Há momentos na vida em que você se vê nas situações mais inesperadas.
E esse inesperado pode significar várias coisas: ganhar uma promoção, rever alguém que não via há muitos anos, descobrir o primeiro cabelo branco... ou simplesmente ter uma ideia louca e executá-la sem pensar muito, e só depois se dar conta de que talvez o passo tenha sido maior que a perna, de que talvez a loucura dessa ideia tenha sido grande demais para ser contornada.
E por falar em loucura e cabelos... a garota que me fitava ali, naquele enorme espelho do salão (que como todo espelho de salão de beleza, ressaltava cada imperfeição minha, cada gordurinha querendo escapar e cada marca no rosto pouco maquiado) era eu mesma, embora eu não conseguisse me reconhecer debaixo de todos aqueles fios cor-de-rosa lustrosos. Sakura Haruno, que durante toda a vida fora castanha, agora tinha cabelos coloridos.
-Você ficou ótima! – disse a cabeleireira, forçando um sorriso no rosto de meia-idade. Provavelmente ela estava querendo me incentivar, por ter visto minha cara de pânico após retirar a touca secadora e mostrar o resultado da mistura de tintas. –E é muito corajosa, também. É uma mudança e tanto.
Não respondi nada, ainda me limitando a encarar aquela estranha no espelho. Não se podia dizer que estava feio, pois meus fios brilhavam e o tom de rosa havia ficado belíssimo. Mas, a despeito do rosto igual e dos inconfundíveis olhos verdes, era como se tivessem colocado outra cabeça no meu corpo. Aquela mulher não era eu.
Lutei contra as lágrimas que ameaçavam encher meus olhos. Para completar o cenário caótico, era domingo, e eu estaria indo para almoço em família, em seguida. Minha mãe, minha avó, todos os tios e primos... Já até podia imaginar os queixos caindo e os olhares de censura, quando me vissem.
Sorri amarga. Talvez aquele tivesse sido meu objetivo desde o início.
-Sim, está ótimo. – voltei à minha expressão polida de sempre e me levantei da cadeira, abrindo a bolsa em busca da minha carteira. Apesar de não conseguir disfarçar minha insatisfação com o resultado, tratei de pagar um valor a mais à cabeleireira, que havia feito o favor de me atender em pleno domingo, após eu simplesmente acordar meio tantã das ideias e decidir pintar meus cabelos de rosa.
Feito o pagamento, enganchei a alça da pequena bolsa sobre o ombro, saindo do salão e sentindo o vento bater em meu rosto. Antes de ir embora, me virei mais uma vez e tornei a me olhar, usando a porta de vidro como espelho. Eu tinha o mesmo visual de sempre, que me acompanhava tanto no escritório em que fazia estágio quanto nas reuniões familiares: Uma calça jeans preta lisa e não muito justa, uma camisa social branca com botões, e mais a sapatilha preta combinando com a bolsa. Os únicos acessórios eram os pequenos brincos de ouro branco e o relógio de ouro no pulso esquerdo. E o cabelo... rosa. Uma longa e brilhante cascata rosa balançando em torno dos meus ombros.
Catei rapidamente um lápis dentro da bolsa e improvisei um coque, e em seguida marchei para a estação de trem, puxando a gola da camisa em direção ao rosto como se aquilo pudesse me tornar menos visível. Eu me sentia como a música, aquela que diz “tuas ideias não correspondem aos fatos”. Eu deveria imaginar que aquela ideia vibrante não combinaria com uma pessoa apagada.
Fiquei quieta e olhando fixamente para o chão durante todo o percurso até a estação mais próxima ao prédio da minha avó, tentando ignorar os olhares em cima de mim, que se renovavam cada vez que a porta do trem se abria. Quando finalmente cheguei ao meu destino final, levantei rapidamente e saí sem olhar para os lados, agindo da mesma maneira na rua e dando graças por Vovó morar perto dali.
-Sim? – a voz de meu primo Shikamaru perguntou, quando cliquei no interfone o número do apartamento.
-Bom dia, Shikamaru. Sou eu, Sakura.
