50 Tons de Uma Cor Vibrante

10 Capítulo 10 - A primeira parte do futuro


Notas iniciais
Miss Movin' On - Fifth Harmony

Não consegui dormir à noite, devo isso ao pensamento constante que me rondava a cabeça acerca de Robert. Mesmo tendo tomado dois comprimidos calmantes, nada foi retirado com um bom efeito, ainda estava acordado. Era dia de ajudar no hospital e eu teria de ir sem ao menos pregar os olhos. Eu tenho duas alternativas: dizer que não posso ir e dormir pela manhã, número dois, decepcionar a Penny. Como uma leva a outra, a alternativa que me resta é levantar das cobertas. Penúltimo dia na escola e nunca estive tão indiferente. Tomo um banho rápido e ao vestir roupas tradicionais, como uma calça jeans e uma camisa cinza, ponho um casaco felpudo por cima. Neste há um capuz ao qual eu faço uso constantemente quando o frio percorre pela cidade.

Ao me aproximar dos portões do colégio, o Sr Frank me olha com um sorriso diferente:

– Eu te vi na tv ontem, Teddy. Estava ótimo. – Ele mexe em seu casaco.

– O senhor assistiu? – Um sorriso alegre aparece.

– Minahe spsoa estava vendo aquele talk show, de repente, ouvi falaram de um tal Theodore Grey e lembrei de um amigão. – Ele bate d eleve em mim com seu jornal.

– Eu estava muito nervoso, e ninguém sabia de nada.

– Verdade, aquilo me fez ficar sem entender. Então vai para a Broadway?

– É, irei, Sr. Frank. – Ponho as mãos nos bolsos.

– Eu quero te assistir menino, gosto de pessoas que me surpreendem e sempre achei que você fosse ser um médico. – Ele abre o portão. – Presumo que esteja te enchendo e queira passar.

– Não ,não. Quer dizer, preciso sair para chegar em quinze minutos num compromisso. E obrigado pelas palavras, Sr. Frank. Vou me lembrar de você quando pegar os tickets, prometo.

Toco seu braço carinhosamente e saio pelo portão aberto. Percebo que o Sr. Frank é o tipo de pessoas que eu vou sentir falta amanhã, quando tudo isso acaba. A neve começara a dar o ar de sua graça, noite passada. Segundo os jornais, ela queria fazer companhia de verdade, iria nevar por quase um dia inteiro. Fecho o zíper do casaco e puxo seu capuz para cima ao caminhar com as mãos agora nos bolsos do mesmo. Com o clima um pouco fechado e o céu nublado, a luminosidade dos cartazes da Broadway são notadas mais facilmente. Num dos poucos momentos em que ergo a cabeça para olhar a paisagem, minha visão para num prédio enorme bem à minha frente. Algo que mais parece um tabloide virtual passa algumas manchetes. “Conroy volta à Broadway, e desta vez traz uma arma secreta, o filho mega talentoso de Christian Grey.” – Uma foto nossa ao piano aparece no telão. Suspiro profundamente e relembro o momento com carinho, apesar do que ter acontecido depois ter me desestabilizado.

A expressão do Sr. Frank vem em minha mente e me pergunto se meus pais ou alguém da família havia visto o Talk Show, porque se viram, certamente não falaram. Meu celular é semi inútil, nunca recebe ligações. Exceto as de Conroy, agora. Passo um tempinho encarando o cartaz e passo a seguir o caminho para o Hospital. Raramente não uso fones de ouvido, e é por conta desta proeza que ouço um grito atrás de mim:

– AI MEU DEUS! THEODORE GREY. – Me viro e vejo uma garota de uns quinze anos correndo. Ela me lembra muito a Phoebe. Paro desnorteado. – Pode me dar um autógrafo, por favor? Tira uma selfie comigo?

Fico estático e mesmo assim consigo por um sorriso no rosto. Mal posso acreditar no que está havendo ali, mesmo que esteja bem evidente. A menina vinha com uma amiga mais velha, ela apenas me olhava e não dizia nada.

– Vimos o Conroy ontem. Me desculpe a loucura, mas somos loucas pela Broadway e Conroy é um gênio. Eu estou impressionada com a sua voz, me dá um autógrafo? – Ela pede novamente e me estende um pequeno caderno e caneta.

