45%
5 Dramática
O encontro havia sido adiado por diversas razões.
Primeiro, minha família veio passar algum tempo comigo após saberem da repentina mudança respiratória – da qual fiz uma semana de exames para saber a causa.
Não gostava muito da companhia deles. Claro, eram a minha família e os amava, mas meu humor era repudiado e tudo tinha a cara de ser o fim, de ser o último encontro. Internada, não sabia do divórcio dos meus pais, que aparentemente tinham se separado e se suportado apenas por minha causa ou da vida amorosa da minha irmã, que sempre fora conturbada, eu queria conhecer o mundo que estava lá, distante de tudo que podia presenciar, mas tudo que ganhava em troca era o tratamento da morte certa.
Já em segundo lugar estava a família de 45%, que não gostava de passar um minuto longe da sua preciosidade de óculos escuros. Quando me viram pela primeira vez estava esperando a minha irmã no estacionamento com meus maços semanais, e desde então eu não sou a amiga preferida. Quando eles estavam por perto, tínhamos de manter distância e nunca parecia ter tempo suficiente para recuperar o perdido.
E em terceiro estava, o mais importante de todos os problemas, Evans. Por incrível que pareça, isso não envolvia sua doença, mas sim seu coração. Silenciosamente, disputávamos uma garota, até que a guerra deixou de ser velada e passou a ser verbalmente ofensiva.
A história é a seguinte: Estava pronta para ir me encontrar com Bruni, mas Evans, em último segundo não me permitiu sair. Fui puxada pelos cabelos e agredida verbalmente, nada que um chute e outros palavrões não resolvessem. Acabamos trancados no banheiro pela nossa enfermeira que jurou nos soltar apenas quando as pazes estivessem feitas. Mesmo que ele fosse dormir no quarto de um dos nossos amigos de mesa, fomos liberados, porque ele precisava da sua dialise. Perdi meu encontro e por segundos meu melhor amigo.
No dia seguinte, 45% conversou com o loiro, trancados em nosso quarto. Ambos passaram horas com olhares fixos um no outro enquanto eu me remoía do lado de fora, esperando ou que ela o beijasse, ou que pudesse entrar, mas a vitória fora minha. Ela queria sair comigo, mesmo que não fosse por romance, só queria e o aconselhou a procurar alguma garota que realmente estivesse interessada nele, porque ela não estava e não estaria. Ele o fez, de verdade.
Evans precisou de nossa ajuda para sair com uma garota com câncer osséo e perdemos mais um dia de encontro servindo o loiro e a negra no telhado do hospital. Sim, eu queria ter saído com Bruni e passado todo aquele tempo com ela, mas foi bom saber que meu amigo finalmente iria se libertar do grande peso de ser um paciente terminal e viver o resto de vida que ainda tinha.
Depois de quase um mês, meu não tão romântico encontro aconteceu e eu estava determinada a tornar aquela experiência memorável.
O fato de que ela era uma garota incrível que claramente estava me apaixonando por, não saia da minha cabeça. Era como um daqueles clichês de cinema LGBT. 45% era a garota hétero inalcançável e eu a lésbica intrometida que jurava a provar o contrário, mesmo que só tivéssemos nos conhecidos por segundos e soubesse que ela era o amor da minha vida. Não queria ser esse clichê. Bruni gostava de homens e a fazer sorrir era o suficiente para mim, então seria seu cavalheiro por uma noite.
Coloquei meu único terno, um que escondia meus pequenos seios. Prendi meu cabelo em uma touca. E Evans ajeitou a minha gravata.
—Você se parece mais com um homem do que eu mesmo. – ele me entregou minha mochila.
—Queria ter uma barba nesse momento. – coloquei a mochila em minhas costas e chequei meu queixo no espelho, era o que faltava para ser completo.
—Seria injusto comigo e com todos os homens deste andar. – ele voltou para sua cama e se deitou, pegando o computador.
Prendi meus tubos no cilindro e fui para sair pela porta. Senti meu ar se comprimir em meu peito, aquilo não era um sinal bom, então, só para garantir, abri um pouco a válvula de Hazel e desci, corajosa de que aquela não seria a minha morte. Fui devagar, trêmula. Por mais estranho que parecesse, realmente gostava daquela garota e aquela sensação de estar presa ao clichê não me deixava pensar, nem ao menos medir meus passos.
