7 Dias
14 Sétimo Dia - Novo começo, velhas manias.
Notas iniciais
.: Afrodite:.
Após sair da cozinha, a única coisa que me veio em mente foi sair da vista de todos. Fui para meu quarto e tive uma surpresa ao olhar pra cama. Fechei a porta e sorri para quem via ali, em outra situação, eu não hesitaria em um “ataque”... Mas...
— O que faz aqui, Shun? – perguntei, jogando a camisa na poltrona perto do closet.
— Queria conversar com alguém. Hyoga está ocupado atrás do tal Camus e Ikki não atende o celular.
— Ah! Sim... Ikki é seu irmão mais velho, certo? Por parte de pai e mãe...
— Certo. – sorriu. – Você não parece bem, Afrodite.
— Observador. – comentei, aproximando-me do closet e pegando uma toalha limpa, também algumas peças secas. – Eu ajudei um amigo e me sinto péssimo por tê-lo feito.
— Teve que machucar alguém pra isso?
— Ninguém importante, Shun. – retirei as peças molhadas, ficando completamente nu, vendo o rosto daquele menino ficar tão vermelho quanto uma rosa. – Está envergonhado com isso? – fizera que sim com a cabeça e mais pensamentos maldosos me vieram à tona. – Por quê?
— Seu corpo é... Muito bonito. – desviava o olhar e isso apenas me divertia. Aproximei-me dele e segurei suas mãos, puxando-o para mim. – O-O que vai fazer?
— Não tenha medo, pode tocar se quiser. – sussurrei rente a seu ouvido, soltando-o e o deixando a poucos centímetros de mim.
— Não posso eu... – estava ainda mais vermelho, mas como pensei, ergueu uma das mãos e delicadamente a colocou em meu peito, descendo a mesma até meu abdômen e aí parando. – Sua pele é... Macia.
— Convidativa ao toque? – sorri. – A sua também é. – toquei seu rosto. – Ah! Que azar tem o tal Hyoga por não aproveitar a bela chance...
— A que se refere? – mirava-me sem saber onde fixar o olhar e aquilo era tentador demais. Juntar a inocência de Shun com minha falta de caráter não era bom.
— Refiro-me a chance de tê-lo não só como amigo, mas também como amante. – fui claro em minhas palavras e isso o fez olhar-me diretamente nos olhos. – Não consigo ser menos claro que isso, querido.
— Não o correspondo, Afrodite.
— É apenas um desejo momentâneo, Shun. – segurei sua cintura. – Passa se for devidamente saciado.
Vi seus olhos se arregalarem em surpresa e quando iria dizer algo, aproveitei seus lábios entreabertos e o beijei. A calma que tive naquele ato só foi interrompida com o rugir de um trovão, mas isso demorou a acontecer.
Separei-me daquele menino que ainda possui aquele brilho nos olhos e sorri. Seu coração está acelerado e seu corpo trêmulo pelo contato surpresa. Acariciei seu rosto novamente e estava pronto para tomar meu tão esperado banho.
— A-Afrodite... – ouvi a voz do menino e o encarei. – Por quê?
— Porque eu quis. Por isso. – sorri. – Quer me acompanhar ao banho? – mordeu o lábio inferior em uma demonstração clara de nervosismo. – Não tenha medo, só vou morder se quiser.
— Cala a boca. – falou nervoso e completamente vermelho. Estendi a mão e assim que a tocou, levei-lhe para o banheiro, onde enfim, pude ver de perto seu corpo esguio em formação.
...
Depois de longos vinte minutos, voltamos ao quarto. Amarrei a toalha em minha cintura e me dispus a pentear os cabelos esverdeados daquele belo garoto não tão inocente quanto pensei, mas ao contrário de muitos, senti orgulho da malícia que possui.
— Não se sinta envergonhado, Shun. Seu corpo tem desejos que não pode controlar. – simplesmente falei ao pentear seus cabelos.
— É constrangedor. – olhava para si mesmo no espelho.
