7 Dias

2 Primeiro Dia


Notas iniciais
Yo ^^ Espero que gostem do capítulo. Pretendo postar o segundo e o terceiro dia até domingo, pois minhas aulas na faculdade começam na segunda.

.:Camus:.

Após aquela festa de ontem, ainda estou deitado em meu quarto, olhando o teto. Aquelas paredes em um leve tom azulado e as cortinas mais escuras traziam uma paz fora do comum. Afrodite não tem jeito. Armou a festa em apenas uma semana, conseguiu sair em todos os jornais e ainda planeja algo para mais tarde.

Sentei-me na cama e procurei meu livro, o mesmo que estava lendo ontem. Romeu e Julieta... Linda estória... Romances trágicos sempre me interessaram. Levantei havia tempo e com certeza deixei o livro em alguma parte da casa.

Saí do quarto e comecei a procurar pelos corredores daquele andar. Era impossível que estivesse ali. Desci as escadas com certa sensação de que não estava sozinho. Caminhei em direção à sala e soltei o ar pesadamente ao ver aquela figura sentada no sofá e segurando o meu livro.

...

— “Se minha mão profana o relicário, aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.”... – citou aquele trecho, um de meus favoritos de Romeu e Julieta. A verdade é que eu fiquei muito surpreso com aquilo e o encarei dessa forma. – Não tivemos a honra de uma apresentação decente.

—Alguém de sua idade que cita Shakespeare. – fechei o livro e entrei na brincadeira. – “Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos Santos, pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.” – E então, ajoelhou-se diante de mim, segurou minha mão e desferiu um beijo suave sobre ela. – A quem devo esse prazer?

—Meu nome é Milo.

...

Milo... Também lembro muito bem que ele é amigo de Afrodite... Quando digo amigo, remete-se aos “Amigos” da época dos grandes romances. Amigos suspeitos da literatura romântica. Aproximei-me do sofá de frente para o dele e fui devidamente encarado.

Fechou o livro e deixou sobre a mesa e levantou-se. Devo admitir que ao menos é educado e cumprimentou-me.

—Camus, não é mesmo? – perguntou. – É um prazer vê-lo.

—É um bom fisionomista. – sorri. – Senhor Milo.

—Sem formalidades, por favor. – sorriu e aproximou-se, ficando próximo a um ponto que podia, para muitos, ser desconfortável. Estávamos frente a frente e separados por uma mesa.

—Veio visitar o Dite? – cruzei os braços.

—Eu sei que aquele narcisista está na academia à uma hora dessas. – mexeu nos cabelos da mesma forma que meu primo fazia como uma forma de deboche. Não havia maneiras de evitar o riso, pois até a expressão facial fora imitada. – Entende, não é? Sei que é seu primo mas...

—Entendo. – sentei-me e ele fez o mesmo. – Pelo que eu entendi de ontem, você já saiu com o Dite... Se não veio vê-lo, o que faz aqui? – era realmente uma questão.

—Não é óbvio? Quero saber o que deu errado na minha cantada. – falou simplesmente, como se aquele assunto fosse o mais simples possível. – O que foi?

—Você... – senti o rosto avermelhar levemente com isso e respirei fundo. – Sinceramente?! Um cara que já saiu com o Afrodite não pode ser coisa boa. Entende?! Afrodite... Ele é meio vadio, só sai com os caras mais sem cérebro do planeta.

—Encarei isso como um insulto, sabia? – cruzou os braços.

—Não era a intenção ofender, apenas digo o que realmente acontece. O Afrodite não é o tipo que admira o cérebro. Não estou dizendo que um ou outro não seja esperto...

—É uma ofensa. – franziu o cenho e começou a mexer o indicador nervosamente. – Eu devia desistir de conversar com uma pessoa como você, sabia, mas infelizmente gosto de coisas difíceis de serem conquistadas.

—Se gostasse não teria saído com o Afrodite. – levantei e encarei bem aqueles olhos verdes. Por que tenho que me perder neles?

—Não é porque eu me diverti uma noite que eu repita o erro. Camus, você nem ao menos me conhece.

—Não há muito que conhecer. Você é muito parecido com o Dite. Tem essa aparência perfeita, busca apenas pessoas com o mesmo perfil. Aposto um livro que só está saindo comigo por um pedido do meu primo.

—Uma aposta com ele na verdade. — Eu não acreditei naquilo. Olhei para o lado e aquela sensação era ruim de que aquilo era verdade. Caminhei até as escadas e apoiei no corrimão, colocando as mãos no rosto. – Hei... – senti que ele tocava meus ombros. – Desculpa, mas eu não estou mentindo.

