Mirror
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Capitolo 226 min di lettura

Psicólogo

–Como é que é?! – tive que perguntar, já que não havia acreditado em meus próprios ouvidos.

Ainda com um irônico e detestável sorrisinho carimbado no rosto, Ino simplesmente se retirou e entrou no banheiro, sem se dignar a me responder. Asuma achou que aquele era o momento mais apropriado para sair de cena, e se mandou após murmurar um “fui”. E eu fiquei sozinha na cozinha, indignada e batendo os pés, esfregando os pratos sujos com a mesma força que eu usaria para torcer o pescoço da Ino.

Ela só voltou do banheiro depois de cinco minutos – eu já havia lavado toda a louça. Peguei um pano de prato e comecei a secar, cheia de raiva, mas ela pegou o pano de mim e assumiu a tarefa.

–Você vai me explicar isso direitinho, Ino! – comecei a andar de uma ponta a outra da cozinha, gaguejando e resmungando enquanto ela secava e guardava as louças, batendo portas e gavetas. –Essa história de “adolescência tardia” é a coisa mais ridícula que eu já ouvi, francamente, essa família tem problemas!

–Tem razão. –ela concordou com a voz completamente calma, para minha surpresa. –Honestamente, também acho isso ridículo e pedante, além de não ser em absoluto o seu problema. Mas não é o que tia Mebuki acha. E você sabe como ela é.

Parei de andar e a encarei, sem entender.

–É óbvio que sei como é a minha mãe. Mas por que você teve que dar corda a ela? – questionei. –Qual a sua relação com esse tal psicólogo?

Ela largou o pano sobre a pia e se aproximou de mim, alisando meus cabelos e fazendo um bico de “chateada”.

–Você deveria me agradecer. Eu salvei a sua vida.

–Por favor, Ino, fale a minha língua.

Ela se afastou de mim e andou até a pequena sala, novamente me ignorando. Segui ela, inconformada, para vê-la se jogar na obscena poltrona em formato de boca que ocupava o espaço perto da janela, e acender um cigarro, fumando e segurando-o como se fosse uma diva de cinema. Eu já estava prestes a rosnar, mas ela me fitou e começou a explicação.

–Seguinte, lindinha: Durante o cafezinho lá na casa da vovó, vi quando mamãe e Tia Mebuki foram até a cozinha, com a desculpa de servir as sobremesas. Saí de fininho e fui fumar na varanda que tem saída para a cozinha, e elas começaram a conversar, sem se importar com minha presença. Sua mãe falou para a minha que estava realmente preocupada com você, pois pintar os cabelos de rosa não era normal para a garota comportada que você é... – o ar de ironia que Ino colocou nessa frase não passou despercebido por mim. -..., e que estava com medo que Naruto e Sasuke a influenciassem a fazer coisas erradas e a regredir para a adolescência, agora que você não moraria mais com a família.

–Ridículo. – interrompi.

–Sim. Foi o que mamãe disse. Mamãe disse que Tia Mebuki estava louca, que você é uma boa garota e que a cor do seu cabelo não muda quem você é. E pediu que Tia Mebuki esquecesse isso.

–E... ? – perguntei.

–E então eu entrei em cena. E disse à mamãe que Tia Mebuki estava certa. Que havia sim algo de errado com você, que pintar os cabelos e agir como uma rebelde não tinha nada a ver com você, e que ela deveria procurar um psicólogo para ajudá-la.

Meu queixo quase foi ao chão.

–Por que, Ino?! – Andei até ela e me ajoelhei em sua frente, segurando seus joelhos e a fuzilando com os olhos. –Talvez ela fosse ouvir a Tia Yanna, e tirasse essas bobagens da cabeça! Por que você teve que interferir e entrar com essa história de psicólogo? Acaso você me odeia, Ino?!

Ela se jogou para trás, gargalhando alto. Meus ouvidos quase estouraram. Minha paciência também.

