42 - Violet Hill
2 Perdendo a calma
Notas iniciais
Parte 2: Memórias, memórias... Lembranças, lembranças...
Povs Samantha Puckett:
— Levanta! — Carly grita enquanto bate o travesseiro contra mim, ela não teme que eu me transforme e a machuque?
— Anda garota! — Wendy usa sua mais nova mágica aprendida e retira as cobertas de cima de mim apenas com o poder do vento.
Abro os olhos devagar e fito a cena diante de mim. Carly ao meu lado com um travesseiro na mão e Wendy no pé da cama levitando as cobertas que agora seguem para dentro do armário rapidamente.
— Vocês me irritam... — Me sento na cama.
— O dia em que não estivermos mais aqui você vai sentir nossa falta — Carly diz jogando o travesseiro em mim, eu o pego antes que me atinja.
— Como se isso fosse acontecer — reviro os olhos e saio da cama.
— Vamos nos atrasar para aula se você não se arrumar logo — Wendy me lembra vendo minha disposição oscilar entre 0 e 1.
Tenho séculos de idade, mas estou presa no corpo eterno de 17 anos. Carly reclama que em vez de eu ter ido para escola nesse último século eu apenas ficava vagando. É a primeira vez após muito tempo que eu decido terminar o colegial. O motivo sinceramente é Carly Shay, após eu salvar a vida dela e do irmão quando eram mais novos do acidente trágico que a deixou sem os pais, eu percebi o quanto a vida é curta e o quanto a Carly precisaria de mim ao seu lado.
Pelo fato de eu não envelhecer eu tive que acompanhar o crescimento da Carly em várias fases da sua vida, quando fez quinze anos me convenceu a entrar no ensino médio com ela, agora que finalmente ela chegou aos 17 anos, estamos terminando o colegial juntas.
Wendy foi algo mais recente, uma aluna nova e misteriosa que entrou na nossa turma quase no final do segundo ano, não levou muito tempo para descobrirmos o que ela era capaz de fazer e não demorou quase nada para ela descobrir quem eu realmente era.
Eu mantenho meus garotos da alcateia o mais longe que eu posso das meninas, não por eles serem imprevisíveis, mas por acabarem magoando elas sem querer. Eu sei que Carly tem sentimentos pelo Brad, mas sei que Brad não teve imprinting com ela. Não adianta ele querer ficar com a Carly agora e em pouco tempo ter imprinting com alguém e ter que abandona-la. Eu sei que o isso pode levar anos para acontecer, talvez até décadas se o Brad optar por não envelhecer, mas não quero ver a Carly sofrendo, ela não merece isso.
Wendy é mais esperta e mantém distância da alcateia por conta própria, desde que Brad entrou na matilha ela nunca mais conversou com ele e evitou qualquer tipo de contato, não lembro a última vez que os vi juntos. Acho que só a vi conversando com Dice, Jade, Beck, Spencer e Griffin, então ela deve manter distância do Brad por causa da Carly.
Ignoro as duas que passeiam pelo quarto e vou tomar um banho. Já levo a roupa no banheiro e me arrumo lá mesmo, pois quando se trata de Carly e Wendy a privacidade é inexistente.
Estou escovando os dentes quando escuto a conversa das duas.
— Você não me contou do lance com o Freddie — Wendy diz e sua voz está mais longe, ela deve estar próxima da janela.
— Lance? Não tem lance nenhum e seria impossível ter, ele é um vampiro e me enxerga como se eu fosse um tipo de sobremesa — Carly desconversa, noto a histeria crescendo.
Wendy ri de maneira divertida.
— É realmente ele te olhou no baile como se você fosse algo de comer.
— Aham... Já viu o jeito que ele olha para a Sam? — Carly entra em um assunto perigoso, ela se esquece de que eu posso ouvir?
— Já, ele também olha como se ela fosse algo de comer — Wendy fala e Carly solta um gritinho, entendo imediatamente o contexto implícito na frase. Sexo.
— Você viu os dois no estacionamento?
Não escuto a resposta da Carly, eu saio do banheiro chutando a porta.
— Essa conversa acabou — aponto para as duas.
— Admita que ele é lindo e que gosta dele. Você sabe que seu outro lado é muito forte também — Wendy argumenta comigo.
