7 Dias
8 Quinto Dia - Nem tudo o que parece é.
Notas iniciais
.: Camus :.
Milo, na minha frente, bloqueava minha visão de toda a cena, mas eu já imaginava. Ele é impulsivo, mas sabe se controlar... E naquele momento eu o via quase tremer de raiva interna e o motivo era claro, Afrodite.
Mesmo diante de tantas perguntas e olhares conflitantes, o local não era apropriado para uma reunião em “família”. Albafica gentilmente nos deixou seguir para o escritório da mansão, o lugar que apenas ele tinha acesso.
De fato era bem melhor. A sala com uma iluminação boa, porém com paredes que impediam a curiosidade do pisciano, que com toda a certeza estafa se consumindo para saber o andamento da conversa.
O tal Kardia, que não me é estranho, sentou-se em uma das pontas da mesa e Dégel na outra, mas ambos não se olhavam, o que indicava que esse conflito seria mais pesado que o de costume. A solução será realmente tensa.
— Por que está tão quieto, mestre? – Milo perguntou em um tom calmo, porém era pura provocação.
— É da sua conta? Acho que não. – o azulado mais velho disse em um tom realmente irritadiço.
— Sabe que não pode se irritar muito. Não devia ter vindo por um capricho do Afrodite, sabe muito bem o quanto ele é exagerado em explicar a gravidade dos problemas...
— Cala a boca, Milo. – o mais velho simplesmente disse, o que me fez olha-lo com certa repreensão.
— Há coisas que nunca mudam. – Dégel comentou. – Uma vez turrão e infantil, sempre será assim.
— O que você disse, almofadinhas? – Kardia levantou-se pronto para atacar com o que quer que fosse.
— Os dois, vamos parar com isso! – Milo segurou seu tutor e o fez sentar novamente. – Que droga, Kardia! O coração!
— Se eu enfartar a culpa é dele! – apontou para meu mestre, que o olhou de maneira curiosa.
— Ok... – falei em um tom calmo e me sentando em uma das cadeiras entre eles. – Onde começaremos a conversa? O que os trouxe aqui?
Era um fato que ambos não queriam e nem iriam dizer a verdade, mas eu poderia...
— Se ninguém falar, eu contarei uma história... – Milo comentou e Kardia logo começou a falar.
— Ok! Não precisa contar história nenhuma, Milo. – o mais velho contestou. – Eu vim porque estava em visita a Albafica. Afrodite ligou, queria falar sobre o Milo, que estava namorando o filho de certas pessoas que eu não queria que se envolvesse... Daí vim para ensina-lo algumas coisas.
— Certas pessoas? Já esqueceu meu nome? – Dégel reclamou de uma maneira que me incomodou. O tom de voz dele parecia diferente. – Eu vim pelo mesmo motivo, mas pelo Camus. Não quero ele com o projeto de Kardia.
— Aceita o fim, pelo amor dos deuses! – o mestre do escorpiano começou.
— Eu nunca vou aceitar algo sem explicação. – o meu mestre disse em um tom mais embargado ainda.
E foi então que a discussão realmente conversou e eu entendi tudo. Kardia reclamava como nunca vi uma pessoa fazer antes e incrivelmente tirou Dégel dos eixos. Vi Milo abrir um sorriso triste e se afastar um pouco, indo até a janela.
Deixei os mais velhos quase se matando com palavras e fui até meu amado, que simplesmente parecia triste. Toquei seu rosto quente e fui devidamente abraçado, recebendo um beijo rápido.
— Eu entendi o motivo pra eles brigarem tanto. – comentou.
— Está meio óbvio. – falei. – Não vou me intrometer nesse assunto.
— Não vai durar muito essa briga, Kardia está mais pálido a cada segundo e vai desmaiar. – comentou.
— E você fala nessa tranquilidade? – ia me soltar, mas ele não deixou que o fizesse.
— Não entende? Kardia mexe com os sentimentos do Dégel... Se ele desmaiar nossos problemas se resolvem sozinhos. – mexeu em meus cabelos. – Ele tem problemas cardíacos, sabe... Mas é um teimoso... Talvez Dégel consiga fazer com que ele comece a se tratar.
— Entendi, mas é cruel, Milo. Não podemos fazer nada?
— Não. – ao dizer isso, ouvimos o silêncio ecoar.
Olhamos em direção à mesa e vimos Kardia realmente ficar como um papel. Apertava o peito e arfava. Doeu em mim, em Milo e o olhar de Dégel indicava que a dor nele era dobrada. Ele que estava ainda bem frio, sentado ao outro lado, parecia não acreditar muito, ao menos até o mestre do escorpiano desmaiar sobre a mobília.
— Kardia, pare de gracinhas. – comentou, mas não obteve resposta. – Kardia... – levantou-se e tocou o ombro dele. – Kardia?
