50 Tons de Uma Cor Vibrante

13 Capítulo 13 - Pontinho


Notas iniciais
Sleeping through my fingers - ABBA Eu gostaria de dedicar este capítulo para uma pessoa que eu prometi que o faria, alguém que entrou igual bala na minha vida, como uma caloura de faculdade e conquistou um carinho e tanto da minha parte. Este capítulo vai especialmente para Ray Moreira, minha Mahjong, porque eu sei que você vai chorar novamente, mas desta vez vai ser por aprender que não pode viver das expectativas de ninguém, sweetie. Espero que goste.

– A Senhora prometeu. – Falo ao soltar Phoebe e ver lágrimas caindo dos meus olhos.

A expressão desnorteada e sem entender da vovó eram semelhantes iguais as minhas. Ela tenta dizer algo, todos tentam, porém nada convence. Phoebe me pergunta:

– Você vai ficar, né? A mamãe está sentindo sua falta. – Ela diz mexendo no cabelo.

– Eu preciso ir embora, eu tenho um show para ensaiar. E me desculpe, White. – Dou um beijinho no rosto dela e observo o casal aproximar-se.

– Não, Teddy, fique. Podemos resolver tudo, será um grande natal em família. – Diz minha vó com alguma esperança.

– Eu não tenho mais família, eu sinto muito. – Digo com um bolo na garganta.

– Mas você é meu black, vivi sendo White por muito tempo e você sabe a teoria. – Phoebe protesta.

– Talvez eu não seja mais os eu Black, Phoebe. Talvez eu tenha virado cinza. – Saio correndo.

Acredito que mamãe pensa que vou cumprimentá-la, certamente por sua cara ao me ver na mesma direção. Secos as lágrimas, uma expressão seca e indiferente surge no lugar. A proximidade dos nossos corpos me faz querer chorar, mais, porém passo por ambos e ergo a cabeça, não há nada a dizer que já não tenha sido dito. E após isso, corro, corro, corro sem uma direção, mesmo sabendo que há uma. As estrelas brilham pela noite e o céu está belo, seria uma bela noite de natal.

O que eu vim fazer aqui? Vim mostrar a mim mesmo o quão idiota eu sou? Vim sofrer por amor? – Penso em tais coisas até abrir a porta do sótão e trancá-la atrás de mim. Depois escorrego por ela e abraço as minhas pernas e começo a chorar apenas para mim. As lágrimas escorrem pelo meu rosto e esquentam a face. Posso ver a sala de cinema, ele gritando comigo e me dizendo que sou doente, que preciso me tratar. Vejo a expressão desolada e parada da mamãe. Eu posso reviver tudo, posso me magoar mais uma vez para todo o sempre. A vida deles continuou, o mais certo era a minha continuar. E isso dói tanto.

– Teddy, converse comigo. Diga que me odeia, me mande embora, mas fale comigo. – A voz da minha mãe é ouvida na porta atrás de mim.

Permaneço em silêncio.

– Eu te amo, por favor. Eu ainda sou a sua melhor amiga. – E ela batia, assim como esperava-me atender os telefonemas.

Depois de um tempo sem resposta, não há nada mais que o silêncio, exceto do barulho da festa lá fora. Por um aplicativo no celular, tento modificar a passagem par aa própria noite, voos indisponíveis. Me aconchego no chão e resolvo ficar por ali, enquanto as lembranças me ferem um pouco mais. “Um reino de isolamento, e eu estou aqui.” – Minha mente modifica as letras da canção do filme que eu via sem cansar, o qual vovô ainda fazia piadas. Com a cabeça no solo frio, meu sussurro era inaudível:

– Let it go, let it go... – Adormeço após algumas partes da música.

Os raios de sol acabam me acordando na manhã seguinte. Trajo a mesma roupa da noite anterior, tudo está o mesmo, apenas a tonalidade amarelada do céu pode divergir. Levanto do assoalho e começo a juntar as minhas coisas que estavam fora da mala. Não preocupo-me em mudar a roupa ou coisa do tipo. Tendo feito a mala completamente, abro a porta do quarto e se eles ainda estivessem ali, faria o mesmo do dia anterior. Desço as escadas e as rodinhas fazem um certo barulho.

