50 Tons de Uma Cor Vibrante

19 Capítulo 19 - Prévias


Notas iniciais
Cough syrup - Darren Criss

A experiência com Penny estava sendo totalmente diferente de que eu poderia pensar. Nas últimas semanas foi tudo uma questão de readaptação para ela, principalmente por ter de acostumar que agora tinha um lar. De acordo com o trato feito com a Doutora Rose, ela precisava tomar cada remédio na hora certo, nem mais e nem menos. Deveria seguir uma alimentação saudável, bem como, um ritmo de vida não corrido, assim como eu levaria logo.

Já é possível observar e aprender coisas sobre ela que eu ainda não sabia, principalmente a sua mania de sempre olhar nos olhos quando necessita dizer, reclamar, pedir algo. Mesmo que para a última afirmativa ela não o faça muito. Comprei roupas, sapatos e algumas coisas que achei que ela precisaria, e a cada coisa que ela ganhava, era impossível não ficar comovido com o seu rosto de incredulidade e felicidade. Ás vezes precisa-se de tão pouco para viver, porém se quer tanto.

Elevei a nota ao máximo ao segurar a partitura fronte aos olhos. Penny sentava-se à minha frente no tapete da sala. Com as mãos ousadas no colo e a expressão de avaliação crítica, a menina deixa escapar alguns risinhos, talvez pelas minhas caretas em determinadas partes. Ela segura meu celular a reproduzir o fundo instrumental e aos meus comandos, Penny libera e pausa a música.

– Essa é a música que mais está me cansando em meio a todas, Rainha. – Digo ofegando.

– Por que? – Ela pausa o áudio.

– Porque ela é bem complicada, não é qualquer música. É cheia de variações vocais e notas complexas. – Digo tomando um gole de água posteriormente.

– Achei que era por conta da mensagem dela. – Ela pega uma cópia da letra de mim. – Está vendo isso? “Quando você ver alguém machucado ou precisando de ajuda, nunca se esqueça de mim.” – Ela leu o trecho – Isso é algo profundo. Eu me sinto um pouco aqui.

– Por que?

– Porque você me viu no hospital, depois começou a ajudar as crianças, e por último me trouxe para cá. Você viu alguém que precisava de ajuda. – Ela diz.

Não posso deixar que um tenro sorriso irrompa pelos lábios, bem como, que os olhos casem e minha face fique alegre.

– Faz sentido, Rainha. – Olho minha letra.

Penny levanta do seu lugar e muda par aonde estou sentado, ficando ao meu lado e encostando os nossos ombros, por mais que haja uma considerável diferença entre seu comprimento e altura. Esticamos as pernas no tapete e ficamos a olhar para as aquarelas de Marilyn e Audrey. Robert havia ligado mais cedo, estamos esgotados. Todos os lugares do teatro foram vendidos nas primeiras três horas da abertura antecipada. Meu corpo está nervoso, minha mente está rodando, porque por mais ensaios que possa ter, a insuficiência pode me fazer perder tudo. Sei que Penny nota cada expressão e as entende melhor do que qualquer um, aliás, ela sempre sabe tudo. Passamos um minuto em silêncio, até que ela segura em minha mão:

– Não há como você ser menos do que perfeito. – Ela fala.

– Eu não sei. Eu estou com medo, mas não posso sentir medo, Penny. Dentre tudo que preciso, medo está riscado, pois tudo que eu fizer vai resultar se serei bom para o show ou não. – Digo lembrando das palavras costumeiramente ofensivas de Marianne, as quais não poupava, apesar de utilizar indiretas para proferi-las.

– Por que não pode sentir medo? O que acha que está dizendo, Teddy? Ela protesta. Começa a olhar para mim.

– Porque eu preciso ser bom em algo, sem falhas. Eu já falhei de uma maneira enorme com a minha família. – Abaixo a cabeça.

– Mais um motivo para acreditar que vai ser a melhor pessoa na apresentação. Teddy, olhe para tudo que fez até chegar a este momento, não foi pouco. Está com medo de um bando de olhos curiosos no seu dia de palmas? – Penny vira-se e começa a manter os olhos fixos nos meus, que de baixo a olham também.

– Tudo que vim guardando ultimamente, todos os receios. Parece que tudo isto veio à tona agora. Só agora.

– É um teste da vida, e pelo que sei, não vai ser o seu pior e nem o primeiro. Olha para os polaroids na parede. – Vi a menina aponta para o pequeno cordão que ficava pouco abaixo das pinturas das atrizes.