— Não vamos ter essa conversa — caminho para a porta do quarto, mas Wendy pronuncia um feitiço que me impede de passar pela porta.
— Wendy, é melhor deixa-la em paz — Carly recua um pouco, dói saber que ela jamais irá esquecer aquele dia.
Wendy desfaz o feitiço. Eu saio do quarto e desço as escadas. Vou para a cozinha e abro a geladeira, pego tudo que preciso para montar um sanduíche, faço com rapidez, como feito um lobo e caminho para o lado de fora. As meninas me seguem em silêncio até o carro da Wendy estacionado na calçada.
Passo por ela como o vento pegando a chave e entrando no carro em um piscar de olhos. Sintonizo na rádio de notícias sobre o tráfego e turistas nas áreas próximas à reserva. Avisarei aos meninos sobre quais são os melhores lugares para as rotas de patrulha mais tarde.
Carly e Wendy entram no pequeno Chevy em silêncio, mas eu não quero que o clima fique tenso, então procuro uma saída: a verdade.
— Por mais que o Freddie seja um vampiro, ele tem lábios macios — inicio o assunto ligando o carro.
— Vocês se beijaram? — Carly procura meu olhar no retrovisor.
— Não foi um beijo. A gente jamais conseguiria, nossos instintos falam mais alto. A vontade de matar um ao outro é muito grande e se vocês não sabem, ele tem um cheiro doce demais — torço o nariz ao me lembrar do cheiro que inalava dele, se ele não cheirasse daquele jeito eu até podia cogitar ir mais longe.
— Na verdade não sabemos — diz Wendy.
— Tanto faz — dirijo com velocidade. — Como você acha que um relacionamento entre duas pessoas que querem arrancar a cabeça uma da outra daria certo? É impossível.
Carly toca meu ombro.
— Então admite que tem sentimentos por ele?
— O que? Isso é ridículo — omito em vez de mentir.
Wendy troca a marcha para mim no momento exato e me fita piscando.
— Se você se esqueceu Sam, eu sou uma bruxa e sei quando as pessoas mentem.
— Querem que eu diga o quê? Que eu amo o Fredward? — cuspo entre os dentes pela janela.
— Não, mas... — Carly inicia.
— Ele sente algo por você — Wendy finaliza.
— Eu vou perguntar a ele — digo brincando, mas elas levam a sério.
— Quando eu toquei no Freddie ontem à noite, logo após você ir embora, eu senti algo nele, é como se ele fosse boa parte do seu futuro — a ruiva entra em algum tipo de momento magia.
Desvio os olhos da estrada para olha-la.
— Você não enxerga os lobos nas suas visões, como pode saber sobre mim e ele?
— Porque o futuro dele desapareceu... Não enxergo mais nada em torno dele — ela responde.
— Não tomei a decisão de escolher ele — o sangue sobe à minha cabeça.
— Mas ele tomou a decisão de escolher você e agora que realmente a decisão foi tomada ele desapareceu — Wendy sorri vitoriosa.
Eu fico em silêncio e volto meus olhos para a estrada.
Carly toca no ombro da Wendy, minha visão é boa até mesmo sem estar olhando fixamente para um ponto, é quando Wendy se apoia no porta-luvas como se estivesse sufocada.
Eu freio o carro sabendo que Wendy teve uma visão.
— Wendy, o que você viu? — seguro sua mão com força.
— Car-carly — ela gagueja enquanto tenta respirar. — Você... — depois ela sorri e olha para mim. — O futuro dela desapareceu hoje, ela planeja visitar alguém.
Retomo a direção e já começo a ver vermelho. Carly pretende visitar o Brad, mesmo sabendo que ou ele perde o controle ou ele tem que deixa-la em alguns dias... Ou anos. Deixo assunto de lado e evito encontrar o olhar da Carls no retrovisor, não quero que minha raiva aumente.
Chegamos ao colégio e eu estaciono ao lado da camionete do Brad, onde ele está conversando com Gibby, Griffin, Jade e Beck. Wendy abre a porta e sai correndo em disparada, lembro que ela tem que encontrar uma professora para falar sobre um trabalho em especial.
Saio do carro e vou para o meio dos meus amigos, noto o olhar do Brad em Carly e observo a reação dela, que cora um pouco depois acena.
Reviro os olhos e vou para perto do Gibby, é ruim saber que todos nós guardamos segredos dele.