–Vamos, Sakura... – ela finalmente parou e então segurou delicadamente meu rosto, me encarando profundamente com aqueles olhos azuis. –Indicar o Kakashi foi um favor que fiz a você. Ele é um gostoso.

Acho que uma veia do meu cérebro estourou.

–Do que você está falando?

–É simples. – ela levantou e andou pela sala, rebolando a bunda dentro do shortinho jeans. –Não acho que você esteja vivendo uma adolescência tardia, até porque isso caberia em uma pessoa de vinte e cinco anos, e não de dezoito. Mas acho que você é muito fechada, Sakura. Você já está se tornando uma adulta, e mal sai, mal conhece coisas e pessoas novas. Sei que você também não costuma se abrir com Sasuke e Naruto, mesmo os conhecendo há anos. Talvez você precise mesmo de um psicólogo, mas apenas para conversar com você, ajudá-la a despertar para a vida. – ela alisou uma mecha de cabelo que se soltou do coque. –E se esse psicólogo for um gostoso feito o Kakashi... tanto melhor. Talvez ele te desperte para várias outras coisas.

Demorei a assimilar aquela enxurrada de palavras. Fiquei parada ali, ainda no chão, com os olhos fixos e mordendo os lábios.

Como ela podia ser tão arrogante? O que a fazia pensar ser tão conhecedora da minha vida? E ainda que fosse, que direito ela tinha de interferir?

–Você não tinha esse direito. – me levantei, fitando-a com seriedade. –Você pensa que sabe tudo sobre mim, mas não sabe, Ino. Você não podia ter contribuído com essas loucuras da minha mãe, justo agora que estou começando uma vida nova.

–Justamente por estar começando uma vida nova, é o melhor momento para que você se descubra. – ela andou até a janela e bateu a cinza do cigarro. –Sakura, você nunca foi a uma balada de verdade. Nunca matou uma aula sequer. Anda vestida como uma senhora. Nunca bebeu. Nunca teve um namorado. Não adianta você morar sozinha para cortar o cordão umbilical, se continuar agindo feito criança e não tiver coragem de encarar a vida de frente. Extrapolar faz parte do amadurecimento.

Ouvir aquilo tudo me humilhou demais. Eu estava sendo chamada de “criança”, de “covarde”. Justamente por ela, minha prima mais velha e descolada. Que sempre foi popular, tanto com amigos quanto com garotos. Que entortava pescoços em série quando andava na rua, e que já havia tido namorados de fazer inveja aos galãs de novela.

Mas me irritava o fato de uma porra louca como ela se sentir no direito de me criticar. Eu sempre fui uma boa aluna e batalhei pelo que queria. Eu é quem deveria servir de exemplo para ela, e não o contrário.

–Minha mãe surtaria se te ouvisse me dizendo essas coisas, Ino. – falei. –Além do mais, eu tenho meu próprio tempo, minha própria maneira de ver as coisas. Não sou como você.

–Você com certeza não é como eu. – debochou. –E não precisa ser. Mas isso não me isenta de me preocupar com você.

–Não preciso da sua preocupação.

–Ah, você precisa sim. – ela voltou a me encarar, e subitamente andou até mim e segurou os meus ombros. -Sua consulta com o Kakashi está marcada para amanhã, às oito da noite. O consultório dele é na galeria que fica lá no centro, perto do shopping.

–O que?! – devia ser a milésima vez que eu dizia isso. –A consulta já está marcada?!

–Sim. Tia Mebuki a marcou hoje de manhã.

Bati os pés, com mais raiva ainda.

–EU NÃO VOU!

–Sim, você vai. – ela sorriu, toda doce. –Você vai porque sua prima favorita está pedindo, porque você quer me deixar orgulhosa e provar que NÃO é uma covarde, certo? – rangi os dentes feito um cachorro raivoso. –Você vai ir, vai conversar com o Kakashi e aproveitar para admirar aquela beleza arrasadora que ele tem. – ela me virou de costas pra ela e continuou com as mãos nos meus ombros, simplesmente me empurrando em direção à porta. –Agora vá, estou cansada e precisando muito de um banho de banheira e muitos cremes. Tenha um ótimo dia amanhã, e não esqueça de me contar como foi a consulta.

