50 Tons de Uma Cor Vibrante
20 Capítulo 20 - O surto de Marianne
Notas iniciais
Junto meus objetos pessoais da penteadeira, colocando todos eles devidamente na bolsa. Tomara um banho longo e relaxante e tirei todas as roupas super produzidas, que em sua maior parte me causam coceira e incômodo. Algumas das pessoas foram comemorar a prévia, no palco, estão todos bebendo num círculo, inclusive Ashley e Paul. Eu não quis ir, pois uma vez que assumi meu compromisso com Penny, devo mantê-lo. O Sr. Frank e a dona Nancy poderiam ficar até a manhã, só que seria explorá-los ao máximo. Isso não é uma teoria da qual sou adepto.
Ponho a bolsa nos ombros e por último vejo a rosa vermelha, que antes estava vermelha, vistosa. Agora está jogada ao chão e totalmente pisoteada. Alguém destruiu o presente que Robert me deu. Alguém não, ela. Marianne. Com cuidado eu pego a flor do chão e o pouquinho das pétalas que não se soltaram da mesma. Envolvo na palma da mão e elevo as narinas. Ainda é possível sentir o cheiro gostoso dela, e inalo por um momento. Decido que levarei para casa mesmo assim. Guardarei dentro de um livro, apesar das imperfeições. Afinal, eu também não era como a rosa quase despetalada?
– Gostou da rosa?
Robert vem de onde o resto do elenco estava. Não conseguindo esconder o desconforto pelo que aconteceu ali, ainda ensaio um sorriso:
– Eu adorei, obrigado.
– O que houve com ela? – Os olhos de Robert recaem sobre a flor.
– Não sei, eu a deixei em minha penteadeira, depois quando olhei estava assim. Estava no chão e toda pisoteada. – Aponto para o lugar onde a achei destruída.
– Deve ter sido alguém destrambelhado do elenco. Pena que não saberei quem foi. – Ele soa ameaçador.
– Alguém do elenco? Sério, Robert? Sério mesmo que acha isso? – Questiono incrédulo, após ele não ver o que está bem diante dos seus olhos.
– E quem mais poderia ter sido, Teddy?
– Sério mesmo que você não sabe?
– Acha mesmo que a Marianne fez isso? Olha, Teddy, ela pode não ser a pessoa mais querida por aqui, ou de convívio difícil, porém ela é profissional. Não sei de onde estão tirando esse ódio todo contra ela. – Ele põe as mãos nos bolsos.
Vendo ele ali a defendê-la, tudo que quero é correr e ir embora para o meu apartamento. Minha face está o encarando e tentando acreditar no que vejo. Como Robert consegue?
– Qual é o seu problema, Robert? Você é tão inteligente, mas não consegue ver o que essa mulher ta fazendo? Ela humilha todo mundo, ela se acha deusa.
– Está falando isso por causa da sua amiga, Teddy. Ela certamente foi cobrada por Marianne e agiu daquele jeito. Acha que é a primeira?
– Não, Robert, a Ashley não mexe com ninguém. Todos ficaram chocados por isso, porque Ash é capaz de fazer mal à uma mosca. Mas eu vou te dar uma real. Ela veio aqui, neste camarim mais cedo, enquanto eu estava na penteadeira. – Eu comecei a falar alto – E ela me humilhou da pior forma que se faz com um ser humano, ela foi pior do que o meu pai. Ela jogou na minha cara que tudo que eu tenho é porque eu estou “dando” para você, ela me fez sentir um vagabundo, vadio, ou seja lá qual termo você prefira. E por último, ela disse na minha cara que estou aqui me escondendo atrás da Penny, só para encobrir que eu sou um viadinho que a família mandou embora. Eu poderia ter respondido, poderia dizer quem ela é, humilhá-la também. Eu queria ter feito isso, porém eu pensei na pessoa que me faz estar aguentando tudo isso, porque ela vale a pena. Será que você não vê que tem um monstro diante dos seus olhos? – Noto que estou chorando e coloco a bolsa no ombro direito.
Robert está me olhando com uma expressão indecifrável, tira as mãos dos bolsos, respira, por fim colocando-as na cintura e me olhando:
– E quer que eu demita ela? Teddy, isso não é brincadeira. Temos um contrato de anos, e ela tem tanto direito nisso quanto eu. Mandá-la embora significaria um processo judicial. – Ele tenta se aproximar de mim e põe a mão em meu rosto.
Retiro sua mão com fúria, ele vê que minha mão consegue ser tão pesada quanto a dele.
– Eu não quero que ela seja demitida, só quero ter a segurança de não ser tido como um vagabundo e ser tratado dessa forma. Eu não aguentei tudo na vida para ouvir isso, mas eu sou mais, Robert. E um dia talvez veja que ela também, só que pior. – Dou as costas.
– Eu vou te levar em casa. – Ele diz.
– Boa noite, Sr. Conroy. Eu já chamei um táxi. Vá comemorar com a pessoa mais antiga e mais certa da sua vida. – Saio do teatro e percebo que ele queria me seguir, porém a cara feia por cima do ombro o orientou que não deveria tentar.
Empurro a porta dos fundos com força e a bato com uma força duas vezes maior. Estou chorando e cruzo o beco que dá para a avenida principal. Ao passar na parte mais escura dele, tropeço em algo, ou melhor em alguém. Não olho para trás e ouço:
– Deu para ele no camarim já? – Uma risada.
Marianne.
– Já chega, Marianne. – Digo andando.
