50 First Dates
6 Flashback
Notas iniciais
Flashback
–Estão todos prontos?
Perguntei ao grupo que formava um semicírculo na minha frente. Um calafrio desceu pela minha espinha quando todos disseram que sim e cruzamos juntos a barreira do acampamento.
Parei ao chegarmos à beira da estrada, dizendo algumas palavras e jogando meu dracma na rua, depois o assistindo desaparecer. Alguns segundos depois um táxi feito de fumaça se materializou no mesmo lugar e todos entramos, sentando onde cabia.
–Para onde, meus docinhos? – perguntou a irmã da esquerda, que naquele momento estava em posse do único olho compartilhado pelas três.
–Estação de ônibus interestadual, por favor.
A verdade é que não sabíamos exatamente para onde iríamos, pois a profecia só dizia “sul”, logo depois fazendo referencia a um lago. O único lago que realmente me lembro agora é o Ontario Lake, que não é exatamente sul mas é sul sim.
O trajeto é a estação não foi o que poderia se chamar de agradável, mas uma coisa foi: rápido. Chegamos lá em alguns minutos e nos reunimos em frente à bilheteria.
–Ok pessoal. O único lago que me vem à memória agora é o Ontario Lake. Como ele vêm do Canadá e desce para os Estados Unidos, é um referencial de sul. E pelo menos é um começo. Alguém tem alguma outra ideia?
Todos negaram com a cabeça e eu assenti. Fomos em direção ao balcão e compramos oito passagens para Fair Haven, uma cidade na beira do lago.
Quando estávamos quase entrando no ônibus, Annie veio até mim.
–Hey Katie.
–Oi Annie, e aí, algum problema?
–Não, nenhum problema. E você é uma líder nata, sabia disso? Só que... Você pode falar se ficar assustada; todos nós estamos com medo. Eu vi a sua mão tremendo enquanto comprava a passagem: não precisa se preocupar, vamos encontrar o Travis.
–Obrigada Annie.
O abraço que veio a seguir foi com certeza um dos mais longos e mais apertados da minha vida. E um dos melhores, sem duvida. Annie é aquele tipo de pessoa que, mesmo quando o namorado super gostoso dela esta ali por perto, vai sempre estar lá pra você.
–Ei Thals – chamei a menina que estava sentada no banco atrás de mim.
Thalia tinha olhos elétricos, como se cada vez que você olhasse para ela, raios aparecessem neles. Tinha uma pele clara que contrastava com seu cabelo bem escuro.
–Fale.
–Me conta como vão as coisas?
–Ai Katie, você também não! Eu não aguento mais as pessoas vindo puxar papo querendo saber de Luke por mim...
–O que que tem eu? – falou um menino se apoiando nos nossos bancos.
Luke era alto, um ano mais velho que o resto de nós. Tinha os cabelos dourados quase como se fossem feitos de areia. Seus olhos eram azuis com o mar e seu físico... Bem, Luke não era alguém de se jogar fora, cá entre nós.
–Nada, Castellan. Fica se metendo na conversa dos outros e escuta as coisas do avesso – disse Thalia revirando os olhos.
–Eu me meto onde bem entender, baixinha. Aliás, tá uma gata, andou malhando?
–Não enche criança – os olhos de Thalia brilharam e ela ficou vermelha. Quando achei que ela iria explodir, um sorriso maroto apareceu no seu rosto.
–Criança? Pelo que me lembro sou um ano mais velho que você, gracinha. – Luke disse e depositou um beijo no canto dos lábios de Thalia para depois levantar e ir embora.
–Ai. Meu. Deus. Ele está totalmente caidinho por você! E você hein, dona, sabe provocar! Meus parabéns – disse Annie, chegando com Camilla.
Um raio retumbou no céu e Thalia murmurou um “droga” bem baixinho, tanto que só nos escutamos. Caímos na gargalhada ao ver a cara de Luke que olhava para os céus assustado. Ele logo se tranquilizou se virou para Thals e deu uma piscadela. Quando Luke já estava de volta a conversar com os meninos, Thalia deu o maior suspiro, até o próprio deve ter escutado.
–Eu sabia que você gostava dele! –disse e Thalia se virou envergonhada pra mim.