E ela fechou a porta na minha cara, me deixando ali, parada e encarando a madeira feito uma pateta.

Marchei para o elevador, me remoendo de raiva. Bati violentamente no botão do meu andar, dando uma última encarada na porta do apartamento da Ino enquanto as portas do elevador se fechavam.

Ino e minha mãe ainda engoliriam o que diziam de mim. Pagariam caro por me tratarem daquela maneira.

–Sakura! Sakura! Sakura! – dei um salto na cama, ao ouvir a voz esganiçada do Naruto e as batidas que ele dava na porta do meu novo quarto.

Como não havíamos conseguido arrumar o apartamento todo na noite anterior, meu colchão estava no chão, e meu abajur ainda não estava montado. Tateei à minha volta até encontrar o penhoar que eu lembrava ter largado por ali, e andei às cegas até a porta, sentindo os olhos cheios de remelas e uma sensação de mau hálito na minha boca.

–O que é? – abri a porta e perguntei, mal humorada.

–Credo...! – minha visão estava meio embaçada, mas percebi a careta que o Naruto fez, quando me viu. Tsc. –Estamos atrasados, gatinha. Parece que nós todos dormimos mais que a cama!

–Hein? – em pânico, cambaleei de volta para o colchão e peguei meu celular, constatando que devia ter chegado ao trabalho a meia hora atrás. –Droga!

Fechei a porta na cara do Naruto e bati no interruptor da parede, iluminando o quarto e arrancando o penhoar e a camisola. Sabiamente, na noite anterior já havia deixado uma roupa selecionada para vestir de manhã, então o trabalho maior seria com os cabelos e a maquiagem.

–Mas que inferno, Naruto! – Sasuke dizia, no momento em que saí do meu quarto e fui correndo para o banheiro. Ele estava descalço, com o cinto da calça aberto e desabotoava a camisa que aparentemente havia acabado de vestir. –Essa camisa é sua! Por que a colocou nas minhas coisas?!

Naruto veio de dentro do quarto que dividia com o Sasuke pulando em um pé só, tentando calçar os sapatos.

–Não enche, Sasuke! – berrou o loiro. –E onde diabos você guardou minhas cuecas? EU FALEI QUE QUERIA MINHAS CUECAS NA TERCEIRA GAVETA DO GUARDA ROUPA!

–Naruto... – Sasuke teve que parar a tarefa de desabotoar a camisa para encarar o colega, bem sério. –Acaso você está sem cueca?

Terminei de lavar o rosto e fechei a porta do banheiro antes de ouvir a resposta do Naruto, e peguei o estojo básico de maquiagem que havia colocado dentro da gavetinha, começando a espalhar o corretivo nas olheiras ao mesmo tempo em que me sentava no vaso.

Nossas vidas já estavam um caos. E era recém o segundo dia.

Obviamente, o dia em que foi dispensada do trabalho se cobrou, e eu tinha o dobro de papéis para organizar e preencher. Para completar, eu estava morrendo de sono. Havíamos nos cansado muito por conta da mudança, e Naruto e Sasuke tiveram de ir trabalhar durante a tarde, deixando a maior parte da bagunça para mim. Quando eles chegaram ainda tivemos de providenciar o jantar, e eram quase três da manhã quando conseguimos ir dormir. Não foi a toa que ninguém ouviu o despertador tocar.

–Sakura... – reconheci a voz do meu chefe diante de mim, e com muito custo levantei a cabeça, já que estava quase cochilando em cima da mesa.

–Pois não, Doutor Orochimaru?

–Sakura, estou quase me arrependendo de ter lhe dado a segunda-feira livre... – ele falou, naquela voz andrógina que me irritava profundamente. –Não bastasse chegar atrasada e com cabelos cor de rosa, você ainda vai ficar dormindo em serviço?

