50 tons de submissão
4 Capítulo Quatro - Sorriso Amarelo
Notas iniciais
Kaya ainda olhava para câmera, agora ela focava apenas em uma.
''Eu não o enlaçei'' — disse, um pouco baixo demais
''Não?!'' — a jornalista loira perguntou com os brilhantes dentes brancos.
''Não. Ele é um amigo'' — cortei- a
''Mas você visitou a casa dele'' — ela continuou, como se aquilo fosse um insulto.
''Somos bons amigos'' — concluiu, seca — ''E, se permite-me, senhorita'' — Kaya pegou o microfone fino na mão dela — ''Ele está solteiro, garotas. Tenham um bom proveito'' — sorriu ironicamente, entregou o microfone. Deu as costas, voltando para o seu trabalho.
Henri acordara tarde. Era o seu dia de folga e ele já tinha tudo programado. Correria pelo parque às 16:00, às 18:00 iria jantar com a família e às 22:00 estaria em casa. Iria fazer 29 anos em um mês, mas já estava ''aposentado'' de baladas e boates. Evitava todas. No telefone, visualizou todas as trinta e duas chamadas de Shane, sua secretária. Estranhou, ela não ligava para ele em dias de folga. Levantou da cama e se arrastou até o banheiro. Escovaria os dentes e tomaria uma rápida ducha.
Quando terminou, ainda sentia-se cansado. Talvez eu não queira estar acordado. Pensou ele, lembrando da noite anterior. Da sensação que a senhorita Kaya o fazia sentir. Por um instante desejou que ela estivesse ali, balançou a cabeça afastando aquela utópia da cabeça. Ela era certa demais para ele ou melhor, ela não era a garota certa para ele. E, convenhamos, não há uma garota certa para Henri Ampere. Comeu rápido uma maça e procurou seus fones de ouvido.
Preferiu descer todos os degraus a pé, assim já iria pegando o ritmo da corrida de hoje. Quando estava saindo da garagem, avistou a filha da sua vizinha, ela estava voltando de um intercâmbio na Índia. Ela e Henri se pegavam com frequência antes da viagem. Claro, sem ninguém saber. Como tudo na vida do Henri
''Henri'' — ela disse, sorrindo.
''Sarah'' — respondeu, tirando os fones. A garota continuava gostosa e atirada. Usava um vestido curto e decotado. Henri quase não conseguiu tirar os olhos dos seios dela. Estava alguns dias sem sexo, estava testando seus limites. A Sarah era golpe baixo.
''Passo na sua casa mais tarde, tudo bem?'' — a jovem disse, passando a mão no corpo.
''Eu te chamo'' — disse ele, voltando a correr.
O tempo estava ensolarado, Henri não gostava muito. Ele subiu o capuz e aumentou o volume da música. Não é tão difícil de adivinhar que estivesse ouvindo Linkin Park. Ele não assume, mas é sua banda favorita.
Ele passa por árvores e o vento refresca o seu rosto, ele inspira e expira. Com a velocidade e o pouco movimento no parque central, logo vê-se sozinho. Mas ele não para. Seus pés estão quase voando. Ele não para. Algo dentro de si diz que ele não pode parar, diz que ele precisa continuar, ele precisa ser forte. Continue. Corra. Fuja. A música aumenta e ele para. Vê-se forçado a parar, sente como se seus pulmões estivessem explodindo. Ele apoia a mão na árvore, fatigado. Sua respiração está tão irregular que seu único pensamento é na noite anterior. No momento exato que tocou Kaya.
A canção termina e ele chora.
Não muito distante, Kaya saí do trabalho. Seu amigo, Oliver a espera no estacionamento. Eles estudam na mesma faculdade, Oliver cursa filosofia.
''Você devia ter me contado'' — ele diz assim que ela entra no carro.
''Não há nada para contar'' — confessa, ela já estava enjoada sobre esse assunto.
''Você se tornaria a maior milionária, Kaya'' — brinca ele — ''Ou melhor, senhorita Kaya''
''Não enche'' — diz ela, ele liga o carro.
Já está anoitecendo quando Kaya chega na faculdade. Não queria saber de reportargens. E, apenas para contrariar, tinha um seminário hoje. No seminário cada um escolhia um país para caracterizar a culinária e a cultura. Kaya escolheu o Brasil. Nunca visitou, mas achava muito bonito pelas fotos. Gostava do idioma, da culinária e da cultura. Ela gostava da miscigenação. A própria tinha descendência africana e inglesa. Era a cara do pai, inglês.
A sala estava lotada. Quarenta e cinco alunos. Todos pareciam bastantes ocupados, alguns gravavam falas, outros liam papéis gigantescos e alguns estudavam pelo iPod. Edith fora a primeira a vê-la chegando, era uma das garotas que Kaya tinha amizade na sala. Kaya não tinha muitos amigos e gostava de ser assim. Retribuiu o aceno com um sorriso amarelo. Tinha estudado o suficiente. Apenas teria que apresentar, responder algumas perguntas, voltar para o seu lugar e tentar não dormir com as outras apresentações. O professor não demorou muito, era bastante pontual. Kaya adora pontualidade. Decidiram então que seria por ordem alfabética. As três primeiras eram sobre a culinária da França, Kaya dormiu nas seguintes. Quando acordou estavam na letra J, era a vez de Juan e todos os amiguinhos dele já estavam rindo. Kaya revirou os olhos, odiava aquele garoto. Juan começou então a sua apresentação, falou da culinária da Alemanha, não foi ruim.
''E, para terminar'' — disse ele, Kaya engoliu um seco ao ver aqueles olhos novamente. Era Henri, em uma das suas poses favoritas. — ''A nova comida favorita do senhor Henri...'' — na imagem do projetor estava Kaya na Torre Eiffel, a primeira vez que tinha vindo para França. Não é uma das suas melhores fotos. Todos cochicavam entre si, logo a sala tornou-se um arruaceiro.
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