro, senti o cheiro inconfundível de vodca misturado ao perfume dela.
Decidi não comentar.
Questionar Alex sobre o vício naquela altura parecia uma péssima ideia.
— Ah, Kara... Por que você escolheu bege?
Torci o nariz imediatamente.
Fiquei em silêncio, fingindo que eu mesma não tinha odiado aquele vestido.
— Vermelho. Vermelho é a cor da vingança.
Alex balançou a cabeça em desaprovação e se inclinou para falar com o motorista, indicando uma nova rota.
— Vamos chegar atrasadas, Alex. Não seja irresponsável. — Ajustei os óculos, sentindo o rosto esquentar de vergonha. — É só um vestido.
Ela virou o rosto lentamente para mim, como se eu tivesse acabado de dizer algo particularmente estúpido.
— Não é só um vestido, Kara.
Então se inclinou na minha direção.
— É você falando a linguagem dela.
Acabamos fazendo uma parada no apartamento de Alex, onde fui praticamente coagida a vestir o tal vestido da vingança.
Para meu desgosto, ele era realmente mais bonito. Isso não significava que eu estivesse confortável. O decote era ousado demais para o meu gosto e a fenda na coxa me dava a sensação constante de que qualquer movimento brusco poderia terminar em constrangimento público.
Alex ainda tentou me convencer a trocar os óculos por lentes de contato. Mas aquilo já era um limite que eu me recusei a ultrapassar.
Quando finalmente voltamos para o carro e seguimos em direção à mansão dos Luthor, meu celular vibrou.
Era uma mensagem de James.
"Você sabe se a Nia já chegou?"
Franzi a testa.
Sem responder, toquei no nome dele e iniciei uma chamada de vídeo.
— O que você quer dizer com...
A frase morreu na minha garganta assim que a imagem apareceu na tela.
Atrás de James havia fotógrafos, cinegrafistas, repórteres e uma movimentação que eu conhecia bem demais para confundir.
Meu estômago afundou.
— James... não me diga que você está na mansão dos Luthor.
Ele soltou um suspiro constrangido.
— Sim, estou.
Fechei os olhos por um instante.
— Foi uma loucura quando divulgaram os detalhes do evento hoje à tarde. Nem a Nia nem eu sabíamos que a Cat ia nos escalar para cobrir. Quando vimos, já estávamos aqui.
Continuei encarando a tela sem conseguir formular uma resposta.
— Kara?
James inclinou a cabeça.
— Você está bem?
Eu não estava.
A simples ideia de encontrar Lena já vinha me atormentando desde a noite anterior. Agora eu teria que fazer isso diante de câmeras, jornalistas e, provavelmente, de metade da imprensa local. Dos meus colegas de trabalho!
— Você está vindo pra cá? — ele insistiu. — Por acaso viu a Nia?
Antes que eu respondesse, Alex arrancou o celular da minha mão e encerrou a chamada.
Não ouvi o que ela disse depois disso. Minha atenção já estava ocupada imaginando como seria atravessar os portões daquela mansão.
Eu conhecia eventos organizados por pessoas ricas. Conhecia coletivas de imprensa. Conhecia tapetes vermelhos.
Mas aquilo era um evento dos Luthor.
Conseguia imaginar os flashes disparando sem parar, os jornalistas se acotovelando atrás de declarações e, no final daquele percurso cuidadosamente planejado para impressionar convidados, Lena me esperando com aquele olhar que sempre me fazia sentir ter dezessete anos novamente.
Tirei os óculos e pressionei os dedos contra os olhos fechados.
Meu coração parecia acelerado demais.
O ar parecia insuficiente.
Uma sensação de calor percorreu meu corpo, seguida por um frio desagradável. O zumbido nos ouvidos começou de forma discreta, mas aumentou rapidamente, misturando-se ao som distante do trânsito.
Ouvi Alex dizer meu nome. Depois ouvi de novo. Na terceira vez, sua voz parecia muito distante. Só então percebi que estava perdendo a consciência. Senti seus braços me segurarem antes que eu tombasse para o lado.
A escuridão que veio em seguida não foi exatamente um apagão. Foi mais parecida com uma porta se abrindo para um lugar que eu passava anos tentando manter trancado.
Quando percebi, estava novamente naquele corredor. Armários metálicos. Cartazes coloridos anunciando eventos estudantis. Portas de salas de aula identificadas por pequenas placas. O barulho constante de adolescentes circulando entre uma aula e outra.
E, no meio de toda aquela movimentação, os olhos verdes dela se destacavam.