Contei mentalmente até dez, antes de responder.

–Perdão... – comecei a organizar os papéis, apenas para manter as mãos ocupadas. –Tive um dia bem turbulento e cansativo ontem. Sabe como são mudanças, a bagunça não acaba nunca, e...

–Sei, sei. – resmungou ele. –Vá até a cozinha e tome um café bem forte, Sakura. E trate de ficar bem desperta para fazer o seu trabalho, ok?

–Ok. – não precisei ouvir duas vezes, levantei da cadeira de rodinhas na mesma hora e andei até a cozinha do escritório. Ficar na presença do Orochimaru me incomodava um pouco, embora eu não entendesse exatamente o motivo.

Havia duas outras funcionárias de conversinha na copa, mas como elas costumavam me ignorar, fiz o mesmo com elas. Me limitei a ligar a cafeteira e colocar mais pó de café, me perdendo em meus pensamentos enquanto a água descia e o líquido escuro começava a se fazer.

Minha cabeça estava uma pilha. Além da bronca do Orochimaru e de todo transtorno (e euforia) de mudar de casa, ainda precisava lidar com as pirações da minha mãe. E da Ino, aquela traidora que havia se unido a ela. E daquela consulta com o psicólogo que, embora eu estivesse bem a fim de dar o cano, não deixava de me despertar curiosidade. E vontade de estrangular a Ino. E também de provar a ela que eu podia sim ir àquela consulta e me sair muito bem, e que covarde era a vovozinha dela. A dela mesmo, não a nossa.

Servi meu café e voltei para minha mesa, decidida e acordar e a fazer aquele dia passar depressa. Deu certo. Com a xícara fumegante ao meu lado e goles aleatórios, rendi bem mais. E logo era hora do almoço.

Peguei minha bolsa e fucei, procurando meu vale-refeição. E então vi meu celular piscando, com aviso de mensagem não lida. Era da minha mãe.

“Só queria te lembrar da consulta de hoje, querida. Seja boazinha e não falte, ok? Mamãe quer apenas o seu bem. Ah, e a casa está muito triste sem você, Sakura. :( “

Suspirei, guardando o aparelho sem responder a mensagem. É, eu iria mesmo àquela consulta. Afinal, aquele psicólogo com certeza perceberia que não havia nada de errado comigo, e me “daria alta”. Ao menos assim eu poderia sossegar minha mãe e calar a boca da Ino, também.

Quando finalmente chegou o final do meu turno, bati meu ponto e rumei para o tal consultório, me perguntando como diabos havia chegado àquela situação.

A clínica era pequena, mas com uma decoração clássica e aconchegante, lhe conferindo um ar de requinte. A recepcionista me deu uma olhada de cima a baixo quando entrei na sala de espera do tal Kakashi.

–Pois não?

–Com licença... – notei o nome dela no crachá. Rin Nohara. –Tenho uma consulta marcada com o Doutor Kakashi. Às 20:00.

–Seu nome?

–Sakura Haruno.

Ela discou rapidamente alguns números no telefone de cima da mesa.

–Doutor Hatake, Sakura Haruno está aqui. – pausa para olhar as unhas. –Certo. – ela pôs o aparelho na base e me encarou. –Pode entrar, ele está à sua espera.

Nunca estive no consultório de um psicólogo antes, e desde a mensagem da minha mãe e minha decisão definitiva de ir até lá, estive criando mil imagens diferentes em minha mente, tentando visualizar como aquilo seria e se parecia com o que eu via nos filmes. Mas quando entrei, percebi que não havia nada de extraordinário. Era uma sala não muito diferente da de qualquer médico, e a diferença maior ficava por conta da iluminação menos direta, do divã cor de de creme, e da grande quantidade de livros na estante.

Completamente sem jeito, fiquei apenas parada ali, com a bolsa pendurada no ombro e esperando que alguém aparecesse e me dissesse o que fazer.