Não entendo por que Wendy acha que eu teria algum tipo de sentimento pelo Freddie, se eu tivesse que escolher alguém já que não posso ter um imprinting, eu escolheria o Gibby. Ele não é o cara perfeito, mas eu não preciso de alguém sem defeitos, só preciso de alguém que me ame, e eu sei o que ele sente por mim, mesmo que ele nunca tenha dito.
Seja lá o que sinto pelo Freddie deve ser algo que ele projetou e está brincando com a minha mente. Como posso saber se o que sinto é verdade se ele manipula as emoções dos outros? Balanço a cabeça desistindo de pensar nisso.
Quando me encosto na picape Gibby passa o braço sobre meus ombros e eu me viro para beijar sua bochecha, Carly olha a cena confusa como se algo a incomodasse, que eu saiba ela gosta do Brad e não do Gibby.
— Como você está hoje? — Gibby pergunta e é engraçado ouvir seu coração acelerar.
— Bem na medida do possível.
— Você sumiu do baile ontem — ele comenta tentando pescar informação.
— É... Eu estava cansada — minto e os outros ou não sabem o que eu fiz ou tem a decência de não parecerem incomodados.
— Por que não me avisou? Eu te levava para casa — ele se coloca na minha frente, quem vê de longe pensa que estamos juntos.
— Na próxima eu aviso — olho por cima do ombro dele, Freddie está saindo de um Audi A5 preto junto com suas irmãs Tori e Trina.
Gibby volta a ficar do meu lado e olha na mesma direção.
— O Freddie estava te olhando ontem no baile — meu melhor amigo bufa chateado.
Freddie em vez de disfarçar se vira ao escutar seu nome e lança um sorriso na minha direção.
Toda a minha matilha olha para ele e depois para mim sem acreditar no que aconteceu, por causa da distância que o Freddie se encontra Gibby não viu o sorriso.
— Precisamos conversar — Fredward diz do outro lado do estacionamento, aceno a cabeça mostrando que entendi.
Não confio no Freddie o bastante para ir conversar sozinha com ele, pois o seu clã já está no seu encalço. Nevel, André Cat e Robbie nos olham com certo desprezo, o pior olhar é o do Nevel como sempre.
— Gibby, pode entregar uma coisa para a Wendy? — Eu peço, tenho que mantê-lo longe daqui.
— Claro Sam — ele concorda sem pensar duas vezes.
— Ela deve estar com a professora de inglês, entrega meu celular para ela — tiro meu iPhone do bolso e coloco na mão dele.
Ele olha confuso para o celular.
— Por que precisa entregar o celular a ela?
— Ela vai precisar, pois deixou o dela em casa — e isso é verdade.
— O.k — ele se inclina e beija meu rosto, próximo o bastante da boca para ser um selinho. — Te vejo depois.
— Até mais — dou um tapinha no seu ombro.
Assim que o Gibby se afasta eu volto meu olhar para o Freddie, ele está confuso e parece irritado.
— Sam? — Brad me chama olhando para os vampiros.
— Apenas me sigam — começo a andar para o bosque, caso algo aconteça eu não quero uma cena na rua.
Minha matilha obediente como sempre me segue. Noto Carly aproveitar para se juntar a nós, ela não perde a oportunidade de participar de tudo, mesmo que só como telespectadora.
Freddie nos segue junto com seu clã, acelero o passo e me embrenho dentro da vegetação, quando acho que já estamos a uma distância segura do colégio, me viro deixando Beck e Griffin nos meus flancos, se algo acontecer Griffin é o segundo no comando.
Freddie surge como um raio na minha frente, não tem qualquer tipo de coordenação com o seu clã, já que os trata como família, então eles ficam dispersos atrás dele. Cat com seu namorado Robbie, André encostado em uma árvore, Trina mascando ruidosamente um chiclete, me pergunto como ela faz isso sendo vampira e tem Tori, a irmã humana do Freddie. Ela raramente sai do lado dele, ela não tem aversão a nós, na verdade ela acha a nossa espécie... Como ela disse mesmo? Ah, sim, ela acha fascinante. Uma vez ou outra eu dou carona para a Tori, o que deixa Freddie nervoso, é divertido.
— Fale — não sou mais a Sam a garota comum da escola, sou Sam a alfa da tribo.
