50 Histórias para ler antes de dormir

4 Capítulo 2 - A bibliotecária (Parte Final)


— Pronto. Enviado!

Dias haviam se passado e finalmente a bibliotecária havia terminado seu artigo científico e enviado para a revista. Novamente ela estava só em seu apartamento. Não saía, a não ser que fosse para a biblioteca, mas isso é trabalho, não conta.

Um vazio tomava conta dela. As luzes da casa falhavam. Como haviam sido instaladas todas ao mesmo tempo, era natural que começassem a falhar na mesma época. A missão de Antônia acabara ali e não havia mais nada que a prendesse naquela cidade fantasma.

Foi aí que então que ela decidiu ir ao parapeito do apartamento. Carros e motos andavam sem motorista ou passageiro. As pessoas eram invisíveis. Olhou uma última vez para dentro de seu apartamento. Ele era perfeito. Tinha de tudo, frigobar, cooktop, tinha até banheira de hidromassagem! Seus DVDs de Chaplin estava todos por ordem cronológica, tinha até a trilogia de The Librarian! Os livros todos organizados na estante... Mas mesmo assim, aquilo não a prendia.

Antônia então fechou os olhos. Se deixou levar pelo vento rápido e cruel. Ela dormiu.

Ao abrir os olhos estava em outro lugar. Era congelante e cheio de pessoas que se lamentavam ou gritavam de dor. Ela estava e um grande salão e diante dela havia um grande telão onde parecia estar passando um filme.

— Fizeram um filme do meu bairro?

Ela reconheceu a rua do filme. Era sua rua.

Muitas pessoas estavam amontoadas parecendo estar olhando algo, mas um choro se destacava naquela multidão. Era da sua amiga Juliana.

— Curioso, não é? Como de repente você consegue notar as pessoas... Está vendo aquela criança ali ao lado da Juliana? Seu irmão que você não vê faz dois anos. Seria muito da sua parte ao menos telefonar? -disse Lucifer em seu trono muito bem vestido. Ele a encarava com aquela cara de... Melhor que ele mesmo diga daqui a pouco.-

— Mas o que isso significa? E onde estou? Isso é uma pegadinha não é?

Antônia parecia apavorada.

— Eu te avisei. Tentei colocar um pouco de luz na sua vida, te fazer enxergar que devia procurar ajuda ou até mesmo tentar contacto com as pessoas, mas falhei. Sinto muito em te dizer isso, mas aqui é o Inferno e você minha querida, você está morta.

— Não, isso não é verdade...

— Sim. É a mais pura verdade e aquilo ali é o que está acontecendo agora nesse momento. Me deixa colocar um pouco de zoom na tela. Tá vendo? Tá vendo ali? É você. Mortinha da Silva. Aparentemente nem mesmo o Diabo conseguiu te salvar, mulher.

— Então... Estou no Inferno? Pra sempre?

— Eu adoraria ter sua companhia, pela inteligência e tudo mais. Admito que seria ótimo a ajuda de uma bibliotecária pra colocar um pouco de ordem por aqui minha linda, mas... Não foi culpa sua se sentir daquele jeito. Ninguém escolhe sentir o que você sentia. Lembra da Divina Comédia do Dante Alighieri?

— Lembro. Mas antes eu não teria de ter passado pelo limbo e entregada moedas ao barqueiro Caronte?

O diabo riu achando aquilo engraçado.

— Não precisa conhecer o limbo, pelos 13 cantos do Inferno e pelo purgatório para se poder chegar ao paraíso. Também não acho que a Beatrice seja a melhor pessoa para recepcioná-la. -ele a olhava com interesse- Seu lugar não é aqui. Mas parece que alguém lá de cima gostaria que tivéssemos essa conversa antes. Não foi sua culpa. E acredite no que eu digo, porque antes de ser o diabo, acima disso sou o anjo portador da luz, do conhecimento e do livre arbítrio. Agora siga naquele corredor. Ao final dele tem um elevador. Basta entrar nele e apertar o botão para subir.

— Simples assim?

— Você já está morta mulher! E tem passe livre pro paraíso, mas se quiser, podemos brincar um pouquinho. Entretanto se isso acontecer vai perder seu bilhete premiado.

Ele usava seu jeito sedutor ao falar. Já Antônia, não disse nada. Olhou uma última vez ao painel onde estava a vida que deixaram pra trás. Assentiu com a cabeça ao Lúcifer e seguiu pelo corredor que lhe fora indicado. O corredor parecia longo e úmido. O calor foi tomando conta do lugar tornando tudo abafado. Numa determinada parte do corredor não tinha paredes e o chão se tornara uma ponte.

Ao olha para baixo, via-se larva vulcânica. Fato que a apavorou, mas a certeza de que estava chegando cada vez mais perto da porta do elevador a fez seguir em frente. A ponte ia ficando cada vez mais estreita e ela dizia a si mesma "Tenha fé. Você vai conseguir!" e ela conseguiu. Entrou no elevador e quando a porta se fechou a sensação era como se uma brisa fresca soprasse em seu rosto.

Antônia apertou o botão para subir. Tudo começou a ficar agradável, claro e era como se finalmente começasse a sentir paz. A porta do elevador abriu-se. Era tudo tão claro e vivo que quando ela saiu foi como se um sopro de vida inflasse seus pulmões.