Um dos tesouros que veio acompanhando a casa foi uma máquina polaroid antiga, coisas de Robert. Segundo o mesmo, era para que eu me lembrasse de toda a mudança que a vida pode trazer. Um diretor de cinema que virou diretor de teatro, um garoto comum que virou uma estrela. E a partir desta câmera, eu e Penny construímos um cordão para expormos cada momento que fossemos colecionando. A primeira foto exibe Penny no primeiro jantar nosso, sorri radiante e faz um símbolo de paz e amor com as mãos. Na outra estou eu, flagrado dormindo por Robert, que ainda escreveu na legenda: “Momento Aurora.” – Na terceira estou abraçando Penny pela cintura em frente ao teatro de O Rei leão. Já que ela não iria poder ver Spotlight, prometi que ela veria todos os que ela pudesse. Na quarta foto estou com Robert e ele faz uma reverência elegante, como um príncipe, enquanto eu o olho com cara desconfiada e com a mão no queixo, isto em frente à um dos McDonalds da Time’s.

– Olhe para o quanto a história está acontecendo, ela é real. Não chegou aqui por acaso, não fez nada por acaso. Você pode fazer isso, como uma criança pode acreditar ou tentar, na sua cura para um câncer. Você é a esperança, Teddy. Mas precisa começar a achar as coisas em você. Eu confio em você, e que vai fazer um show tão bonito quanto a sua própria essência. E não falo isso para soar como a garota de dez anos que quer ser adulta, pois eu vi que estou no meu tempo de criança, só que é impossível ver você achar tanta coisa ruim – Ela aperta minha mão – Pense que a parede precisa de mais um polaroid. E eu vou ser a menina de dez anos que vai pendurar ele ali com a legenda, Coisas boas vem para aqueles que esperam.

De esguelha levanto o olhar e contemplo o rosto de Penny, após ter tido meu momento reflexivo para com aquelas fotografias. Coloco a outra mão em cima da dela e respiro fundo:

– O Sr. Frank e a esposa dele vem ficar com você amanhã à noite, certo? Acho que é hora de começar os melhores shows de toda essa avenida. – Levanto o dedinho, ela o prende no dela.

– Os melhores, Príncipe. – Ela diz. Apertamos os dedinhos.

Após colocar Penny para dormir aquela noite, me esgueiro pela casa e vou até a sacada do apartamento. Nova York está sob uma fina camada de nuvens, mas todas as luzes que estão abaixo dão a ela o mesmo esquema iluminado de todas as noites. Há tanta luz, tanto brilho. Passo os braços ao redor do meu corpo e resolvo pegar o meu celular do bolso. “Mamãe”, achei o endereço numérico e fiquei na dúvida. Está ocupada? Está com o pai? Como Savannah, de Querido John, acho que perdi o direito de saber dessas coisas há muito tempo. Mesmo assim, disco a chamada.

– Meu amor, é você. – Ela atende no segundo bibe, ela soa feliz.

– Oi, mamãe, — Falo tranquilo, porém com tensão na voz.

– Como você está, filho? Aconteceu algo? – Ela pergunta.

– Amanhã são as prévias, a última apresentação antes da grande abertura. Estou apenas nervoso e queria pedir um conselho. – Digo contemplando as luzes.

– Me conte o que precisa.

– Já se sentiu num beco sem saída e sabendo que algumas pessoas dependem de você, e que se estragar tudo todas elas pagarão?

Ela emudece por um momento ao telefone e pergunto-me até se ainda está na ligação:

– Mãe?

– Oi, baby. Foi só um lapso de memória. – Ela respira fundo – Acho que todos nós já tivemos uma situação parecida. Eu tive uma há dezoito anos, logo quando você nasceu. Ou melhor, foi antes de você nascer. É uma longa história, nunca contaria por telefone. Mas o meu conselho diante de tudo isso, é que provavelmente precisa ser duas vezes melhor e mais esperto no momento exato, porque você tem a motivação, isso só precisa casar com determinação. – Ela fala.

– Te atrapalhei em algo? Onde está? – Pergunto.

– Estamos em família, amor. Saímos eu, Phoebe e papai. Ela te mandou um beijo. – Ela fala com entusiasmo.

– Obrigado, mande outro. Eu vou tentar dormir e me preparar para amanhã, preciso. – Sinto uma pontinha de dor no coração, completo – Obrigado pelo conselho. Aproveitem anoite, ok?

– Será melhor quando formos nós quatro. – Sua esperança transparece.

– Quem sabe um dia? E então ficaremos todos juntos de novo. – E após isso, desligo o celular e continuo a contemplar a vista. Tão bela Nova York, cidade de concreto onde os sonhos são feitos.

Com a ajuda de alguns calmantes eu consegui dormir, finalmente. Foi uma noite normal, exceto pelas vezes em que acordei com angustia. O dia seria longo, havia muito trabalho a ser feito, montagens, últimas provas de figurino. O Sr. Frank e dona Nancy, chegaram pouco depois das oito da manhã. Eu gostaria de pagar por sua estadia ali, porém o velhinho jamais aceitaria, ele dizia que era um favor para um neto que a vida lhe deu inesperadamente.