– Claro, como é o seu nome?

– É Rachel, e o dela é Elizabeth. Ela é assim mesmo, está paralisada por dentro. Já revimos mais de cinquenta vezes você cantando Taylor Swift. – Ela fala demais.

Pego o papel de sua mão e começo a escrever:

“Você é nova, eu também. Espero que cresça o tanto quanto eu espero crescer. Um beijo e um abraço do Teddy. Para a Rachel e a Elizabeth.”

Com a caligrafia fina e bem organizada, eis que termino. Os olhos da menina tornam-se estrelas e brilham bastante ao pegar o caderno. Ela põe a mão na boca em felicidade e segura um Iphone. Sei que está pedindo para tirar a selfie. Me aproximo dela e da outra, ficando entre as duas e fazendo um sorriso animado. Ela bate uma série de fotos de uma só vez. Depois outro grito:

– Ahhhh! Eu não acredito. Obrigado. – Ela beija minha bochecha subitamente. – Eu vou assistir Spotlight, que chegue logo. Obrigado mesmo.

– Não há de quê. – Retribuo tudo com um sorriso cortês.

Ao invés de seguirem pelo mesmo caminho que eu, elas atravessam a outra rua que as leva para o centro principal da 5º avenida. Eu sigo o meu caminho pelo cantinho da calçada e pode parecer idiota, porém um sentimento surreal parece rondar meu corpo. Sinto-me bem com aquele pequeno gesto das meninas. Eu não estou pronto para ser famoso, mas não há nada como ser reconhecido. Abano a cabeça rindo sozinho e é o primeiro sorriso verdadeiro que dou na vida. É bobo, singelo, meu.

Começo a correr pela rua, não há motivos para isso, eu apenas quero. Sinto a brisa gelada ao rosto, a sensação contínua de jamais parar. Chego ao hospital um tanto rápido. Com uma cara radiante, passo pela recepção e nem ao menos sou parado. Tenho posto o crachá de voluntário e adentro a ala da oncologia infantil. Até mesmo aquele ambiente carregado de sentimentos tristes, consegue ser pequeno e me traz vontade de fazer ser como um conto de fadas, que a propósito deixei há muito de acreditar. Cruzo os braços nas costas e me achego numa certa porta. Do lado de fora, puxo uma persiana posta. Ela levanta-se lentamente e vejo a maioria deles brincando. Quando Penny me nota de dentro, ela altera sua carinha e corre com a boneca característica na mão. Abro a porta:

– Helo, estrelinhas. A terra diz “olá”. – Parafraseio Willy Wonka.

– Teddy! – Penny se choca contra minha barriga num abraço. George e os outros vem depois. Passo as mãos nas costas de todos.

– Ele apareceu em ponto, gosta mesmo de trabalhar. – A doutora Rose surge de uma porta aos fundos da ala.

– Claro.

– Mas é que depois daquele show de ontem, que a propósito eu nem fazia ideia de que estava na Broadway, achei que ia dormir o dia todo para descansar. – Ela chega próximo à mim e um sorriso animado está nela.

– Acho que todos vão comentar isso comigo hoje, você é a terceira pessoa, Doutora.

Puxo a jaqueta pelos braços e coloco-a num pequeno gancho atrás da porta, enquanto que as crianças vão se dispersando. Penny, do contrário, fica bem próxima, apesar de não prestar atenção na conversa. Brinca com sua boneca.

– Você estava na televisão, Theodore. Acha que não viram aquela sua apresentação? Você é muito bom. – Ela estaciona as mãos nos bolsos do jaleco.

– Obrigado, Doutora Rose. – Faço um gesso com a cabeça, uma mini reverência de agradecimento. – Bem, o que temos para fazer hoje? Ainda vim bem disposto.

Ela segura uma planilha e após me dirigir um olhar de felicidade para com o que ouvia, diz:

– Um carregamento de remédios vai chegar hoje. Pode ajudar? Tem o bracinho forte. – Ela bate no meu braço e eu faço uma pose de Super – herói.

– É para já, Doutora Rose. – Imita uma voz grave.