— Seus assassinatos em massa estão colocando a minha família e meus amigos em risco, de novo — Freddie me repreende e suspiro entediada.
— Já acabou? — cruzo os braços.
— Que assassinatos? — Beck me pergunta.
— Não contou a eles? — Freddie finge se importar.
— Isso não é da sua conta sanguessuga — rebato e Jade solta um risinho de emoção, ela adora uma batalha. — Beck, eu iria contar na reunião ao anoitecer, não se preocupe com isso.
— Mas eu tenho que me preocupar, um bando de vira-latas circularam a casa do Nevel hoje. Um deles em forma humana. Acharam que fomos nós que matamos aqueles homens que estavam no baile ontem à noite — Freddie me conta cruzando os braços.
— Eu deixei minha máscara e minhas luvas sobre os corpos deles, não teria como eles acharem que foram vocês — olho para o Nevel em busca de respostas, ele tem o dom de ler pensamentos, mas graças a Deus não consegue ler os meus.
— Eu li a mente deles, ok? — Nevel fala todo jeitosinho arrumando seu suéter. — Quando acharam os corpos pensaram que tinham sido mortos por nós, pois os corações foram arrancados, já que não temos o hábito de morder, seria muito cruel — ele dá uma risada macabra.
— Não faz sentido — balanço a cabeça.
— E sobre a história das luvas e da máscara, Samantha, isso não se encontrava na... Digamos, cena do crime — Nevel faz aspas com as mãos.
— Mais alguma coisa? — estreito os olhos.
— Sim — Freddie responde. — Eles disseram que sentiram um forte odor de vampiro no telhado.
Carly vacila e suspira, Freddie olha para ela, e a forma que ele a olha me irrita muito.
— Escuta aqui — aponto o dedo na cara dele. — Você pode muito bem ter subido lá e retirado às coisas que eu deixei. Você sabia desde o começo do baile o que eu planejava fazer.
— Se fosse o Freddie eu saberia, e eu não encontrei isso na mente dele — Nevel intervém.
— Ele pode bloquear alguns pensamentos, você sabe disso Nevel — relembro a ele.
— Não acho que tenha sido o Freddie — Cat se pronuncia, sua voz soa como a de um passarinho.
— Ficou louca? — Fredward se aproxima mais de mim. — Acha que eu colocaria meu clã em perigo? Minha própria família?
— Acho sim, por que você já fez coisa pior! — a batalha de Violet Hill pisca em minha mente.
— Não me lembro de te dar o direito de gritar comigo — suas mãos ficam em cada lado do seu corpo, é uma postura de ataque.
— Não tenho que pedi sua permissão — sinto o calor subindo e a fumaça aumentando, vou me transformar e arrancar a cabeça dele agora!
— Chega os dois! — Carly se coloca entre nós, Freddie rapidamente relaxa em sua presença e isso me enoja totalmente.
— Saia da frente Carly! Eu não quero te machucar — de novo, adiciono mentalmente.
— Calma Sam, você está perdendo o controle! — Griffin segura meu braço.
Começo a tremer e vou me abaixando devagar
— Eu. Vou. Matar. Você. – digo lentamente.
— Saia da frente! — Freddie só tem tempo de empurrar a Carly que cai sentada na terra fofa da floresta.
Eu me transformo rasgando as roupas e pulo sobre o Freddie, que agarra meu pescoço com os braços, mas por eu ser tão grande ele não consegue me prender. Eu tento enfiar as garras nas suas costas, mas Carly segura a minha calda que ricocheteia no ar. ELA PERDEU O JUÍZO?!
Eu me viro ficando duas vezes mais alta que ela, exponho meus dentes e rosno, meu lado animal fala mais alto, mas eu jamais irei machucar a Carly novamente. Desvio dela e corro para o meio da floresta, me distanciando de todos. Agora que rasguei minhas roupas não posso retornar para o colégio, preciso ir para casa.
Vou xingando durante o caminho todo.
Aguardo no bosque atrás da casa esperando a oportunidade certa de correr para a janela. Quero matar a primeira coisa que eu ver em minha frente. O Freddie é um desgraçado. Filho da puta! Irrita-me além do limite. Nem meu outro lado, aquele que eu mantenho em segredo me livrou de perder a paciência com ele. E a Carly estava tão perto. Meu Deus! Eu temo machuca-la, da última vez ela ficou com cicatrizes horríveis que vão desde sua omoplata direita, até sua nádega esquerda. Foi só ela me irritar um pouquinho e eu não consegui segurar a barra naquele dia, não tem um dia em que eu não me culpe.