-Pode subir. – respondeu ele, em seu costumeiro tom de tédio. –Elas estão todas no quarto da vovó, e estou tendo que cortar as cebolas.
Imaginando se Shikamaru pensava que eu o ajudaria a cortar as cebolas, subi até o quarto andar e entrei sem bater. A porta do apartamento duplex sempre ficava aberta, no dia do almoço em família.
Largando a bolsa sobre o aparador, respirei fundo e fui até a cozinha, onde vi Shikamaru de costas para a porta e encostado na pia, cantarolando “Hey Jude” e com o barulho da faca deslizando pela tábua e ecoando pelo ambiente.
-Olá, Shika.
-Oi. – ele se virou e me cumprimentou com um sorriso, tornando a se virar para a pia. Revirei os olhos no mesmo momento em que ele se virou para mim novamente, dessa vez com os olhos esbugalhados e deixando a faca cair no chão, tamanho o susto. –Sakura! Puta merda, Sakura! O que você fez com seu cabelo?
Nada como ter uma família que a incentiva.
-Que bom que notou, fico honrada por ter gostado. – resmunguei, seca.
-Você está parecendo um algodão doce!
-Espero que isso seja um elogio. – andei até mais perto de onde ele estava, apanhando um copo do secador de louças e o enchendo com água, no filtro da pia.
-Você sabe que Vovó e tia Mebuki vão ficar loucas, certo?
A água gelada desceu arranhando minha garganta, e então roubei um pedaço de cebola da tábua, mastigando-o sem piedade. A acidez que a vermelhidão dos olhos do Shika não deixava desmentir logo me fez ter uma crise de tosse, me obrigando a tomar mais um grande gole de água.
-Estou tentando não pensar nelas. – falei, ainda um pouco rouca.
-Acho que você não terá êxito por muito tempo. – ele respondeu.
Ouvi naquele instante o burburinho de mulheres descendo as escadas da parte superior do apartamento. Pelas vozes, eram Mebuki – ninguém menos que minha mãe – e tia Yanna, mulher do meu tio Inoichi. Pensei “seja o que Deus quiser” e pisei firme, indo até a sala.
-Não acho que essa echarpe da mamãe tenha ficado bem em você. – ouvi minha mãe dizer para minha tia, que deu de ombros. Mamãe estava usando um colar de pérolas falsas que eu também lembrava ser da vovó, o que me fez deduzir que elas estavam fazendo uma espécie de “bazar” lá em cima.
-Mãe... – falei baixinho, já com vontade de sair correndo dali. –Tia...
As duas pararam a própria conversa e viraram exatamente no mesmo instante, me encarando juntas e com a mesma expressão. Igualzinho como acontece nos filmes, quando o parente indesejado ou alvo de comentários chega, acabando com a alegria do momento.
Minha mãe levou alguns segundos para assimilar meu novo visual, e então sua boca se abriu e seus olhos se esbugalharam ainda mais do que os do Shikamaru.
-Sakura! – ela falava como se estivesse prestes a me castigar por alguma travessura. –O que diabos você bebeu, menina?!
-Eu...
-Você está querendo perder seu estágio, Sakura? Está querendo viver uma adolescência tardia? – ela já estava vermelha. –Espero que tenha feito isso com papel crepom, Sakura!
-Não , mãe. – bufei. –A menos de meia hora atrás eu estava no melhor salão de beleza da cidade.
-O melhor? O MELHOR?! – ela já gritava. – Você vai ao melhor salão da cidade, e volta com o cabelo destruído?! COMO CONSEGUE?!
-Mãe... – comecei a ficar nervosa. –Não grite...
-Querida... – tia Yanna se aproximou de mim e tocou uma mecha que havia se soltado do meu coque. Ela também não parecia ter gostado, mas não me olhava com censura. Aquele olhar parecia... pena? – Seu cabelo natural era tão lindo...
Dei de ombros, com um nó na garganta e sem saber se me arrependia mais da pintura ou de ter comparecido ao almoço.