O jeito como ela se esforçava para se encaixar, como alisava o cabelo e tinha um óculos diferente para casa ocasião era apaixonante e me via rapidamente caindo em direção aos seus sorrisos e manias.
Aquele estava se tornando, a cada passo, a cada piscada, a cada infeliz inspirada, um encontro único e aterrorizante para mim.
Havia roubado a cozinha, alguns pratos de papel, guardanapos, talheres e copos de plástico, além de um suco de uva, velas e um espaguete ainda quente. Sabia que não conseguiria muitas coisas no hospital, mas não tinha um passe para sair e fazer algo admirável.
O elevador soou, já estava no hall, já estava em nosso ponto de encontro. Meu pulmão se esvaziou em um sopro e eu o enchi com força.
—Eu sei que vocês não funcionam e eu não tenho dado a vocês o melhor dos descansos, mas hoje vocês não vão ratear, me ouviram? Vocês vão funcionar! Amanhã eu juro que não é necessário, vocês podem parar se estiverem cansados, eu aceito a dor e tudo mais, mas por favor, hoje não. — sussurrei aos meus pulmões ainda dentro do elevador.
Suspirei e saí. Estava suando, com um frio na barriga ruim e bom ao mesmo tempo.
Tudo estava apagado, então andei automaticamente até as cadeiras, com as luzes se ascendendo aos meus passos, era aterrorizante.
45% estava sentada a ponta das cadeiras confortáveis. Usava um curto e rodado vestido branco de renda, com um cinto amarelo demarcando a sua cintura. Seus cabelos negros estavam em cachos, ela usava um óculos redondo, acabado em gatinho e um sorriso que iluminou todo o quarto ao me ver, ela parecia uma boneca.
—Olá, cavalheiro. — ela se levantou e correu em minha direção.
Parei.
“Pulmões...”
Uma tosse seca saiu de mim antes que ela pudesse me alcançar. Bruni estava maravilhosa, mas eu tinha de ter uma embolia para provar isso? Não queria. Puxei o ar com força, mas não conseguia encher meu peito. Tossia, suspirava e nada parecia funcionar.
Em desespero e sofrendo com a dor aguda que crescia em meu peito, peguei minha bomba de asma e a usei como os médicos mandaram não fazer. Meu peito queimou, ardeu, estava cheio. Fiquei sentada na cadeira, com os olhos cheios de lágrimas, parada, respirando, com uma mão em meu peito e outra em minha bombinha.
45% estava sentada ao chão, com seu vestido a rodeando perfeitamente. Ela segurava uma das minhas pernas e o telefone com força, parecia estar com o número da enfermeira já digitado e aguardando algum sinal de que deveria chamá-la. Seus lábios estavam contraídos, ela estava muito preocupada.
—Vai ser muito idiota se eu disser que você tirou meu ar? – sorri, ainda puxava o ar com força e minha voz ainda era fraca e rouca, mesmo que o normal estivesse voltando para mim.
—Vai morrer em nosso primeiro encontro? – ela me deu um tapa na perna e se levantou trêmula.
—Você não conhece a minha história?
—Qual?
—Todas as vezes que eu tive uma embolia pulmonar foi por ver garotas que eu julguei perfeitas, que eu gostava.
—Essa é a sua forma incrivelmente dramática de dizer que gosta de mim? – ela ergueu uma de suas sobrancelhas e segurou uma das minhas mãos.
Assim que ela tocou a mesma, retraiu sua mão. Estava fria, muito fria. Queria dizer algo para confortá-la, mas eu não tinha, minha falta de oxigenação me deixava fria como um vampiro e com as unhas roxas como um esmalte, era feio e desagradável.
—Me vesti como um homem e quase sufoquei ao te ver. Precisava dizer? – apertei sua mão com o pouco de força que ainda restava em meu corpo.
Levantei-me. Estava como sempre, pouco cansada, mas conseguia ir. Peguei a minha mochila e algumas sacolas que ela havia levado, 45% não largou minha mão e puxou Hazel, andamos vagarosamente até o fundo dos consultórios onde havia um elevador enorme a nossa espera e descemos para o nosso jantar não tão romântico assim.
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