–Você pode se acomodar ali. – a voz masculina e grave soou pelo ambiente, o que estranhamente me causou um arrepio, que eu não soube explicar se era bom ou ruim. Ao mesmo tempo, a cadeira alta que estava atrás da escrivaninha se virou, revelando um homem que aparentava ter cerca de trinta anos, apesar de os cabelos parecerem quase grisalhos, de tão claros e acinzentados. Ele ainda não havia me olhado, já que estava entretido anotando algo em um bloquinho.

O local que ele indicava que eu me “acomodasse” era justamente o divã. Como eu estava absurdamente cansada, minha vontade era me espichar ali e tirar um cochilo, de uma vez. Mas a vergonha não permitiu, e eu apenas me sentei na ponta daquele móvel, com a postura ereta e a bolsa sobre o colo.

–Muito bem, Sakura. – ele começou, sem largar o bloquinho. –Farei algumas perguntas de rotina, ok?

–Ok. – a frieza com que ele falava me dava uma mistura de estranhamento, decepção e alívio. Eu realmente havia fantasiado demais sobre aquilo.

–Sua idade?

–Dezoito anos.

–Estado civil?

–Quer dizer, perante à Justiça?

Ele pigarreou.

–Seu status de relacionamento, mesmo.

Me senti a maior idiota do mundo.

–Solteira.

–Mora com quantas pessoas?

–Com dois amigos, desde ontem.

–Hum. – ele anotou alguma coisa. –Como é seu relacionamento com seus pais?

–Meu pai já morreu há muitos anos. Com a minha mãe, é tranquilo. Quer dizer, nada muito diferente de qualquer mãe e filha, eu acho.

–Você tem filhos?

–Êêêh?! – gaguejei. –Não. Nããão. De jeito nenhum.

Ele refletiu por alguns segundos, e tornou a anotar algo no bloco.

–Trabalha e estuda?

–Sim. Estou estudando Administração, e trabalhando em um escritório.

–O que costuma fazer em suas horas livres?

Fiquei pensativa, antes de responder. Ele me acharia muita idiota e/ou infantil, se eu dissesse que não saía com ninguém, e passava meus dias de folga dormindo ou assistindo desenhos animados na televisão? Mas afinal de contas, qual o problema, se ele me achasse idiota? Ele era um psicólogo, e não o jurado de algum concurso que eu estava participando.

–Bem... Nas minhas folgas, costumo passar algum tempo com minha família. Mãe, tios, primos e avó, quero dizer. E não costumo sair muito. Prefiro a tranquilidade da minha casa.

–Você é bem jovem. Não costuma sair com amigos?

Me remexi no divã, me sentindo desconfortável.

–Sempre fomos apenas eu e minha mãe cuidando uma da outra, então não adquiri o hábito de ir a festas, mesmo no começo da adolescência. Acabei me acostumando a ser minha própria companhia, e sou assim até hoje.

–Uhum. – ele concordou, anotando mais alguma coisa. E então finalmente largou o bloco sobre a mesa e ergueu o rosto, me olhando com aqueles olhos negros, os mais analíticos que eu já tinha visto.

Ino tinha razão, ele era muito bonito. Tinha um rosto anguloso e traços finos, porém com um ar sério e másculo. Era uma beleza um tanto cínica, como se ele desprezasse e se entediasse com o mundo ao seu redor. Mas não chegava a ser uma expressão arrogante. Apenas dura, eu diria.

–Sakura... – endireitou a posição na cadeira e pôs os cotovelos sobre a mesa, me olhando e falando com firmeza. –Há algo que queira me contar?

–Err... tipo o que?

Ele ergueu uma sobrancelha.

–Bom... geralmente as pessoas procuram um psicólogo quando querem desabafar ou se aconselhar sobre algo. Algo que as incomoda, e que não conseguem ou não se sentem seguras para conversar com família ou amigos. Não foi isso que a motivou?

Nem parei para refletir sobre o que ele havia dito. Achei que finalmente havia chegado a hora de fazer a Ino pagar por ter me colocado naquela situação constrangedora.