– Não queria que fosse embora tão cedo. – Olho para trás e vejo vovô Carrick me olhando do sofá.

– Eu preciso. – Tento ser o mais agradável possível. – Me desculpe por ontem.

Ele indica o sofá para que eu sente, e em face do que causei na festa, não resta uma outra alternativa a não ser sentar-me com ele. Vovô passa o braço por meus ombros. Aperta a base do meu ombro esquerdo:

– Foi ótimo ver você, mas acho que todos sabemos que você não quer mais ficar aqui, especialmente depois daquele programa. – Ele diz.

– É, eu percebi que aminha vida não é mais aqui, vovô. Eu sempre achei que seria. – Digo. – Eu tinha um plano para a minha vida, vovô.

– Por que não me conta?

– É complicado. – Sou breve.

– A parte mais complicada se foi, meu caro. Se abra. – Ele me olha de lado. – E estou falando sério.

– Eu ia acabar o colégio, iria cursar literatura inglesa. Sabe que amo livros. – Paro ao vê-lo fazer um gesto.

– O mesmo curso da sua mãe, boa escolha. Prossiga!

– Iria me formar, entrar para a SIP, ser um bom ajudante para a mamãe lá. Ai eu iria estar com quem eu amo, era o Conrad, meu melhor amigo. – Percebo uma lágrima descer. – Eu ia ficar com ele, iria trabalhar com o que eu amava, enfim, ia entender que talvez fosse como nas histórias. — Olho para ele de lado, eu sorria, mas lágrimas desciam o rosto. A máscara estava no chão. – Eu achei que me amariam por quem eu era, amariam as coisas que eu queria fazer. Agora eu olho para trás, para todos esses anos e percebo que o meu conto de fadas não existe mais.

– Me deixe dizer uma coisa. – Ele se solta dos meus ombros e me encara de frente. Só vive a vida uma vez, e seja qual for a coisa ruim, precisa deixar ela continuar. Não importa se te tiraram como você esperava viver, filho, você ainda pode ser qualquer coisa, em qualquer lugar. No meu tempo era difícil para meninos como você, mas hoje, é tudo mais fácil. E por que o Conrad era o seu amor? Acabou?

– É, acabou. Ele traiu tudo que tivemos com outro alguém, fez sua escolha.

– E como se sente sobre isso? – Ele pergunta.

– Bem, eu acho que tenho a pessoa certa me esperando lá em Nova York. – Comento.

– O homem do piano? O Diretor da TV? – Ele aprece curioso.

– Ele mesmo.

– Então volte para lá, deixe acontecer. Mas antes, posso te pedir algo? – Vovô fixa os olhos em mim.

– Vi sua mãe sentada do lado de fora da porta do seu quarto por uma hora, e ela chorava em silêncio. Ela e seu pai não estão bem. – Sinto que sei onde a conversa vai parar. – No começo da gravidez essa mulher lutou por você, filho. Vá até ela e converse, não digo para perdoá-la ou perdoar a seu pai instantaneamente, mas peço que ouça ela. Ela está precisando ser ouvida por você, ela se culpa, todos agora sabem. E ela te ama, aliás, eles te amam. Seu pai voltou para casa, mas ela está desde ontem num lugar que vocês têm em comum. Pense nisso, pelo seu avô. – Ele me puxa para um abraço. – Abraços quentinhos são os melhores, little Grey.

Me dirigi até a biblioteca com parte do meu estômago a revirar de agonia. O que eu diria à ela? O que ela me diria? Não faço ideia. Ajeito o sobretudo em meu corpo e diante da porta, tudo que faço é empurrá-la. A vejo sentada de costas para mim, está numa das mesas e parece soluçar. Caminho com dificuldade e me sento no banco do outro lado da mesa. Estou de frente com a minha mãe, que olha incrédula para mim. Começamos a nos olhar sem dizer nada, ponho as mãos em cima da mesa. Os olhos azuis estão manchados por lágrimas e parece ter realmente chorado a noite toda. Impensadamente, minha mão vai até a dela na mesa e a toca:

– Eu não te odeio.

– Me perdoe por não fazer nada. – É tudo que ela diz entre as lágrimas. – Eu não me importo, Teddy. Eu te vejo do mesmo jeito. Você ainda é meu menino, o pontinho que eu achei que seria só meu.