Eu me lembrava daqueles olhos melhor do que gostaria.
Da forma como observavam, como calculavam, como pareciam sempre saber exatamente onde atingir.
A última coisa que vi antes de ela fechar a porta e me deixar presa lá dentro foi aquele olhar. E a certeza de que Lena Luthor sabia exatamente o que estava fazendo.
### Lena’s POV ###
Minha mãe estava transformando um simples jantar de noivado em uma cúpula diplomática internacional.
Ela havia contratado um violinista para tocar durante a recepção. Considerando que se tratava de um anúncio de casamento e não da coroação de um monarca europeu, achei a decisão um tanto exagerada.
Na verdade, tudo parecia exagerado.
Os arranjos florais ocupavam mais espaço do que algumas mesas. Havia estátuas de gelo espalhadas pelo salão, uma quantidade obscena de flores importadas e um buffet capaz de alimentar uma pequena cidade por vários dias.
Enquanto os funcionários corriam de um lado para o outro fazendo os últimos ajustes, eu me vi calculando mentalmente quanto daquele espetáculo poderia ser convertido em alguma ação beneficente depois do evento. Se mamãe insistia em transformar o noivado em uma demonstração pública de riqueza, o mínimo que eu podia fazer era garantir que parte daquela extravagância acabasse servindo para algo útil.
Além disso, filantropia costumava ser uma forma eficiente de suavizar a cobertura da imprensa quando ela começasse a questionar por que cinquenta pessoas precisavam de comida suficiente para abastecer um bairro inteiro.
Como se estivesse determinada a provar meu ponto, mamãe surgiu no salão naquele exato instante acompanhada por três decoradores, dois organizadores de eventos e um homem que aparentemente havia sido contratado apenas para cuidar das velas.
Ela apontava para diferentes cantos do ambiente enquanto descrevia alterações de última hora, traçando linhas imaginárias no ar com um entusiasmo quase juvenil. Parecia genuinamente encantada com tudo aquilo. Não apenas com a festa, mas com a ideia de estar vivendo algo que, durante anos, eu sequer imaginei que desejasse.
A cada ligação de Jeremiah, seu semblante mudava completamente. Os ombros relaxavam, a postura rígida desaparecia e um sorriso surgia em seus lábios. Não um daqueles sorrisos calculados que ela reservava para investidores, políticos ou jornalistas.
Era um sorriso real.
Um sorriso que eu só me lembrava de ter visto quando era criança.
Acompanhei seus movimentos pelo salão sem dizer nada. Entre meus dedos, a caneta retrátil clicava em intervalos cada vez mais curtos.
Por mais absurda que aquela situação parecesse, era difícil ignorar que mamãe estava feliz.
— Ela está aterrorizante.
A voz de Lex surgiu atrás de mim.
Nem me dei ao trabalho de olhar.
— Você diz isso sobre qualquer pessoa que demonstre emoções humanas.
— Porque emoções humanas são aterrorizantes.
Ele contornou o sofá e se jogou ao meu lado, segurando uma taça de champanhe que eu tinha quase certeza de que alguém havia acabado de mandar tirar de suas mãos.
— Você viu o violinista?
— Vi.
— Ele está tocando há quarenta minutos.
— E?
— Ninguém chegou ainda.
Finalmente ergui os olhos para ele.
— Qual é o seu ponto?
— Meu ponto é que estamos pagando um homem para tocar música clássica para móveis.
Observei o salão. Infelizmente, ele tinha razão.
O violinista executava sua apresentação impecavelmente para uma plateia composta por arranjos florais, garçons e uma escultura de gelo em formato de cisne.
— Mamãe está feliz, Lex.
Meu irmão fez uma careta.
— Eu sei.
A resposta saiu rápida demais. Rápida o suficiente para me fazer encará-lo.
— Você sabe?
— Claro que sei.
Ele girou a taça entre os dedos.
— É difícil não perceber quando Lilian Luthor sorri como uma adolescente toda vez que o telefone toca.
Por um instante, sua expressão perdeu o habitual ar debochado.
Durou pouco.
— Ainda acho que ela enlouqueceu.
Revirei os olhos.
— E eu acho que você deveria parar de roubar bebida do buffet.
— Não estou roubando.
— Lex.
— Tecnicamente, a bebida é da família.
— Lex.
— Tecnicamente, eu sou da família.
Antes que eu pudesse formular uma resposta à altura, mamãe surgiu e se acomodou entre nós no sofá, obrigando-nos a abrir espaço.
— Ah, que maravilha! Meus dois maiores diamantes, cada um de um lado.