Acompanho a Doutora e ao chegar em frente ao hospital, ainda não havia carro nenhum. Sentei numa parte da calçada e peguei o celular. Passava alguns sites de notícias, e na maior parte dele era possível ver algo sobre o ocorrido na noite passada. A cada vez que eu olhava para um vídeo das performances, sentia uma sensação estranha. Era eu, eu estava mesmo ali, estava sendo visto. Eu criei uma bolha durante seis meses da minha vida, no entanto, é como se ela começasse a ser perfurada por vários lados. Tenho a impressão de que eu não estarei nela por muito tempo e isso me assusta, me deixa apreensivo. É difícil mudar, apesar que é a única saída que o tempo nos dá se queremos caminhar avante.

Cinco ligações perdidas, dizia o menu de ligações. Não precisei clicar no atalho, eu sabia de quem eram. Ainda assim, apertei. “Mamãe”. Será que ela viu o show? Provavelmente. Aperto em seu contato e fico olhando sua foto. Na verdade, uma foto nossa. Isso me faz lembrar nos expedientes em que trabalhávamos juntos. É exatamente o que a foto exibe, nós juntos. Num digito rápido faço a tela sumir, estou olhando novamente para Nova York. Os devaneios familiares se vão quando um caminhão estaciona bem próximo à mim, certamente os remédios. Levanto limpando a calça e prontamente me adianto:

– Bom dia.

– Bom dia, Senhor. Carregamento de remédios e precisamos que a Doutora chefe ou algum responsável assine aqui. – Ele indica um documento.

– Doutora Rose! – Grito com as mãos na boca. Não demora até ela aparecer na entrada do hospital. – A entrega, precisa assinar.

– Ah, claro. – Ela vem prontamente e assina o documento.

Doutora Rose pega duas caixas com a mão e pisca o olho para mim. Era minha hora. Vou até onde os medicamente estão e um ajudante de carregamento, vai pondo as caixas em meus braços. São postas várias, consigo aguentar o peso. Quando chego no limite, começo a caminhar para dentro. Sigo a Doutora até onde ela deposita suas caixas, fica numa sala ao fim do corredor, depois de todas as alas. Coloco as caixas em cima de uma prateleira, que com exceção de três míseras caixas, estaria provavelmente vazia. Retorno o carro e pego mais medicamente, e é este o ciclo que passo a fazer até que todas as caixas sejam tiradas.

Quando o motorista fecha o baú do caminhão, seguro firmemente as caixas restantes e aperto sua mão:

– Obrigado, Senhor.

– De nada, cara. Ei, estava na TV ontem? Eu te vi. – Ele diz apontando o dedo para mim.

– É, estava. – Concordo simpaticamente.

– Bom trabalho, man. Agora eu e o Leroy vamos logo. Temos muitos medicamente para entregar. Sorte aí com as crianças.

– Tenham um bom dia. – Me viro para entrar no hospital e me aproximar dos portões, ouço uma voz.

– Grey, já trabalhando a essa hora?

Ai não.

– O que está fazendo aqui, Robert?

Robert aparece vestindo uma calça de Moletom e uma camiseta escura larga com capuz. Está suado e com fones de ouvido, quando me viro. Parte dos cabelos parecia grudar na testa e os braços estavam à mostra. Eram fortes e o peito definido por baixo da camisa, fazia-se mostrar da mesma forma. Não posso cruzar os braços para tentar completar a expressão de indiferença, então apenas encaro.

– Perturbando a sua vida, isso passou a ser a minha coisa favorita. E ficará pior, Sr. Grey. – Ele ergue os lábios e molda o sorriso debocha.

– Meresso! – Minha cabeça está em negação e viro para entrar.

– Já olhou sua conta como eu disse?

Com tanta coisa na cabeça e precisando cumprir a ida ao hospital, eis que lembro-me da conta ao ouvir dele. Olho para trás:

– Não ainda, Sr. Conroy. Tenho alguns trabalhos para fazer, verei logo menos.

– Pois aconselho a não demorar. Você, mais do que os outros, vai gostar bastante. – Ele segura uma garrafa de água com a mão direita e bebe um gole generoso. Vejo sua garganta agitar-se com a água e pergunto-me como pode estar aguentando usar aquela roupa tão pouca no imenso frio. Ele realmente tem problemas, nunca foi difícil perceber, mas aprece que consegue se superar a cada momento. Robert consegue agir naturalmente como se nada houvesse ocorrido na noite passada, seria isso cara de pau? É, acho que percebi esse detalhe dele também. Mesmo após eu acreditar que não há mais nada a ser dito, Conroy para e fica a me olhar da pontinha da calçada, dou as costas:

– Até mais tarde, Sr. Conroy.