– Muito obrigado pela ajuda, Sr. Frank. – Eu digo após abraça-lo – à senhora também, dona Nancy.

– Não há de que, meu querido. Meu Frank tem falado muito de você nos últimos meses, é um garoto de ouro. – Dona Nancy é uma senhora de formas um pouco rechonchudas e com os cabelos na altura do pescoço, estes são castanhos. Ela me dirige um sorriso terno, aconchegante.

– Já falei, vai ser um prazer cuidar dessa garotinha adorável. – O Sr. Frank acaricia levemente o braço de Penny e ela sorri.

– Os remédios estão indicados no formulário em cima da geladeira. Lá tem as horas, os remédios, enfim, tudo. – Pego minha bolsa do gancho atrás da porta. Estou pronto para sair.

Vou até Penny e me abaixo junto dela:

– Eu não volto hoje, talvez pela madrugada. Vai se comportar com o Sr. Frank, certo?

– Claro, Teddy. Eles são um casal tão simpático. Eu queria ir te assistir. – Ela parece triste.

– Já conversamos sobre isso, não é? Por favor, não fique triste. – Passo a mão no lenço rosa em sua cabeça.

– Eu não vou ficar, Teddy. O mais importante é você agora. – Ela me deposita um beijo na bochecha.

– Obrigado. – Retribuo o beijo e despedindo-me deles, me vou.

Coloco os fones de ouvido e a primeira pasta que aparece no player eu coloco. Caminho sem pressa pelas calçadas, pois certamente chegarei mais cedo que todos, assim como o habitual. Resolvo dar uma volta pelo Central Park antes. Todas aquelas pessoas, as diferentes expressões, e toda a história diferente em cada rosto, isso me fascina. Ponho as mãos nos bolsos e circulo por uma parte, visto que, o parque é maior do que o tempo que tenho disponível. Vejo crianças correndo ao redor de uma grande fonte e noto ser um menino e uma menina. Paro e olho a cena por um momento. A mãe deles tira fotos de suas traquinagens e ele se aproximam um pouco mais de mim, um ainda foge do outro. A menina corre com um carrinho do garoto. Parece que já vi essa cena em algum lugar, embora com um livro. E em meio aos flashes vastos, a mulher então olha para mim e passa um tempo assim.

– Vejam, crianças. É o moço do cartaz que vimos. – Ela aponta para mim e sou pego de surpresa.

Os três vem em minha direção e estou estático. A moça é até gentil, mas terminou me assustando com a reação inesperada. A garotinha e o garotinho ficam me olhando:

– Pode tirar uma foto conosco, Theodore?

– Posso sim.

Ela se aproxima de mim e puxa as crianças para junto. Tirando um selfie, ambos sorrimos para a câmera.

– Bem, eu mal posso esperar para ver isso hoje. Eu e meu marido vamos te assistir. – Ela olha a foto e depois para mim.

– Eu espero que gostem, o show está maravilhoso. – Digo – Eu devo ir, pois preciso fazer últimos ajustes.

– Foi um prazer, Theodore. – A mulher diz.

– Que nada, o prazer é do artista, sempre.

Dou as costas e vou fazendo o caminho de volta ao centro de Nova York. O fluxo rápido já é algo que passei a me acostumar, apesar dos táxis ainda quererem me matar sempre que cruzo uma rua.

Quando me aproximo do St. James, sou abordado por uma luz hedionda. Cubro parte do rosto e vejo um paparazzi que corre pela rua oposta. Resolvo entrar pelos fundos do teatro e ao fazê-lo, encontro com alguém que eu realmente não queria. Ia começar a insistência:

– Grey. – Jackson soou feliz, ou parecia isso ao se dirigir à mim.

– Oi, Jackson. – Digo me apressando.

– Ansioso para hoje? Venderam a casa toda, e ainda tinha gente querendo sentar nas escadas. – Ele correu ao meu lado.

– Eu soube, Rob me falou ao telefone. – Vou na direção dos camarins.

– Vocês são namorados, né? – Nesta hora viro bruscamente. Olho para Jackson e ele se retrai.

– E por que isso seria da conta de alguém, senão nós?

– Calma, Theodore. Só falei o que todos falam, inclusive mídia. Pelo visto não a acompanha muito.

Estava demorando para as coisas começarem a sair do controle, para os boatos comentarem. Jackson tem razão, não fico acompanhando a mídia, pois sempre a julguei como sensacionalista, e agora o meu nome está provavelmente nela. Não que eu tenha medo de estar com Robert em manchetes, é a última cosia que temo, no entanto existem pessoas que não compreendem as coisas e necessitam aumentar algo para se saírem bem. Ainda virando para Jackson, digo:

– Pode parar de me seguir? Sua prime não gosta de mim, e não há motivos para isso.