Ela sorriu satisfeita, ajeitando o vestido como se estivesse posando para um retrato oficial. Não era o sorriso apaixonado que reservava para Jeremiah durante as ligações, mas o sorriso social dos Luthor: elegante, impecável e perfeitamente treinado.
Quando o flash disparou em nossa direção, entendi imediatamente o que estava acontecendo.
— Sorria, Lena. Você não vai querer aparecer emburrada em todas as fotos, vai? — provocou Lex, inclinando-se para dar um beijo exagerado na bochecha de mamãe.
Revirei os olhos, mas abri meu melhor sorriso para a câmera. Aproveitei para apoiar a cabeça no ombro de Lilian, oferecendo aos fotógrafos uma imagem familiar digna de capa de revista.
— Pelo menos meu cabelo está no lugar. É o que realmente importa.
Lex congelou.
Observei seu rosto perder a cor.
Então ele se levantou tão rápido que quase derrubou a taça de champanhe.
— O que você quer dizer com isso?
— Nada.
Dei de ombros com naturalidade.
— Lena.
— Absolutamente nada.
Meu irmão já estava correndo em direção ao espelho mais próximo. Mamãe soltou um suspiro cansado e eu apenas sorri para a próxima foto.
Os fotógrafos estavam ficando cada vez mais numerosos e eu já havia sorrido para câmeras suficientes para preencher uma campanha presidencial.
Peguei uma taça de champanhe de uma bandeja e caminhei até uma das janelas do salão.
Lá fora, as luzes da entrada principal iluminavam a longa alameda que levava até a mansão. Mais um carro acabava de chegar. Não dei muita atenção, naquela noite haveria dezenas deles.
Observei distraidamente o motorista descer primeiro. Em seguida, uma mulher ruiva saiu pela porta traseira.
Alex Danvers.
Meu estômago afundou. Por um instante, considerei a possibilidade de voltar para dentro e fingir que não as tinha visto.
Então a outra porta se abriu e o mundo pareceu desacelerar.
Kara.
Depois de todos aqueles anos, eu ainda a reconheceria em qualquer lugar.
Ela permaneceu parada ao lado do carro por alguns segundos, ajustando os óculos com um gesto que eu conhecia bem demais.
Minha mão se fechou involuntariamente ao redor da taça.
Tive a impressão de que seus olhos azuis encontraram os meus através do vidro da janela, e o simples pensamento me fez tensionar ainda mais os dedos.
O estalo seco me arrancou daquele transe.
Olhei para baixo.
Fragmentos de vidro e fios de sangue se misturavam ao champanhe espalhado sobre o assoalho.
Ignorei os funcionários que se aproximavam, alarmados demais com alguns cortes superficiais. Meus olhos permaneceram fixos na poça brilhante aos meus pés.
Por um instante, ela deixou de ser champanhe.
Eu voltei a enxergar o piso molhado ao redor da piscina do colégio, o cheiro forte de cloro impregnando o ambiente e os reflexos trêmulos da água nas paredes azulejadas.
Naquela época, Kara e eu ainda fazíamos parte do time de natação.
Naquela época, eu ainda acreditava que algumas coisas durariam para sempre.
Um sorriso triste surgiu em meus lábios diante da lembrança, mas desapareceu quase tão rápido quanto veio quando voltei ao momento presente.
Uma das funcionárias havia se ajoelhado ao meu lado e, com uma delicadeza exagerada, pressionava um pano úmido contra os pequenos cortes em minha mão.
— Ms. Luthor, eu vou chamar alguém da enfermaria.
— Não é necessário. — Retirei a mão com cuidado e peguei outro guardanapo da bandeja de um garçom que passava. — É só uma taça.
A pobre mulher parecia mais assustada com a possibilidade de decepcionar minha mãe do que com os meus dedos ensanguentados.
Olhei mais uma vez para a entrada principal. O carro já estava vazio e Kara Danvers havia desaparecido da minha vista. Por algum motivo, aquilo me incomodou mais do que os cacos de vidro.
### Kara’s POV ###
Alex passou todo o caminho cuidando para que eu recobrasse os sentidos e não parecesse um cadáver de tão pálida. Fez-me beber água, deitou minha cabeça em seu colo e ergueu minhas pernas, apoiando-as no encosto do banco. Quando minha respiração finalmente voltou ao normal, passou um batom mais escuro em meus lábios para disfarçar a falta de cor.
— Estamos chegando.
Inclinei-me em direção à janela e observei a entrada da mansão. Os portões de ferro estavam escancarados, mas aquilo definitivamente não significava boas-vindas.