– Esqueceu que não vai haver ensaio hoje? – Ele me questiona com um tom de voz desconhecido.

– Ah não? Melhor ainda. – Adentro o hospital e balanço a cabeça negativamente.

Odeio, com todas as forças, odeio a maneira com a qual apenas a voz dele começa a me fazer ficar. É como se eu estivesse dividido entre o conforto suave do meu pensamento e o inferno conturbado do que Robert produz em mim apenas ao falar. Por um lado me sinto culpado por possivelmente o ter ignorado da pior maneira, no entanto, preciso começar a cortar os laços que eventualmente tendem a existir entre nós. Estou acostumado a me isolar, e isso se mostrou como a melhor maneira de ser a pessoa que eu sou. O orgulho por mim é crescente, o que decresce é a necessidade de se estar ao lado das pessoas.

Levo a caixa até o lugar no qual deve ser guardada, já é perceptível a diferença para como encontrava-se antes de todo aquele carregamento. Ao pôr as últimas caixas no topo da estante principal, fecho a porta e saio. Ao passear pelo corredor, encontro a habitual porta.

– Trabalho manual irá a falência por vocês. – Digo em meio a uma risada divertida.

Não demora até que eu perceba que algo diferente se passa no lugar. As cadeiras estão distribuídas num círculo e duas cadeiras maiores no meio. Penny está sentada e um lençol rosa está amarrado às suas costas, enquanto segura uma caixinha de jogo de vareta na mão direita. George senta-se ao seu lado e ao invés da capa rosa, veste-se com uma azul escura. Também segura um centro.

– A gente tá brincando de Rei e Rainha, Teddy. Vem! – Grita Penny.

– Penny é a nossa Rainha. – Diz uma das garotas com ânimo nos olhos.

As pessoas sempre precisam de um ícone, aquela pessoa que as representa a força que provavelmente já não tem mais, ou que nunca tiveram. O ânimo nos olhos da garotinha sobre Penny, mostra-me que apesar dos sorrisos que a maioria exibe, no fundo existe a angústia da necessidade de uma figura que os ajude a seguir em frente. E Penny é um bom exemplo de força.

Vou até ela e prostrando-me elegantemente numa reverência, gesticulo com os braços a abri-los:

– Seu humilde súdito às suas ordens.

– Que súdito educado e encantador. – Ela diz tentando demonstrar uma voz firme, porém doce.

– Eu desejo uma enorme tigela de gelatina, súdito. – Diz George.

– Providenciarei, Senhor Rei. – Digo ficando de pé. – Este reino está muito bonito hoje, hein?

– Acho que deve ser o conselheiro deste reino, Sir Grey. – Penny coloca seu “cetro” encostado delicadamente na lateral da têmpora.

– Quão grande honra seria, Rainha Summers. – Comento com os braços cruzados.

– Então, já que a minha Rainha deseja este conselheiro, que seja feito. – Rei George levanta o centro. – Mas vai ter de me dar muitos doces.

– Vou providenciar também, Senhor.

Ao falar sobre providenciar, lembro automaticamente do que havia esquecido. A conta. Preciso checar a conta. Puxo meu aparelho do bolso da calça e me afasto um pouco das crianças. Digito os dados e faço Login no banco virtual. Meus olhos quase desabam e encontram o chão no maior encontro romântico do século, não fosse pela minha língua que é mordida para despertar a mim. A quantia absurda que surgira me deixa até nervoso. Sou desperto pela voz da Doutora Rose:

– Teddy? Está tudo bem?

– Ótimo, na verdade, Doutora. – Coloco o celular no bolso. – Os remédios que chegaram agora são suficientes para todos?

– Sim, e por Deus, nos ajudou muito. Estávamos na escassez.

– E eu pretendo ajudar mais. Vamos trazer o velho hospital de volta. – Digo com esperança nos olhos.

– Mesmo com todo esse seu entusiasmo, temos de ser sinceros, Teddy, não é fácil. É bem complicado. – Ela cruza os braços.

– Não preciso que seja fácil, só preciso que seja possível.

– Posso saber por que não estou tendo atenção hoje? – Sinto alguém puxar minha camisa.