– Eu não sou Marianne, e por incrível que pareça, vou coma sua cara. E com outras coisas também. – Ele fita meu corpo com os olhos. O que? Finjo não entender e dou as costas. – Perdoe-me, não foi exatamente a intenção, Grey. Olha, eu não tenho nada contra você, eu sou contra tudo que minha prima prega. Somos muito diferentes.

– Tudo bem, eu já entendi, Jackson. Apenas pode me deixar ir para essa prova? Estou uma pilha de nervos, vou matar alguém. – Caminho apressado.

– Ok, Grey. Á vontade. – O tom de Jackson é compreensivo, porém sei que está chateado. Infelizmente eu não estou me importando.

Algumas pessoas estão no camarim, outras estão no palco treinando. Olho pela brecha e vejo Ashley dançando o número de “I will never let you down” da Rita Ora, sempre com sua desenvoltura impressionante e os cabelos loiros e jogados de forma rebelde. Marianne observa do lado da coxia, poucos metros à minha frente, está de costas. Sento-me na penteadeira maior e coloco a carteira e a bolsa em cima. Ouço um barulho de algo que cai no chão. Olho par ao lugar e vejo um cartão de crédito jogado. Sem pestanejar pego o objeto. Observando-o, o nome fica evidente, todavia, estranho. Marianne H. Kendall. Era dela. Por maldade eu poderia não devolver, pagar na moeda igualitária, já que ela não me viu pegar, no entanto, há algo que me inquieta no documento. O nome de Kendall não é tão extenso a ponto de necessitar ser abreviado no cartão. Ou pelo menos é o que Kendall passa, não sendo este um nome grande. Quer saber? Ela não me interessa.

– Estrela! – Apenas Robert me chama assim, só que é irônica a forma com a qual isso é entoado. Marianne.

– Olá, Senhorita Kendall. – Falo polidamente.

– Sem polidez aqui, não precisa me impressionar.

– Isso é seu, estava aqui na minha penteadeira. – Estendo o cartão.

Marianne olha do cartão para mim e de mim para o cartão.

– Sua penteadeira? Ora, ora, vejo que já aprendeu a começar o capitalismo e elitismo da Broadway. – Ela encosta na penteadeira de frente para mim. – Não importa o quão bonzinho seja, todos acabam assim. Querem se entupir de glória. – Ela pega o cartão. – Obrigado.

– Não há de que, senhorita Kendall. Mexo em minha bolsa a procurar as falas.

– Não me chame assim, odeio parecer velha. Quer me tirar da competição até assim?

Competição? Que competição? Me cérebro então processa o que ela diz e lembro-me do diálogo com Armand. Sobre como Kendall vê a vida como um jogo, jogo este que não estou jogando, segundo eu mesmo. Passo a língua entre os dentes. Não falo nada.

– Deve ser difícil fazer essa pose de pessoa inocente toda hora, eu presumo. – Ela mexe nos cabelos pretos. – Eu sempre achei ser bonzinho perda de tempo, mas ai veio você e me mostrou que dá resultado, caso contrário não estaria desfrutando do maravilhoso corpo do meu Robert.

– Quer parar com isso? Já perdeu a graça. Ninguém aqui é uma vadia que fica se jogando em homem alheio, e se estou com Robert é porque ele me quer, eu quero ele, eu o amo, ele me ama. – Digo ficando nervoso.

– Olha, ele sabe ficar nervoso. Vemos parte da inocência e da forma pacífica indo embora. Eu gosto assim. – Ela tamborila os dedos na base da superfície da penteadeira. – Acha que por seu pai ser o cara mais milionário do país, e por sua mãe ser dona de uma editora de sucesso, que pode chegar nos lugares e se proclamar como ícone? Querido, leva tempo.

– Eu não tenho esta pretensão. Nada tem a ver com os meus pais. – Digo olhando para meu reflexo no espelho.

Marianne permanece em sua posição autoritária, encostada à penteadeira. Ela não tira seus olhos de mim, nem tampouco o sorriso de deboche quando diz cada coisa. Sinto-me tomado pela vontade incessante de dizer a ela tudo que me engasga. De falar o que ela fez com Robert, de jogar na cara dela o quanto ela foi destrutível na vida de Robert. De como apesar de parecer uma pessoa que se importava com ele, que conseguiu fazer ele se afundar no que o levou para longe do seu sonho. Tenho vontade de jogar na cara dela o quanto ela é mal amada, mas me retenho. Penny é a única coisa que me importa.