Mesmo com os vidros fechados, o cheiro de grama recém-cortada e rosas invadiu o carro. Era impossível negar que os jardins dos Luthor eram impecáveis. Bem cuidados, elegantes e meticulosamente planejados.
Meu elogio, no entanto, terminava ali.
O exagero parecia ter sido o arquiteto responsável por toda a propriedade. Da fonte monumental à quantidade quase absurda de roseiras, tudo parecia existir para lembrar aos visitantes que aquela família podia gastar mais dinheiro em paisagismo do que muita gente ganhava durante a vida inteira.
Infelizmente, aquilo ainda nem era a pior parte.
Atrás das faixas de isolamento, dezenas de jornalistas aguardavam a chegada dos convidados. Câmeras já estavam posicionadas, microfones eram preparados e os fotógrafos se acotovelavam em busca do melhor ângulo da entrada principal.
Comecei a hiperventilar outra vez.
— Ah, céus...
Alex retirou discretamente uma pequena garrafa de vodca de dentro do decote, tomou um gole rápido e suspirou.
— Que isso acabe logo.
Sorri de nervoso.
Naquele momento, era exatamente o meu desejo também.
Segurei a maçaneta com dedos gelados, mas hesitei por um breve instante. Fechei os olhos, inspirei profundamente e tentei empurrar todos os fantasmas do passado para o canto mais distante da minha mente.
Abri a porta.
Desci do carro sem olhar para os lados, ignorando os flashes e as perguntas que começaram a surgir de todos os cantos ao mesmo tempo.
Foi impossível, porém, não reconhecer James e Nia entre os profissionais da imprensa.
Os dois usavam crachás da CatCo.
James mantinha a câmera erguida, mas não fotografava. Seu olhar carregava uma mistura de preocupação e pena que me deixou ainda mais desconfortável.
Nia, por outro lado, escrevia freneticamente em seu bloco de anotações, completamente concentrada no trabalho.
Ainda tentando processar a presença dos meus colegas naquele lugar, mal percebi quando Alex surgiu ao meu lado e entrelaçou o braço ao meu.
Os flashes dispararam quase imediatamente.
Virei o rosto para fugir da luz e ajustei os óculos. Meu olhar acabou encontrando uma das janelas do segundo andar.
Por um segundo, tive a impressão de enxergar alguém parado atrás do vidro.
Quando pisquei, havia apenas a cortina balançando suavemente com o vento.
— Minhas meninas!
A voz de Jeremiah, que acabava de descer do carro logo atrás do nosso, arrancou de mim o primeiro sorriso verdadeiramente espontâneo daquela noite.
Corri para abraçá-lo.
Os fotógrafos aproveitaram o momento e registraram nossa pequena reunião de família, mas nenhum de nós parecia disposto a transformar aquele reencontro em espetáculo. Poucos segundos depois, já subíamos juntos a escadaria principal, deixando para trás os flashes, as perguntas e o tumulto da entrada para desaparecer pelas enormes portas de madeira da mansão.
— Vocês estão lindas. — Jeremiah lançou um olhar orgulhoso para cada uma de nós. — Obrigado por estarem aqui. Significa muito para mim.
Engoli em seco antes de sorrir.
— Tudo por você, pai.
Depositei um beijo em seu rosto e apertei sua mão com firmeza.
O hall da mansão era tomado pelo som suave do violino, que se espalhava pelo ambiente iluminado e impecavelmente decorado.
Os Luthor nos aguardavam.
Meu olhar percorreu cada um deles.
Lilian estava deslumbrante em um terninho creme e um colar de pérolas discretas. Assim que viu meu pai, sorriu de um jeito que fez todo o restante do ambiente desaparecer. Ela parecia enxergar apenas Jeremiah.
Ao lado da matriarca estava Lex. O terno impecável e o cabelo cuidadosamente penteado não eram suficientes para esconder o quão medíocre ele conseguia ser.
E, por fim, Lena. Vestia preto da cabeça aos pés, como se tivesse decidido comparecer ao jantar de noivado para prestigiar um funeral. Talvez o da própria família. O batom vermelho contrastava com a pele clara, e os olhos verdes encontraram os meus no mesmo instante em que a reconheci.
Nenhuma de nós desviou o olhar.
Quase ao mesmo tempo, demos um passo à frente e estendemos a mão em um cumprimento tão educado quanto artificial.
— Boa noite, Ms. Luthor.
Ela arqueou discretamente uma das sobrancelhas.
— Boa noite, Kara. Pode me chamar de Lena.