Olho em volta e noto a rua deserta, rapidamente volto para a forma humana e uso minha velocidade. Nem mesmo em forma humana alguém da matilha tem super velocidade, mas esse é o meu problema, não sou apenas lobo... Infelizmente circunstâncias fizeram alguém me transformar na pior coisa da terra. Transformaram-me em uma vampira.
Entro no meu quarto e chuto o lado da cama, que afunda um pouco. Vasculho as gavetas. Vejo que estou com poucas roupas e Carly já está cansada de me emprestar. Coloco um sutiã e uma calcinha que encontro na primeira gaveta, depois pego uma calça jeans, uma camisa xadrez e visto ainda com raiva.
Sento na cama tentando me acalmar. Ser metade vampira e metade loba não ajuda muito.
Quando eu era pequena, o que faz um século atrás, eu morava na reserva Klautriny com minha mãe e minha irmã. Eu devia ter por volta de catorze anos e dei meu primeiro beijo com um vampiro, eu não sabia o que ele era na época. Durante o beijo ele perdeu o controle e me mordeu. Lembro-me de agonizar por horas, implorar para morrer, mas ele pediu desculpas, disse que não podia fazer nada. Quando eu acordei, estava diferente. Toda a minha visão mudou. A audição, o olfato e o tato também.
Eu sentia uma sede abrasadora na garganta, queimava de maneira insuportável. Eu voltei para casa e tentei contar a minha mãe, mas só encontrei minha irmã gêmea Melanie. Foi tarde demais quando eu me toquei o que tinha feito. Melanie já estava inconsciente em meus braços, após eu sugar a última gota do seu sangue, quando minha mãe chegou não foi diferente.
O garoto que tinha me mordido chegou para me ajudar, mas já era tarde demais. Ele sabia o que aconteceria comigo se o conselho dos 42 da tribo soubesse da verdade, então ele tomou toda a culpa por mim. Ele disse que invadiu minha casa, matou minha mãe e minha irmã, em seguida me transformou. A sentença dele era a morte, porém existia um dos líderes que mostrou misericórdia por ele. Esse líder era o alfa da alcateia naquela época, o nome dele era Hayes Gibson.
Hayes tinha por volta dos dezenove para vinte anos, mas tinha tido imprinting com minha irmã Melanie, um escândalo na época por conta da idade dele, mas todos viram que era um sentimento puro e que ele esperaria por ela o tempo que fosse necessário, pois não envelheceria. Infelizmente foi o que ele mais desejou quando descobriu da morte dela. Ele queria morrer também.
Eu pensei que por perder o amor de sua vida, ele trucidaria o garoto vampiro e sua família, que eram sua mãe — a qual mais tarde eu descobri que ele a transformara para poder viver a eternidade sem perdê-la — e seu pai August. Porém Hayes apenas o mandou embora, mas avisou que o vampiro teria uma dívida eterna com a tribo.
Quando chegou o momento de decidirem o que iriam fazer comigo, agora que eu não passava de uma vampira recém-criada e descontrolada, eu fui enviada para uma colina próximo à saída de Seattle, em uma casa isolada de tudo e de todos. Eu ficaria lá até poder conviver com os humanos de novo e até mesmo com os lobos (logo após descobrir a existência deles) pois, eu sentia vontade de mata-los, mas não podiam me culpar, era o que eu era agora.
Aprendi a conviver com sangue de animais, prometi que jamais beberia uma gota sequer de sangue humano.
Eu matei minha própria família, o que me fez odiar a mim mesma e todos os vampiros do mundo. Eu passei três anos, afastada das pessoas, mas Hayes insistia em me visitar quando podia e foi o que o assustou. Eu envelhecia e um vampiro deveria parar de envelhecer no estado em que foi transformado. Foi quando Hayes me contou que eu tinha sangue Klautriny nas veias e que me tornaria um lobo em pouco tempo.