– Pode enganar todos aqui, mas a mim você não engana. Tem rostinho bonzinho, apoia causas beneficentes, é polidamente educado, porque na verdade não quer ser o viadinho que a família mandou embora de casa, pois não aceita o fato de que tá sozinho, foi chutado, mandado embora. As pessoas não queriam você, então apelou para a piedade, apelou para pena dos outros. E no caso de Robert, apelou para dar para ele, já que ele pega qualquer coisa. Ninguém nunca vai olhar para alguém tão baixo quanto a dignidade e o amor presente pelo mesmo na família.

E a cada palavra dela, relaxei o corpo e deixei que elas martelassem bem onde ela queria. Fecho os olhos por um momento e tudo que faço é cerrar os punhos.

– Acabou? – Pergunto cansado. A cabeça baixa.

– Por hora, sim. Não quero estragar o seu dia medíocre de recompensa por ser tão hipócrita. Vou ao meu ensaio, bom dia. – E normalmente ela saiu do recinto e retornou ao seu pedestal de mestre, deixando-me com nada menos que o que eu não queria, lembrando o que eu verdadeiramente era para o meu pai. Um viadinho

– Teddy, não pode dormir agora. Levanta. – Ashley bate em minhas costas e me desperta. Devo ter cochilado após as palavras, já que não chorei. Me prendi.

– Já é o show? Meu Deus, me desculpe. Conroy vai me matar. – Digo espantado e me levantando.

– Não, ainda temos três horas para ensaiar e organizar figurino. – Olho ao redor e não vejo ninguém, apenas Ash. – Eu a vi saindo daqui, Marianne. Teddy, ela fez algo com você não foi? Sei que está preocupado com algo, e não é só a estreia. – A loira segura a guitarra da cena de Cherry bomb na mão e apoia no chão.

– Não foi nada, Ash. – Olho o reflexo no espelho. Ashley está maquiada fortemente. O negro circunda seus olhos, o espartilho de Cherry Currie a adorna, ela está linda, porém muito séria. A hippie se fora, Connie era ela.

– Foi sim, e você vai me contar, ou eu vou fazer a queixa para Conroy.

Respirei profundamente:

– Ela me disse cosias, Ash. Coisas que eu não quero repetir, porém que me levaram a ser quem eu era há oito meses atrás. Eu estou me sentindo um lixo. – Falo.

– Essa mulher é nojenta. Em pensar que ela me disse que sou uma dançarina péssima. – Ela ressente-se também. Ashley coloca as duas mãos em meus ombros. – Eu estou me segurando para não ir até ali com essa guitarra e quebrar os dentes dela.

– Não vale a pena, Ash. – Acaricio suas mãos com as minhas.

Eu tenho orgulho do que minha amizade com ela se tornou, porque a exata imagem que eu vejo no espelho é a de duas pessoas que em qualquer face conseguem sentir a proximidade da outra. Minha mão forte permanece na dela e aperto por um momento, sendo afetuoso para com ela.

– Você não merece isso, Teddy. Essa mulher precisa ser posta no lugar dela. Você é incrível, e eu sempre vou lembrar do meu susto com aquele garoto que nunca vi em Nova York, e que era a estrela do show. – Ela está triste por me ver assim, tenho certeza – Ninguém tem o direito de forçar outro ser humano para baixo, ninguém pode fazer com que se sinta um nada. Malditos são estes. Você é melhor do que ela, na verdade, você é melhor do qualquer um nessa companhia. O mal da Broadway é a cobiça exacerbada. Para uns mais, para outros menos. Todos aqui já tiveram um momento assim, mas você não. Eu sei que só está aqui por crianças que tem tão pouco, mesmo tendo esse talento que poderia te fazer como uma Barbra Streisand. Você é verdadeiramente humano, Theodore Grey. E isso é algo que aquela mulher nunca vai entender. E acredite, a natureza equilibra as coisas, ela vai ter o dela.

Levanto da cadeira e me direciono aos seus braços. Eu e Ashley nos abraçamos por um tempo e posso me permitir chorar, ela acaricia minhas costas.

– Connie foi o pilar do Julian, eu vou ser o seu aqui. Agora precisamos ir, só vim te chamar para passar a performance de Black Widow. – Ela enxuga minhas lágrimas e mesmo sendo mais baixinha, é a dona da situação.

Caminho de braços dados com Ashley e vamos na direção do palco. O lugar é cheio de pessoas já passando a coreografia do número. Quando Marianne me avista, ela dá um sorriso amigável, falso. Connie e eu paramos metros atrás dos dançarinos e então Kendall para o olhar em nós e cessa o ensaio:

– Para os fujões, é bom correr, tem pouco tempo. E isso significa mais tempo para se engasgarem com a prepotência na performance. – Ela comenta.

Ashley rapidamente se solta dos meus braços e ergue firme a guitarra correndo em cima de Marianne:

– Eu vou quebrar a tua cara, vagabunda.

