7 Dias
4 Terceiro Dia
Notas iniciais
.: Camus :.
Meu dia começava bem cedo como sempre, mas também, como de costume, não saí do quarto até que realmente quisesse. Parei diante do espelho e toquei os cabelos, lembrando aquela sensação tão boa de ter além de meus dedos nos cabelos.
Ouvi alguém bater na porta e como não respondi, a pessoa tomou a liberdade de entrar e sentar-se em minha cama. Pela audácia, já sabia quem era e queria ignora-lo, mas o fato de ter se levantado e parado atrás de mim era como uma afronta.
— Não lhe convidei a entrar. – comentei.
— Não que eu precisasse. – aquela voz me dava ânsia de vômito, mas devia atura-lo aqui. – Dite o chama para sair agora cedo, aproveitando que não desceu para o café ainda.
— Afrodite podia vir por si próprio, não mandar um cachorro para o serviço, não acha, Mephisto. – comentei sem tirar os olhos do espelho.
— Vaidoso como é, acha que ele sairia do quarto sem ao menos estar... Alinhado?
— Acho que ele faz o que faz porque quer. – apenas disse. – Se não for incômodo pra você, gostaria que saísse de meu quarto.
— Ok... É bravinho...
— Não, Mephisto, eu sou muito mais que “bravinho”... Saia. – disse em um tom calmo e autoritário para que entendesse muito bem.
Olhei meu celular e não havia uma mensagem que fosse. Não que eu me importasse, mas depois de ontem fiquei com tantos pensamentos em mente, que nem sabia bem o que dizer ou o que pensar.
Assim que saí do quarto, meu primo, determinado em me fazer sair de casa, disse que faríamos os três, uma viagem para a casa de uns amigos e passaríamos dois ou três dias por lá. Inferno! Por que não poderia ao menos ter avisado antes?
...
Percorremos um bom caminho na limusine branca do narcisista pisciano e tentei seriamente resistir à vontade de pular pela janela. O canceriano dava-me embrulhos no estômago e naquela estrada de pedras era ainda pior.
Não consegui aproveitar a vista do local, mas quando aquela coisa parou, respirei tão profundamente, que achei ser a provável primeira vez que o fazia. Abriram a porta e deparei-me com uma fazenda enorme.
Saí do carro completamente confuso, tonto e com uma séria e forte náusea. Muitas pedrinhas, muitas subidas e decidas e o cheiro do mar. Não, o cheiro do mar não me enoja, mas ele perto de Mephisto é uma combinação muito estranha.
Há o barulho das ondas aqui por perto e ao julgar pelas aves, gaivotas, a água está tão próxima quanto imagino. Afrodite agarrou-me o braço e puxou-me pelo caminho de pedras brancas até o interior daquela propriedade, que de perto pude afirmar ser bem menor, porém mais alta que a mansão do sueco.
Tocou a campainha e quando ainda estava em silêncio pude ouvir a música. Aquilo que podia identificar com música eletrônica e que fazia todo mundo dançar em festas e boates na França e era realmente agradável o volume que estava.
Assim que a porta se abriu, vi um homem alto, de cabelos em tom azul escuro com alguns poucos fios grisalhos. Sua expressão séria, logo deu lugar a um sorriso simpático e um olhar gentil.
— Dite! Mask! Como é bom vê-los. – o tom calmo dava contraste direto com a agitação que parecia ocorrer no interior da casa.
— Saga. – o meu primo soltou-me logo para abraçar o maior. – Pelo visto eles chegaram cedo.
— Sim, estamos ainda aproveitando os poucos momentos de férias que nos resta. Creio que pensa o mesmo, não? – deu espaço para que entrássemos. – Entrem, por favor.
A casa é de fato simples. Móveis em madeira escura, TV enorme na parede e uma decoração harmoniosa e simplesmente acolhedora. Olhei para o lado e vi as enormes janelas de vidro e a movimentação lá fora.
— Saga, esse é meu primo, Camus, o tão falado Camus.
— Ah... É um prazer. – cumprimentou-me e fiz o mesmo.
— O prazer é meu.
— Ele é tão novinho, Afrodite, pelo que disse, imaginei alguém mais velho que eu. – rimos. – Não leve a mal, Camus, mas Afrodite exagera em alguns aspectos.
— Típico dele. – sorri.
— Bom, fique a vontade. Pode colocar suas coisas ali, como a maior parte do pessoal colocou. Mais tarde vocês escolhem os quartos e etc. – sorriu. – O pessoal está lá fora, Aldebaran prepara um churrasco à brasileira...