-Que gritaria é essa, Mebuki? – Tia Yoshino, mulher do meu tio Shikaku, descia as escadas com uma sobrancelha erguida e em um tom de repreensão. –Será que nem depois de velha você deixará de ser escandalosa?
Minha mãe a fuzilou com os olhos, mas ela nem viu – estava ocupada demais encarando minha cabeça, obviamente.
-Santo Deus! – exclamou tia Yoshino, terminando de descer as escadas e chegando até mais perto de mim, claramente me analisando. –E eu que pensei que a Ino seria a única maluca da família...
-Ei! – protestou Tia Yanna. – Não fale da minha filha!
-Vocês estão fazendo tempestade em um copo d’água. – a voz de Shikamaru surgiu do nada e o senti parar ao meu lado, colocando a mão em meu ombro. –Sakura apenas quis mudar um pouco, na certa se cansou do castanho água de salsicha. E ela ficou ótima assim, não é qualquer mulher que fica bonita até com cabelos de algodão doce.
“Por favor, Deus...”, pedi mentalmente, “me teletransporte daqui...”
-Você vai pintar novamente de castanho e nunca mais fará isso, entendeu?! – minha mãe tinha uma ruga na testa.
-Mãe, pare de me tratar assim! – estourei. –Não sou mais uma criança!
O olhar dela ficou ainda mais sério — e ficamos sem dizer nada, apenas nos encarando como em um duelo telepático. Os outros presentes na sala estavam visivelmente constrangidos, e a tensão do momento só foi interrompida quando um gato desceu as escadas feito um risco, perseguido por um longo e veloz par de pernas brancas.
-Gatinho! – Ino corria atrás do gato em torno da sala, parecendo uma adolescente travessa. –Venha cá, amigo!
-Eita, será que nem o coitado do Harry escapa das suas garras? Sua loura devassa! – Shikamaru a provocou, e ela enfim conseguiu apanhar o gato.
-Não se meta entre mim e Harry! – ela mostrou a língua. –Temos uma relação de amor e ódio, mas sempre nos entendemos no final.
Ino é filha única de Tio Inoichi e Tia Yanna, e a mais velha de nós, os netos da vovó Chiyo. Ela é cinco anos mais velha que eu, mas ninguém diz isso quando estamos juntas. Eu tenho só dezoito, mas minha seriedade e minhas roupas clássicas sempre me dão uma aparência de mais madura – ou davam, antes de eu “destruir” meu cabelo. Ino é mais alta que eu, mas é mais esbelta, loura natural e com enormes olhos azuis, alem de estar sempre sorridente como uma criança. Sem contar que o estilo dela – uma mistura de roqueira com pin-up – sempre a deixa com um ar de Lolita. E um bom exemplo era a saia escocesa que ela estava usando e provavelmente também havia sido herdada do bazar da vovó.
Como sempre, ela estava linda.
-Sakura! – ela enfim notou meu cabelo, e tremi ao pensar que até mesmo ela ia me criticar. Mas ela abriu um enorme sorriso e andou até mim, me abraçando. –Sakura, em que salão você tingiu os cabelos assim? Você está maravilhosa!
Me senti corar. Ino tinha vários defeitos, mas eu podia perceber que ela estava sendo sincera.
-Obrigada...
-Ah, não... – minha mãe bateu com a mão na própria testa e reclamou, com desdém. – É óbvio que você acharia isso bonito...
-Mas é claro, tia! – ela disse, me soltando e apontando para meus cabelos, não entendendo como os outros podiam não ter gostado. –Esse cabelo é arte pura! Está lindo! Não está, vovó?
Dei um salto – e todos fizeram a mesma coisa, olhando na direção da escada. A comoção havia sido tanta, que sequer notaram que a vovó já estava descendo. Ela desceu as escadas com sua costumeira calma, e andou até mim passando pela filha e as noras e as ignorando sumariamente. Ao chegar, ajeitou melhor os óculos na ponta do nariz e ficou alguns segundos me analisando friamente, como se estivesse escolhendo algum produto na prateleira. Por fim, relaxou a postura e estalou os dedos.
-Mebuki, onde está a henna?