–Eu gosto. Mas ele não gosta de mim assim, quero dizer pra isso. Ele só quer pegar o máximo de meninas que ele conseguir, não quer nada sério agora. E eu não vou ser mais uma.
–Ah, mas você está certíssima Thals – disse Camilla – Esses galinhas – agora um pouco mais alto – Não nos merecem.
Quando viramos todos os meninos tinham olhos para a nossa rodinha. Se eu soubesse que esse povo ia ser tão barulhento... Ainda bem que o ônibus estava vazio.
Pera. O ônibus estava vazio? Que estranho.
Foi quando o motorista parou o veículo e se virou para nós, com um sorrisinho no rosto. Tirou o cap e foi então que eu percebi. Ele devia estar sobre efeito de algum tipo de névoa, ou um feitiço bem forte, porque aparentemente zero entre oito campistas treinados quase a vida inteira para chutar o traseiro de monstros tinham percebido que nosso motorista era um ciclope.
Ele tirou um pedaço de madeira de trás do corpo e eu nunca quero na minha vida descobrir onde aquilo estava escondido. Todos nós levantamos com as mochilas nas costas e puxamos nossas armas, prontos para atacar.
O ciclope atacou primeiro os meninos, e Percy fez um ótimo trabalho defendendo seus amigos, mas o golpe logo abaixo do umbigo não foi suficiente para parar o ciclope. Quando ele se dirigiu a nós, levantei minha lança dei um golpe, que por pouco errei.
Annie levantou sua espada e conseguiu fazer um corte mais fundo no braço do ciclope, nada que tivesse muito efeito. Quando me preparei para enfiar minha lança em sua barriga e transformá-lo em cinzas, uma espada cortou a sua cabeça e um monte de pó monstruosamente feio e mal cheiroso se espalhou pelo ônibus.
Quando olho atrás do gigante para ver quem tirou meu golpe da vitória, vejo uma linda menina com cabelos cor de mel e olhos castanhos. Ela usava uma túnica grega e uma coara de flores banhada a ouro na cabeça.
–Vem cá, eu te conheço? –perguntei e ela lançou um sorriso. Veio em minha direção e quando pensei que teria que dar um tapa naquela menina por parecer tão esnobe e chegar extremamente perto, ela disse:
–Não – e se virou para os meninos – Mas eu conheço você!
E então ela simplesmente do nada pulou no Leo e deu o beijo mais logo e desagradável que já vi na minha vida. O beijo não foi desagradável por ser feio, os dois eram até bonitinhos juntos, mas eles ficaram se pegando, e estávamos todos de pé lá...
Resumindo, não foi uma cena legal de assistir.
–Não queria interromper nem nada, mas – falou Thalia lendo a mente de todo mundo – Quem é ela e porque vocês estão se pegando loucamente enquanto todos assistem?
–Essa – falou Percy – Bem, essa é Calypso.
–Ah. Aquela Calypso?
Eu juro que pude sentir alguma coisa na voz de Annie. Ressentimento, talvez. Mas não, era algo mais puxado para o... Ciúmes. O que estava acontecendo ali e porque todo mundo aparentemente conhecia aquela louca?
–Galera, pra quem não conhece, essa é a Calypso. – “disso a gente já sabia” quase deixei sair, mas deixei Leo continuar – Ela tinha toda aquela parada de ficar presa em uma ilha não localizável, para onde mandavam heróis bonitinhos. Mas os deuses finalmente a tiraram de lá.
–E ela te beijou simplesmente porque você é realmente muito atraente?
–É, Camilla, você pode ficar surpresa, mas eu sou realmente um gato. Mas não foi só por isso não. Eu fui parar na ilha de Calypso alguns anos atrás quando estava numa missão.
–Uau – eu disse, só para provocar – Pensei que eles só mandassem heróis bonitinhos.
–Pois é, resolveram mudar um pouco as coisas e mandar um maravilhoso! – disse Calypso.
Uhg. Aquela menina estava me enjoando demais. Será que era só eu ou ela tinha mesmo aquela aura que fazia a gente querer vomitar?
(N/A: gente eu amo a Calypso tipo muito, mas eu precisava fazer isso!).
Leo fez as devidas apresentações e quando me olhou ficou um pouco assustado. Acho que minha expressão para sua namoradinha misteriosa não estava muito boa. Ficou com tanto medo que deixou para me apresentar por último.
