45%

4 Morte Amiga


— Você tem um perfume natural muito gostoso, é ótima em matemática e tem essa estranha e reconfortante mania de abraçar as pessoas o tempo todo. – olhei para todos os presentes enquanto falava, era uma sensação horrível – Desculpa não te conhecer melhor para falar coisas incríveis sobre você, tenho certeza de que é maravilhosa e eu particularmente vou sentir a sua falta.

Não haviam muitas pessoas naquela despedida e essa situação me doeu. Até o final da semana ela já não estaria mais entre nós e grande parte dos nossos companheiros de sala e casa não queriam dizer adeus.

Carreguei Hazel e me sentei no chão, ao lado de 45%, apoiada no sofá vermelho e fedido que tinha ali. Ela segurou minha mão, de uma forma delicada e tímida. Várias pessoas falaram suas poucas palavras e coisas realmente boas sobre ela. Aquela toda era uma situação difícil.

Não era sempre que algum paciente terminal havia feito coisas notáveis antes de sua morte, então ninguém realmente tinha algo para se falar, mas ainda sim, era suficientemente bom receber poucos elogios de todos antes de partir.

Esses momentos sempre me faziam pensar sobre o que seria dito de mim. Queria saber se o enfoque seria meu humor negro, minhas notas ou a minha capacidade de ter me mantido viva até aquele momento. Porém, a grande realidade era que ninguém queria realmente descobrir.

45% segurava minha mão de maneira forte, como se buscasse algo para se confortar e eu não sabia exatamente se poderia dar isso a ela.

Em silêncio saímos da pequena sala e acompanhamos Evans até o primeiro andar, no qual ele tinha uma consulta marcada. O deixamos no pequeno cubículo com seu médico e fomos até as cadeiras confortáveis do lado de fora. Não sabíamos sobre o que conversar, então me apoiei sobre meus joelhos e ficamos esperando o tempo passar.

Bruni me encarou durante algum tempo, e eu comecei a estranhar aquela situação, mas ela não me irritou, até que uma inquietude tomou conta de seu corpo.

—O que aconteceu? – perdi a paciência.

—Eu estou tentando te falar uma coisa o dia inteiro... – ela segurou minha mão novamente, dessa vez com mais força e eu apertei as sobrancelhas juntas, estranhando – Seu respirador está desligado. – ela suspirou.

Minha primeira reação fora sorrir, não estaria viva se meu respirador estivesse desligado, aquilo só podia ser um deboche. Foi então que o silêncio tomou conta da sala e eu pude notar a falta do barulho de Hazel. Toquei os tubos, eles não estavam frios do ar que deveria passar ali. Respirei fundo, sem gosto ou cheiro de ferro.

Aquilo me atingiu tão forte como uma pancada no peito, o qual rapidamente começou a apertar e meu ar sumir.

Era uma sensação diferente das que estava acostumada a sentir quando me sufocava pelos meus falhos pulmões. Sentia como se houvesse algo prensando meu peito e mesmo que eu conseguisse respirar perfeitamente bem, estava sufocando. Comecei a ofegar e aquele largo hall de entrada já não me parecia tão grande assim, as paredes começaram a se fechar sobre meu corpo e precisava sair dali, tinha uma necessidade incontrolável de fugir, de respirar e de me esconder.

Meus olhos se arregalaram e comecei a suar, fui corrompida por um medo do qual não sabia a origem.

Juntei todas as minhas forças corpóreas e me levantei bruscamente. 45% não entendeu o que aconteceu e se assustou. Empurrei Hazel para frente, quase a jogando pra longe. Puxei suas hastes de metal e caminhei em passos rápidos para fora do hospital.

Quando já estava lá fora notei que não tinha mais ninguém para me olhar e corri para o estacionamento. Como lá era um espaço aberto com vários carros em labirinto, me senti segura. Podia respirar e me esconder, fugir daquela realidade.

Encontrei uma ambulância parada bem longe da porta e corri até lá. Sentei-me no chão e pateticamente me entreguei a um choro descontrolado e infantil. Lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto enquanto eu protegia minha cabeça com minhas pernas. Estava em um estado deprimente do qual nunca tinha me encontrado durante toda a minha vida.

Acendi um cigarro e compulsivamente o fumei, mas não fora nem perto do suficiente. Quando já estava na metade do segundo a sombra de 45% me encontrou, primeiramente me tomando em susto. Com calma e delicadeza ela se sentou ao meu lado e me envolveu em um quente abraço.

Meu peito já não estava mais apertado e as paredes já não estavam por desabar. Ainda que tremesse, me sentia tão melhor. Aquele pavor que tinha tomado conta do meu corpo estava de forma lenta se dissipando.

—Eu acho que estou tendo um ataque de pânico. – me agarrei a sua blusa.