A discussão a cerca do meu cabelo ainda foi longe, até Ino mandar que todos se metessem com as próprias cabeças e, toda delicada e charmosa, conseguir convencer vovó a desistir de cobrir minha tinta rosa usando henna. Entre mortos e feridos salvaram-se todos, e no horário de sempre estávamos sentados à grande mesa de jantar, já com a presença dos homens da família e dos outros netos. Observar todos juntos assim sempre me fazia pensar em como minha família católica e conservadora também tinha suas particularidades.
Meu avô Hiruzen, marido de vovó Chiyo, pertenceu à Aeronáutica e morreu na queda de um avião, no final dos anos sessenta, deixando uma viúva e seus quatro filhos: Inoichi, Shikaku, Chouza e a caçula Mebuki. Sozinha, vovó tratou de impor aos filhos a mesma disciplina militar que o marido teria imposto. Deu certo com os dois mais velhos: Tio Inoichi e Tio Shikaku haviam se casado com duas autênticas “moças de família”, tido filhos saudáveis e levado uma perfeita vida cristã. Com Tio Chouza foi diferente. Mamãe me conta que quando mais novo ele agia como um hippie, viva andando de galho em galho por aí e costumava sair com garotas que pertenciam ao mesmo grupo que eles. Um dia uma delas ficou grávida de meu primo Chouji e os dois bem que tentaram viver um casamento dentro do padrão, ficaram anos juntos e inclusive tiveram mais uma filha, a Moegi. Mas a natureza real de Tia Ritsuko logo voltou a se manifestar, e ela se mandou, deixando as duas crianças com Tio Chouji. Ele era um bom homem e havia criado os filhos com amor, mas atualmente estava bem acima do peso, bebia muito e aparentava ser bem mais velho do que realmente era.
Mamãe sempre criticava a postura que tia Ritsuko havia tido e atribuía os erros dela justamente à vida desregrada que havia levado na adolescência, mas a verdade é que mamãe também não teve uma vida tão “perfeita” quanto os dois irmãos mais velhos. Quando jovem ela se envolveu justamente com um dos amigos de Tio Chouji, que viria a ser meu pai. O casamento também não durou muito, mas foi por outro motivo: meu pai era alcoólatra e acabou morrendo muito jovem, ao cometer a estupidez de beber e em seguida dirigir uma moto. Ou seja, mamãe acabou repetindo comigo o que vovó fez com ela e os irmãos – teve que se virar e me criar sozinha.
-As cebolas dessa salada estão grossas demais. – resmungou tia Yoshino. –Shikamaru, quando aprenderá?
Ele revirou os olhos.
-Não enche, mãe.
-Não fale assim com sua mãe, garoto. – tio Shikaku o repreendeu. –E você, Yoshino, por que o cobra? É óbvio que um homem não saberá cortar cebolas!
-Eu sei cortar cebolas. – Chouji comentou, mordendo um pedaço de pão.
-Você sabe porque comer é a única coisa que te importa na vida. – Moegi se meteu.
-Não seja tão rude com seu irmão, filha. – disse tio Chouza.
-Essas crianças de hoje em dia são todas malucas e mal-criadas. – fingi não perceber o olhar de soslaio que vovó me deu, por trás dos óculos de armação redonda. –Vocês não sabem que o horário das refeições deve ser calmo e silencioso?
-Foi Yoshino quem começou. – disse mamãe, como se fosse uma menina do jardim de infância dedurando a coleguinha.
Tia Yoshino a encarou, irritada.
-Quem começou tudo bem antes foi você, Mebuki, quando decidiu fazer um escândalo por conta dos cabelos da Sakura. – fiquei em alerta ao ouvir meu nome. –Não desconte em mim as frustrações que sua filha lhe proporciona.
Suspirei, fitando o relógio e calculando mentalmente quanto tempo eu ainda teria que ficar ali, para não ser chamada de “cachorro magro”.
-Tá zoando, né mãe? – meu primo Konohamaru, de dezesseis anos e filho mais novo de tia Yoshino e tio Shikaku piscou um olho para mim. –Sakura está uma gata, é o tipo de garota que só dá orgulho.