Dito isso, tentei ficar mesmo a vontade por aqui. Dei uma volta pela casa, observando todos os seis quartos do andar de cima e também a disposição dos móveis. Há uma salinha cheia de estantes e prateleiras, como uma pequena biblioteca.
Peguei o celular para verificar a bateria e como pensei, estava carregado, mas não havia sinal. Incrivelmente um lugar no mundo onde não há comunicação com outros. Suspirei e desci os degraus, indo para o lado de fora, onde vi muitas pessoas quase desconhecidas.
Muitos eu só vi de longe, outros tiveram a tentativa frustrada de tentar algo comigo, mas o que me surpreendeu mesmo foi o homem alto e moreno em frente a uma churrasqueira. Seu sorriso era incrivelmente animado, até mesmo quando implicava com alguém que eu conhecia muito bem.
Milo estava com um avental branco, na mesa do lado, picando alguns vegetais e fazendo o que achei que fosse uma salada. Sua expressão irritada era incrivelmente engraçada, mas aquele sorriso sarcástico quebrava qualquer barreira que pudesse colocar.
— Mais paciência, Milo, corte em cubos, não desse...
— Eu sei! Eu sei! Quem é o Chef aqui? – retrucou.
— Chef, pé de valsa o que seja... Mas ao menos faça as coisas direito. – o maior implicava com um ar divertido. – Está bom, Milo, obrigado, você foi de imensa ajuda.
Não fui até o escorpiano em hipótese alguma. Apenas procurei uma sombra naquele enorme jardim gramado, longe da área do churrasco e piscina, onde há uma grande movimentação, além de pessoas quase nuas.
Sentei-me sob uma árvore, que podia identificar como uma oliveira. Ao lado há mais algumas outras e ao outro, um cercado onde os cavalos correm quase que livremente pela fazenda. Aqui realmente é um lugar para se desligar do mundo inteiro.
Minha intenção justamente era essa. Desligar-me do meu primo, dos meus problemas e da minha própria mente. Pelos deuses! Como eu desejei desligar dos meus pensamentos. Lembrava-me de ontem, das palavras de Milo e também dos sentimentos em seus olhos. Caramba! Como estou confuso.
O ronco de meu estômago cortava minha linha de raciocínio, mas o churrasco ainda não está pronto. Vi três dos homens que estavam perto da área do churrasco virem correndo, os três com bexigas d’água, jogando uns nos outros.
Reconheci o Milo pelos cabelos azulados e o sorriso sarcástico. Está apenas com uma sunga azul índigo e parecia se divertir. Os outros dois, um de cabelos bem curtos e castanhos e outro de cabelo extra longo e tom azul pouco mais claro que o do escorpiano.
Não consegui sorrir ao ver as brincadeiras, ao menos não exteriormente. Meu estômago está em um misto de enjoo e fome, que é bem estranho. O azulado que parecia muito com Saga era bom de mira, acertando todas as bolhas d’água nos dois.
Admito, senti um pouco de ciúme daquela situação, ainda mais porque aquele parecido com Saga tomou Milo nos braços e o escorpiano tentava se afastar de todo jeito. Desviei o olhar da brincadeira.
Por um tempo... Um bom tempo fiquei de olhos fechados e com a cabeça apoiada na árvore, na esperança de novamente tirar os pensamentos de minha cabeça, mas novamente, fui acordado do devaneio.
— Bonjour. – falou com um tom calmo e sorri ao ouvir ao menos um pouco de francês. Sei que ele não deve ser fluente então, apenas olhei para aqueles olhos, antes achei que fossem verdes, agora, estão em um tom azul tão bonito.
— Bonjour. – sorriu. – Vou me limitar a isso, sei que não é fluente em francês.
— Obrigado. – riu. – Por que não me cumprimentou hoje? – mexeu em meus cabelos.
— Porque você estava ocupado e porque eu quis tomar um ar fresco. – respondi simplesmente.
— Mesmo? – puxou-me o queixo. – Camus, você está tão pálido. – tocou-me a testa. – Não está quente. Teve alguma tontura ou...
— Estou bem, Milo. – pelo recuar de sua mão, percebi o quanto fui rude. – Desculpa.
— Tudo bem. – mordeu o lábio inferior. Respirou fundo e olhou pra mim. – Precisa comer algo, sua pressão está baixa.
— Estou...