– Nunca me contou esta história do pontinho, porque não tenta? – Tento parecer forte.

– Quando eu engravidei de você, eram tempos difíceis para mim e para seu pai. Nosso amor teve de se adaptar à tanta coisa. – Ela parece reviver em mente ao começar a contar. – Christian tinha muitas inseguranças sobre ser pai, ele não queria por achar que seria um péssimo pai, e bem, apesar dos pesares, ele foi um bom pai. Quando ele descobriu que eu engravidei, simplesmente teve um surto e sumiu por algumas horas, mas depois ele relutou em aceitar que seria pai, mesmo que no fundo eu visse que ele queria. Ele teve uma vida muito difícil, Teddy. Pontinho foi como eu te chamei depois de ver o ultrassom, pois você não passava de um pontinho no meu ventre. – Ela para e dá uma risadinha meiga, a qual acompanho igual. – Logo após, eu passei até chamar de pontinho, era meu apelido favorito, tanto que até mesmo o Christian aprendeu. Até decidirmos Theodore, você era o nosso pontinho. Acho que hoje você é uma frase inteira. – Ela acaba e estende a mão pela mesa, toca meu rosto. – Eu me orgulho de você, da sua coragem, pontinho.

Não posso deixar de permitir que algumas lágrimas caiam naturalmente e sentindo sua mão em meu rosto, ponho uma mão sobre a dela:

– Isso é lindo, mamãe. Passei tanto tempo sendo quem eu não era, que até mesmo os obrigados que a senhora merecia, ficaram obscurecidos. Obrigado por tudo que fez até hoje. É uma honra, do tamanho de reticências, ser o seu filho. Me perdoe pelas ligações que não atendi, ou por não procurar você. Mudei mais nesse tempo do que em toda a vida. Você me fez um bom homem, acho que encontrei meu caminho longe. – Levanto e vou até o outro lado. Me ajoelhando perto dela, deito minha cabeça em seu colo. – Eu estou ficando bem, pela primeira vez na vida.

– Sua voz é linda. E aquele homem é apaixonado por você, Teddy. – Ela se refere à Rob, percebo.

– Ele é alguém bom, demorei para perceber isso. – Digo com lágrimas nos olhos.

– Eu quero ver a sua noite de abertura, me prometa que não esquecerá de mim. – Ela fala acariciando os meus cabelos.

– Não vou, por nada. Eu sou um pontinho sem função ortográfica, pois eu nunca pontuei o nosso final, mamãe. Me perdoe mesmo.

– O meu amor por você é como a obra do Hardy, eterno. – Ela beija o topo da minha cabeça.

Levanto do colo dela e a ajudo a levantar da cadeira. Aperto meus braços ao redor de sua cintura e começamos a chorar em meio à um sorriso, durante o que parece ser o maior abraço de nossas vidas. Respiro o aroma doce do seu perfume, o mesmo que eu costumo usar e deito meu queixo em seu ombro. Lembro que a barbinha pode incomodar e me afasto:

– Meu cabelo ficou um pouco sujo após o chão em que dormi, acho que preciso de um tratamento. – Digo tocando nos fios. – No aeroporto tem um salão, farei isso lá.

– Vou com você. – Mamãe pega a bolsa da mesa.

– Não, não, Anastasia Grey. Vai para casa, consertar provavelmente o que a festa de ontem trouxe. Eu não posso deixar o meu casal favorito acabar assim. E aeroportos juntos, nunca mais, a pior lembrança. – Toco em seu braço. – Eu não tenho mais a mesma família, mas ainda quero que ela continue do mesmo jeito. Vá para casa, prometo ligar ao chegar em Nova York.

– Certo, eu farei isso, filho. Não sabe como eu estou feliz, este é meu melhor natal. Você cresceu. – Ela me abraça outra vez.

– Cresci, mamãe, cresci. – Digo compreensivo e aproveitando nosso abraço final.

Notas finais
O nosso enredo finalmente deixa para Seattle para trás, parece que Nova York via se tornar nossa terra prometida. Espero que tenham gostado desse capítulo emocionante. Espero suas reviews, elas me motivam MUITO.