Quase me engasguei com um pedaço de bolinho de arroz.
-Há há há, se liga, bebê! – Ino, que estava sentada ao lado de Konohamaru, bagunçou com força os cabelos dele, só para implicar. –Você nunca terá chance com Sakura, ela é areia demais para seu caminhãozinho.
O olhar de raiva que ele lançou a ela foi do tipo “fique de quatro e lhe mostrarei o caminhãozinho”, mas ele não retrucou, se limitando a jogar outro na fogueira:
-Chouji, acho que isso foi uma indireta para você.
Todos (inclusive eu) olhamos para o coitado do Chouji, que estava vermelho como um pimentão, e apenas abaixou a cabeça e continuou comendo. A verdade é que fingíamos não ver, mas a família toda sabia da queda que ele tinha pela Ino.
-Ora, não diga bobagens, Konohamaru. – tia Yanna tentou amenizar a situação. –Vocês são todos primos, e primos são como irmãos. É claro que Ino não vê Chouji dessa maneira.
-Errado, tia. – disse Moegi, bebendo um gole de suco. –Ino não fica com ele porque ele é gordo.
-O que? – Ino se levantou da cadeira, vermelha e furiosa. –Você está querendo morrer, pirralha?
Moegi a olhou com desdém e jogou espinafre nela – e quase não contive o riso, ao ver o objeto verde bater direto na testa da Ino. Mas a raiva da Ino – que detestava ser colocada contra a parede daquela maneira – a dominou, e ela avançou na garota.
-Ino, tenha modos! – Tio Inoishi levantou da cadeira rapidamente e a segurou pela cintura, irritadíssimo. –Você tem vinte e três anos, pelo amor de Deus!
-Exato! E essa pestinha tem quatorze! Por que ela não me respeita?!
-Bando de problemáticas... – Shikamaru comentou, desolado.
-Francamente. – vovó largou o garfo sobre a mesa e cruzou os braços, parecendo pensativa. –Às vezes eu queria que vocês me colocassem em um asilo. E me esquecessem por lá.
A reunião de família como sempre acabou depois do cafezinho. Eu e mamãe nos despedimos mecanicamente de todos, e rumamos para a estação de trem. O caminho foi silencioso. Ela limitava-se catar algo na bolsa o tempo todo, ou a zapear pelos aplicativos do celular. E eu fiquei apenas olhando pela janela, com a cabeça apoiada no vidro e observando a chuva que começava a cair.
Quando descemos do trem a chuva já caía torrencialmente, nos obrigando a pegar um táxi até em casa. Quando entrei, fui direto para o meu quarto, me sentando na cabeceira da cama de solteiro, após afastar uma das inúmeras caixas de papelão que tomavam conta do aposento quase vazio.
Fiquei um bom tempo pensando, até mamãe abrir a porta.
-Posso entrar, querida? – já havia entrado.
-Uhum.
Ela andou até a cama e se sentou de frente para mim.
-Parece que você já encaixotou tudo. – ela disse, dando uma olhada ao redor. –Quem virá buscar essas coisas, amanhã?
-Sasuke virá com a caminhonete do Itachi. – respondi. -Levaremos tudo e eu irei de carona com ele. Naruto estará nos esperando no apartamento.
-Certo... – ela parecia um pouco contrariada. –E quanto ao seu trabalho?
-Doutor Orochimaru soube que eu estaria me mudando, e me deu o dia livre.
-Quanta gentileza.
-Sim.
Voltamos ao silêncio, até ela finalmente se cansar e dizer o que a estava incomodando.
-Sabe o que é, filha? – apesar do jeito doce de falar, a voz e a expressão mostravam o quanto ela estava séria. –Isso tudo está me assustando. Quer dizer... minha única filha está saindo de casa, para dividir o apartamento com dois rapazes... Não bastasse isso, ainda aparece com cabelos cor-de-rosa. Qual será o próximo passo, Sakura? Um piercing? Uma tatuagem?
Revirei os olhos.