Os dançarinos a seguram antes que ela atinja a coreógrafa no rosto. Os olhares ficam perplexos não pela atitude, mas por se tratar da pessoa mais pacífica do teatro.

– Sua peste, sem coração. – Eu corro e a seguro pelo braço. – Vai, vem falar para mim. Vem, sua desgraçada. Invejosa, mal amada. E então Marianne deferiu um tapa no rosto de Ashley e foi eu quem ficou na frente.

Como eu queria acertar o tapa de volta. Bufei.

– Insolente, o que pensa que está fazendo? Aguarde, terei uma conversa sobre substituição com Conroy.

– Então pode conversar agora. O que se passa aqui? – O tom grave de Robert veio da coxia atrás de nós.

A tensão tomou conta do lugar e todos fizeram poses nervosas. Marianne agitou a saia do collant:

– Esta insolente me agrediu, veio me atacar. Sem motivo, devo dizer. – Ela apontou para Ashley. Dissimulada.

– É mentira dela. Ela mexeu com um amigo meu, e eu fui ensinar a ela a aprender a tratar uma pessoa. – Ash ainda está nervosa.

– Como assim, Marianne? O que fez? – Ele encarava de uma para a outra.

– Acha mesmo que eu sairia do meu profissionalismo para atacar atores, Rob?

– Mentirosa! – Ash teve de ser segurada por Paul dessa vez, ela ameaça corre na direção dela.

– Contenha-se, Ashley, isso se não quiser as coisas ficando ruins para você. – Ele aponta para minha amiga.

Como ele ousa tentar defender Marianne? Sou eu quem entro na jogada:

– Ashley tem razão, Marianne foi até mim no camarim e me disse coisas desagradáveis. Ashley me viu mal e quando a contei, ela atacou a Marianne. Simples. – A expressão de Marianne mudou para um ódio descomunal. Os olhos pegam fogo e ela me mataria se tivesse uma arma.

– Mentira dele, Rob. Não me diga que vaia creditar nele.

– Eu só vou dizer algo, se foderem com meu show hoje, vou foder a vida de vocês. – Ele aponta de uma para a outra, não faz distinção. Até para mim ele aprece ameaçador. – Eu vou repetir, não quero amadores aqui. Agora voltem aos trabalhos. – Ele dá as costas e sai. É, teríamos uma noite muito interessante.

Robert deu o aviso, agora a tensão tinha aumentado. Temos quinze minutos até as cortinas abrirem. Shannia mexe em meu cabelo de frente ao espelho, já estou com a roupa do ato inicial. A bela negra está com um sorriso radiante:

– Ansioso, Teddy? – Ela pergunta.

– Um pouco de tudo. – Falo.

Dá para ouvir o barulho das agitações lá fora, o barulho das vozes dentro do teatro. Quando Shannia termina o meu cabelo, encaro por um momento a mim e vejo Julian, tentando fazer com que ele assuma as rédeas agora:

– Está pronto, Teddy. Você está mais gato ainda.

– Obrigado, Shan. – Damos um abraço rápido e o contra – regra aparece do nada, alerta sobre a entrada.

– Eu vou indo.

– Não antes de eu te desejar um bom show. – Viro de costas e vejo Robert me encarando.

Na mão direita ele traz uma rosa vermelha. Robert traja um elegante terno e sua aparência não peca em nenhum aspecto. Meu diretor me encara e devastado pelo que ouvi, abaixo a cabeça num determinado momento. Robert caminha até mim e chegando próximo o suficiente, ele levanta meu rosto:

– Meu Julian, meu único Julian. Vai ser bom. Quebre a perna. – Ele me beija ternamente e após, entrega-me a rosa vermelha. Seguro a mesma e aceno positivamente com a cabeça.

– Um minuto, Grey. – Gritou o contra.

– Vai lá me assistir.

A plateia assiste a cada parte com olhos vidrados. Há um misto de curiosidade e fascínio pelos números que começam se passar diante de seus olhos. Em muitas das cenas, emoções floram através de interjeições feitas pelos espectadores. A coisa mais difícil é mudar rapidamente as roupas para cenas seguintes, isso quando não o faço no próprio palco. Ao final de Something’s got a hold on me, corro rapidamente para me preparar para Black Widow, enquanto que Ashley inicia seu monólogo em cena. Performando a canção de Iggy, podemos ver que algumas pessoas da plateia, certamente jovens, dançam em seus lugares. E é é assim na maioria das canções.

Tento pegar cada anotação trabalhada até aqui, inclusive as sobre entoações altas. Segundo o Sr. Weiz, pouca coisa devia ser aperfeiçoada. Em questão vocal nem preciso dizer que o solo de Try, da Pink, feito pelo Paul foi sensacional. Ou que Cherry bomb, das The Runaways, foi magistral no solo de Ash. A equipe avança. E durante a troca das roupas, finalmente chega o momento do solo que mais acho forte na peça. Feeling good, de Nina Simone.