— Não, não é. – ergui seu queixo e o fiz olhar para frente. – Você é homem, Shun. Essas coisas acontecem quando tem estímulos. Eu o estimulei, seu corpo respondeu, mesmo que sua mente não quisesse.
— Eu não te... Causei nada, não é mesmo? – ri do que disse e apenas continuei a desembaraçar aqueles fios. – Não respondeu.
— Se isso te deixa calmo, eu sinto desejo por seu corpo, mas sei controlar a intensidade disso. – ri. – Você tem muito a aprender, Shun.
Era a verdade. Como prometi ao Milo, eu me afastaria dele e do meu passado. Desapegaria desse sentimento possessivo que sinto em relação a ele e de certo modo, também da inveja que sinto de Camus, mas pra isso, teria de ambicionar algo novo.
Via a tristeza naquele menino a minha frente e aquilo era incômodo. Hyoga não o quer e isso o machuca. Eu não estou apaixonado por ele, nem ao menos o conheço bem o suficiente para chamar de amigo, mas... Pode ser divertido.
.: Milo :.
Eu havia escolhido essa opção. Podia simplesmente voltar para Camus e seguir a proposta de Dégel, de me mudar para França e ser mais um da alta roda, mas Afrodite tinha razão. Eles me mudariam. Chegaria uma hora que eu não me enxergaria mais no espelho, mas sim uma criatura narcisista e gananciosa, como o que fizeram com ele.
Fui caminhando tranquilamente na chuva para meu apartamento, pensei naquele bendito francês a cada segundo que o fazia e também pensei em cada palavra de Afrodite. Ouvir a verdade era horrível, mas ainda era melhor pensar nisso que em milhares de outras coisas.
...
— Nada. Eu só não acho que tenha nascido pra ser entendido, mas sim pra ser amado. – fiquei surpreso ao ouvi-lo dizer aquilo e fui mentalmente obrigado a concordar com cada palavra.
— Por que não acha que é amado, Afrodite? Já viu todos ao seu redor?
— Mephisto me ama como a um troféu. Saga me ama como a um banco. Albafica me ama como a um sucessor, não como a um filho. Está aí o maior motivo de inveja que sinto de Camus.
— Não é motivo para inveja, Dite. – comentei.
— Eu vou te contar algo que nunca contei a ninguém, então, guarde minhas palavras, pois serão ditas apenas uma vez.
— Isso significa que é um segredo, certo? – confirmara silenciosamente. – Ok, só contarei quando morrer.
— Albafica nunca me tratou como filho ou alguém sentimentalmente importante pra ele. Assim como Dégel, sempre disse que sentimentos são desnecessários, eu por outro lado, sempre fui sentimental, não consigo esconder isso.
— É um fato.
— Então... Quando Albafica me adotou, sabia dos meus sentimentos por você e eu concordei em matar aos poucos esse amor para ter o lar que sempre quis ter... Mas isso nunca aconteceu. Meu amor por você não morreu e nunca tive a família e amigos que sempre almejei. Ao contrário de Camus, que sempre foi tratado como um príncipe francês e de quebra sempre teve a possibilidade de escolher tudo o que queria... Inclusive você. – seus olhos se encheram de lágrimas e o brilho daquele azul era simplesmente ressentimento, nada mais forte que isso.
— Isso é injusto, Dite, você ainda tem tudo o que uma pessoa poderia sonhar em bens materiais, além de ser uma pessoa agradável quando quer.
— Aí é que está, Milo. Eu nunca quis ter tantos bens quanto tenho agora e o que realmente sou é bem diferente daquilo que quero ser. – suspira. – Você foi a única pessoa a me ver como sou de verdade e agora está com Camus. Ele te escolheu e teve.
— Isso não é verdade. Nós dois o fizemos participar da aposta.