Penny ainda veste a capa rosa e me encara de baixo. Franzindo o cenho para ela, deixo um pouco a Doutora de lado e digo:

– São assuntos para futuras melhorias, Rainha Penny.

– Acho que deve ter brigadeiros neste meio, estou ansiando por brigadeiros. – Ela começa a mexer na capa rosa inocente.

– Acho que vai ter sim. – Abaixo ao nível dela. – Como tem se sentido ultimamente?

– Bem, muito bem. Acho que as crianças não me odeiam mais. – bate na mão de George, este passo com um cavalinho de pau e correndo.

– Nunca odiaram! – Sou rápido.

– Agora me fizeram até ser Rainha, disseram que sou muito inteligente. E você? – Ela põe os pequenos braços nos meus ombros. – Se acertou com a família?

Por que família é tão importante para todos? Sinto que a minha vida se dividiu sobretudo nas opiniões em que a incluem. É difícil para mim entender que é como se não tivesse mais família, mas quanto mais eu correr, tenho a certeza de que isso vai aparecer uma hora. Disfarço o desconforto:

– Não. – Soo fraco.

– Precisa conversar com eles uma hora, Teddy. Família é bom, até mesmo quando ela não te vê maravilhoso como você é. Deve mostrar isso a eles. – Ela corre até sua cama e me deixa abaixado. Quando retorna, ela traz consigo a boneca que jamais solta. – Família é tão bom que a Katy gosta de mim, mesmo eu sendo careca e feia.

Minha garganta engasga ao ouvir aquilo. Como pode uma criança se ver tão daquele jeito? Com o coração nervoso, olho-a:

– Você não é feia, Penny. Na verdade, é a menina mais bonita do mundo. Seria uma linda modelo. – Faço biquinho. – Pare de se chamar de feia. Vem cá. – Puxo ela com cuidado e a subo nos meus pés. – Because you know i’m all about that bass. – Dou dois passos com ela por cima. Um para frente e outro para trás. Ela tenta se equilibrar.

Em pouco tempo, eu e Penny começamos a dançar de uma maneira totalmente descontraída. Eu a guio em meus pés e ela olha para o meu rosto e começa a rir, tento cantar para amenizar o fato de que não estávamos fazendo a melhor coreografia. Era como se as guitarrinhas de All about that bass tocassem ao nosso redor. Segurava minha pequena com cuidado e num momento aleatório a desci, começamos então a pular e puxar as outras crianças. De um em um, todos começam a bater palmas sem a sonoridade da música. Vários sorrisos começam a se fixar nas expressões que muitas vezes pareciam sofridas diante do câncer. Penny e George firam com suas capas reais.

– Agora egípcio. – Eu gritava e todos começam a fazer os passinhos. Viram o rosto, equilibram os braços e mãos alá Egito.

– Mas o que é isso? – Jane, a responsável pela ala, aparece. Está sem entender. Puxo-a pelo braço e ela ainda mantém a face de desconserto.

O grupo continua seu momento doido e em relances, elevo meus olhos à Penny. Esta com as maças do rosto alegres e os olhos brilhando. Ela não é mais a pessoa que eu encontrei aqui, da mesma forma como estou começando a achar que eu também não sou.

(...)

– O que foi isso, Teddy? – O Senhor Frank me olha da cabeça aos pés.

Em meu corpo, especialmente em meu rosto, há vários rastros de chocolate passado. O resto do dia com as crianças havia me rendido duas coisas: brigadeiros e um rosto devastado pela tonalidade dele. Ainda assim, sorria de uma forma gostosa e singela:

– Seja sempre voluntário de um hospital para crianças, vai ganhar isso, mais do qualquer gratificação. – Adentro o portão e dou um breve aceno para ele.

Uma vez tendo cruzado os corredores e escadas até o meu quarto, encontro um papel preso à porta. Passo a superfície do dedo indicador pela escrita:

Caro Formando,

Venho por meio deste informe, anunciar que estarei visitando as unidades residências de cada um de vós, a fim de entregar suas becas para a solenidade de formatura. Sinto que é diferente, porém é uma tradição nova. As visitações se iniciarão a partir das seis da tarde. Estejam prontos.

Atenciosamente,

Marlene Thredson.