Com apenas pequenos pontos de luz ao fundo palco, Julian exibe-se no centro e com apenas um microfone de época. O terno perfeitamente adornando meu corpo ressalta toda a elegância da audição do menino para a Broadway. Minha voz soa grave e ritmada. A cada harmonia da música meu coração palpita. E mesmo com o nervosismo, vou interpretando e dizendo os poucos monólogos existentes entre a canção. Até que finda-se. Quando uma pequena estrutura me desce para baixo do palco, rapidamente corro para o camarim. Passo a me preparar então para a performance mais polêmica de Spotlight.

Ouço Do what U want, de Lady GaGa soar pelo palco e logo ali o tapa sexo dá problema. Ele não era do tamanho certo, era menor. Droga!

Resolvo ir literalmente sem roupa e esperando que domine realmente a coreografia a ponto de não mostrar o que as pessoas mais gostaria de ver. Coloco o roupão da cena e quando a ouço cantar a minha deixa, com o rosto a demonstrar sensualidade, entro cantando pausadamente:

– Early morning, longer nights... – A cada vez que vou cantando, aproximo-me da cama no centro do palco e todos aqueles olhares em cima de mim realmente intimidam, no entanto, não há muito a fazer.

A atriz especial encena coreograficamente cada parte da relação sexual exposta na cena. Das mãos que deslizam o corpo, ou do meu corpo forte que recai sobre o dela em movimentos de vai e vem e sutis, sem nada que seja de fato apelativo. É sexy, quente, porém no limite. Os gemidos são as notas alternadas. A plateia está vibrando. Quando caio por cima dela ao final da música e no ápice do sexo, tento lembrar de Robert e o imito. A imitação soa perfeita, gritos ecoam quando tudo se apaga para o próximo ato.

Corro com a mão a cobrir minhas partes baixas e bato em algumas pessoas, acredito que alguém conseguiu ver algo. Me tranco no espaço de troca e relaxando corpo, passo uma toalha por ele e começo a me preparar para a cena seguinte. As roupas de festa indicam a cena em que a festa se dá no hospício, a qual trafica-se drogas. Alphonse, o personagem de Paul, é o responsável pela proeza. Ao correr par ao palco, começamos a cena e as luzes de um tapete de discoteca se ilumina, e o coro anunciava através da melodia:

– Ge tinto the groove...- Into the groove, de Madonna, corre pelo palco. E neste momento dançarinos começam a vir das alterais do teatro, até mesmo de poltronas localizadas entre os espectadores.

Durante a cena, é possível ver alguns atores expressem que estão a se drogar livremente. E este é um dos motivos que deixa explícita a classificação do musical. Danço ao redor de Ashley, a minha Connie e junto entoamos um verso. Quando a canção acaba, todos se reúnem em volta de uma mesa e dentre os diálogos, está o de convencer o Julian a utilizar uma pílula de eacstasy. Faço cara de inseguro e temeroso, pois aquilo em contraposta ao remédio controlado poderia causar algo muito sério. E rendendo-se à tentação, termino pondo o comprimido fictício na língua.

– Qual é, sou Julian Maddox. Quer competir comigo, Alph? Quem é você para isso? – Eu digo como meu personagem e caminho pelo palco – Você deveria estar quietinho. – Dou uma caminhada e paro com as mãos nos bolsos na lateral esquerda do palco. O interlúdio de Problem surge pelos caixas. Reproduzindo a voz aguda e perfeitamente colocada da versão original, eu vou a interpretando e todos se eriçam na cena. Isto até a parte do rap, quando pelo efeito, uma outra imagem minha surge no palco. Simbolizando as duas personalidades que partilham a mente de Julian, o outro canta enquanto eu fico parado. Ele dubla minha voz e dança com expressões mais provocativas e debochadas. Era o lado da maldade.

– I got 99 problems, but you won’t be one. Like what? – Volto a mim e termino a canção em seus finais versos.

Ashley executa perfeitamente I will neve rlet you down, bem como as outras que lidera. Após a fuga dos loucos, e após Shake it off, chegamos na cena que Julian resolve voltar e deixar tudo, inclusive a bela amizade por Connie.

– E se não nos vermos mais, continue a nadar, continue a nadar. – Eu brinco como Julian, satirizando Procurando Nemo – Me desculpe, Connie.

– Você não pode me deixar, porra. – Ela diz abraçando meu corpo. E durante este abraço eu sinto Ashley, e retribuo com tamanha afetuosidade.

– Sua vida vai ser brilhante, espero que não esqueça de mim, louca do quarto ao lado. – Tomo sua mão e deposito um beijo demorado. E então é a vez de My love is like a star, de Demi Lovato.