— Eu vim aqui para ser sincero com você. – olhou-me seriamente. – Camus está lá em casa há dois meses... Você anda por lá exatamente nesse tempo. Milo, ele te via todos os dias, só não tinha coragem de falar isso. Só fiz a aposta porque Camus é cabeça-dura demais pra chegar em alguém e emocionalmente incapaz de aceitar cantadas. Não dou ponto sem nó, querido, já devia saber disso.
— Isso quer dizer que...
— A vítima disso tudo foi você. – acariciou-me o rosto. – Olha... Vocês não se conhecem como eu. Por mais ciumento que sejamos, sei admitir quando perco essa é uma dessas situações e... Bom... Seja feliz. Não vou mais fazer a caveira do meu primo. Se ele quiser, vai te contar toda a verdade... Só tem que por pressão nos momentos certos.
...
E era isso. Chegando em casa pude tomar uma ducha quente para ao menos conseguir pensar melhor em tudo o que ouvi. Foi mesmo a melhor decisão ter deixado aquela mansão e também o francês para que se resolvesse.
Não tenho medo do que pode acontecer, não tenho medo dele me deixar e preferir o loiro e também não tenho medo de que volte para França sem se despedir, ao menos fui sincero. Meus sentimentos estão feridos, claro, mas como tudo em minha vida, posso superar.
Enrolei uma toalha em minha cintura e fui para meu quarto, jogando-me na cama. O cheiro dele permanece na colcha e também no travesseiro, este que foi puxado e colocado sobre meu rosto, apenas para me embriagar com aquela sensação.
A quem estou enganando? É claro que me importo. É claro que me importo se ele preferir o loiro, se for embora sem se despedir, isso significaria que nada valeu a pena, que essa semana serviu apenas para um imenso e desprezível nada em nossas vidas... Significaria que a noite que passamos não foi nada.
Ouvi um barulho na porta e logo levantei sem me importar com o que acontecia. Já havia passado mais de uma ou duas horas que saí daquela mansão e o tempo ainda estava fechado e chovia mais forte.
Acendi a luz da sala e atendi a porta. Não estava surpreso por vê-lo ali, mas seu estado simplesmente era preocupante.
— Entra logo. – comentei, puxando o francês completamente ensopado e um pouco sujo de barro.
— Desculpa aparecer assim. – comentou no seu “animado” tom de sempre.
— Não posso dizer que estou surpreso, porque na verdade eu queria muito que você viesse me procurar. – voltei a fechar a porta e fui pegar uma toalha para que se secasse. – Tire essas roupas e pode vestir algumas das minhas, sinta-se a vontade para tomar um banho se quiser.
— Não acha melhor conversarmos antes?
— Está acostumado ao frio, Camus... Esqueço isso. – podia dizer que sorri, mas não foi bem assim. – Podemos resolver assim então.
— Desculpa por não ter te contado tudo, Milo. Você é impulsivo, não sei como reagiria e isso me deixa louco.
— Também não sei como reagiria, mas isso é o que menos importa agora. – olhei diretamente para ele e o percebi decidido, bem diferente de antes. – Conversou com o russo?
— Eu deixei bem claro pra ele que não é quem eu quero e... Que estou disposto a seguir outros caminhos a partir de agora.
— Entendo. Ele deve ter ficado mal com isso, não é? Você é uma pessoa incrível e entendo que perder alguém assim é uma sensação muito ruim.
— Só sei que... Eu não estou disposto a perder alguém que conseguiu me arrancar um sorriso, risos e até mesmo palavras que nunca diria a alguém. – parecia aflito ao falar isso. – Também não estou disposto a perder a pessoa mais engraçada, teimosa, possessiva e carinhosa que conheci em toda a minha vida. Não quero perder essa pessoa nem para meus próprios erros.
— Essa pessoa também não quer perder alguém tão teimoso e misterioso. – segurei seu queixo e isso o fez morder o lábio inferior.
— Sabe... Essa pessoa é bem especial, Milo. – sorriu pra mim e aquilo era como ganhar o mundo. – Ele tem o abraço mais quente e o beijo mais sedutor que conheço. Não quero... Não quero te perder.