-Mãe, dá um tempo. Sasuke e Naruto são meus amigos desde criança, e você sabe que no fundo eles são dois caretões.
-Ainda assim isso me preocupa, querida. – ela insistiu. –De qualquer maneira eles são homens, e você será a moça bonita que dorme no quarto ao lado. E você estará longe de mim e da sua avó, que sempre lhe aconselhamos sobre o que é certo. Longe da família tudo é mais difícil e obscuro, Sakura.
-Não estarei tão longe assim. Além do mais, vamos ser vizinhos da Ino.
Dessa vez foi ela quem revirou os olhos.
-Eu sei disso, e sei que foi ela quem conseguiu que fizessem o aluguel mais barato para vocês três. Mas você sabe que Ino não é nenhum exemplo a ser seguido, Sakura... – o rosto dela era indecifrável. –Ela já está morando com aquele namorado que podia ser pai dela...
-Asuma é dez anos mais velho, mãe. – cortei. –Não exagere.
-Que seja. – ela retrucou, com desdém. –Ainda se ele fosse um homem sério, tudo bem. Mas ele parece estar sempre mal arrumado, barbudo... Ele se diz empresário, mas que tipo de empresário de respeito anda daquela maneira?
-Mãe, ele é músico e dono de um estúdio. Nesse ramo, não é necessário usar terno e gravata para fazer um bom trabalho. – não consegui conter a ironia, e notei que minha mãe ficou irritada com aquilo. –Além disso, Ino tem seu próprio emprego. Não é como se ela dependesse dele pra viver.
-Pelo amor de Deus, Sakura, ela trabalha em uma boate! – mamãe estava horrorizada. –Por que ela não pode arranjar um emprego como o seu?
-Mãe, você consegue imaginá-la presa em um escritório?
-Não, mas... – ela falou baixinho, como se tivesse medo que as paredes ouvissem e a julgassem. –Você sabe como são essas casas noturnas, Sakura. Por mais que ela diga que é só garçonete, esses ambientes são cheios de homens bêbados e abusados. Fico imaginado minha sobrinha lá, e eles enfiando notas no uniforme dela. Isso envergonha nossa família, Sakura.
Aquela conversa estava me deixando terrivelmente cansada. Me estiquei na cama e pus um travesseiro sobre o rosto.
-Mãe, por favor, me deixe dormir um pouco. – praticamente implorei. –Terei um dia cheio amanhã.
-Sakura, não são nem três da tarde! – ela ralhou. –Vai deixar de jantar comigo, em nossa última noite morando juntas?!
Contei mentalmente até dez e peguei o celular, ajustando o despertador e colocando-o ao meu lado, debaixo do travesseiro.
-Não se preocupe, mãe. Levantarei e jantarei com você.
Me virei para o lado oposto ao dela e fechei os olhos, deixando claro que a discussão estava encerrada. Ela se levantou e saiu sem dizer nada, embora eu tenha ouvido seu suspiro de insatisfação.
Eu só queria dormir um pouco e lembrar que o dia seguinte seria diferente.
A tarde e a noite passaram depressa — incluindo o constrangedor jantar com minha mãe, que não parou nem por um segundo de me fazer recomendações e me pedir que “não me misturasse muito com a Ino”. Após uma noite mal dormida, levantei cedo e tive tempo de me despedir de mamãe, antes que ela saísse para o trabalho. Esperei Sasuke com café recém passado, e a manhã passou depressa.
-Pronto! – disse Sasuke, jogando a última caixa na caçamba. –Caramba, Sakura! Quarenta caixas! As minhas e as do Naruto juntas não chegaram a isso.
Ignorei os resmungos dele e entrei no carro, pegando um Trident de dentro da bolsa. O passei outro no mesmo momento em que ele entrou na caminhonete e ocupou o banco do motorista.
-Naruto já pediu nosso almoço? – perguntei. –Estou morrendo de fome.
Ele jogou o chiclete para dentro da boca.
-Eu o avisei que pedisse nesse horário, mas você sabe como ele é cabeça de vento.
-Nem me fale.
