7 Dias
3 Segundo Dia
Notas iniciais
.: Camus :.
Passei parte da noite lendo o livro e outra metade tentando dormir. Tentando... Porque meus sonhos traíam meus princípios. Lembrava aquela aposta infeliz e também daquele homem. Por que ele decidiu me contar a verdade?
Ele só conseguiu me afastar mais com isso... Se bem que foi bom saber a verdade. Tentava me concentrar em atividades normais novamente, mas aquilo me deixou tão triste. Bendita hora para me fazer pensar nisso.
É manhã, na verdade cinco e vinte da manhã. Estou sentado no jardim dos fundos da mansão, tentando me concentrar na leitura. Soltei o ar pesadamente e comecei a ler novamente. Aquela rosa marcando a página era como uma lembrança agridoce da festa, uma das poucas que vou gostar de levar pra sempre.
—Que sorriso é esse, Camus... – sussurrei para mim mesmo e senti a pele arrepiar.
Ouvia o cantar dos pássaros emudecer e logo olhei de soslaio o segundo andar, vendo meu primo falar ao celular com alguém e logo desaparecer. Aspirei sentindo que aquilo teria uma consequência.
Esperando minha mente se acalmar para continuar a leitura, acabei me perdendo mais uma vez em pensamentos e voltando a uma página aleatória, coincidentemente, a uma que seria a próxima.
O som do pisar suave e elegante no gramado e aquele perfume não tão distinto fez com que meu corpo congelasse e olhando para o nada, decidi recitar uma parte. Se a pessoa ao menos conhecer uma parte...
— “Quem és tu que, encoberto pela noite, entra em meu segredo?”- Sorri ao ouvir o breve silêncio.
— “Por um nome não sei dizer-te quem eu seja...” – e então, meu corpo estremeceu diante daquela voz e do aproximar suave. – “Meu nome, cara santa, me é odioso, por ser teu inimigo; se o tivesse diante de mim, escrito, o rasgaria.”
Céus! E como posso rebater isso?! Aquela voz... Tombei simplesmente a cabeça pra trás e observei aqueles olhos verdes e o sorriso. Respirei fundo para não falar meia dúzia de palavrões ou palavras mais educadas, porém atrevidas...
—Eu poderia recitar mais um trecho para que me respondesse, mas você citaria outro e acabaria com minha graça. – comentei, voltando a olhar para o gramado a minha frente.
—Bom dia, Camus. – ouvi seu tom calmo e o ouvi sentar bem perto. Atrás de mim para ser exato. – Seu primo me fez acordar às cinco e quarenta da manhã, avisando que você já havia acordado e então, vim fazer a visita. – riu sarcástico.
—Creio que não é de seu costume acordar essa hora.
—Essa hora eu costumo chegar em casa. – ri minimamente do que dissera e afastei brevemente a mão de meu corpo... Isso fez acidentalmente tocar um de seus dedos. – Ainda não terminou esse livro, hein?!
—Não... – meu rosto entrou em um estado flamejante pelo simples fato de ele não ter movido um músculo para retirar a mão de perto da minha. – Eu já o li uma vez. Duas talvez.
—Três ou quatro. Decorou algumas cenas e sorri todas as vezes que lê umas... – senti sua outra mão tocar-me os cabelos e aquilo era mesmo o fim do meu autocontrole. – Nós sabemos como essa estória termina, não é?
— Sim... – meu coração bateu tão forte, que não soube como reagir. – Duas famílias rivais... Um casamento marcado...
— Um casal que se ama e descobre isso em meio a uma briga de clãs... – interrompeu-me, mexendo em meus cabelos. Esticou as pernas, uma de cada lado de meu corpo e senti enfim, seus dedos saírem de perto dos meus. – Um mal entendido... E os dois acabam mortos.
— Tudo porque os pais não aceitavam aquela união... Havia sempre alguém para empatar o namoro. – ri minimamente e resisti firme a vontade de jogar a cabeça pra trás para encara-lo. – Por que eu falo com você?