Respirei fundo para não desabar diante do que dissera e o abracei forte. Percebi o quanto era difícil pra ele dizer aquilo, assim como é difícil pra mim controlar meus sentimentos, mas aquilo doía. Ainda desconfio de muitas coisas.
— Camus... – soltei-lhe e o encarei. – Olha, eu sei que isso é difícil pra você e vai ser mais difícil ainda pra mim, mas... Eu não confio mais em você.
— Entendo que não confie, mas não vamos terminar por isso.
— Confiança é a base para um relacionamento, se eu não confio em você, não vai adiantar nada estarmos juntos. – deu um passo pra trás. – Não! Espera! – segurei seu braço. – Escuta tudo primeiro... Eu estou apaixonado por você e pensar que alguma hora você pode simplesmente sumir me assusta.
— Não podemos ter uma relação porque você não confia em mim e eu não posso nem ao menos ir embora? Milo, o que você quer?
— Quero um novo começo, só isso.
— Um novo começo? Impossível, já vivemos muita coisa pra um “novo começo”.
— Não digo em tudo, Camus, mas apenas em nosso relacionamento. – tentei manter a calma e soltei seu braço. – Vivemos em sete dias aquilo que Kardia e Dégel viveram em anos. Eu odeio ir com calma, mas vai ser o jeito.
— Ir com calma... Milo... Você quer voltar ao antigo estágio, antes de irmos pra cama?
— Não. Quero voltar tudo antes de dizermos “eu te amo” um para o outro. – suspira. – Mas querer não é poder e tudo o que podemos fazer agora é tentar nos conhecer melhor.
— Tipo o que? Tentarmos descobrir as manias um do outro?! Isso é algo que realmente quer saber, Milo?
— Não me importo em te conhecer cada dia mais, Camus. Como eu disse, estou apaixonado e faria qualquer coisa pra tê-lo por perto e conhece-lo mais.
— Conhecer mais significa amizade pra mim. Se isso acontecer, Milo, nunca mais nos veremos de outra forma.
— Estou disposto a arriscar. – sorri. – Por esses sete dias que passamos juntos.
— Por esses sete dias. – olhou-me bem. – Aliás... – estendeu-me a mão. – Se isso é um recomeço, vamos fazer direito. Meu nome é Camus, tenho vinte anos e formado em filosofia.
— Muito prazer. – segurei sua mão e a beijei. – Eu sou Milo, tenho vinte anos, sou um chef e amo filosofia. – sorri. – O senhor tem um tempo para me ensinar algo?
— Todo o tempo do mundo... A começar por uma aula de “como se manter vestido por vinte e quatro horas”.
Eu me surpreendi com aquilo. Meu coração não estava satisfeito com a decisão que tomamos, mas também não doía. Camus tem seu jeito próprio de resolver as coisas e eu tenho o meu, bem mais intenso e catastrófico, mas ainda assim um bom jeito.
Se o destino dissesse que nossa amizade falaria mais alto, que fosse assim, mas a verdade é que espero que nunca sejamos amigos, mas sim amantes, porque nesses sete dias, o mais divertido não foi a conquista, mas sim ser conquistado e realizar os desejos dele, mostrar que o mundo não é simplesmente as paredes de uma mansão.
— Sabe Milo, eu aposto que você não vai conseguir seguir esse acordo por muito tempo. – comentou o francês, despindo-se em minha frente e quebrando completamente a linha do meu raciocínio.
— Ah! É? Por quê? – olhei fixamente aquele corpo, vendo algumas marcas que deixei da última vez.
— Pressentimento. – olhou de um jeito provocador. – Aposto que não consegue negar seus instintos. Se ganhar, eu faço o que você quiser.
— Eu topo a posta. – comentei ainda hipnotizado por sua pele, desejando seriamente toca-la. – Quanto tempo?
— Sete dias. – sorriu sarcástico e caminhou para dentro de meu quarto, pelo barulho das molas do colchão, aposto que se jogou nele... Completamente nu.
Malditos sete dias...
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