Sasuke não era de muitas palavras, então apenas conectou o pen drive ao rádio e deixou que o silêncio fosse preenchido pelo som de “Polly”, do Nirvana. O prédio ficava no bairro vizinho, e em cerca de meia hora estávamos lá.
-Óh, Deus... – Sasuke levou as mãos à cabeça, ao sair do carro. –Quarenta caixas para levarmos para o terceiro andar!
-Relaxe. – falei. –O porteiro tem um daqueles carrinhos de bagagem guardados no depósito, aqueles maiores. Em três viagens, levamos todas.
-Ainda bem que você é uma garota inteligente. – zombou ele.
Para nossa felicidade, Sasuke – que sempre tinha dinheiro na carteira e nenhuma vontade de fazer serviço braçal. – convenceu alguns garotos que estavam andando de skate no quintal do prédio a subir com o carrinho. Após colocarmos as caixas para que eles levassem, pegamos o elevador social.
A porta de nosso apartamento estava escancarada, e do corredor já ouvimos os resmungos do Naruto.
-Mas que cacete de prego! Por que você tem que entortar, sua bosta?
O barulho de um martelo caindo no chão foi ouvido, e eu e Sasuke entramos.
-Ei, Naruto! – xinguei, largando a bolsa sobre a poltrona que havia sido colocada de qualquer jeito ao lado da porta. –Está querendo que os vizinhos nos expulsem em nosso primeiro dia aqui?
Ele estava tentando fixar um prego na parede, e imaginei que fosse para pendurar seu pôster emoldurado do Ramones.
-Sakura – ele arregalou os olhos. –Você pintou o cabelo de rosa?!
Só então Sasuke pareceu notar o fato.
-Meu Deus... – Sasuke disse, com ironia. –Qual o problema com o castanho, Sakura?
-Não me encham. – falei, me encostando na parede. –Naruto, você pediu o almoço? Já estou faminta...
-Ah, sim, bem lembrado. – pensei que ele havia esquecido e já estava prestes a lhe dar um murro, mas ele continuou falando. –Você já pode ir ao apartamento da Ino.
-Por que ela iria ao apartamento da Ino? – Sasuke ergueu uma sobrancelha.
-Porque a convidei para almoçar com a gente, desde que ela preparasse nossa comida. – respondeu o loiro, todo sorridente. –Assim economizaremos com o restaurante. Sou um gênio, não sou?
-Sim, você é. – respondi meio contrariada e saí do apartamento.
Como Ino e Asuma moravam apenas um andar acima do nosso, fui de escada mesmo, pensativa. Não é que eu não gostasse da Ino, apenas me sentia estranha. Nunca fomos as melhores amigas do mundo, pra falar a verdade nunca havíamos tido muita proximidade, já que o próprio fato de ela ser mais velha já colocava uma certa distância entre nós. Ela era o contrário de mim: eu era como uma princesinha, um modelo de perfeição, desde cedo sempre fui o orgulho da família. Já ela sempre andou com muitos amigos esquisitões, namorou caras que passavam longe do estereótipo de “genro ideal”, sempre gostou de arte abstrata, terapias alternativas e coisas consideradas estranhas; sempre criou as próprias regras, sempre foi uma revolucionária. Uma verdadeira dor de cabeça para nosso clã todo chegado às tradições.
Por outro lado, ela é tão carismática que ninguém consegue ficar indiferente à ela, nem mesmo quem não concorda com suas atitudes. Já a mim...
Toquei a campainha, ouvindo latidos altos e agudos vindos de dentro do apartamento.
-Sakura! – ela abriu a porta com um enorme sorriso no rosto, ao mesmo tempo em que a cachorrinha lhasa-apso que estava a seus pés latia sem parar. – Pare, Hermione! – ela ralhou, e o bichinho ficou quieto.
-Oi, Ino. – falei, meio sem jeito. –Desculpe incomodar, mas Naruto disse que você está fazendo nosso almoço, e...
Ela fez uma careta e segurou minha mão, me puxando para dentro.
-Deixa disso, Sakura! – ela foi andando em direção à cozinha, sendo seguida por mim. –Já está tudo pronto. Você me ajuda a carregar a panela e os pratos, até lá?