Emotiva por essência, é uma canção que acaba comovendo toda a plateia e na primeira fileira podemos vez pessoas comovidas com o efeito da cena. Ambos saem pelos lados opostos do palco. Fim do penúltimo ato. Durante o ato final era difícil achar um rosto que não estivesse chocado com os rumos do musical, da história de Julian. Após a cena do carro o atingindo violentamente e quando a câmera exibe os olhos azuis feridos na tela, um clima desolador paira o lugar. Enquanto o elenco entoa Bitterweet Simphony, do The Verve, Frida sola como a Doutora. E quando se joga perto de mim, estirado ao chão, no leito de morte de Julian. O choro dela é capaz de atingir até o meu próprio coração.

– Vai poder usar em outro paciente, a descoberta, doutora. – Digo ofegando – Algumas vezes uma estrela precisa morrer, para que outra possa brilhar mais forte.

E os olhos vidram-se, e Julian morre.

A onda de comoção da plateia percorre por todos e tudo se apaga.

Após minha última troca de roupa e caminhando par ao palco absolutamente no breu, paro no centro e pouco a pouco pontos luminosos vão surgindo ao fundo. E citações de Julian começam a ecoar pelo teatro. A atmosfera é criada, sendo consumada pelos acordes dos instrumentos que passam a ganhar vida, das teclas do piano de Armand. Quando o solo vai crescendo, os pontinhos me iluminam por completo. O sonho de Julian, ficar bom, ser uma estrela novamente é retratado. É o epílogo do show. O rosto de Penny se materializa em minha mente enquanto canto Don’t forget me, do musical Bombshell. Com nada mais que o microfone acoplado em minha orelha, meus gestos são sutis e suaves, conforme o ritmo da canção. “Eu oro para que não me esqueça.” – “E quando olhar para o céu com alguém que você, e uma luz forte brilhar distante. Eu espero que veja minha face nela, e ofereça uma prece.” – E preparando a respiração par a anota de consagração. Vou naturalmente, mesmo com toda angustia. “E por favor, me deixe ser a estrela.”.

O tom agudo e bem harmonioso ecoa pelo lugar, e os pontinhos que outrora foram me iluminando, agora apagam-se. Apenas minha silhueta fica à mostra, quando um holofote acende acima de mim e com um movimento com o braço direito, termino a peça como a foto do cartaz, cobrindo o meu rosto da luz. Ela poderia ser a glória, mas no caso de Julian, também foi a destruição. Eu nunca imaginei que fosse assim. Correntes elétricas reverberam pelo meu corpo inteiro na mesma densidade de todas as palmas. Vejo centenas de fileiras erguidas, de pé, aplaudindo-me. Estou tremendo, porém curvo o meu corpo a eles. Com os olhos fechados e a cabeça baixa, os gritos que ouço me fazem ficar eufórico, nervo pelo fim e pelo que pensam.

Vários bravos ecoam pelo teatro e quando levanto a cabeça, percebo que estou chorando. Dou um aceno calmo e com o coração batendo forte, vejo Ashley na coxia. Ela chora e me aplaude. A chamo com a mão direita. Ela corre e segura a minha e com os segundos o elenco todo está reunido. Erguemos as mãos ao alto e nos abaixamos na mesma hora. E de repente eu olho para a coxia esquerda do palco, Marianne está lá. Ela me olha e vejo algum ruim em seus olhos. Recebo os aplausos, mas também a sensação de que ela quer me matar. Esqueço momentaneamente e olho só para a frente. E quando a multidão se acalma, finalmente as cortinas se fecham:

– Eu te amo, velho. Você o melhor. – Ashley se lança no meu pescoço.

– Cara, você é O cara. – Paul me abraça depois.

Várias pessoas passam a me cumprimentar, de atores a dançarinos. Marianne fica observando tudo em seu traje elegante. Ergo as sobrancelhas em estilo desafiador. E quando Conroy aparece de trás de mim, sou pego no ar e ele levanta todo o meu peso:

– Eu te amo, cara. Eu te amo. – E todo o segredo deixou de ser segredo quando ele me desceu e me beijou em frente a todo mundo, inclusive de Marianne.

Agora as palmas eram do elenco inteiro. Eu beijava Robert com a mão em sua nuca e por fim encostei a minha testa na sua:

– Eu sou quem te amo, diretor.

A última vez que olho para a coxia de Marianne, tudo que posso ver é uma parte do extenso vestido preto desaparecer. E apesar das coisas certas e maravilhosas, algo ainda vaia acontecer vindo dela.

Notas finais
Este é o último show antes da grande noite de abertura. Agora todas as máscaras começam a cair. Espero que tenham gostado. Deixem seus reviews, eu vou adorar lê-los. Beijos.