Jamais houve algo assim na história e não tinha pinturas ou lendas na nossa tribo que nos preparassem para isso. Hayes contou que isso só foi possível por que o vampiro me transformou antes de eu já estar fazendo parte da alcateia, csso contrário teria sido fatal. Veneno de vampiro não é compatível com o corpo de um lobo Klautriny.
Ele disse que era somente eu me irritar, até comigo mesma que eu me transformaria e em um curto período de tempo pegaria o jeito com a coisa.
Em um dia comum da minha horrível vida na colina, Hayes apareceu para me visitar como sempre fazia. No fundo eu acho que ele sabia da verdade, sabia que quem tinha matado a minha família tinha sido eu e por isso deixou o garoto ir embora, ele jamais condenaria um inocente. Neste dia ele mencionou alguma coisa que me tirou do sério, não vi quando aconteceu, só sei que me transformei e fiquei confusa no início, principalmente quando as vozes começaram na minha cabeça.
Hayes se transformou em seguida e disse que estava tudo bem, que iria me ajudar. Ele se surpreendeu ao ver poder em mim e disse que eu era a alfa da tribo, que eu deveria assumir quando ele partisse. Não compreendi de início e quando eu comecei a ler seus pensamentos eu descobri mais do que desejava. Eu descobri que ele uivou durante meses ao lado do túmulo da minha irmã. Descobri que ele morreria em breve, por que um lobo não pode perder seu objeto imprinted pois, é a força vital da sua existência, sendo assim ele não disponibilizava de muito tempo e precisava que alguém tomasse seu lugar, e esse alguém era eu.
Ele me explicou que por eu ser metade vampira e metade loba empataria os outros de lerem meus pensamentos, mas que eu deveria usar a desculpa de ser uma alfa mais forte do que ele para não acarretar mais problemas. Não eram todos do conselho dos 42 que sabiam sobre mim, no mínimo quatro ou cinco sabiam, o que fazia 37 dos quais 16 eram lobos não saberem da verdade.
Após fazer parte da matilha, eu tinha permissão de retornar para a tribo. Eu não sentia mais vontade de matar os membros da alcateia, o meu lado lobo foi muito maior do que meu lado vampiro, o que devolveu o sangue às minhas veias, o que extinguiu a sede na minha garganta — por mais que não completamente, eu ainda sentia sede ao estar perto de um humano — o que devolveu minha necessidade de respirar novamente, dormir novamente e comer novamente. Eu me sentia humana de novo, ou pelo menos era o mais perto que eu podia chegar, eu agradecia a Hayes por isso mesmo ele não tendo controle sobre nada.
Mas existiam os problemas. Um deles era ter uma linha direta com os pensamentos do Hayes e ver que ele morria aos poucos. Quando estava em forma de lobo, já não corria rapidamente, seus pelos caiam sem motivos aparentes e até mesmo um dos seus dentes ficou preso no meu flanco em um treinamento de ataque. Foi nesse dia que eu fui à casa dele à noite.
Em forma humana Hayes continuava belo. Os cabelos castanhos claros puxados para cima, o sorriso leve que só aparecia às vezes, o corpo forte, quase sempre vestia apenas um shorts, o que deixava seu peito musculoso e ombros largos a amostra o tempo todo. Eu o encontrei sentado na varanda da casa, tomando alguma bebida em um copo.
Ele deu um tapinha ao seu lado para que eu me sentasse. Obedeci meu alfa e encostei a cabeça em seu ombro. Hayes se virou e beijou meus lábios devagar, depois largou o copo na varanda e disse que quando eu me transformasse, eu sentiria o poder da tribo no meu peito por que todo o direito de alfa tinha sido passado para mim através do seu beijo. Relembro que ele mencionou que algo grande estava vindo, que em breve travaríamos uma última batalha e que nós iríamos nos aliar aos nossos piores inimigos: os vampiros.
Uma tribo e um clã rival composto por mais de 100 criaturas ao todo, nos atacariam em algumas luas.
Buscamos por toda a região montanhosas tribos de lobos para nos juntar e clã de vampiros para nos aliar. Foi quando eu conheci Fredward Benson. Ele disse que estava mais do que disposto a nos ajudar e pediu ao seu clã que lutassem conosco. Freddie me parecia um tanto familiar, mas eu não me recordo de onde. Minha mente teve muitas memórias apagadas quando entrei para a alcateia.
