50 Histórias para ler antes de dormir

2 Capítulo 2 - A bibliotecária (Parte 1)


Era noite de quarta-feira, véspera de feriado de Corpus Christi, quando Antônia digitava em seu laptop mais um artigo para tentar submeter em alguma revista científica da área de Biblioteconomia e Ciência da Informação. Eram apenas 9h da noite quando ela teve um bloqueio de escritor. Antônia tinha ali diante dela todo um referencial teórico sobre a imagem do bibliotecário através do cinema, séries de tv e animações, mas aparentemente o seu cérebro não queria colaborar com ela. Era como se as idéias não conversassem entre si.

A noite estava tranquila e o céu estrelado sem nuvens em nada revelava o caos que estava na cidade, melhor dizendo, no país. Era 30 de março de 2018 e faziam 10 dias que os caminhoneiros do país estavam bloqueando estradas numa greve que não parecia ter mais fim. Enquanto isso, Antônia continuava com seu bloqueio de escritor.

Sua série favorita Lucifer fora cancelada semanas atrás, mas ela sabia que a emissora de TV tinha disponibilizado na segunda-feira os dois episódios iniciais que seriam da 4ª temporada (já cancelada) e que já estavam prontos. E como ela amava aquele diabo! O Lucifer interpretado pelo Tom Ellis pareceu tão humano, sexy e diabólico que sem perceber ela já amava o diabo e sentia-se a própria Mazekeen, que do elenco feminino era seu personagem favorito.

Antônia tinha em seu apartamento o seu próprio arsenal de adagas cuidadosamente afiadas e dentre elas uma réplica da faca da Ruby (personagem da série Supernatural) com o poder de matar demônios. Como podem ver, ela tinha uma certa fixação pelo sobrenatural e tudo o que envolvia anjos e demônios.

Ela levantou-se da cama deixando seu laptop de lado e foi beber água. Concentração em algo por muito tempo numa foi seu ponto forte, até porquê em geral ela tinha um certo défict de atenção. Ligou sua playlist do celular e foi olhar a rua da janela. Ela usava uma babydoll de algodão cor azul claro e curto. Era noite quente e o ar-condicionado estava quebrado. As luzes da cidade estavam acesas, mas ninguém passava pela rua, excerto um homem esquisito que ela havia reparado próximo a um telefone público.

Sinceramente nem ela mesmo sabia se aquilo ainda funcionava, levando em conta que quase todo mundo hoje em dia tem pelo menos 1 celular em casa.

Então a fome bateu.

Já eram quase 10h da noite e estava tocando "Being Evil has a price", ela não sabia quem cantava, mas baixou a música pelo prazer de ouvir a música tema de Lucifer. Vestiu rapidamente uma calça de caminhada e colocou um casaco por cima de sua blusa de dormir, colocou um tênis mesmo sem meias e saiu do apartamento. Ao sair, cumprimentou o porteiro e fez uma leve corrida pela rua.

"Talvez dê tempo de comprar algo no Subway daqui da rua. Ou isso, ou pedir pelo iFood e rezar pra chegar em menos de 1h."

Havia pensado ela enquanto se dirigia ao fast-food. Por sorte ainda haviam clientes ali. Poucos, mas haviam, dado a hora da noite em que se encontravam.

Ela escolheu como queria o sanduíche e o refrigerante, após pagar foi caminhar no calçadão da praia até achar um bom banco para se sentar. Acho que não mencionei que Antônia morava perto do mar, mencionei? Pois bem, ela mora bem pertinho da praia.

A brisa do mar entrou pelas suas narinas enchendo seus pulmões. Daquele lugar, ela pôde ver os últimos clientes do Subway indo embora e os funcionários fechando o estabelecimento. Naquele momento tudo o que a afligia era como se não existisse. A biblioteca em que trabalhava, o artigo que precisava terminar. Ela sentia-se pequena diante daquele mar todo que rebentava nas rochas.

Uma mão pousou em seu ombro.

Antônia sentiu como se seu corpo todo congelasse com o susto que tomou. Um assaltante não era, até porque que tipo de assaltante coloca a mão em seu ombro ao invés de render a vítima? Talvez fosse algum amigo que tinha apenas a intenção de lhe pregar um susto.

— Posso me sentar?

Ela olhou por cima do ombro e viu. Era o homem esquisito que ela havia visto perto do telefone público do alto de seu apartamento antes de sair. Ele não parecia tão esquisito assim olhando de perto, com exceção do sobretudo em uma noite quente. Entretanto na orla da praia não fazia tanto calor assim, até que a brisa era bem gelada.

— Claro. -disse ela dando gole seco. De perto, até que era bem bonito e charmoso.

— Desculpe se te assustei. Não foi minha intenção.

— Tudo bem.

— A propósito, me chamo Lucifer.

O homem parecia muito seguro de si e ao mesmo tempo misterioso. Com esta apresentação até arrancou um riso da bibliotecária Antônia.

— Perdão? Isso é alguma piada?

— Piada do meu pai, talvez.

Ela olhou pra ele incrédula, obviamente. E então pensou em entrar no jogo e fazer piada com isso.

— E eu sou a Detetive Decker.

— Não... Com certeza a senhorita não é a "Detective"!

— Então... Também assiste a série?

— O diabo não perde seu tempo assistindo shows de tv se é isso que quer saber.

— Cara, você é maluco. -disse ela num tom descontraído.

— E você uma bibliotecária. -ele reparou na reação que ela teve, corpo enrijecido com surpresa daquele estranho saber sua profissão.- Surpresa? Não fique... Sabe o que te falta senhorita? Um pouco de ambição. Sério mesmo que quer passar a vida de casa pro trabalho e morando sozinha pelo resto da vida? Isso é muito chato. Para não dizer tedioso.

— Já chega. Vou pra casa. -ela se levantou, mas sentiu a mão dele pegar em seu braço.- Me larga ou eu vou gritar.

— Grite o quanto quiser, ninguém vai te ouvir. Veja, não vim pra te machucar, apenas para colocar um pouco de luz numa vida que é puro tédio.

Ele estava sorridente, mas ela não viu graça alguma naquele sujeito. Ao ter seu braço largado ela o encarou. O desgraçado tinha um belo sorriso e parecia se divertir com a situação.

— Cai fora e não me segue! Palhaço...

Ele ficou sorrindo como se pra ele fosse apenas um jogo e ela foi pra casa bastante irritada. Não entendia qual a piada, ou o porque de um estranho saber seu nome e em que trabalhava. Talvez fosse um stalker. À primeira vista não parecia perigoso, mas psicopatas nunca parecem perigosos de início. Ela olhou pela janela do apartamento para ver se ele estava lá, mas não estava.

Talvez estivesse engajada demais no movimento #SaveLucifer e aquilo tinha sido apenas alucinação ou talvez fosse apenas um bêbado charmoso e maluco que tinha sido pago por algum de seus amigos do trabalho que estavam cansados de tanto ouvir ela dizer que queria sua série de volta e o quanto odiava a emissora FOX.

O fato era que ele não estava lá, mas ela estava.

E o artigo? Bem, ele ainda precisa ser finalizado.