Olho no relógio e percebo que faltam apenas dez minutos para as seis da noite. Não, não, não. Destravo a porta rapidamente com a chave e corro para dentro. Por que ela tinha de inventar alo assim hoje? Não vai dar tempo. Estando sujo de brigadeiro, a única saída que encontro é um banho, a prioridade. Vou arrancando as roupas e jogando pelo meio do caminho. Chego apenas de cueca no banheiro e jogo esta do lado de fora do Box, quando assim fecho o compartimento e ligo o chuveiro.

Me esfrego rapidamente com a esponja, na esperança de que não reste nenhum vestígio do brigadeiro. Seria realmente traumatizante não soar apresentável à diretora. Tento o melhor que posso, inclusive quando escolho a vestimenta. Não utilizo nada muito chamativo, apenas uma calça clara de moletom e uma camisa de lã azul marinho. Afinal, a noite era para recolhimento das pessoas, e eu poderia muito bem estudando em meu quarto, já que era uma das poucas possibilidades para a noite. Se bem, que devido à minha situação para com a produtora, depois de explicado o fato à Thredson, não havia muito que pudesse ter feito a não ser me liberar com um termo de volta a tempo da aula.

Apressado, mal noto que levei os exatos dez minutos par ame preparar. Vejo isso ao perceber alguns momentos depois, que o relógio marcava 18:10. Ou seja, passaram-se dez minutos a mais e eu não havia sido escolhido para ser o primeiro. Vou até um pequeno aparelho de som, localizado em minha mesinha de cabeceira. Um Pen Drive é sempre deixado acoplado ao sistema, e quando assim necessito em ausentar brevemente da situação real, a música simplesmente me leva. Ao dar play, um instrumental melódico e nostálgico invade o quarto. Uma das canções de Lana Del Rey é o que se segue. Com os acordes profundos e a voz diferente. Jogo-me na cama e puxo um exemplar de contos colado debaixo do travesseiro. “E Ariel desejava apenas ter pernas para poder conhecer o mundo que estava escondido. Sentia-se diferente, sentia-se estranha.” – Leu coerente com a partilha de ideias do quanto identificava Penny ali, do quanto se identificava ali. Pessoas estranhas buscando seu par de pernas para conhecer o mundo. Ouço batidas na porta.

Levando automaticamente, corro e abro a porta. A Senhora Thredson veste um vestido preto nos joelhos e um coletinho branco de renda. Abre um sorriso e noto que segura um pacote envolto por um plástico, a beca, certamente:

– Sr. Grey, posso entrar?

– Fique à vontade, diretora. – Abro espaço para ela entrar, esboço um sorriso.

Ela entra e tenho a breve sensação de que está vistoriando o quarto. Pelo menos ainda mantém uma expressão que gosta do que vê, no rosto:

– Que lugar aconchegante, lembro deste quarto desocupado. Parece que deu vida à ele, Sr. Grey. – Ela diz admirando a parede dos retratos.

– Pode chamar de Theodore ou só Teddy, Senhora. – Digo indo até uma poltrona, indico para ela – Sente-se aqui, diretora.

– Oh, que rapaz gentil. – Ela senta-se onde indico. – Como pode ver, aqui está sua beca. Mas acho que leu o pequeno informe pregado na porta, ao qual não recebeu pessoalmente porque deveria estar ocupado. – Ela estende a roupa para mim.

Seguro o enorme pacote e puxo uma poltrona. Aninhando o pacote em meu colo, sento:

– Imagino que deva querer falar algumas coisas, digo, não sairia por aí só para entregar as becas, diretora. – Digo, mas de uma maneira que não soe petulante, mas sim, meigo.

– Sim, e além de gentil é esperto. Não seria para menos, foi indicado por todos para ser o nosso orador oficial.

– Sim. – Isso sai fraco e conformado.

– Posso fazer-lhe uma pergunta, Theodore? – Ela muda sua feição para algo curioso.

– Sim, claro. Quantas quiser.

– Você tem planos para alguma faculdade?

