7 Dias
13 Sétimo Dia - Autossabotagem parte final
Notas iniciais
.:Afrodite:.
Como eu imaginei, o almoço corria às mil e uma maravilhas na mesa dos mais velhos. Antigos amigos de Albafica estavam presentes e também alguns que nem gostava tanto. O multimilionário Mitsumasa Kido parecia se divertir ao olhar as criadas passarem com aquelas roupas indecentes, especialmente vestidas para a ocasião.
Na mesa de meus colegas, o clima não era dos melhores, pois eu podia ver as rebatidas de Milo aos argumentos de Hyoga. A cada coisa que o loiro falava, o azulado simplesmente brigava e via algum defeito.
Camus estava se irritando com tal situação, mas tudo o que fez foi irrita mais ainda o escorpiano visivelmente enciumado por um ato tão simplório e visivelmente educado do francês, que simplesmente apartou o desentendimento que começaria.
Shun, que estava ao meu lado, parecia não se importar com todo o acontecido, mas seu olhar denuncia mais que depressa que o clima na mesa o entristecia. Não sei porque me importo com isso, mas esse garoto é bondoso, qualidade rara em um ser humano atualmente.
Um silêncio repentinamente se abateu e me peguei pensando em mil e uma coisas para fazer que poderiam alegrar o meu mais novo colega, mas apenas uma coisa faria naquele momento, mesmo que fosse errado.
— Uh! Nossa! – praticamente chamei a atenção de todos pra mim. – Eu não queria falar isso aqui, mas não consigo mais segurar...
— O que, Afrodite? A calcinha está apertada demais? – Milo brincou visivelmente irritado.
— Meu bem, cuidado com o que fala, porque seu passado não é dos melhores. – sorri maldoso. – Pois como eu dizia antes... Eu não queria falar aqui, mas Camus, você fez um péssimo negócio trocando esse gato russo por esse vira-lata grego. – ri. – Sinceramente, por mais novinho que Hyoga seja, já tem um charme incrível e simplesmente natural. Péssimo negócio priminho.
Abri um sorriso do tamanho do mundo ao ver o rosto do meu querido escorpiano se tornar rubro de raiva e seus dedos tamborilarem sobre a mesa. Camus parecia sem reação, mas seu olhar, antes frio, agora parecia um mar em fúria... Hyoga, educado, apenas sorriu.
— Afrodite... – o francês murmurou.
— Ah! – fiz uma falsa expressão de dúvida. – Espera... Camus... Você já terminou com o Hyoga, não é?... – ele simplesmente respirou fundo. – Ah! Pelos deuses! – levei a mão à boca.
Depois disso, apenas vi o grego sair da mesa a passos largos e pesados. Sem pensar duas vezes, meu querido primo de criação levantou-se e foi atrás na tentativa tola de tentar falar com Milo, mas pelo que conheço dele, tenho mais chances de uma conversa amistosa do que o próprio namorado.
Sem sucesso, Camus volta para a mesa e com sua típica falta de expressão, formando assim, a minha hora de atacar de novo, se assim posso dizer. Sorri e levantei, indo para perto do francês internamente perturbado.
— Querido... Se realmente ama o Milo, aprenda uma coisa muito importante: Nunca, absolutamente nunca, esconda as coisas. Nunca. – sorri e quase recebi palavras atravessadas vindas do mais novo.
...
Como de costume, depois de ficar muito irritado e não poder responder a altura em público, Milo se escondia no mesmo lugar para afogar suas mágoas. Apesar de sempre estar acompanhado de Aioria ou Mu, o escorpiano sempre foi um garoto solitário, o que não mudou muito quando se tornou um homem, apesar dos amigos, ainda nutre a incrível mania de se esconder e resmungar mentalmente tudo o que sente para que ninguém o interrompesse...
Eu, apesar de quase nunca sair sozinho pela cidade, sempre conseguiria achar aquele que mais me afeta em meio a uma multidão de pessoas, logo, também o acharia em meio a centenas de caixotes de madeira gigantescos das docas.