— Vem. Vou te dar algo pra comer. – puxou-me o braço sem mesmo eu entender e foi levando-me até para a área do churrasco.
Há muitas pessoas espalhadas em grupinhos. Eu simplesmente sentei à sombra, encostando-me a parede. A mesa para dois era pequena e logo ficou ainda menor. Uma tigelinha com o que parecia ser feijão e uma farinha estranha, cheia de coisas.
Milo se sentou na cadeia de frente para a minha e mantinha uma feição séria. Era mesmo para que eu comesse aquilo. Peguei a colher e percebi que havia menos do que eu imaginava. Uma colherada e o tempero forte fez meu paladar pesquisar em minha mente. Nunca comi isso antes.
— Hunm... O que é isso?
— Aldebaran disse que é feijoada e farofa. Algo muito comum no Brasil. – riu. – Só coloquei um pouco de caldo e farofa pra não encher, ainda é cedo para o almoço.
— É bom. Ele quem fez?
— Ele me ensinou e... Acho que deu certo. – riu e soube ali, que provavelmente hoje teria uma grande surpresa com esse homem.
.:Milo:.
Fiz o possível para tirar aquela palidez do rosto de Camus, mas pelo resto da manhã ele passou quieto e parecia muito mal. Apresentei formalmente Aioria como meu amigo e também apresentei Mu. Parece que o aquariano e o ariano se deram muito bem, pois passaram boa parte da manhã e da tarde conversando. Com eles também estava Kanon, que em geral, tentava me tirar dos eixos.
Saga me chamou ali para relaxar e passar um tempo com os antigos amigos de escola, relembrar a antiga época e também conhecer os novos. Eu apreciava isso, mas estava mais cansado por estar ali do que se estivesse em casa.
Arrumei tudo como deveria e acabei mesmo indo pra piscina. Havia um colchão de ar e era perfeito para dormir. Ao menos eu achava que era. Colocaram novamente a música eletrônica, mas dessa vez em um volume mais alto. Liberaram as bebidas alcoólicas e eu sabia que com Afrodite e Mask presentes, acabaria em confusão.
Depois do meio dia, Shaka, Aioros e Shura, amigos de longa data e que não víamos havia tempo, acabaram vindo também, os três juntos e a festa realmente foi feita. Não consegui descansar no colchão de ar, mas também não fiquei dançando eufórico, torpe em bebidas.
Conversei com um e outro, contando novidades, sabendo como estava a vida deles, mas depois fui me afastando e chegando mais perto de Camus, que acabou sozinho com o reencontro de Shaka e Mu.
Estava sentado no sofá de entro de casa, sem mover. Bebia um pouco de água que parecia quente e eu via que não estava bem. Sentei-me ao seu lado e em resposta, obtive um olhar frio e extremamente estranho.
— Francês, o que há com você? – perguntei.
— Nada, só... Quero ficar quieto.
— Não vai ficar quieto comigo aqui. – segurei sua mão. – Camus...
— Vê se me deixa em paz, Milo. – levantou-se e seguiu para a cozinha. Obviamente fui atrás dele e fechei a enorme porta de correr. – Milo!
— Relaxa, Camus! – falei em um tom alto. A porta isolou boa parte da música dali e seus olhos apenas se conectavam aos meus. – Camus, o que aconteceu?
— Eu devia ter ficado em casa, sabia? Essa é a reunião de tudo o que eu mais odeio. – encostou-se a uma bancada e levou uma das mãos à testa.
— Não é por isso que está incomodado. Eu sei disso. – ousei a me aproximar, reparando desde seus tênis sociais, a calça fresca e a camisa branca bem fininha. Encaixei seu corpo entre minhas pernas e segurei sua cintura. – O que eu fiz de errado pra você dessa vez?
— Você? – estava sério. – Milo, mal nos falamos hoje. – resmungou e então eu tinha entendido tudo.
— Desculpa, Camus, mas eu apenas queria que você conhecesse outras pessoas, entende? Meus amigos... – toquei seu rosto e encarou a janela. – Eu sei que você se deu muito bem com o Mu.
— Ele é incrível, Milo. Não é isso que me incomoda.
— Então o que? – toquei seu rosto e o fiz olhar pra mim. – Conta. – e foi então que descobri mais uma coisa dele. Camus não falaria nada se eu não insistisse. Comecei a acariciar suas bochechas e sorri para seus olhares mal encarados até que parecesse mais calmo.