— Ele tem problemas cardíacos sérios, mas nunca me falou exatamente o que é. – Milo me soltou e ligou para a emergência. – Vamos ver se agora ele aprende.
Ouvir as palavras do meu amado era cruel. Milo não pode ser esse tipo de pessoa que espera o mal das outras para que aprendam uma lição... Mas se bem que, pelo que vi, o nível de teimosia de seu mestre conseguia ser maior que o do próprio Milo.
Fui pra perto de Dégel, que ainda em choque, deitava o azulado sobre a mesa. Vi quando se sentou e apoiou a cabeça do outro em seu colo. Assim como eu, não consegue expressar muito bem os sentimentos, mas seus óculos estão embaçados.
...
No hospital, Kardia foi levado para exames mais detalhados. Estávamos na sala de espera e desde a mansão meu mestre se manteve em silêncio. Milo estava mais preocupado que antes e assinava alguns papéis, a burocracia de sempre na recepção.
Albafica optou por ficar em casa, mas creio que a situação lá não é das melhores. Afrodite parecia um tanto tenso ao conversar com seu tutor, era como ver a expressão clara do medo em seu olhar.
O tamborilar dos dedos de Dégel me tirava a concentração. Está ansioso e com um pouco de medo, talvez. Há uma história entre esses dois que não foi esclarecida, mas eu gostaria muito de saber como tudo aconteceu para chegar nesse nível.
— Pronto... Assinei tudo. – Milo chegou e se sentou ao meu lado. Seu olhar apesar de tudo é muito triste. – Não aguento essa demora.
— Calma, ele vai ficar bem. – comentei e ele simplesmente apoiou a cabeça em meu ombro. Mexi em seus cabelos em um gesto de “extremo” carinho ainda não visto pelo meu tutor. Seu olhar para nós foi um tanto estranho e eu sabia o que viria.
— Eu estou ciente de como isso começou. – Dégel falou em um tom frio. – Não acredito que você, Camus, cedeu mesmo depois da aposta que as duas crianças fizeram.
— Não me leve a mal, Dégel. – Milo comentou de maneira um tanto calma. – Mas Camus não cedeu... Eu falei a verdade pra ele desde o início, que era uma aposta... Mas eu realmente me apaixonei por ele, pelo jeito dele.
— Em o que? Três dias? Oras... Não fale besteiras. É igual ao Kardia mesmo. – insistiu o meu tutor.
— Kardia me ensinou muitas coisas, mas a mais importante delas foi ser eu mesmo. Se isso interessa ao Camus não é algo que ninguém possa fazer. Admito, sou um tanto orgulhoso e competitivo, deveras tagarela e muitas vezes provocador, mas não gosto de mentiras. – Milo parecia mesmo se irritar quando o comparavam ao Kardia, mas era compreensível, ambos são diferentes.
— Dégel, por que a implicância toda com Kardia? – perguntei. – Se pelo que entendi da discussão, vocês tinham um caso de longa data. Por que tudo chegou a esse ponto?
— É assunto pessoal. – suspirou. – Mas eu conto. – era difícil pra ele. Tocar nesse assunto mostrava um lado diferente, um lado sentimental dificilmente visto naquele homem frio. – Kardia e eu nos conhecemos na infância, crescemos juntos aqui na Grécia, mas logo fui levado de volta para a França. – vi um sorriso nostálgico aparecer naquele rosto, o que me deixou um tanto assustado. – Ele me escrevia sempre. Nós dois, mesmo em posições sociais diferentes éramos muito unidos e aquelas cartas só me faziam ver o quanto eu gostava dele. Em uma viagem para a Inglaterra nos reencontramos após muito tempo. Ele estava estudando... A família se recuperou da queda e estavam bem, muito bem de vida.
— Sempre o dinheiro. – Milo murmurou, mas não interferiu na narração.
— Naquele tempo, entre tantas novidades, descobrimos nossos sentimentos e começamos a namorar, isso quando tínhamos dezessete anos... Durou até mesmo depois de voltarmos, ele para a Grécia e eu para França, o namoro à distância e fases de reencontro. Houve um tempo que moramos juntos... Anos... Era como se estivéssemos casados, tínhamos uma vida de casados. Até que decidi adotar o Camus. – olhou pra mim e senti um peso imenso no coração. – Foi quando também Kardia sumiu no mundo. Não tinha mais o número do telefone, não mandava cartas, e-mails, nada. Vinte anos sem nos falar diretamente, até hoje.
Senti meu coração estilhaçar. Não conseguia expressar isso, mas logo senti também a mão de alguém sobre a minha. Milo estava arrasado, isso eu conseguia ver em seu olhar. Por mais que eu tentasse dizer algo, nem ao menos que fosse para eu me aliviar daquela dor, não consegui... Mas ele sim.