Sentado parcialmente na sombra, em uma das escadas, estava ele. Sem camisa, olhos fixos no oceano e alguns daqueles belos fios azulados levados ao vento. Estava tão concentrado em seu resmungo mental, que mal percebeu-me ao seu lado, ao menos não inicialmente.
— Veio falar mais coisas do Camus? – perguntou em um tom sério.
— Não, vim te pedir desculpas. – olhou-me desconfiado, mas como sempre, quando olha profundamente para as pessoas, é impossível esconder alguma coisa. – Sério, Milo. Desculpa.
— Pelo que?
— Por toda a situação que eu te meti. Admito que acho engraçado quando Camus se ferra, quando você se irrita, mas odeio quando fica triste. – ajeitei uma mecha de seus cabelos atrás de sua orelha e segurou minha mão.
— Aceito suas desculpas, mas não sua companhia. Deixe-me em paz. Não quero brigar com você ou com qualquer outra pessoa.
— Eu sei que não quer. – puxei o braço. – Mas pelo que eu saiba, quem sempre te puxa de volta pra realidade é o Mu, mas ele não está aqui. Terá de se contentar comigo.
— Por que eu confiaria em você, Afrodite?
— Porque até agora eu fui a pessoa mais sincera com você, Milo. Pensa bem, até nos meus ataques de ciúme. Tudo foi sincero, inclusive aquela provocação idiota que fiz na mesa. – o silêncio tomou conta e ele voltou a olhar o oceano. Isso é um bom sinal. – A aposta também foi sincera, eu queria que você conquistasse o Camus, porque achei que seria divertido ver os dois brigando, mas... Doeu ver que meu plano deu errado e vocês se aproximaram.
— Ai Afrodite. – suspirou. – Sabe o que é triste nessa história toda? – fiz um silêncio para que prosseguisse. – Eu sabia que aconteceria alguma coisa entre Camus e eu quando começamos a conversar direito. Eu sabia que o conquistaria, mesmo que por alguns dias... E sabe... Conquistei... Mas o pior de tudo isso, é que eu ainda pensava em você.
— Eu sei disso e me arrependo de não ter entendido seus sentimentos e só ter olhado o meu lado, Milo. Eu errei em brincar com seus sentimentos e errei ao pensar no passado que você não fosse bom pra mim.
— O que te fez mudar de opinião? Saber que apesar de tudo, ainda sou mais rico que o Mephisto?
— Dinheiro não tem nada a ver com isso, mas sim o fato de você sempre ter me tratado como um príncipe e tudo sem querer nada além do meu carinho em troca. – meu tom foi calmo e isso o fez ficar quieto e desviar o olhar. – Agora eu sei que nunca vou encontrar alguém que me trate tão bem quanto você tratou e me culpo por isso. Meu sangue ferve todas as vezes que o vejo com Camus e o tratando daquele jeito.
— Porque é o meu jeito de tratar quem gosto. – olhou pra mim. – Dite, você sempre foi uma pessoa importante pra mim e com certeza é uma pessoa importante também pro Camus. Por que sente tanto ódio dele a ponto de fazer essas brincadeiras de péssimo gosto?
— Eu não o odeio.
— E então?
— Eu o invejo. – falei calmo e o silêncio permaneceu por quase um minuto inteiro. – Desculpa dizer isso assim.
— É o que sente, não é? Explique o motivo.
— Quem gosta de explicar as coisas aqui é você, Milo... Tente descobrir a razão.
— Não acertaria. Você é cheio de segredos. É complexo tentar te entender. – segurou-me a mão e me vi em uma situação muito difícil. Se vim até aqui apenas para “consolar” o escorpiano, agora provavelmente seria a minha vez de ser consolado. Respirei fundo e me afastei um pouco. – O que foi?
— Nada. Eu só não acho que tenha nascido pra ser entendido, mas sim pra ser amado. – olhei pra ele e o vi surpreender-se com o que eu disse.
...
.:Camus:.
Eu estava calmo mesmo depois do ocorrido, simplesmente porque Milo vai se acalmar e voltar pra cá. Ao menos era o que eu achava até as duas primeiras horas passarem e nada do grego se fazer presente.