–E esta – disse ele – É Katie Gardner, namorada do garoto que estamos procurando.
–Correção – comecei irritada – Ele não é meu namorado. E o garoto tem um nome. Travis Stoll. E sabe querida, as flores não gostam de ser banhadas e petrificadas com ouro. Acho bem bonito, mas um pouco desrespeitoso o que você fez aí.
–Filha de Deméter, hein? Devia ter percebido. Essas flores foram de fato banhadas a ouro, mas não foi culpa minha. As recebi como presente de meu pai.
–Que seria? – eu perguntei com deboche.
–Que seria? – perguntou Thalia no mesmo segundo, com o mesmo tom.
Agora eu tinha certeza que Thalia lia a minha mente.
–Atlas.
–Uhum... O Titã Atlas? Aquele que segura o mundo?
No que eu falei essa parte, Annie se encolheu contra o peito de Percy e agarrou a mecha branca de seu cabelo. Percy deu um beijo no topo da sua cabeça e me arrependi naquele mesmo momento de trazer a tona uma memória tão dolorida.
–Ele mesmo.
O ônibus entrou em um silêncio pesado e dolorido, deixando todos sem ideia do que fazer depois. Sacodi a poeira de monstro das minhas roupas e fui em direção ao assento do motorista.
–Katie? – perguntou Connor – O que você vai fazer?
–Vou levar a gente até Fair Haven. Podemos usar esse ônibus até de abrigo agora. Vamos, sentem-se todos que a viagem vai ser longa.
Liguei um ônibus pela primeira vez e, por sorte, não era muito diferente de um carro. Mesmo que eu nunca tenha dirigido um carro na vida.
***
Quando estávamos chegando a Binghamton, já na metade do caminho, eu não conseguia mais. Se continuasse ali, dormiria ao volante e mataria todos.
Cutuquei Luke e pedi que ele me substituísse coisa que ele fez sem reclamar. Afinal de contas, seu pai é o deus dos viajantes. Me dirigi ao banco imediatamente na frente de onde Thalia estava deitada e quase me joguei lá. Ainda bem que não, porque Calypso dormia lá.
Aquela menina estava ali só para me irritar, só pode. As palavras dela não saiam da minha cabeça, nem quando seguia para o ultimo banco do ônibus. “Filha de Deméter, hein? Devia ter percebido”.
Que menina mesquinha. Deitei lá no final, o que foi até bom por um lado, porque peguei o maior banco, que não era atravessado por um corredor.
Me aconcheguei e não conseguia parar de pensar em como só queria que Travis estivesse ali comigo, com seus braços em volta do meu corpo, me aquecendo e me acalmando.
Travis menino idiota. Pensei. Por mais que eu relutasse e não quisesse admitir, você me fez me apaixonar por você, para logo depois sumir.
Por quê? Porque logo agora?
Lembrei de todos os dias em que brigamos, todas as vezes em que ele me fez odiar cada parte de seu sorriso maroto e seu corpo definido. Pensei em cada momento que quis esganar aquele menino, mas na verdade queria mesmo era puxá-lo para perto de mim e beijar aquela boca.
Praguejei mentalmente e amaldiçoei a deusa do amor por fazer isso com as pessoas. Amor? Parecia mais tortura. Todos sempre falam sobre o amor, sobre como desejam encontra-lo, mas quer saber? Todos estavam errados: eu preferia muito mais nunca ter encontrado Travis Stoll.
Porque, você pode perguntar. Além do fato de que ele sempre ferrou com minha vida e com as minhas plantas, Travis me fazia sentir coisas. Coisas nem um pouco legais, e que eu não queria sentir. Sem ele minha vida seria tão mais fácil.
Mas tão mais chata...
Porque ele simplesmente não podia ter ficado na droga da própria cama e dormido a noite inteira? Eu podia sentir as lágrimas descendo pelo meu rosto. Saudades, preocupação. Mas principalmente raiva.
Eu estava com raiva daquele sorriso maroto, raiva do cabelo sempre bagunçado dele e raiva de mim mesma por sentir saudades daquelas mesmas coisas.
Adormeci com o som da sua risada ressoando na minha cabeça, e rezando aos deuses que eu pudesse escutá-la só mais uma vez.
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