Assenti em silêncio enquanto soltava sua mão. O perfume de jasmim ainda permanecia no ar. O mesmo de anos atrás.
— Bem... — Jeremiah parou entre nós duas com um sorriso satisfeito. — Acredito que vocês já se conheçam, mas acho que as formalidades continuam sendo importantes.
Seu entusiasmo era tão genuíno que, por alguns segundos, consegui esquecer o motivo de estar ali.
— Estas são minhas filhas, Alex e Kara.
Lilian deu um passo à frente.
— E estes são meus filhos, Lex e Lena.
Por um breve instante, ninguém disse absolutamente nada. As duas famílias apenas se encararam.
Olhei rapidamente para Alex e tive a impressão de que ela estava contando até dez. Eu considerei fazer o mesmo. Tive a estranha sensação de que todos naquela sala estavam representando um papel, tentando convencer a si mesmos de que aquele encontro tinha alguma chance de dar certo.
Lex ostentava um sorriso convencido demais para a situação. Lena permanecia impassível. E eu só conseguia pensar que aquela era, sem dúvida, a reunião de família mais desconfortável de que já tinha participado.
A noite estava apenas começando.
— Acho que já podemos ir para a mesa. — Lilian uniu delicadamente as mãos, dirigindo um olhar ao maître. — O jantar já deve estar servido.
Ela sorriu para Jeremiah e entrelaçou os dedos aos dele com tanta naturalidade que, por um instante, parecia esquecer completamente que havia mais pessoas na sala.
— Espero que todos estejam com fome.
— Eu estou faminta! — Alex esvaziou a taça de champanhe em um único gole e a entregou ao garçom que passava. — Só duvido que sirvam o que eu realmente estou com vontade de comer.
— Realmente, perereca não consta no cardápio. — Lex respondeu sem perder um segundo.
Fechei os olhos por um instante.
Meu pai chamou a atenção de Alex ao mesmo tempo em que Lilian repreendia Lex, como se aquela troca de constrangimentos fizesse parte do protocolo do jantar.
Os convidados começaram a seguir em direção à sala de jantar, onde cada lugar já estava cuidadosamente identificado.
É claro que estava. Lilian jamais deixaria a disposição dos assentos nas mãos do acaso.
Meu sorriso vacilou assim que encontrei o cartão com meu nome.
Ao lado dele estava outro.
Lena Luthor.
Por alguns segundos, considerei seriamente a possibilidade de fingir um desmaio. Infelizmente, eu já havia usado esse recurso no caminho até ali.
Respirei fundo, sentindo as têmporas latejarem enquanto caminhava até minha cadeira. Sorri para quem cruzava meu caminho, agradeci educadamente quando um garçom afastou a cadeira para mim e me sentei ao lado da pessoa que eu mais gostaria de evitar naquela noite.
— Mamãe, você lembrou de avisar sobre amendoins? Sabe que eu posso morrer se comer amendoim.
— Sim, Lex. Todos os funcionários do buffet estão cientes das restrições alimentares de cada convidado, inclusive das suas.
De soslaio, vi Alex revirar os olhos com tanta força que tive a impressão de que eles poderiam ficar presos no alto da cabeça.
Ao meu lado, Lena digitava rapidamente uma mensagem no celular, tentando manter o aparelho discretamente abaixo da mesa.
Sem querer, meus olhos encontraram o nome do contato.
Eve.
Meu estômago se contraiu por um instante.
O nome me pareceu familiar por algum motivo, embora eu não conseguisse dizer de onde. Talvez alguma funcionária da Luthor Corp. Talvez uma assessora. Talvez alguém importante o suficiente para fazer Lena sorrir discretamente para a tela do celular.
— Algum problema, Kara?
Pisquei algumas vezes antes de perceber que havia sido pega encarando a tela. Minha cara queimou de vergonha.
Desviei o olhar imediatamente e, para disfarçar o constrangimento, alcancei o copo mais próximo. Arrepiei da cabeça aos pés no instante em que o líquido queimou minha garganta. Era whisky.
Engoli com dificuldade. Nunca consegui me acostumar com destilados. A tosse escapou antes que eu pudesse contê-la.
Ao meu lado, Lena soltou uma breve risada nasal, divertida demais com a minha desgraça.
— Todos. — Limpei discretamente os lábios com o guardanapo, respondendo seu questionamento. — Ou você realmente está feliz em ver todo mundo reunido aqui esta noite?
Ela me encarou por alguns segundos. Não respondeu. E também nem precisava. Havia perguntas cuja resposta era evidente demais para serem feitas em voz alta.