Sou pego de surpresa, não havia pensando naquilo. Quer dizer, em Seattle eu sabia que sairia da escola e iria direto cursar Literatura inglesa. Iria fazer o mesmo que a minha mãe, voltar para SIP, e depois trabalharia nos negócios da mesma. Não me dei conta de que todos estes planos mudaram quando vim para Nova York, me foquei mais na questão do não ter pessoas, do quanto havia perdido, mas não dos planos que deixei. Agora eu tinha a Broadway, a Penny, sobretudo a última, alguém que dependia de mim, porém não havia o meu futuro. Sinto como se ele tivesse se desfeito quando subi no avião, agora sim, diante da pergunta:

– Eu...- Gaguejo um pouco. Desabafo por fim. – Não.

– Vou te dizer algo. Quando seu pai me procurou há meses atrás, logo no meio do ano letivo, logo imaginei que havia algo grave para transferi-lo para cá numa ocasião tão próxima da conclusão, principalmente pelos muitos gastos, porém de gastos ele pode usufruir. – Ela tenta até ensaiar uma risada. – Ele é muito sério, mas por trás daquilo vi que tinha algo que não podia distinguir a princípio. Por fim, terminei concordando com sua imediata vinda. Só que com o tempo eu notei que ninguém mais da sua família veio, acreditei até ser uma mudança forçada, foi apenas você. Mas até então você se destacou, e com pouco tempo não havia um professor nesse lugar que não elogiasse você dez vezes ao dia, sobretudo o de matemática. Parece ser bom os cálculos, na verdade, em tudo que se dispõe a fazer. – Ela ainda me avalia. – Na minha conclusão, houve algo muito sério, algo que eu francamente não sei, todavia que me deixa com a certeza que não foi bom. Como educadora, e pelos anos de estudo, por trás de toda essa sua mente brilhante tem algo que te faz muito mal e tenho quase certeza que tem a ver com sua família.

A cada palavra dela, sou pego no meio, estou sem saber o que falar, como podia saber tanto e ainda assim, nada? As pequenas rugas da idade estavam em alguns pontos de sua face, bem como, seus cabelos amarrados e grisalhos.

– Eu estou muito preocupada com você, agora muito mais. Se não percebeu, isso aqui acaba amanhã. Para você, acaba hoje, pelas excelentes notas e tendo em vista o bom desempenho, o professor faltante acaba de lhe liberar da prova por você ter pontos em excesso. – Minha expressão altera-se para algo de surpresa, porém silêncio. – Me preocupa saber que alguém com tanto talento pode estacionar aqui, assim como muito, quando finalizam o ensino médio. Não digo que não fará sucesso na Broadway, pois por sua apresentação na TV ontem, eu tenho certeza que vai ser brilhante. Ainda assim, eu temo por você, meu querido. Porque por mais devastadora que uma situação pode ser, é você que sai dela. Não é sobre as pessoas, é único e exclusivamente você. – Ela põe a mão por cima da minha em meu colo. – Eu queria que metade dos que já abrigamos fosse assim como você, muito obrigado, Theodore pelo belíssimo trabalho para com o St. Church. Vai fazer falta quando tirar essas fotos do quarto, leva com ele a vida que fez, porém espero que para melhorar tudo no seu coração. – Retirando a mão do meu colo, ela consegue me deixar sem palavras. – Agora devo ir, tenho mais uma boa turma para entregar becas. Pense no que disse, pense no futuro.

Ela levanta de sua poltrona e dirige-se à saída. Eu levanto para acompanhá-la:

– Professora, e se ajudar outra pessoa for meu futuro? Digo, ser por ela? – Pergunto.

– Bem, não pode ajudar uma pessoa enquanto não ajudar a si mesmo. Ou talvez possa, mas dependendo da situação, há sempre um preço, querido. Tenha uma boa noite. – Ela diz serenamente.

– Boa noite, Senhora Thredson. Me recosto na porta e a vejo se afastar pelo corredor, entra numa porta bem distante.

Ao fechar minha porta, eis que mal posso acreditar na liberação e nem que seis meses se passaram tão depressa. Há seis meses eu preguei essas fotos na parede, deixei tudo em casa, mas está na hora de tirá-las de volta e decidir o que farei, pois acima de tudo, nunca achei que pensaria assim, mas eu nunca vou voltar para casa e eu nunca mais serei aquele garoto novamente.

Notas finais
Pois bem, depois da minha viajem, trouxe boa parte de capítulos prontinhos. Espero que tenham gostado e enviem suas reviews, elas são muito importantes. Em breve estarei deixando o link para a trilha sonora da cor vibrante.