—O pior é que... Eu sei disso. – comentei. – Ele vive fazendo isso. Ao que parece, Afrodite se incomoda por eu preferir estar sozinho.

—Na verdade ele apostou que eu não conseguiria me aproximar de você. – sentou-se na escada de frente pra mim e manteve o contato visual. – Não tem que ser assim.

—Qual foi exatamente a aposta?

E então, descobri os planos de meu querido primo. Em situações normais, teria me irritado, mas não vou fazer isso. Se o Dite quer fazer essa brincadeirinha comigo, também posso dar o troco. Milo teve a ideia e não achei ruim. São apenas sete dias.

...

Ainda é manhã, quase onze horas. Depois de uma longa conversa planejando a vingança contra meu primo, Milo e eu decidimos ir almoçar. Devo admitir, o grego é realmente muito interessante e misterioso.

Conversamos por uma hora inteira e não consegui descobrir muita coisa sobre ele, apenas que seu nome é Milo, possui um apartamento no centro da cidade, é um fã de grandes romances... E possui uma relação estreita de amor e ódio com o Dite.

Fomos a um restaurante simples... Simples demais para o que eu estava acostumado. É em uma ladeira por assim dizer. As mesas são do lado de fora, o chão é de pedras, paralelepípedos e outras formas indescritíveis. Tudo tão antigo, que tenho minhas dúvidas ao estipular a idade e o século que foram colocadas ali.

Sentei-me perto de uma das pequenas barreiras de pedras e observei tanto as águas do mar, quanto as pequenas e estreitas escadarias ali de perto. Há duas pequenas e tortuosas árvores fazendo uma sombra agradável sobre mim e isso é animador.

Peguei o cardápio e tentei entender o que era cada prato daqueles, mas era realmente difícil. Grego não é o meu forte e desde que vim morar aqui, Dite apenas me serviu os pratos franceses que estou acostumado a comer.

—Quer ajuda? – o azulado logo se propôs a ajudar, sentando-se na cadeira em frente a minha.

—Não consigo decidir o que comer. – em uma tradução para o meu francês: Não sei o que está escrito.

—Psarosoupa é uma ótima pedida, acredite. – riu minimamente e estreitei os olhos. – Não estou brincando, é ótimo. Uma sopa de peixe com alguns legumes.

—Pode ser. – respondi tranquilo. Foi até o balcão fazer o pedido e trouxe com ele uma garrafa d’água com gás e bem gelada para ambos. O fato é que sair um pouco da mansão era bom. Conhecer um pouco a cidade e transformar minha estadia aqui em algo lucrativo para meu álbum de experiências.

—Então, Camus, o gosta de fazer além de ler?

—Lutar. – ri minimamente, não pelo que eu disse, mas sim pelo espanto em seu olhar. – Não acredita?

—Não duvido, mas não parece o tipo de pessoa que entraria em um confronto desnecessário. – movi apenas as sobrancelhas em um ato lógico, enquanto ele levava o copo à boca. – Sábia decisão.

—Sim... – suspirei. – Por que exatamente você quer se vingar do Afrodite?

—Há pessoas que apenas aprendem perdendo as coisas. Dite, infelizmente é esse tipo de pessoa. Ele acha que é o centro do universo, mas isso não é verdade.

—Pelo visto, alguém teve uma experiência ruim com ele. – ri e beberiquei a água. Vi o olhar irritadiço que fora lançado e isso me fez prender o riso. – Desculpa, mas é cômico.

—Hunm... De fato. – disse confiante. – E pelo que pude perceber você também não teve uma experiência muito boa.

Era um fato. Desde cedo aprendi a lidar com meu primo, suas investidas, seu jeito extravagante, sua forma narcisista, mas isso de alguma maneira afetava a todos que nos cercavam. Pouco a pouco nossos amigos iam se afastando, inclusive eu. Fui para a Sibéria por alguns anos e agora retorno em uma missão quase impossível de ajudar meu primo a ganhar um rumo decente à vida dele.

—Por que me contou da aposta? – perguntei ainda descrente naquilo tudo. Não seria possível, meu próprio primo armar uma dessas pra mim.

—Não achei que fosse preferir a mentira. – comentou simplesmente, enquanto nossos pedidos eram servidos. Exatamente os mesmos.

—Não achou que eu fosse me magoar se contasse?

—Antes a dor da verdade que ser machucado lentamente pela mentira. – riu. – Estranho dizer isso, sou fã de torturas lentas.