— E você ainda não consegue beber whisky. Patético.
Lena tomou delicadamente o copo das minhas mãos. O aro de cristal ainda carregava a marca do meu batom, mas isso pareceu não incomodá-la nem por um segundo. Levou a bebida aos lábios e esvaziou em um único gole, como se estivesse tomando água.
Não fez careta, não hesitou, nem sequer pareceu sentir o amargor do destilado.
— Vejo que você também não mudou. — Murmurei, esforçando-me para manter a voz firme. — Ainda insiste em beber esse troço.
Lena apoiou o copo sobre a mesa e deu de ombros.
— Alguém precisa ter bom gosto nesta família.
Revirei os olhos, mas desviei o olhar rápido demais quando percebi que estava observando a forma como ela passava o polegar pelo cristal.
O pior era admitir, ainda que apenas para mim mesma, que existia algo inexplicavelmente elegante em vê-la beber whisky daquele jeito. Lena fazia até os gestos mais banais parecerem cuidadosamente ensaiados, e eu odiava o fato de continuar reparando nisso.
Para minha sorte, os garçons começaram a entrar com as bandejas de prata e o aroma da comida tomou conta da sala, finalmente vencendo o perfume de jasmim que, desde que eu me sentara ao lado de Lena, parecia ter se tornado impossível de ignorar.
— O chef veio da Toscana, certo? — perguntou Jeremiah, admirando o cuidado com que os pratos eram dispostos à nossa frente.
— Fiz questão. — Lilian levou calmamente a taça aos lábios, sem conseguir esconder o sorriso satisfeito que insistia em permanecer no canto da boca.
— Sim, e custou um rim — resmungou Lex do outro lado da mesa.
— Ainda bem que não foi o meu. — Alex ergueu a taça na direção do garçom, pedindo mais vinho.
— É impressionante que você ainda tenha seus rins. — Lex voltou-se para Alex com uma expressão de falsa surpresa.
— Tenho os dois rins... e o cabelo, Lex. Impressionante, não é? Temos sortes bem diferentes.
Alex sorriu de orelha a orelha ao ver o herdeiro dos Luthor ficar instantaneamente roxo de raiva.
Enquanto eu escondi um sorriso atrás da taça de vinho. Talvez eu devesse repreender Alex por provocar Lex daquela forma. Talvez. Mas vê-lo perder a compostura em menos de cinco minutos de jantar era um pequeno presente que eu não pretendia desperdiçar.
O som do pigarro de meu pai interrompeu a pequena batalha entre Alex e Lex.
Acompanhei seus movimentos enquanto ele se levantava com uma taça nas mãos. Seu olhar percorreu a mesa devagar, mas bastou encontrar Lilian para que o restante da sala parecesse desaparecer.
— Gostaria da atenção de vocês por um instante, por favor.
O silêncio tomou conta da mesa. Não exatamente por respeito ao pedido de meu pai, mas porque todos pareciam conscientes de que uma bomba poderia explodir a qualquer momento.
— Esta é uma noite muito especial para mim e para a minha família. Depois de tantos anos acreditando que já estava velho demais para encontrar o amor outra vez... eu conheci a Lilian.
Lilian levantou-se e caminhou até ele, segurando delicadamente sua mão. Não disse uma única palavra. Não precisava. O jeito como o olhava dizia tudo.
Meu pai sorriu de um jeito que eu não via havia muito tempo.
— Você trouxe de volta uma felicidade que eu achei que nunca mais sentiria. Iluminou dias que eu já considerava comuns e me fez perceber que ainda havia espaço para sonhar, para construir uma nova vida e para acreditar que o amor não tem idade.
Ele apertou de leve a mão dela antes de continuar.
— Obrigado por me lembrar que recomeços também podem ser bonitos.
Por mais que eu quisesse implicar com aquele relacionamento, era impossível olhar para meu pai sem perceber o quanto ele parecia feliz.
Isso tornava tudo muito mais difícil.
— Obrigada, Jeremiah.
Lilian sorriu discretamente para ele antes de voltar a atenção para o restante da mesa.
— Espero que todos vocês saibam o quanto significa para nós tê-los aqui esta noite.
Até ali, tudo parecia normal.
— Queríamos que este jantar fosse apenas uma celebração em família. Afinal, daqui a poucos dias embarcaremos para a Toscana.
O silêncio pareceu ganhar peso.
Meu estômago voltou a gelar, exatamente como na subida lenta de uma montanha-russa, quando você sabe que a queda está prestes a acontecer, mas ainda não consegue enxergá-la.