—Vou ficar aqui for com você até que se torne aceitável você entra e tomar um calmante, ok? Termine seu cigarro. – seus delicados braços me seguraram com firmeza, tal qual me preencheu.

Sei o que estão imaginando, isso é uma ótima notícia e só tinha motivos para ficar feliz. Eu conseguia respirar! Então porque estava sofrendo um ataque de pânico? E essa resposta é incrivelmente simples, mas não vão a obter de mim tão facilmente.

Fumei aquele e mais um cigarro, somado três, ultrapassando a minha cota diária. Porém, apenas assim consegui me levantar e ir a caminho do meu quarto, abraçada com Bruni. Chegando em minha cama tomei uma agulhada na veia e fiquei incrivelmente louca, tendo os sonhos mais bizarros que se pode imaginar. Permaneci deitada meio fora de mim, perdida e acho que cochilei durante bastante tempo.

Quando acordei estava ligada a minha máquina de limpeza noturna. Evans e Bruni estavam sentados em sua cama rindo de algo que viram no computador, extremamente próximos.

Vê-la com Evans me fez trincar os dentes em fúria, mas me acalmei, não queria perder a cabeça.

—Eu estou morrendo e vocês estão olhando para fotos de gatos na Internet? – falei com a voz fraca e abafada, aquela máquina limpava meus pulmões, mas me deixava sem força, queria acordar e ter alguma frase de efeito incrível para dizer, mas aquilo foi tudo que consegui.

45% se virou e sorriu, rapidamente pulou da cama de Evans para a minha, o que me fez sentar, devagar e com dificuldade. O loiro revirou os olhos e eu sabia muito bem o que aquilo significava, mesmo que não fossemos começar uma guerra a respeito, não era a primeira vez que estávamos interessados na mesma garota e queria que não fosse a última, eventualmente conversaríamos a respeito e deixaríamos que ela decidisse – mas antes que isso acontecesse, já tinha aceitado a minha derrota.

—Eu estava morrendo e você resolveu ter um ataque de pânico. Nada mais justo. — ele sorriu.

—Foi um ataque especialmente adorável. – Bruni passou a mão sobre a minha, em carinho e eu me arrepiei.

—Ainda não consigo acreditar que sobrevivi quase um dia inteiro sem meu ar.

Os olhos pararam em minha máscara e eu sabia o que tinha de fazer. Trêmula, a retirei do meu rosto e suspirei, queria saber quanto tempo sobreviveria.

O quarto ficou em silêncio, esperando para ver se aguentaria muito tempo, mas com menos de um minuto contado no relógio da parede, já começava a me sentir zonza. Tossi secamente durante algum tempo, então coloquei a máscara novamente, a apertando contra meu rosto com um pouco de força e inspirando largamente.

—Acho que está muito cedo na história para você ter uma mudança repentina em sua doença. – Bruni colocou sua mão em meu ombro e sorriu.

—Para você! Eu vivo com essa doença por cinco anos, já está muito tarde para uma mudança repentina e dramática. — sorri, mas aquela ideia de estava presa em minha cabeça – Como foi a sua consulta? – mudei de assunto rapidamente, não queria aquele ar constrangedor caminhando atrás da minha doença.

—Incrivelmente bem. – Evans falou de forma desanimada, então juntei as minhas sobrancelhas tentando entender o que estava realmente acontecendo – Quanto mais doente você fica...?

—Mais sobe na lista de transplantes. – bufei, sabia o que aquilo significava.

—Vou ganhar meu apito amanhã.

Me permitam explicar isso para vocês. Evans precisa de rins novos, logo o seu caso não é terminal. Ele só estava internado aqui para estar confortável o suficiente caso seus rins novos não chegassem a tempo. O problema é que para realmente ganhar o transplante nessa lista absurda com milhões e milhões de nomes você tinha que ter alguns requisitos básicos, como ser jovem, ir bem nas notas ou no trabalho, fazer o bem para a humanidade, ser uma pessoa boa e estar a beira da morte. Então sim, aquela era uma notícia muito boa, mas isso também significava que ele não estava muito bem.

—Você vai ganhar rins novos? – sim, eu escolhi ser otimista naquele momento, pelo bem do meu melhor amigo.

—Aparentemente sim, eu só tenho que sobreviver até lá. — era como se tivéssemos trocado de corpo por alguns segundos.

Evans foi até a minha cama e se deitou em minha frente, em meu colo. Acho que foi o jeito dele de ganhar carinho e amenizar aquela rixa de 45%. Pegamos o computador e assistimos algum filme qualquer de terror, que não envolvesse mortes por pragas ou algo do tipo.

A noite chegou e agora estava calma o suficiente para realmente para descansar.