Assenti em concordância, já sentindo o delicioso cheiro de molho pesto adentrando minhas narinas. Macarrão ao molho pesto era a especialidade da Ino. Melhor dizendo, era a única coisa que ela sabia cozinhar.
Ela segurou a panela, e eu, os pratos e talheres. Ao passarmos pelo banheiro, a porta estava aberta o suficiente para que eu visse Asuma de pé lá dentro, escovando os dentes e usando apenas uma samba-canção.
Corei violentamente, mas felizmente nem ele nem Ino perceberam nada.
-Ei! Deidara, pode segurar a porta para nós? – ela gritou toda sedutora quando saímos do apartamento, ao ver o vizinho dentro do elevador.
-Mas é claro, boneca. – o cara respondeu, colocando a mão no vão da porta. Ele aparentava ter cerca de trinta anos, tinha cabelos loiros presos em um rabo de cavalo e usava terno e gravata, além de ter uma pasta em mãos. Durante o tempo em que ficamos no elevador ele me ignorou e devorou a Ino com os olhos, mas ela se limitou a dar uma piscadinha e agradecer, quando chegamos ao meu andar e saímos.
-Chegou a estrela da festa. – ela disse, debochada, segurando a panela e abrindo a porta do meu apê com uma mão só. O troço voltou, e só não bateu na minha cara porque Naruto estava atirado na poltrona ao lado, e a segurou.
-Finalmente. – Sasuke disse, com o sorriso de lado e a voz rouca que costumava usar para atrair as garotas. –Só um problema, estrela da festa: sua boca está muito longe da minha.
-Essa cantada foi um oferecimento da Associação de Pedreiros Ltda. – zombou Naruto, com voz de locutor de rádio.
-Há há há. – Ino fitou Sasuke, sarcástica. –Desculpe, bebê. Essa coisa de papa anjo não é comigo.
Sasuke tem vinte anos, mas para Ino, que sempre preferiu homens mais velhos, ele deve mesmo parecer uma criança. E ele sempre teve uma queda por ela, mas até onde eu sei ela nunca correspondeu.
-Se ferrou, companheiro. – larguei os pratos sobre a mesinha e baguncei os cabelos dele, só pra implicar.
Resmungando muito, ele arrumou a comida, os pratos e os talheres em nossa mesinha, onde comemos de pé, já que só Deus sabia onde estavam as cadeiras. Com a fome e a pressa de arrumar tudo logo, comemos rapidamente, e então acompanhei Ino novamente até o apartamento dela, para ajudá-la a lavar a louça.
-Olá, amor. – ela ficou na ponta dos pés e fez bico para beijar o Asuma, que àquela altura já estava penteado e trajando calça e camiseta polo. Na certa, estava indo trabalhar.
-Tudo bem, Sakura? Seu cabelo está demais. – disse ele, ainda com Ino nos braços. Assenti.
-Você deu comida à Hermione? – Ino perguntou a ele.
-Sim. Não esqueça de trocar a areia da Tarja, ok?
Tarja, a gata siamesa, escolheu esse exato momento para se esfregar em minhas pernas, ronronando. Não resisti e a peguei no colo.
-Bom trabalho, meu amor. – Ino disse. Asuma lhe deu mais um beijo na boca (apaixonado o suficiente para eu me sentir corar), pegou a mochila que estava sobre o sofá e andou até a porta, mas antes de sair se virou para nós.
-Ei, Ino, você já apresentou o Kakashi à Sakura?
-Hahaha, claro que não, Asuma. É segunda-feira, ainda não tivemos tempo.
-Quem é Kakashi? – perguntei, confusa. Eu nunca tinha ouvido falar de ninguém com aquele nome. Seria algum novo bicho de estimação dos dois?
Ino deu uma longa e irônica gargalhada, que me deixou ainda mais confusa – e um pouco irritada. Quando finalmente terminou, ela me encarou.
-Kakashi é seu novo psicólogo, Sakura. É o psicólogo que vai tratar sua adolescência tardia.