O almoço seguiu o curso e acabou como o planejado. Calmo, sem ao menos o resquício de agitação que começou. Suspirei ao entrar na mansão e ouvir a chuva lá fora. Pensei seriamente em sair para algum lugar, mas me lembrei que sem aquele homem eu não teria pra onde fugir.
Despedi-me das pessoas que vinham falar comigo e também tentei ao máximo ser educado e fingir que me importava com o que falavam, quando meu pensamento estava longe. Minha mente estava mais que perdida.
— Mestre? – ouvi a aquele sotaque russo e logo encarei o loiro bem perto. – Está tudo bem?
— Por que não estaria?
— Você está distraído. Isso nunca acontece. – comentou e parecia mesmo preocupado. – É aquele homem, não é?
— Milo? Sim. É por ele. – mantive o tom.
— Seu amigo não gostou muito de mim. – riu. – Não gostou de saber sobre o que... Aconteceu entre nós.
— Ele é meu namorado, Hyoga. – apenas o encarei e o vi surpreso. – Qual a surpresa?
— Só acho que para quem é tão maturo e responsável quanto você, simplesmente não combina com alguém como ele. – comentou.
— Da mesma maneira que esse comentário não combina com você. – vi seu rosto ficar vermelho. – Esquece o que aconteceu entre nós, ok?
— Impossível. Você é uma pessoa muito importante pra mim, mestre. Não conseguirei esquecer o que passamos juntos.
— Lamento então. Porque você não é competidor para o Milo. – simplesmente falei e vi o meu antes sumido namorado passar pela porta da frente totalmente molhado. Junto dele Afrodite, que parecia sorridente como sempre e com seu ego medianamente controlado.
Ambos vieram até mim, mas logo seguimos para a cozinha. A sala não era o lugar para falarmos daquele assunto e provavelmente porque havia muita gente para presenciar o tão esperado desfecho daquela imensa confusão.
O grego, ainda com uma expressão desconfiada, apoiou-se na bancada central, bem no meio do cômodo, enquanto o sueco ficou ao meu lado. Esperei que alguém começasse a explicar.
— Ok, esse silêncio é incômodo. – o pisciano começou. – Eu comecei a encrenca, então terminarei também. Milo e eu estávamos conversando e...
— Eu não quero saber sobre o que conversaram, Afrodite. – respondi. – Só o queria aqui, ele está e não me importa mais nada.
— Se eu fosse você, Camus, ouviria. – o grego simplesmente falou.
— Não Milo. Não quero ouvir. – ao me ouvir dizer isso, Afrodite simplesmente deu de ombros e saiu, retirando a camisa encharcada. – A conversa é apenas minha e sua.
— Não temos nada a conversar.
— Não seja infantil, Milo. – cruzei os braços.
— Infantil? Eu? Ok. Posso ser infantil, mas ao menos tive a decência de terminar um namoro pra tentar começar outro. Não deixei ninguém cheio de expectativas para depois ir embora, sumir e reencontrar desse jeito. Por favor, Camus... Eu posso ser infantil, mas não sou canalha.
— Canalha? Eu não fui canalha, Milo. Apenas fiz o que deveria ser feito no momento, cortar o sentimento antes que ele crescesse. Foi melhor assim.
— Também vai cortar o que sente por mim quando voltar pra França? – vi toda a raiva de seu olhar se tornar algo mais decifrável. Respirei fundo e soltei o ar pesadamente, aproximando-me dele.
— Apenas não me dê motivos pra isso.
— Você quem não deve me dar motivo pra te odiar, Camy. – falou em um tom sério e saiu de perto de mim. – Sabe onde me encontrar. Até lá, pode esfriar a cabeça e pensar sobre o que sente, se decidir algo, tem até amanhã para falar comigo.
— Está me pedindo um tempo?
— Não. Só estou dizendo que sabe onde me encontrar. Por enquanto, sinta-se a vontade para resolver seus problemas com seu ex. – mexeu no bolso e jogou-me a chave da Ferrari. – Pode ficar com isso, não quero.
Olhei surpreso com sua atitude e depois fitei a chave, não vendo para qual lado o mais novo seguiu, apenas sei que se eu o quiser de volta, terei de pensar naquilo que evitei até hoje.
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