7 Dias
7 Quinto Dia - Sentimentos
Notas iniciais
.:Camus:.
...
Esperei Milo naquela noite para que pudesse me contar a reação de Afrodite, mas era um tanto óbvio. Esperei lendo um livro em pdf e quando o maior apareceu, meu olhar foi todo pra ele. Mirei seus olhos, sua expressão e como suspeitei quando sugeri a conversa, alguém sairia ferido. Infelizmente esse alguém foi meu escorpião.
Seguiu em passos lentos para o lado de fora, chamando atenção dos demais que comentavam. Antes que alguém fosse, eu corri atrás dele. Não sei o que aconteceu, mas sei que foi de alguma forma, dilacerador.
Procurei no quintal e o achei completamente ensopado naquela chuva intensa. Toquei seu braço, vendo a pele dele se arrepiar. Talvez fosse um bom sinal. Tocou minha mão e me puxou para um abraço, mesmo de costas pra mim, puxe sentir o que queria me passar. Estava triste.
— Tudo bem se quiser chorar, Milo. – sussurrei.
— Não vou chorar pelo passado. – acariciou-me os dedos gentilmente e seu tom de voz estava rouco. – Nem me irritar mais. Já soube o que queria saber, só me doeu perceber que a culpa não era dele.
— Ah Milo... – encostei a testa em seus cabelos molhados e tive a certeza dos meus sentimentos por ele. Não seria justo sentir algo desse tamanho em tão pouco tempo.
— Eu percebi o que aconteceu, Camus. Teria doído mais em outra época, mas isso já passou. – soltou-se de meu abraço e virou-se pra mim com um pequeno sorriso nos lábios. – O que eu sentia por ele tinha mesmo que morrer para que eu pudesse sentir o que tem me feito um bem enorme até agora.
— O que seria?
— Tem certeza que não sabe? – tocou-me o rosto e aproximou-se, fazendo-me sentir seu beijo terno. Toquei seus cabelos calmamente e cessei esse contato apenas para fita-lo.
— O que sente por mim?
— É algo difícil de explicar com palavras. – comentou. – Não quero que saia da minha vida.
— Também não quero que saia da minha. – pousei as mãos em seu ombro. – E agora, hein, Milo?
— Como assim? – segurou-me a cintura e deu-me um selinho.
— Eu sinto algo por você... Algo que nunca senti por ninguém... Entende?
— Entendo. – levou a mão até meus ombros e desceu as mesmas até meus dedos, segurando-os gentilmente. – Vamos com calma, ok? – beijou-me rapidamente, mas eu não queria apenas aquilo.
Toquei seu rosto e aprofundei aquele contato, juntando nossos corpos. Em meio a tantos problemas... Em meio a tantas coisas ruins... Em meio a chuva gélida... Eu me senti aquecido...
...
Acordei um tanto tarde. Podia ver a claridade entrar pela janela do quarto e era impossível não me sentir incomodado com aquilo. Levantei tonto e com um pouco de dor de cabeça, mas era aceitável... A chuva que tomei ontem fazia sua magia hoje.
Olhei para meu lado naquela cama e vi o escorpiano. Resisti por alguns segundos ao meu instinto de toca-lo. Mexer em seus cabelos e também em sua pele mais que quente... No entanto era como um ímã para meus dedos.
Calmamente afaguei seus fios azulados e desci até sua nuca, fazendo-o se arrepiar todo e virar-se pra mim. Seus olhos refletiam a luz em um brilho mais que hipnotizante. Ergueu as mãos e tocou-me o rosto com carinho, abrindo aquele sorriso.
— Bonjour... – falei calmo e ele apenas sorriu mais.
— Bonjour! – sentou-se e tocou-me a camisa. – Hunm... Quando vestiu isso?
— Antes de você deitar. – observei seu peito nu e senti certa inveja de seu condicionamento... Também da cor da pele. – Você ao menos está de cueca, não é? – olhei a cadeira onde as roupas dele estavam estendidas.