— Porque temos uma aposta a vencer. – rimos.
— Verdade. – calei-me ao sentir seus dedos deixarem meus fios e o vi levantar. Caminhou para minha frente e sentou-se para me encarar. – Não devia ter vindo tão cedo. É inconveniente.
— É um fato, mas esse é o caminho para meu trabalho. – sorriu. – Só vim mesmo pra deixar um “oi” e te entregar isso. – tirou um envelope do bolso e entregou-me.
— O que seria isso?
— Quando eu for embora, abra e veja por si mesmo. – sorri.
— Nossa... Você é misterioso, hein?! – ri. – Obrigado. Até que você não é tão... – tentei achar a palavra para descrever minha primeira impressão, mas apenas vinha uma. — ... Superficial quanto pensei.
— Eu surpreendo, sei disso. – riu e respirou pesadamente. – Olha, mais tarde eu passo aqui e nós saímos de novo, o que acha?
— Acho que você está levando isso a sério, Milo.
— Não é porque queremos vencer a aposta, que não possamos nos divertir, não é? – realmente. Fiz que “sim” com a cabeça e sorri. Não vou ficar mais trancado nessa mansão mesmo. – Então... Eu posso te mostrar lugares bem legais na cidade.
— Pode ser. Como colegas, certo? – ergui uma sobrancelha e lançou-me um olhar que não soube descrever.
— Por que da pergunta? É meio óbvio que sim.
— Hunm... Então combinado. – sorri. Ele segurou uma de minhas mãos, beijando as costas da mesma e aquele ato... Aquele ato ainda me deixa surpreso.
— Até mais tarde, Camus. – levantou-se e seguiu, provavelmente pelo mesmo caminho que chegou.
E mais uma vez fui posto à prova. Aquele homem que chegou a mim de maneira tão inusitada durante a festa, que me contou de cara a verdade, chamou-me pra sair e agora isso. Um envelope.
Demorei um tempo para abrir e ler. Ri daquele ato, pois era tão estanho, tão inusitado, tão... Milo. É isso o que define. Chegou do nada e quer começar a mudar tudo ao meu redor. Quer não, está mudando tudo.
Peguei o celular do bolso e destravei a tela. Não acreditei naquilo até agora e apenas digitei os números. Apenas números naquele papel branco. Números escritos em azul claro, provavelmente de uma caneta falhando, mas era válido.
Mandei uma mensagem com um “oi” e logo obtive a resposta.
“Enfim, podemos combinar as coisas por um lugar mais discreto, não acha?”
Sorri um tanto largo com aquele fato e tentei imaginar a razão. Era óbvia. Gostando de conversar com alguém, alguém que me faz desviar o pensamento dos livros que trás as citações de Shakespeare para a realidade.
“Sim... Mas isso soa estranho.”
.
“Soa sim, mas é para que fique estranho mesmo. Assim seu primo para de te encher.”
.
“Verdade.”
...
E então, passei o dia lendo o livro. Enfim, terminei aquele belo conto de amor trágico. Afrodite estava em casa, rodeava-me de uma maneira que não consegui entender e o mais divertido disso era vê-lo tentar apenas perguntar o que estava acontecendo e eu, simplesmente fingia que não havia nada.
— Milo esteve aqui cedo, não é? – perguntou como se não soubesse de nada.
— Milo é? ... – fingi não lembrar direito.
— Alto, queimado de sol, cabelos longos e azulados, olhos verdes, sorriso sarcástico e uma voz...
— Lembrei, não precisa dizer o tipo sanguíneo. – interrompi antes que terminasse. – Seu namorado, não?
— Sabe muito bem que meu namorado se chama Mephisto. – suspirou. – E virá amanhã para nos visitar, então...
— Ok. Entendi. Quarto ou sair com vocês. – revirei os olhos.
— Sairá conosco, Camus? – seu sorriso sarcástico era como uma provocação, uma que eu sabia transformar em curiosidade.
