50 Histórias para ler antes de dormir

3 Capítulo 2 - A bibliotecária (Parte 2)


Acordar com uma enorme preguiça sabendo que o prazo estava cada vez mais curto. Seu corpo parecia pesado como se tivesse levado uma surra. A luz do sol parecia se impor em seu apartamento, ao menos isso a ajudaria a despertar mais rápido.

No celular. 15 ligações perdidas de sua amiga Juliana, porém estava tudo em silêncio. Na rua. Na tv. Na rádio.

Antônia tomou um banho. Ela pensou:

"Talvez algum livro da biblioteca aclare minhas idéias e eu consiga terminar este maldito artigo."

A ideia parecia simples. Tomar um banho frio, beber café e ir até à biblioteca. Ela deveria estar aproveitando suas férias para terminar o artigo, mas ao invés disso tudo parece levá-la ao seu local de trabalho.

Por volta de uma hora depois ela estava aparentemente bem e até maquiada quando se pôs a ir até a rua. Não havia comido quase nada naquela manhã, mas seu corpo parecia não sentir falta da comida. Ao contrário, se ela comesse um pouco mais era capaz de vomitar.

A rua estava novamente deserta. Não haviam carros, ônibus ou sequer pessoas andando de bicicleta. Mas Antônia parecia não se importar. Mesmo parecendo com uma cidade fantasma, para ela era natural. E se tornava cada vez mais parte de seu dia-a-dia.

No caminho para a biblioteca ela colocou umas moeda no chapéu flutuante. Não havia ninguém segurando ele, por isso era flutuante. E ele todos os dias parecia esvaziar e encher de moedas novamente. Ao chegar na entrada da biblioteca ela deixou seus pertences na entrada. Novamente não havia ninguém lá. Suas coisas simplesmente foram sozinhas até um dos armários e uma das chaves foi até ela. A biblioteca estava vazia, mas os objetos e móveis pareciam mover-se sozinhos.

Ela estava sozinha.

Respirou fundo como se estivesse tentando manter a cabeça no lugar e foi a sessão 025 das generalidades. Ela observou os livros entrando e saindo das prateleiras, mas sua expressão facial era de quem estava vendo normalidade em tudo aquilo. Pegou um livro qualquer e folheou, o título era "Cenários da organização do conhecimento: linguagens documentárias em cena". Dentro da biblioteca havia uma área arborizada e ventilada. Servia para aqueles que não gostam de se sentirem enclausurados ou que tinham problemas com o ar-condicionado do lugar. Era bastante útil.

Entretanto era como se o livro estivesse com suas páginas em branco e apenas algumas palavras ou frases se revelavam para ela. Com isso, sua respiração parecia mais agoniada como quem evita o choro. Antônia olhava para os lados e não havia ninguém, com exceção de um pássaro que parecia a encarar. Ela fechou os olhos por um momento respirando fundo e quando os abriu o pássaro não estava mais lá. Ao invés disso era o homem esquisito da noite anterior, desta vez usando uma camiseta do Metallica e uma calça jeans azul claro com tênis.

— Olá! Posso me sentar aqui? Lá dentro tá lotado.

Ela olhou pros lados e não havia ninguém além deles dois na biblioteca.

— Quem é você?

— Eu já te disse Antônia, sou Lúcifer! E a propósito, seus amigos estão bem preocupados com você. Deveria atender as ligações de vez em quando.

O homem alto e vistoso parecia tranquilo e com um olhar observador. Como se fosse um psicólogo ou até mesmo um degustador de vinhos.

— Você é um stalker? Está me seguindo? Olha que chamo a polícia.

Antônia não tinha forças ânimo para ameaçar, portanto suas palavras ao invés de ameaçadoras pareciam calmas como uma brisa de verão.

— Está lotado aqui. Deveria falar com alguém.

Ela olhou novamente em redor e não havia ninguém além dos livros "andantes" ou dos objetos que se moviam.

— Deixa-me em paz.

— Não posso Antônia. Sou o Diabo, lembra? Além disso, não o é o que realmente deseja.

— Olha querido, essa sua paquera não vai funcionar comigo. Aquilo é só uma série e você não é real, ok?

Neste momento ela ficou realmente sozinha. Não havia ninguém na biblioteca. Nem mesmo o maluco que se dizia ser o anjo Lucifer saído de uma série de tv.