— E, como pretendo que o casamento seja perfeito...
Olhei para Alex em busca de algum sinal de preocupação, mas ela parecia completamente concentrada na salada.
Lex, por outro lado, conferia o próprio reflexo em um espelhinho de bolso.
De soslaio, observei Lena. Pela primeira vez desde que chegáramos, ela parecia tão apreensiva quanto eu. Os olhos verdes permaneciam fixos em Lilian.
— ...aluguei a propriedade durante uma semana inteira.
Ninguém disse absolutamente nada. Meu pai sorriu, encantado com a ideia. O restante da mesa apenas tentou processar a informação.
— Assim teremos tempo para descansar, conhecer a região e aproveitar a companhia uns dos outros antes da cerimônia.
Meu coração afundou. A queda finalmente havia começado.
— Quero que todos cheguem sete dias antes do casamento.
Lilian voltou-se para Lena. Depois, para mim. Um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios.
— Principalmente minhas madrinhas.
Um arrepio percorreu minha espinha. Virei lentamente o rosto. Lena já estava olhando para mim.
Por um instante, tive a estranha impressão de que nenhuma das duas respirava. Sete dias dividindo o mesmo teto com Lena Luthor.
Só queria acordar daquele pesadelo.
— Sete dias?
A voz de Alex cortou o silêncio como uma navalha afiada. Ela mastigava calmamente a salada fresca e apontou o garfo para Lena e depois para mim.
— Nossa... isso vai dar uma merda colossal.
### Lena’s POV ###
Permaneci olhando para Lilian por mais alguns segundos, mantendo a expressão neutra que aperfeiçoei ao longo de anos em reuniões de conselho.
Por dentro, porém, minha mãe acabara de incendiar qualquer possibilidade de uma semana minimamente tranquila.
Conviver durante sete dias com Kara Danvers e toda a sua família sob o mesmo teto, em outro continente, parecia exatamente o tipo de ideia que só faria sentido na cabeça de Lilian Luthor.
Lex tinha razão, mamãe realmente havia perdido o juízo.
Soltei o ar devagar. Nem havia percebido que estava prendendo a respiração.
Meu primeiro impulso foi procurar uma saída elegante daquela mesa. O segundo foi lembrar que minha mãe provavelmente já havia providenciado as passagens, a hospedagem, os traslados e metade da programação da viagem.
Lilian era o tipo de pessoa que organizava a própria espontaneidade em uma planilha.
Eu não tinha escapatória.
Mas bastou um olhar para o sorriso satisfeito de mamãe para eu entender que ela não havia anunciado a viagem naquele momento por acaso. Lilian esperou que todos relaxassem, que o discurso de Jeremiah desarmasse qualquer resistência e só então revelou a verdadeira extensão de seus planos.
Aquilo não era espontaneidade.
Era estratégia.
Até Lex parou de brincar com seu espelhinho. Era sutil, mas eu conhecia meu irmão o suficiente para perceber que ele também havia sido pego de surpresa.
Excelente. Eu não era a única vítima dos planos de mamãe.
Olhei discretamente para Kara e me surpreendi com sua palidez. Não era maquiagem mal aplicada nem um corretivo no tom errado. Ela estava genuinamente pálida, como alguém prestes a passar mal.
Naquele instante, um garçom se aproximou para completar nossas taças. Kara apressou-se em pegar a dela e levou o vinho aos lábios, talvez tentando diminuir o mal-estar que insistia em denunciá-la. Seus dedos, porém, vacilaram, fazendo o cristal inclinar perigosamente para o lado.
Meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar. Estendi a mão, segurei a base da taça e impedi que o vinho escorresse pela toalha ou manchasse seu vestido. Só depois percebi que meus dedos ainda repousavam sobre a mão dela.
Afastei-me imediatamente, empurrando delicadamente a taça de volta para perto de seu prato, como se aquele gesto tivesse sido apenas um reflexo educado e nada além disso.
— Obrigada... — Kara murmurou.
Não olhei para ela. Tampouco respondi. Apenas voltei minha atenção ao prato à minha frente, incomodada por perceber que meu corpo ainda reagia à presença dela antes que minha razão tivesse a oportunidade de impedir.
Justifiquei para mim mesma que o gesto não passara de um reflexo, mas o simples fato de ter sido Kara tornava aquela explicação difícil de aceitar.
Mamãe, por outro lado, me observava com a expressão de quem havia percebido um detalhe que passara despercebido por todos os outros. Ninguém conhece uma filha melhor do que a própria mãe.