— Tenho mil coisas pra fazer, Afrodite, mas nenhuma delas inclui passar horas olhando para sua cara e aguentando as piadas de humor negro do seu cachorro de estimação. – respondi simplesmente.
—Você parece uma geleira, sabia?!
— É o que dizem. – sorri sarcástico e recebi um olhar de descaso. – Se der licença... – queria sair de perto dele. O fato é que passei a manhã inteira lendo e queria paz para relaxar meus pensamentos.
Caminhei para meu quarto, desviando da presença incômoda de Dite, que só estava me abrigando naquele lugar por um pedido de meus tios e meus pais. Sentado em minha cama, ainda rodeado por várias obras de Skakespeare, estive pensativo em relação a isso.
Aquele lugar era hostil. Estou aqui há alguns meses e não consigo sair de meu próprio quarto nem ao menos para tomar ar puro. Amigos do sueco sempre estão para cima e para baixo aqui na mansão, a maioria deles vive investindo em cantadas tão fora de foco, que chego a pensar em escrever um livro com as mais desnecessárias e estúpidas.
“Às 19 em ponto, estarei aí.”
A mensagem na tela de meu celular era gratificante ao mesmo que preocupante. Não devo esquecer que esse cara também já saiu com o meu primo... Então, com certeza, há algo errado com ele. Algo muito errado.
.:Milo:.
Eu havia marcado às sete da noite, no entanto, cheguei às seis e meia. Sentei na sala e não pedi para ser anunciado para o “mestre Camus”, como era chamado pelos empregados. Afrodite estava lá... Olhando para mim com uma curiosidade tão grande no olhar, que chegava a fazer a pergunta silenciosamente, mas insisti em permanecer parado, com os braços cruzados e encarando-o.
— Por Athena, Milo! O que há?! Conte! Como anda a aposta?
— Bem... Eu não sei como uma aposta anda.
— Engraçado, você. – bufou. – Ele está caindo na sua?
— Não sei dizer. – levantei ao ver o esverdeado aparecer no topo das escadas. Esperei que descesse e o cumprimentei.
Devo admitir que é um homem muito bonito e difícil de lidar, mas Camus também passa uma tranquilidade e gentileza fora do comum. Despedimos do sueco e saímos, novamente à pé, mas dessa vez, em direção a uma das fontes da cidade.
As estátuas estavam iluminadas e a água parecia simplesmente um arco-íris. A vantagem é que eu estava completamente à vontade com aquilo, a desvantagem, é que novamente Camus estava em silêncio completo.
Sentamos nas escadas de pedra de frente à construção que parecia um santuário, que na verdade era um museu. Víamos as luzes da cidade inteira dali, mas novamente não sabia o que dizer. Era apenas para vencer uma aposta, mas começo a achar o mistério desse homem um tanto... Atraente.
— Podemos ver a cidade inteira daqui, Camus... E você fica em completo silêncio... – meu tom saiu calmo.
— Eu vi... – simplesmente disse.
— É sério que vai novamente ficar nesse silêncio?!
— Não estou em silêncio, você quem fala demais. – suspirei ao ouvir aquilo e apoiei os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos, olhando as luzes e o mar.
Há vários casais por perto. Casais de todo tipo. Era solitário estar em um lugar daqueles sem alguém especial. Deitei no chão de pedra e encarei o céu apenas por distração e aquilo ainda era pior.
O ruim de não ter alguém especial, só é pior que nunca ter sentido que uma pessoa podia ser assim pra você. Essa hora é perfeita para filosofar sobre casos amorosos não sucedidos na vida e isso chega a ser incômodo.
— Gosta de olhar o céu? – olhei para o lado e lá estava ele, deitado também. – As estrelas daqui são bonitas.
— Sim. – olhei para a constelação de escorpião e sorri.
— Escorpião?! É seu signo?
— É... Estranho, não?! Um escorpiano tagarela?! – ri com o que eu mesmo disse.
— De fato, mas se não fosse, nunca trocaríamos uma palavra. – apontou para outra constelação. – Aquário.