–Doutor, serei sincera com você. – baixei os olhos, mas decidi deixar de agir como uma criança estúpida, e o encarei. –Estou aqui exclusivamente por causa da Ino. O senhor a conhece, não conhece?

–Você é prima dela, certo? – ele perguntou, ao mesmo tempo em que assentia.

–Sim, sou a prima dela. E honestamente, não sei por quê raios ela insistiu tanto para que eu viesse. – estalei meus dedos, tentando relaxar. –Quer dizer, eu já escolhi uma profissão, tenho um bom trabalho, independência, sou saudável fisicamente e mentalmente, não tenho qualquer problema com drogas. Não sei o que a levou a pensar que tenho problemas psicológicos a serem resolvidos.

–Ela disse que você tem problemas psicológicos?

–Não com essas palavras. Ela disse coisas sobre eu me soltar mais, praticamente disse que eu não aproveitei minha adolescência e sou careta, me comporto como uma velha. – não consegui disfarçar a mágoa e o rancor na minha voz.

–É típico da Ino, definir o comportamento de outras pessoas de acordo com as opiniões dela. Ela tem uma maneira muito particular de se preocupar com quem lhe é importante. – ele dizia aquilo sorrindo de lado, como se estivesse troçando. Não defini se ele estava troçando de mim ou da Ino. E não me passou despercebido que a maneira como ele falou sugeria que ele tinha certa intimidade com ela.

–Às vezes penso que ela tem ressentimento de mim. – falei, sem pensar muito.

–E por que ela teria ressentimento de você? – ele perguntou, sem desviar o olhar. –Vocês tiveram algum desentendimento que ficou mal resolvido?

–Não... – senti de novo um estranho desconforto. –É que... bem, somos de uma família conservadora. E como o senhor deve saber, Ino não é exatamente uma santa de altar.

–E você é?

A pergunta direta e feita com os olhos negros cerrados me desconcertou.

–Não, não, não sou uma santa. – balancei a cabeça freneticamente, em negativa. –Mas eu e a Ino somos muito diferentes. Ela chama muita atenção porque nunca teve vergonha de se expressar, sempre fez o que quis, e muitas atitudes dela desagradam a família. Já eu sempre fui mais centrada, nunca fui de me meter em brigas e sempre fui estudiosa. Sou muito elogiada por isso, e talvez isso irrite a Ino de alguma forma. Quer dizer... – fiquei meio atrapalhada, tentando encontrar as palavras certas. –Ela também é amada, mas não pelos motivos certos.

Ele cerrou mais uma vez os olhos, me analisando. Achei que seria mais uma vez inundada com perguntas. Mas ele apenas pegou de novo o bendito caderninho, e voltou a anotar.

Aquilo já estava me deixando muito irritada!

–Doutor, estou liberada? – perguntei, cruzando os braços.

–Está com pressa de sair? – ele tinha novamente aquele ar de troça, e continuava anotando.

–Estou cansada, e ainda há muito o que organizar no meu novo apartamento.

–Entendo. Você está liberada sim, Sakura. – ele disse, e então rasgou um pedaço do papel do bloquinho e me alcançou. –Não acho que você precise seriamente de um tratamento. No entanto, falar com alguém de fora às vezes é bastante proveitoso. Se quiser voltar aqui para conversarmos mais sobre a sua família, ou qualquer outra coisa, você pode ligar para um desses números e marcar um horário.

Fitei o papel, vendo dois números de telefone anotados. É verdade, como não havia sido eu quem marcou a consulta, eu não tinha nenhuma forma de contato com aquele consultório. Um dos números que estava ali era fixo, provavelmente o da própria recepção. E o outro era um número de celular. Seria o celular do Kakashi?

Talvez ele tivesse um celular usado apenas para falar com pacientes. Lógico.

–Obrigada. – agradeci, pegando minha bolsa de cima do divã e colocando o papel no bolso da frente. –Estou indo. Boa noite.