A batalha se passou na Colina Violeta, próximo à minha antiga casa onde fiquei isolada no meu período como vampira. Toda a tribo Klautriny foi dizimada naquele dia. Conseguimos com a ajuda dos clãs de vampiros matar todos os lobos e vampiros que se ergueram contra nós. Alguns fugiram, mas não antes de matar a tribo inteira. Lembro que no dia nevava muito.
Freddie perdeu vampiros de seu clã e eu perdi quase toda a alcateia, só restou um, assim como Hayes que já não tinha motivos para lutar. Do conselho dos 42 restaram apenas três. Taha Luzinami e sua esposa Eudler Luzimani, e Hayes. Eudler era uma bruxa e para proteger o que restava da aldeia infelizmente teve que fazer um feitiço empatando a entrada de vampiros em solo dos Klautriny. Eu não poderia mais pisar os pés ali e eu não poderia retornar para a minha casa na colina, iria ser dor demais.
Freddie se ofereceu para me dar abrigo, mas eu não quis ficar com ele. Eu sumi do mapa, passei anos correndo como lobo a toa por ai. Correndo só por correr. Eu não tinha mais nada na vida. Eu não possuía nem mesmo uma matilha. Apenas Taha Luzimani se transformava às vezes e passava as informações para mim. Hayes se casou novamente para manter sua linhagem intacta, e Taha teve mais filhos com Luzimani.
Anos depois os filhos de ambos transformaram-se em lobos, mas nenhum tinha o poder de alfa como eu, então eles não tinham quem conduzi-los por que Hayes morreu uns anos depois deixando alguns filhos. Ele se transformou em lobo pela última vez na batalha de Violet Hill. E quando se transformou de novo após os anos que se passaram, morreu ao lado do túmulo da Melanie como tinha desejado. Morreu em seus impecáveis vinte e oito anos, por que no período que deixou de se transformar em lobo ele envelheceu. Foi muita dor na minha vida e ter uma mente infalível não me permite esquecer nada disso.
Retornei para Seattle há uns dez anos atrás. Acabei por comprar uma casa por aqui, pois eu tinha dinheiro suficiente guardado na antiga casa no topo da colina para me manter razoavelmente bem de vida.
Eu estava fazendo minha corrida matinal pelo acostamento de uma avenida, quando um carro perdeu o controle e caiu de uma ponte. Eu me joguei na água para salvar quem eu pudesse, mas o homem no volante apontou para o banco de trás onde estavam seus filhos, Carly e Spencer Shay. Eu salvei os dois sem pensar duas vezes, voltei para retirar seus pais da água, mas era tarde demais. Carly devia ter por volta de seis anos ou sete anos. Seu irmão ficou com a guarda dela, mas não deixou que eu sumisse e em pouco tempo nos tornamos amigos.
Eu vi Carly crescer, assim como seu irmão. Spencer também entrou para a alcateia depois de uns anos. Eles foram os mais próximos de uma família que eu tive. Conheci Brad, Griffin, Jade e Beck depois. Dice recentemente. Foi um susto quando eu vi que todos eles eram descentes da tribo Klautriny. E foi quando descobri que tinha um novo conselho na tribo.
Eu não podia entrar nas terras da reserva, mas pelo menos as reuniões eram feitas nas montanhas, eu me apresentei como a alfa e eles me aceitaram, omiti o motivo que me fazia não poder morar na reserva. Eles sabiam do feitiço, mas não sabiam de mim. Foi quando eu descobri da profecia que dizia algo sobre o alfa retornar e salvar a tribo. Eu sabia que no fundo eu não era a alfa legítima, mas permaneci com eles a espera desse lobo.
Em menos de seis meses quando fiquei com a matilha, eu conheci o Gibby. Foi como um choque descobrir seu sobrenome. Cornelius Orenthal Hayes Gibson. Ele era descente do Hayes. Era um Gibson legítimo. Mas por alguma razão não entrou para a alcateia, me pergunto por que a demora e me pergunto se ele é o alfa que todos aguardamos. Não foi por acaso que me sentia bem na companhia dele, me sentia até mesmo um pouco apaixonada.
Ele me lembrava Hayes em tudo o que fazia. Pensei em contar a verdade, mas eu quebraria as regras. Eu não tive imprinting com ele porque eu era uma garota. Agora me pergunto se um dia ele entrar para a alcateia terá comigo, assim como seu ancestral Hayes Gibson teve com a minha irmã.