O sorriso discreto que surgiu em seus lábios enquanto levava uma porção da entrada ao prato foi suficiente para me convencer de que ela enxergava muito mais do que eu estava demonstrando.
Desviei o olhar, um pouco incomodada com a ideia, e concentrei-me na comida. Os temperos frescos e o azeite de oliva de excelente qualidade eram dignos da fama do chef, mas nem eles conseguiam distrair minha cabeça.
— E a Luthor Corp? Como estão as coisas?
Jeremiah parecia genuinamente interessado em manter uma conversa civilizada.
— Tivemos um trimestre excelente. Conseguimos ampliar a divisão de tecnologia médica e estamos encerrando algumas operações que deixaram de fazer sentido para a empresa.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Você fala disso como quem comenta a previsão do tempo.
Sorri discretamente. Era um elogio melhor do que ele imaginava.
— Fica mais fácil quando os números estão do seu lado.
— Sempre ouvi dizer que administrar uma empresa como a Luthor Corp era como governar uma cidade inteira.— Jeremiah pareceu impressionado.
— Em alguns dias, é mais simples administrar a cidade.
Todos riram discretamente.
Kara, porém, limitou-se a soltar um resmungo anasalado que me arrancou uma estranha sensação de déjà-vu. Demorei um instante para perceber que era exatamente o mesmo som que eu havia feito quando ela quase cuspiu meu whisky.
— Então você é rica rica mesmo? — perguntou Alex, esvaziando mais uma taça de vinho.
— Depende da definição.
— Tipo... comprar uma ilha?
Dei de ombros.
— Se eu quisesse.
— Nossa...
— Ela compraria a ilha e ainda cobraria aluguel do oceano.
Meu irmão parecia biologicamente incapaz de deixar passar uma oportunidade de fazer um comentário desnecessário.
De repente, aconteceu exatamente o que eu vinha tentando evitar desde que me sentei àquela mesa.
— Engraçado... vocês duas estudaram na mesma escola durante anos, não foi? — perguntou Jeremiah.
Pelo brilho curioso em seus olhos, ficou claro que não havia qualquer malícia na pergunta. Ainda assim, senti a frase atravessar a mesa como uma alfinetada.
— Kara adorava nadar. Alex comentava bastante quando ia assistir aos treinos.
Lancei um rápido olhar para a irmã Danvers. Ela desviou os olhos imediatamente, como se também soubesse onde aquela conversa poderia terminar.
— A Lena também. — Mamãe completou com naturalidade.
Um silêncio desconfortável tomou conta da mesa.
Era impressionante como duas pessoas podiam mencionar um assunto tão inocente e, ao mesmo tempo, abrir uma ferida tão antiga.
Kara manteve os olhos fixos no prato. Não tentou corrigir, complementar ou fazer qualquer comentário.
Aquilo me incomodou mais do que deveria.
Por um instante, os cheiros das deliciosas comidas do jantar desapareceram. Em seu lugar, minha memória trouxe de volta o aroma insistente de protetor solar misturado ao cloro, o eco dos apitos do treinador e o som dos nossos corpos rompendo a superfície da piscina quase ao mesmo tempo.
As risadas que enchiam o ginásio pareciam pertencer a outra vida.
— Vocês competiam juntas? — perguntou Jeremiah.
Competíamos.
Durante muito tempo, ninguém conseguia nos separar nas provas de revezamento.
Houve até um campeonato em que dividimos o lugar mais alto do pódio. Kara insistiu que a arbitragem havia cometido um erro ao declarar apenas uma vencedora e se recusou a receber a medalha enquanto o resultado não fosse revisto.
No fim, convenceram os organizadores a entregar duas medalhas de ouro.
Sorri sem perceber.
Fazia anos que eu não permitia àquela lembrança terminar naquele momento.
— Vocês chegaram a ganhar muitos campeonatos? — perguntou Jeremiah, genuinamente curioso.
Respondi automaticamente:
— Alguns.
Mamãe sorriu.
— Ela chegava em casa com tantas medalhas que precisei mandar fazer um expositor.
Jeremiah riu.
— A Kara fazia exatamente a mesma coisa.
— Curioso... — comentou ele, olhando de Kara para mim. — Vocês devem ter vivido muita coisa juntas.
Mamãe concordou com um sorriso.
— Viveram, sim.
— Que bom. Então vocês já têm histórias suficientes para contar durante a viagem.
Fazia anos que eu não permitia àquela lembrança terminar naquele momento. Talvez fosse justamente esse o problema.
Dentro de alguns dias, eu não teria mais escolha.
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