— Sim. – tirou o cobertor. – Ah! Quero não poder entrar no meu quarto mais vezes, só pra dormir com você.
— Isso vai dar margem a comentários maldosos, sabia?! – respirei fundo e tentei não imaginar no que já estavam falando sobre nós dois.
— Deixa isso pra eles... Nós sabemos a verdade.
É... Nós sabemos a verdade, mas no café da manhã, os comentários não paravam... Eles insistiam. Insistiam e acabaram irritando o escorpiano, que simplesmente cansou de tentar explicar, o que me deixou com a incrível função de contar tudo.
— Então, Camus... Agora você já pode dizer que o Milo comeu algo legitimamente francês, não é? – Dite fazia de tudo pra me tirar do sério também. – E então... Como foi?
— Hunm? Falou alguma coisa, Afrodite? – parei de comer apenas para encara-lo.
— Ele perguntou se você e o Milo... Você sabe. – Aioria era com certeza uma criatura irritante. – Aconteceu ou não?
— Prefiro deixar pra imaginação de vocês, porque se eu disser a verdade ou não, vão querer saber mais. Se aconteceu vão querer detalhes, se não, não vão acreditar... Então pensem o que quiser. – levantei-me e saí da sala de jantar onde todos comiam e fui procurar o mais novo.
Infelizmente pra mim, fui seguido por Afrodite, que queria parecer discreto, mas não consegue fazer nem isso direito. Andei calmamente para o quarto e percebi que Milo não estava muito bem.
Sentei-me ao lado dele e mexi em seus cabelos e ele continuou deitado, sem se mexer. Toquei sua testa e senti que estava ardendo em febre. Também pudera, ontem quase tive de arrasta-lo pra dentro de casa na chuva.
— Eu avisei, não é? – comentei e vi Dite na porta, de braços cruzados. – O que quer Afrodite?
— Só vim avisar aos dois que iremos embora hoje. – jogou-me o celular. – Albafica, Kardia e Dégel estão pra chegar.
— Hunm... Mestre Kardia? – Milo virou-se lentamente e sentou-se. – Pensei que ele estava na França...
— Estava sim, mas mandei uma mensagem bem especial pra ele. – o pisciano apenas sorria com aquilo. – Como são muito amigos, os três virão para minha casa... Acho que não é um problema pra vocês, não?
— Pra mim não... – o escorpiano apoiou a cabeça no meu ombro. – Enfim vou conhecer o tão falado Dégel, que tira meu mestre do sério.
— Creio que não vai gostar muito dele, Mi. – comentei. – Dégel é muito sério e passa boa parte do tempo dele lendo e pesquisando constantemente. É um homem muito ocupado e não se importa muito em conhecer pessoas.
— Hunm? Você o conhece?
— Ele é meu tutor.
...
Arrumei minhas coisas sem muita vontade e fui ajudar o Milo, que na verdade já havia arrumado tudo e estava novamente deitado. Não iria deixar que dirigisse, não nesse estado de saúde.
— Mi... Vamos, acorde.
— Estou acordado... – murmurou.
— Toma esse remédio aqui, vai te fazer bem. – mostrei o comprimido, mas assim que começou a reclamar, joguei em sua boca e foi obrigado a engolir.
— Golpe baixo.
— Reclame menos. – mexi em seus cabelos e levantei. – Você veio dirigindo?
— Hunf... Sim... Ah! Camus, eu posso voltar dirigindo.
— Não vou discutir com você. Dê-me a chave e não reclame. – meu tom foi sério e isso o fez entender que realmente não seria motorista. Tirou a chave do bolso e entregou-me. Olhei bem e suspirei. – Isso não é a chave de um carro.
— Eu sei. – sorriu. – Eu tenho uma moto.