Pendurei a bolsa no ombro e andei até a porta. Quando estava prestes a colocar a mão na maçaneta, a voz dele tornou a soar:

–Antes que eu me esqueça... Esse cabelo ficou ótimo, em você.

Fiquei tão surpresa com aquilo, que não tive reação alguma. Simplesmente abri a porta e saí rapidamente do consultório, sem responder.

Aquela inusitada consulta permaneceu na minha cabeça durante todo o percurso até em casa – só se esvaiu quando abri a porta e dei de cara com o Sasuke e o Naruto na sala, sentados em volta da mesinha de centro, com salgadinhos e cerveja. Ino no meio dos dois, gargalhando de boca escancarada e com a bebida escorrendo pelos cantos.

Suspirei e bati a porta, largando a minha bolsa sobre o aparador.

–Sakura! – Naruto levantou e foi correndo ao meu encontro, me ajudando a tirar o casaco. –Estamos oficialmente comemorando a nossa nova casa! Venha beber com a gente!

Eu estava morta de cansaço, só queria tomar um banho e cair na cama.

–Naruto, eu não bebo. – resmunguei, esticando preguiçosamente os braços. –E vocês também não deviam estar bebendo. É terça-feira.

–Chaaata... – debochou Ino, fingindo um bocejo. –Conte-nos como foi sua consulta com o psicólogo. Kakashi é maravilhoso, não é?

Pensei em tirar meu sapato e jogar na testa dela, mas antes disso Sasuke me fitou de sobrancelha erguida.

–Está indo em um psicólogo, Sakura? – ele perguntou. –Já não era sem tempo.

Os ignorei e caminhei até a micro cozinha, enchendo um copo com água.

–Sakura, não vai nem comer alguma coisa? – perguntou Naruto, que havia me seguido. –Pedi até alguns salgadinhos do que você mais gosta.

O olhar dele era tão tristonho, que me senti mal.

–Está bem, vou comer. – prometi, forçando um sorriso. Terminei de beber minha água, peguei um pires no armário e voltei para a sala.

–Não vai ficar aqui? – Sasuke perguntou, quando me viu colocar alguns risoles de frango no pires.

–Não. Quero organizar algumas coisas no meu quarto, antes de dormir.

Fui, e Ino foi no meu encalço. Eu sentia que minha dor de cabeça estava voltando com tudo.

–Hey, Sakura. – ela se encostou na porta do meu quarto, me observando tirar sapatos, meias e calça. – Quer ir malhar comigo, amanhã de manhã? A academia do prédio é ótima.

–Ino... – atirei os sapatos para o lado e andei até a cômoda onde havia largado o pires, pouco me importando com o fato de estar de camisa e calcinha. –Ao contrário de você, eu preciso trabalhar amanhã cedo. – Coloquei um risole na boca, mastigando com vontade.

–É... Fazer o quê... – ela se jogou sentada na minha cama, que aparentemente havia sido montada por Sasuke e Naruto. –Você não tem culpa de o meu trabalho ser mais legal que o seu.

–Falando sério, Ino, você quer que eu leve um currículo seu até o escritório? – sugeri, dobrando algumas roupas e tentando parecer superior. – Orochimaru abre vagas com frequência.

–Tô fora. – ela desdenhou, abraçando meu coelho de pelúcia. –Na boate, trabalho só nos finais de semana. Posso beber, conhecer pessoas legais, me divertir enquanto trabalho, e ainda faço as vezes de cantora. Eu sou demais.

Deixei cair o blazer que colocava no cabide e o juntei, com raiva.

–Ótimo. Que bom que você está feliz.

–Sim. – ela concordou. –Mas me conte logo como foi sua consulta, Sáh! Eu perguntei ao Kakashi por telefone, mas ele não disse uma só palavra. Ele é irritantemente sério, humpf.

Não sei o que me deixou mais intrigada. Se a maneira íntima como ela falava do cara, ou a audácia em tentar especular sobre minha consulta.