—Hunm... – murmurei, levando um pouco daquela sopa à boca. Não era ruim. Na verdade era muito bom.

—Estranho não estar com raiva...

—Acredite, estou fervilhando. – falei e voltei a comer. – Mas já estamos dando um troco a ele, não é? Você e eu saímos essa semana e depois pronto. Ele perde, mostro que sou suportável e você não tem que sair por aí com uma coleira nas mãos do Dite.

—Hunm... – murmurou. Aquele ato torna-se comum a cada assunto que mudamos. – Você tem namorada, namorado, fez voto de castidade ou algo do tipo? – perguntou curioso e eu sabia que não ia terminar o questionário apenas com aquilo.

—A resposta é não para todas as alternativas.

—Não acha que já é hora pra ter alguém?

—Definitivamente não. – continuei comendo e bebi um gole da água que já esquentava. – Bom... – olhei o relógio. – Dite já deve estar em casa.

—Nossa. – riu. – Termine de comer primeiro. Não acho que Afrodite morrerá por sua ausência.

—Nem você, não é mesmo?

.:Milo:.

Um fato era que minha tática estava falhando tragicamente. Pensei que contar a verdade o traria direto para mim, mas Camus é frio, distante. Nenhuma das minhas investidas era bem sucedida e aquilo começava a me irritar.

Terminei de comer a sopa e paguei pelos dois almoços. Nem mesmo o cenário o fazia amolecer um instante que fosse. Viemos andando até aqui, andando em silêncio e em silêncio também voltaríamos para a mansão.

Passar pelos jardins e fontes não o animavam em nada. Ao menos não demonstrava, mesmo que seus olhos azuis brilhassem e a vontade corroesse, andava pela calçada em linha reta, sem ao menos dizer o que queria fazer.

Ao chegar em frente a casa do pisciano, a ansiedade estava intensa e o esverdeado nem ao menos se importava. Respirei fundo e entramos. Abri a porta e de cara estava o dono da casa, sentado em um sofá, mexendo nos cabelos com uma das mãos e segurando um espelho na outra.

Camus não se importou em entrar primeiro e cumprimentar o primo como se nada tivesse acontecido. Pegou o livro que ainda estava sobre a mesa e veio até mim. Pensei que agora fosse uma boa hora para tentar me aproximar mais, no entanto, os instintos gritavam para permanecer parado.

—Então... A gente se vê amanhã, certo? – comentou sério.

—Sim. – respondi. – Ainda não marcamos a hora.

—A hora que você aparecer estará bom. – sorriu e estendeu a mão.

—Ok. – toquei sua mão e a puxei novamente para beijar as costas da mesma e piscando um olho. Isso deixou o rosto dele corado como uma pimenta e o fez subir as escadas um tanto sério.

Afrodite parecia não entender nada, olhava para mim com espanto e eu... Adorei ver aquela expressão naquele rosto andrógino. Não está acostumado a perder apostas, mas ele não entendeu que eu nunca jogo para perder.

Colocou o espelho sobre o sofá e levantou-se, vindo para bem perto.

—Qual a bruxaria que fez? – perguntou.

—Bruxaria? – cruzei os braços. – Não sou fã dessas coisas, Afrodite.

—Como fez o Camus largar aquele maldito livro?

—Talvez devesse repensar seus conceitos, Afrodite. Ler um pouco pode te fazer bem.

Como resposta, ergueu as sobrancelhas e moveu os ombros em uma forma de não se importar. Respirou fundo e iria falar alguma coisa, mas o deixei lá, parado como um dois de paus. Não havia mais nada a fazer ali hoje.

Caminhei até a entrada da mansão e tive aquela sensação de ter de olhar pra trás. Arrependimento? Não, não havia. Olhei para a janela de um dos quartos de cima e vi o esverdeado sentado no parapeito.

Camus estava tão distraído, que não percebeu que eu o olhava e por Athena! Como aquele homem pode ser tão frio e sedutor? Lia um livro, deduzo ser Romeu e Julieta, e levou uma flor ao nariz. Suponho que seja uma rosa.

—Ora, ora... Então... Ele guardou a rosa, não é mesmo?! – sorri ao lembrar da festa e também lembrei que fui eu quem ousou a se aproximar daquele homem e entregar aquela flor.

Talvez essa conquista não seja tão difícil quanto imagino...

Notas finais
Então... Reviews? Leitores fantasmas, eu quero que vocês apareçam T-T juro que não tenho medo.