Era insanidade, irresponsabilidade e com toda a certeza uma coisa muito diferente e nova pra mim. Na verdade é o que Milo tem me proporcionado desde o momento em que nos conhecemos, novidades.
Sentado na garupa, deixei que pilotasse e pelo que ouvi dizer, essa era a velocidade baixa. Baixa e já me fazia estar agarrado ao corpo dele como se o mundo fosse acabar. Pelos deuses! Como esse escorpião corre.
Paramos bem em frente à mansão do meu “querido” primo e achei que fôssemos esperar... Engano quase mortal de minha parte. Aprendi o caminho que Milo usava para entrar escondido no jardim e ficamos novamente de pé sobre o lugar de sempre.
O clima não está bom para ficarmos do lado de fora, mas a grama estava tão verde que foi inevitável não sentar nela. Senti os dedos bem quentes subirem por meus braços e também seu nariz roçar em meu pescoço, o que me arrepiou por completo.
— Isso não é hora pra namoro, Milo. – comentei. – Nossos tutores...
— Não me importo em fazer Kardia esperar mais um pouco. – beijou-me bem perto do maxilar e pude sentir sua temperatura ainda um pouco alta.
— Mesmo? Ele não se irritaria?
— Muito, mas ele vai demorar a chegar. – puxou-me para si e beijou mais o meu pescoço. – E eu quero aproveitar meu tempo com você. – sussurrou.
— Eu também quero, Milo... Mas você tem que descansar. Está febril ainda. – virei-me para encara-lo, mas acabei com o rosto bem próximo ao dele, encostando-os.
— Você que está frio, Camus... – puxou-me para si e acabei em seu colo. Seus lábios pousaram em meu pescoço novamente e suas mãos acariciavam-me as costas. Por alguns breves segundos deixei-me levar por essas sensações, mas sabia que não poderia continuar. – Está tão tenso...
— Quero que pare. – falei em um som suave, porém sério. Toquei seus ombros e o encarei. – Não é hora pra isso, Milo.
— Quando vai ser?
— Saberemos quando. – beijei brevemente seus lábios e por infelicidade do destino, ou por inveja alheia... Afrodite chegou com meu tutor e outros dois.
Levantei-me, puxando o escorpiano e limpei minhas roupas assim como ele. Era improvável que aquilo acontecesse justo agora, mas aconteceu. Milo, em um ato inexplicável, acabou um pouco a minha frente, como se me escondesse de algo, ou alguém e só depois vi o motivo.
...
.:Milo:.
...
Afrodite estava mesmo com um sorriso vitorioso nos lábios e parecia que em segundos iria soltar uma risada maléfica. Abri um sorriso e aproximei-me dos visitantes com cordialidade e de certo modo, um pouco de audácia.
— Milo! – ouvi a voz do meu tutor e dirigi-me a ele com um olhar não muito agradável.
— Mestre Kardia... O que faz aqui? Deveria estar na França cuidando de sua saúde.
— Eu estou bem. – segurou-me pelo braço e me puxou pra mais perto. – Depois teremos assuntos a serem tratados, ok?! – sorriu de uma forma sádica e eu sabia o que estava por vir. – Mas antes, deixa-me apresentar. Esse é Dégel.
— O tão falado Dégel, mestre? – ri minimamente. – É... Pelo visto sua paixão por ele é explicável.
– É um prazer conhecer o pupilo do Kardia. Sua semelhança com ele é notória. – falou em um tom que não me agradou.
— Não posso dizer o mesmo do senhor e do Camus. O mais novo é agradável. – sorri.
— Posso saber seu nome?
— É Milo.
E assim percebi que meu dia seria mais que longo e cansativo. Desviar dos olhares de Dégel, das irritações e infantilidades do meu mestre e também do sarcasmo de Albafica, que até então se manteve quieto.
Lancei um olhar fulminante para Afrodite e vi aquele maldito sorriso vitorioso estampado nos lábios cobertos de batom. Ah! Dite... Você me paga.
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