–Você e Kakashi são tão amigos assim? – eu dobrava minhas várias saias-lápis e as colocava no guarda-roupa, a voz o mais desinterassada possível. –Aliás, vocês sabem que é antiético um psicólogo atender parentes de amigos, certo?

Ela ignorou minha observação e deu um sorriso malicioso, o que me intrigou mais ainda.

–Na verdade, ele e Asuma é que são grandes amigos. Mas ele é o máximo, não é? Um lorde. Aposto que ele te elogiou.

A lembrança do “esse cabelo ficou ótimo em você” me voltou na hora. Mas, por algum motivo, o comentário da Ino foi como um balde de água fria.

–Não, Ino, ele não me elogiou! – bufei. –Por que ele me elogiaria? Ele é um psicólogo, não um pretendente!

–Hum... Ok... – ela respondeu, levantando da minha cama e puxando o shortinho justo que teimava em subir pelas coxas. Nada a fazia perder aquele ar de deboche que me tirava do sério. –Vou para casa, Asuma deve estar quase chegando.

–Mande um abraço para ele. – falei.

–Mando sim. – ela já estava com a mão na maçaneta, mas tornou a se virar e me olhou, matreira. –E você mande um abraço para o Kakashi.

Me arrepiei, estupidamente.

–Eu não vou voltar lá, Ino.

Ela gargalhou.

–Sakura... – os olhos azuis pareceram ver dentro da minha alma. –Eu sei que você vai voltar.

Não tive tempo de retrucar. Ela saiu, rindo e rebolando.

–Idiota... – falei entre dentes, enchendo a boca de risoles. Se a ideia não fosse absurdamente ridícula, eu acharia que ela e aquele psicólogo estavam de complô.

E o pior de tudo, é que eu estava mesmo tentada a voltar àquele consultório. Mesmo sem precisar, e mesmo sem entender o motivo.

No dia seguinte, acordei me sentindo bem melhor e mais descansada, e quase meia hora antes de o despertador tocar eu já estava de pé.

–Sakura? – Sasuke apareceu na cozinha, esfregando os olhos. –Caiu da cama?

Eu ainda usava meu pijama e pantufas, e estava aproveitando o tempo de sobra para passar um café fresquinho.

–Pois é. – falei, sorrindo. O merecido descanso havia melhorado um pouco o meu humor.

Sasuke puxou uma cadeira e se sentou.

–Ino saiu daqui chateada, ontem.

Servi o café fumegante em duas canecas, fazendo careta para o Sasuke enquanto me sentava para acompanhá-lo.

–Ela não parecia nada chateada, quando saiu do meu quarto. Pelo contrário, não parava de me provocar por causa das tais consultas com aquele tal de Kakashi, coisa que ela mesma inventou!

–Só acho que às vezes você é muito ruim com ela. – ele disse, bebendo um gole de café. –Eu realmente acredito que ela só quer ajudar. De um jeito intrometido e sem noção, mas com boas intenções.

Bebi meu café, revirando os olhos.

–Você não a conhece tanto quanto eu conheço, Sasuke. Não entende o tanto que aquela ali apronta, desde que somos crianças.

–E você vai passar o resto da vida apegada a brigas de quando era criança?

–Não é tão simples.

–Tsc. – ele não insistiu mais no assunto. Terminou o café em mais dois grandes goles, e se levantou. –Vou tomar um banho, antes que o Naruto acorde e tome conta do banheiro.

Ele saiu, e eu tratei de recolher as canecas sujas e arrumar a mesa com outros alimentos, já que Naruto acordava morrendo de fome. Estava fechando a geladeira quando a campainha tocou. Imaginei que fosse a Ino e fui até a porta de pijaminha mesmo, já me preparando para xingá-la por ir me perturbar tão cedo.

–Ino, o que você... – Abri a porta e desatei a falar sem verificar o olho mágico. E acabei tendo uma surpresa mais desagradável do que qualquer familiar inconveniente.

–Itachi?!

E o sorriso dele se abriu, me dando um calafrio.