— Entendo... Aquariano. Se não é revoltado, é certinho. – suspirei. – Nada a ver essas coisas. – fizemos um breve silêncio e rimos.
— Desnecessário.
E depois disso, novamente silêncio. Estiquei a mão brevemente, mas era de propósito. Encostei meus dedos nos dele, gélidos, e enlacei. Um pouco mais ousado que hoje cedo, mas tenho que domar essa fera em menos de sete dias.
Senti sua pele arrepiar, mas ao contrário do que pensei não os tirou. Descubro então, três pontos fracos daquele cubo de gelo. Shakespeare, mexer em seus cabelos e enlaçar-lhe os dedos. Três pontos fracos que contam ao meu favor.
Sobrepus minha mão na dele e apertei um pouco. Olhei para o lado e vi seu rosto corar um pouco, mas manter a pose. Estava imóvel olhando os pequenos pontos brilhantes no índigo intenso que começava a tomar um tom ainda mais escuro.
— Camus, por que é tão fechado?
— Isso não é verdade. – tirou a mão que tocava a minha e sentou-se. – Olha, você não é o primeiro que o Afrodite tenta jogar pra mim. Saga, Shaka, Mu, Aioria, Mephisto... – foi enumerando e dei conta de que conheço todos eles. – Eu não caí na deles, por que cairia na sua?
— Não quero que caia na minha, Camus. – sentei. – Quero te conhecer como amigo, mas parece que não consigo me aproximar de você.
— Não é isso é que... Bom, é sempre uma brincadeira, sabe. Desde que eu era menor. Dite é dois anos mais velho que eu, sempre foi também o mais solto e... Por que infernos estou te contando isso?
— Não conte se não quiser. – sentei-me e encarei-lhe. – Não estou te obrigando a falar nada.
— Hunm... – murmurou. – Eu não te conheço direito, é isso. – respirou fundo e encarou-me. – Algum dia eu te conto.
— Algum dia?! Então não está odiando sair comigo?
— Acredite, não. – riu. – Só... Não sei. Você é legal, se não fosse a aposta, poderíamos ser amigos mesmo.
— Não quer ignorar a aposta? Tipo... Pode me ver como amigo. Essa aposta não foi justa. Você não devia estar no meio de uma rixa minha com o Afrodite.
— É um fato.
— Então, quer me conhecer para sermos amigos? Essa pode ser uma das melhores vinganças... Ele está iludido que você não sabe da aposta.
— O que me leva a pensar novamente e novamente no motivo pra ter me contado.
— Como eu disse, achei que você gostaria que eu fosse sincero desde o início. Eu realmente não gosto de perder uma aposta, mas...
— Mas?
— Você é um cara que lê Romeu e Julieta em uma festa com tema Victoriano. Se você resistiu ao Afrodite, com certeza você vale a pena. – sorri. – Não vou fazer isso pela aposta.
— Isso o que?
— Você é legal, Camus. Não vou te conquistar pela aposta, ganha-la será consequência, mas não o farei pela aposta.
— Então, você vai fazer por uma conquista pessoal? Não acha seu ego inflado demais?
— Não. Apenas o suficiente. – abri um meio sorriso e o encarei bem. – Sete dias... É muito pouco para conhecer totalmente alguém, mas o suficiente para conhecer as intenções. É uma promessa... Sete dias...
— Cinco, você já perdeu dois com seu discurso. – interrompeu-me.
— Ok! Cinco dias para você conhecer parte de mim e saber se eu te interesso ou não, Camus.
— Por que mudou os planos tão rapidamente? – encarou-me.
— Porque você é misterioso e eu gosto disso. – sorri. – Mas gosto mais ainda de descobrir os segredos e desvendar os mistérios.
— Você vai ter trabalho. – levantou-se e começou a descer as escadas.
Levantei, dando um espaço para o menor se afastar um pouco. Ele não sabe o terreno onde está pisando e se isso for um jogo, tenho mais cinco dias para conquista-lo, não mais pela aposta, mas por curiosidade.
Fale com o autor