— Quando Kardia me adotou... Eu tinha pouco mais de quinze, mas me deixou naquele lugar até que completasse dezessete. – a voz do meu escorpiano era embargada. – Ele sempre me levava maçãs, mesmo antes disso. Mesmo muito antes de eu ter quinze anos... E dizia “Ele deve ter a mesma idade agora”... Sempre. Nunca o entendi, achava que era mais uma de suas maluquices. Quando me levou pra casa dele, vi algumas fotos em seu guarda-roupa, mas nunca me deixou aproximar para identificar... – sentia que Milo a qualquer momento fosse desabar, mas respirou fundo. – Sabe... Desde quando eu era bem pequeno, naquele orfanato, ou Santuário, como costumavam chamar... Dizia que algum dia poderia me tirar de lá e ele tirou. Eu era pequeno, não entendia as razões dele, mesmo quando dizia que seu coração estava machucado. Ele disse nos dois sentidos e eu entendi apenas como uma doença.
— Ele fugiu... – Dégel começaria a falar, mas prontamente foi interrompido por Milo.
— Ele fugiu de você porque não queria que o visse daquele jeito. – falou um tanto bravo. – Eu só saí daquele orfanato quando realmente soube que ele estava internado em um hospital. Eu passei quase dois meses entre idas e vindas... Tudo o que ele dizia era que eu algum dia entenderia... Que ele me criaria para ter um herdeiro, porque estava perto da morte. Ele não é como você pensa. Se o conhece mesmo desde que eram crianças, deveria saber que Kardia nunca fugiria sem ter um motivo sério.
As lágrimas caíam do rosto do escorpiano e aquilo me deixava ainda mais triste. Meu mestre também tinha lágrimas penduradas e quando as mesmas caíram silenciosamente por seu rosto, vi a confusão em seu olhar.
...
.:Milo:.
Eu não aguentava mais ouvir aquele homem se fazer de vítima. Por mais que eu seja desobediente, por mais que eu nunca tenha aceitado Kardia como meu pai, nunca deixaria que falassem dele ou que o fizesse parecer um cretino.
Ele deixou de lado muitas coisas apenas para me criar. Deu-me tudo o que qualquer criança ou adolescente sonhou em ter, deu-me mais do que eu poderia querer... Fiquei ao seu lado desde as primeiras crises graves de sua doença, quando suas artérias começaram a se enfraquecer e o coração começar a falhar.
Estive ao lado dele até que decidiu conhecer o mundo antes que morresse... Até que decidiu me deixar aqui. Eu o apoiei nisso, afinal, também queria seguir a vida do meu jeito e hoje agradeço por isso... Mas agora é hora de retomar ao ponto em que parou.
O silêncio era pesado, mas eu precisava defender aquele que me foi um verdadeiro exemplo. Não podia deixar que sua imagem fosse manchada por palpites. Camus parecia perdido, não sabia em qual dos lados ficaria, mas tudo foi quase que prontamente esquecido quando o médico apareceu e deu-nos a notícia tão esperada, que podíamos ver o doente no quarto.
— Acho... Melhor você ir, Milo. – Dégel comentou.
— Seria o certo, mas eu já passei por muitos desses momentos. Ele ficará feliz em vê-lo ao lado dele. – comentei e depois de alguns segundos o vi concordar e ir até lá com o médico.
Assim que sumiu de vista, relaxei um pouco. Senti as mãos de Camus em meus ombros e sabia que também estava aflito. Olhei profundamente em seus olhos e nisso acabei vendo que se sentia culpado.
— Mon’amour, não me olhe assim. – pediu. – Parece que está me analisando.
— Desculpa. – dei-lhe um selinho.
— Tudo bem. – tocou-me o rosto. – Milo, o que acabamos de fazer?
— Unimos os dois... De um jeito torto, mas foi isso. – sorri.
A verdade é que sempre quis entender o que havia acontecido com Kardia no passado. Ele ainda é um homem que vive sempre como se nada tivesse ocorrido, como se não influenciasse, mas agora vejo que não é bem isso.
Não conseguia tirar toda aquela história da cabeça. Mesmo com o passar das horas e o cair da noite, não consegui relaxar. Mesmo preocupado, senti raiva intensa de Afrodite por ter trazido aqueles dois para um reencontro.
...
Dentro de um quarto muito bem pago, Kardia descansava ainda com aqueles aparelhos todos e Dégel estava ao seu lado. O máximo de três pessoas não poderia ser mantido durante a noite, então, fiquei com Camus na sala de espera.
Deitei o corpo no sofá e apoiei a cabeça em seu colo, sentindo seus carinhos em meus cabelos. Não era a noite que planejava passar com ele, mas nesse momento não poderia imaginar alguém melhor para estar ao meu lado.
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