Por causas dessas e outras que eu mantenho Gibby comigo. Mesmo sendo somente meu amigo, meus sentimentos são fortes por ele, assim como eu sinto a atração crescente dele por mim. Não vou tomar nenhuma decisão até ter certeza, por que ultimamente meus sentimentos estão oscilando muito quando o assunto é Fredward Benson.
Paro de viajar nas memórias ao escutar o barulho da madeira estralar ao meu lado. Coloco-me de pé e por incrível que pareça solto um suspiro de alívio ao ver que é somente o Freddie.
— Veio para me matar? – pergunto me preparando para atacar.
— Não. Eu vim para me desculpar e vim sozinho, então já pode baixar a guarda e simplesmente me ouvir – ele ergue as mãos como quem se desculpasse.
— Se desculpar exatamente pelo o que? – Sento na cama de novo e Freddie na fração de 1 segundo está ao meu lado.
— Por ter te irritado e tudo mais. Colocar a vida da sua amiga Carly em risco... – Ele olha todo meu quarto em volta, parece feliz e curioso.
— Nossa amiga Carly – corrijo e ele olha para mim de soslaio.
— Que seja – ele coloca a mão fria sobre a cama e seus dedos gelados encostam-se aos meus, recuo na hora- Desculpe – ele abaixa a cabeça como se estivesse envergonhado. – Eu não devia ter deixado as coisas chegarem a esse ponto – Freddie retorna ao assunto. – E agora temos um problema maior, alguém está tentando nos incriminar, ao mesmo tempo em que está livrando sua pele, me pergunto quem seria idiota a esse ponto.
— Deve ser algum dos meus admiradores, tenho muitos... – Cruzo as pernas em cima da minha cama.
— Eu percebi... Gibby é um deles – Freddie se levanta e anda pelo quarto, funga como se gostasse do cheiro.
— E você também – disparo notando seu ciúme.
— Perdão? – ele finge não saber do que eu estou falando.
— Logo após nossa conversa no estacionamento... – Meu corpo esquenta por algum motivo e ele se mexe gostando do assunto em que entrei. – Wendy me contou que esbarrou em você no baile, ela disse que seu futuro desapareceu.
Ele balança a cabeça intrigado.
— Mandando sua amiga vigiar o meu futuro? Eu não esperava menos...
— Escutou o que eu disse? Seu futuro desapareceu— repito chamando sua atenção.
— Isso pode significar qualquer coisa – ele dá de ombros feito uma criança.
— Ela disse que você tomou uma decisão que envolve a mim, por isso você desapareceu. Wendy não enxerga os lobos por que nunca foi um, enxerga os humanos por que ela é humana e enxerga os vampiros por que são as criaturas que precisam ser combatidas. Ela nunca errou uma visão mesmo elas sendo subjetivas, depende da decisão que a pessoa toma – conto a ele detalhe por detalhe.
— O que espera que eu diga? – Ele se ajoelha em minha frente, uma postura vulnerável, eu podia mata-lo agora, mas eu sei que no fundo não quero isso.
Mordo o lábio olhando para seu belíssimo rosto. Com mil demônios, por que ele é tão lindo?
— Quero que me conte o que decidiu naquela conversa no estacionamento.
— Eu gostei daquela conversa – ele sorri de lado com a voz cheia de segundas intenções.
Eu não consigo controlar e coro com sua frase.
— Você não vai me responder, não é?
Ele nega com a cabeça.
— Não posso – ele funga de novo. – Por que seu quarto não cheira a cachorro molhado?
— Não estou a fim de discutir sobre cheiros.
— É sério. Você é uma loba, mas seu cheiro não me incomoda – ele se ergue um pouco, cheira meu pescoço e deixa seu rosto a milímetros do meu. – As coisas não precisam ser desse jeito.
— Na verdade precisam sim – tomo coragem para segurar seu rosto.
— Eu tenho uma ideia...
— Diga – desço a mão para seus ombros.
— Na verdade é um acordo.
— O que é?
Ele inspira se levantando comigo. Freddie pega minhas mãos e me prende contra ele como fez no estacionamento.
— Rompa o tratado – ele toma coragem para dizer e eu pisco sem acreditar no que pediu.
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