Aldebaran entrou duas vezes na cozinha, uma delas sozinho e outra, acompanhado de Mu. Eles apenas estranharam aquele clima estranho no ar e aquela minha falha tentativa de fazer aquele aquariano falar.
— Pelos deuses, Camus!
— Não vai me deixar em paz, não é? E as pessoas vão começar a acha que temos alguma coisa.
— Isso seria bom, não é? – puxei-lhe pela cintura e ele cruzou os braços. – Camus, você é sério demais.
— Eu não sou como você e o Afrodite, que está lá em cima com três. – rosnou.
— Que guloso esse seu primo, mas eu sei que você não é assim, não vê que me esforço pra tentar te conquistar, francês?
— E isso pra quê? Pra me chutar assim que o prazo da aposta terminar?
Era isso então. Camus estava inseguro? Não, ele simplesmente não queria arriscar, mas não entende como isso é difícil pra mim. Enfim consegui me interessar por alguém, sentir atração intensa e essa pessoa foge de mim.
Tentei tocar seu rosto, mas incrivelmente aquele homem escapou pela porta dos fundos da cozinha. Suspirei com aquele ato e me localizei primeiro. Era fácil achar alguém que queria relaxar por aqui, ainda mais conhecendo parte do que conheço dele.
Saí da cozinha pela porta principal e fui até o pomar, não o encontrando. Só havia mais uma opção. Não me agradava em nada que estivesse em um lugar como esse e sozinho no fim de tarde.
Há uma pequena praia aqui perto, não dentro da propriedade de Saga, mas bem perto. Caminhei até encontrar o aquariano de pé dentro da água, com certeza morna. Estava sério e parecia centrado no horizonte e eu tinha que interferir em seus pensamentos sórdidos.
Aproximei-me novamente, tocando sua mão. Não iria pedir explicações, apenas tentaria mais uma vez aquilo que já me deixava angustiado, falaria o que meu coração saltitante quer.
— Por que não me deixa quieto, Milo? – perguntou. – Seguiremos com os planos, mas...
— Não quero seguir com os planos Camus, que se danem os planos. – olhei diretamente pra ele. – Eu te falei ontem que não estou fazendo mais isso pela aposta, não falei?! Não é mentira.
— Quando o tempo acabar você vai...
— Não tente prever o futuro, pois é algo que não pode fazer. – puxei o ar de maneira fatídica e soltei pesadamente. – Droga, Camus! Aproveita o momento! Para de pensar no futuro!
— Eu não consigo! Entendeu?! Eu não quero ser mais um dos seus casos.
— Pelos deuses! Camus... – caminhei dois passos para perto dele, sentindo o quebrar leve das ondas e vendo enfim, o sol tocar o mar. – Camus, eu não quero que seja um caso. Não vê que estou tentando mesmo te conquistar?
E então seus olhos refletiam o avermelhado da água e a luz de que tocava seu rosto o deixava com a visão mais bonita que eu já vi em minha vida. Fiquei sem fala, até que ele resolveu quebrar aquele momento.
— E se amanhã...
— Deixa o amanhã de lado... – falei e toquei seu rosto, fazendo-o encarar-me diretamente. – Mão deixe de viver o agora com medo do amanhã, Camus...
— E se o presente se tornar uma lembrança amanhã?
— Deixe... Que ao menos seja uma bela lembrança... – aproximei um pouco mais e minha voz saía como um sussurro. Sua respiração pesada e o barulho do mar eram como uma canção leve e harmoniosa em meus ouvidos. Aquele momento... – “Deixai então, oh santa! Que esta boca mostre o caminho certo aos corações.” – sussurrei em meio a canção de seu respirar.
— “Sem se mexer, o santo exalça o voto”... – sussurrou de volta, tocando também meu rosto e fazendo meu coração saltar uma ou duas vezes antes que nossas testas se tocassem.
— “Então fica quietinha: Eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados.”...- sussurrei para só então nossos lábios se tocarem leve e lentamente.
Minha boca pousava primeiramente sobre a dele, para que passasse todo o calor que possuía. O contato aumentava. Precisava sentir mais daquele beijo, prendendo o lábio inferior do francês entre os meus.
Puxei-lhe para mais perto, fazendo com que entreabrisse a boca e eu pudesse enfim, explorar cada canto dela, acariciando sua língua e acalmando um pouco o coração, que nesse momento estava mais acelerado que qualquer outra coisa.
Eu estava certo... Aquilo já não era mais uma aposta ou uma realização pessoal. Era desejo, misturado com desafio e se há algo que me interessa é um bom desafio.
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