– Me espera, eu não te mandei anda, seu desgraçado – Ela se levanta do chão, um pouco cambaleante. Está segurando uma garrafa de vodka. Na outra mão um cigarro, ao qual ela joga no cão – Eu também sou sua chefe. Eu não te mandei andar.
Me viro e a encaro. Marianne está com o mesmo vestido de antes, entretanto sua face mistura com a tinta preta que escorre do rímel borrado e da maquiagem. A mulher está visivelmente alcoolizada e drogada, sim, porque aquele cigarro não é qualquer um a julgar pelo que posso ver.
– Parece que engana as pessoas também, viu como sua amiguinha se doeu? Outra nojenta. Todos aqui são, você, a companhia.
– Deveria experimentar dizer isso para os outros, soaria menos falso do que sua própria imagem hipócrita. – Sinto a raiva crescente.
– Insolente, você vai ser demitido. Eu vou dizer ao Robert, eu vou persuadir, e você vai voltar para as ruas de Seattle. Vai virar um garoto de programa qualquer, já que a sua família não te quer. Salve, Christian Grey. Homem inteligente. – Ela se aproxima mais de mim.
– Pelo menos não sou o único que não querem, Robert também não quer você. Apenas lide com isso – Me viro de costas e começo a andar.
O barulho do vidro contra a parede faz eu me alarmar. Ao virar bruscamente, só tenho tempo de segurar o braço veloz de Kendall. A raiva fulmina-me em seus olhos. Com o gargalo da garrafa próximo à minha pele, ela grita:
– Ele me ama, seu desgraçado. Ele me ama – Ela não para de gritar – Ele só está enfeitiçado por você, porque você não presta. Eu vou acabar com você.
A adrenalina se espalha por meu corpo e continuo segurando os braços dela. Marianne sempre dá um jeito de chegar mais próxima de me atingir com o pedaço de vidro. Giramos pelo beco:
– Para com isso, você está louca. – Digo nervoso.
– Eu vou te mostrar do que eu sou capaz, seu viado. – Ela vocifera – Eu vou te destruir.
Entre nossos movimentos de ataque e defesa, Marianne consegue me empurrar contra a parede oposto e encosta o vidro no meu pescoço. Os olhos param nos meus e vejo que a vida pode estar escapando naquele segundo. Com toda força em mim, engulo o que ela fala, morrerei melhor do que ela. É minha única certeza:
– Você não me conhece, mas irá. Talvez seu pai me agradeça por livrar o mundo de você. – Ela apertou tanto o pedaço de vidro contra meu pescoço, que mesmo que a garganta não seja corta, sinto uma pequena parte da pele ser obstruída pelo caco. Um líquido quente desce pelo lado direito do meu pescoço.
– MARIANNE! – O gritou irrompeu pelo beco e numa questão de segundos um par de braços acertou a mulher, ela caiu de lado.
Jackson Kendall me puxou para seu lado e viu o sangue:
– Meu Deus, Theodore. Está sangrando. – E ele olha para o gargalo na mão da prima – O que você fez, Mari?
– Eu vou acabar com ele. Ele veio para acabar a minha vida. – Ela levanta e parece não desistir.
– Eu disse para não usar aquelas drogas e misturar com bebida. Você está fora de si – Ele pega ela nos braços e a prende.
Coloco a mão na superfície do pescoço e ela vem com sangue. Penso em voltar e mostrar a Robert o que ela fez, quem sabe acreditasse em mim? Não, não volto e olho para Jackson:
– Corre, vai pro hospital da esquina. Isso precisa ser estancado – Ele contém a prima.
– Está bem, obrigado. Pego a bolsa e começo a correr.
Retiro uma pequena toalha de dentro da bolsa e coloco no pescoço, atravesso a avenida correndo e as luzes da Broadway me fazem ter uma vertigem. Não sei o que começa a acontecer comigo. Uma fraqueza parece começar a se apoderar de mim. E cada luz que resplandece diante do meu rosto começa a me levar para um lugar distante dali, apesar dos meus pés me guiarem para o hospital. Sei que minha mente está me guiando para dentro. Passo por algumas pessoas e próximo ao semáforo em que conheci Robert, sou tomado pela sensação que me arrebata para a escuridão. Ainda seguro o pano até sentir o corpo cair ao chão.
Meus olhos abrem-se lentamente e estou deitado numa maca. Respiro com certa dificuldade e ao olhar para o lado, eis que vejo Robert me encarando:
– Você acordou. – Ele fica feliz.
– Sim. Minha hora de morrer ainda não devia ser essa. – Sou sarcástico. Tento me levantar e a mão dele me para.
– Descanse. E nem pense que quando sair daqui vai para casa, vou te levar para meu apartamento até ter a certeza de que está melhor. E temos muito a conversar.
– Mas a Penny precisa de mim, preciso voltar. – Digo.
– Falei com o senhor que está tomando conta dela, e ele aceitaram ficar um pouco mais. Eles entenderam a situação, Teddy. – Ele desliga o celular, quando este chama.
– Quem era?
– Ninguém importante. – Ele tenta me enganar, mas eu sei quem era.
– Era ela, não era? – Viro o rosto para o outro lado.
– Sim. Mas não quero vê-la, e provavelmente não vou querer mais. Eu sei o que ela fez. – E ao olhar para ele, percebo que está olhando para o curativo em meu pescoço.
– É.
– Há algumas decisões a serem tomadas agora, mas descanse. É tudo o que precisa. – Ele levanta e fica me olhando – Não posso mais imaginar como seria perder você.
E olhando em seus olhos, pego sua mão da cama e digo:
– Não hoje. – Digo ternamente.
Fale com o autor