42 - Violet Hill

3 Segunda vez desde 1880


Notas iniciais
Oi humanos! Mais um capítulo prontinho para vocês... Espero que gostem tanto quanto eu amei escreve-lo, aproveitem lindões!

Parte 3: Estranho mas não impossível

Povs Sam:

— Te dou cinco segundos para retirar o que disse — aviso o Freddie e o empurro contra a parede, ele não esperava por isso.

Ele já está em minha frente de novo antes que eu pisque.

— Me escuta, se você quebrar o tratado e juntar nossas forças, poderemos saber quem está armando as coisas contra nós — Freddie diz voltando a se aproximar.

— Não posso quebrar o tratado e colocar em risco minha alcateia, nem todos do seu clã são como você.

Ele se surpreende com algo que eu falei, então repasso a frase procurando o que eu disse de errado.

— Então você acredita que eu sou diferente? — Oh, então foi isso que tocou o coração de pedra dele.

Olho para a janela aberta.

— Acredito.

— Você sabe que quando faz sol nem podemos cogitar a ideia de andar por ai, mas as terras da reserva são bem densas na floresta, seria mais fácil para meu clã se estabelecer por lá. Poderíamos proteger a tribo com vocês — seu discurso é cheio de paixão não correspondida.

— Seria inútil. Vocês só habitariam as terras aos arredores da reserva, não poderiam se aproximar da tribo por que não podem entrar em solo sagrado. E nós estamos protegendo nossas terras muito bem sozinhos — ando pelo quarto a procura de um tênis, preciso voltar para o colégio.

Freddie vai para a janela.

— Você está enxergando problema onde não tem.

Coloco um par de All-Star converse surrados e depois olho para o Freddie, raios de sol lutam contra as nuvens densas, ele tem que recuar.

— Como vai voltar para a casa? — algo dentro de mim faz com que eu me importe.

— Não vou voltar para casa, nem para o colégio... Apesar de que eu vim de carro — seu olhar volta para mim.

Relembro o que Wendy disse a respeito do Freddie também me olhar como se eu fosse algo de comer, ele está me olhando de maneira intensa e isso faz meu coração que já bate de uma maneira anormal ficar mais rápido, ele sorri ao escutar os batimentos aumentarem, dá um passo para frente e ri com o som ficando mais desenfreado.

— Vai ficar aqui? — Elevo uma oitava na voz.

— Se me permite, eu gostaria de ficar. Por volta das três horas da tarde eu retorno ao colégio para buscar minhas irmãs. Te dou uma carona até lá se quiser — ele é educado e prestativo.

— Claro, claro — murmuro para escapar do clima constrangedor.

— Não preciso ler mentes como o Nevel para saber que você pretendia voltar para as outras aulas...

Sorrio para ele.

— E te deixar sozinho na minha casa? De jeito nenhum.

Sua risada de menino preenche o quarto.

— Então pelo visto vamos passar um tempo juntos.

— Sim. Vamos — suspiro derrotada.

— Sabe Puckett... Se você não fosse minha inimiga natural e não me odiasse, eu até poderia me apaixonar por você — ele diz por algum motivo e meu queixo cai aberto.

Penso no que responder, pois ele já está a menos de um passo de mim.

— Sabe Benson, se você não cheirasse de maneira tão doce que queima meu nariz, se não atacasse vítimas inocentes apenas para satisfazer uma sede insaciável, se não fosse meu inimigo natural, eu até podia... — Me interrompo e mordo o lábio balançando a cabeça. — Não — olho com nojo para ele. — Nem assim.

— Ai. Não seja tão rude... E eu não sabia que você prezava a vida dos cervos, tecnicamente eles são suas presas também — Freddie corre e se deita na minha cama, ele se acha por ter velocidade... Coitado, se soubesse que eu também possuo.

Sento-me na beirada da cama. Freddie me olha como se estivesse me apreciando. Céus. Vampiros não sabem controlar as emoções mesmo tendo séculos de idade, então se o Freddie está me olhando dessa maneira eu sei que ele me quer. O problema é saber que lá no fundo eu o quero também. Tem uma batalha sendo travada dentro de mim. Meu corpo está sentindo curiosidade e isso é um perigo. Tenho que entrar em algum assunto para abafar meus pensamentos.

Me ajeito na cama ficando de frente para o Freddie, sem me importar em colocar meu par de tênis em cima das cobertas

— Cervos? — Volto na conversa de antes. — Como assim? O que está tentando dizer? Você não caça...

— Humanos? — ele completa. — Não.

— Caramba.

— Está surpresa? — Ele se senta sendo rápido novamente e espalma a mão na minha coxa. — Não caço humanos — ele começa a fazer círculos na minha calça jeans.

— Por que ir contra sua própria natureza? — Eu me lembro dos meus anos isolada como vampira, fugindo do sol e sobrevivendo somente com sangue animal.

— Porque não quero ser assim... Não quero matar pessoas, não quero ser um monstro — ele fita meus olhos azuis, noto a sua pílula dilatar por um instante.

— Mesmo assim... É contra sua natureza — busco argumentar, quero saber se ele já cedeu um dia.

— E a sua natureza também pede para que você me mate, mas, no entanto você não o faz. Por que?

Levo uns segundos para formular uma resposta.

— Não é todo dia que vou contra ela. Hoje não fui — recordo a transformação no bosque do colégio.

— Mas agora está indo — ele sorri de novo, noto que é um hábito. — Por que? — Freddie quer uma resposta de verdade.

— Por causa da Carly — e em parte isto é verdade.

— Carly? Ela gosta do Brad — Freddie ri e isso me faz rir também.

Não tinha notado que minhas mãos brincam com o seu relógio no pulso esquerdo.

— Não é nenhuma novidade, né?

Fredward olha para minhas mãos inquietas no seu relógio.

— Não é novidade para ninguém, Nevel nem precisou ler a mente dela e contar para nós, é bem visível.

— Mas mesmo assim, ela também gosta de você e admita que você também gosta dela.

Ele fica sério.

— Sim. Eu gosto muito dela, moro na frente do apartamento dela há anos, não foi surpresa quando ela descobriu o que eu era, mas... Ela não me ama assim.

— Admite que se ela gostasse de você de verdade, se ela te amasse, você namoraria com ela? — A pergunta sai estranha, como se eu quisesse chorar.

— Sim. Claro — ele responde rápido demais. — Mas Carly é humana, eu apenas a estaria colocando em risco.

— Então também admite que a ama? — Seguro seu pulso, era onde eu deveria sentir a pulsação.

— Não — ele nega e me escapa um suspiro de alívio. — Não a amo assim.

— Namoraria com ela só por conveniência?

— Não. Eu namoraria com a Carly por que ela me aceita como eu sou e não existem muitos amores assim no mundo — ele começa a ficar bravo. — O que isso tem haver com você controlar a sua natureza por causa dela?

— Eu não mataria você sabendo que ela iria sofrer horrores depois. Não a deixarei perder ninguém de novo. Nunca mais — faço a minha promessa diária.

— Ou seja... Se a Carly não existisse, você já teria me matado? — Freddie segura minha mão em seu pulso.

— Não quero matar você — me encolho um pouco por causa do frio. — Não o tempo todo.

— Agora você não quer? — Ele não precisa respirar, mas mesmo assim sopra contra meu rosto.

— Agora eu não quero. Isso basta para você?

— Acho que sim.

Reviro os olhos, indignada.

— E você? Não sente vontade de me matar?

— Não — ele olha para a minha boca. — Não sinto aversão a você. Bem, não muita. O que é estranho por que sinto aversão aos outros. Tudo em você é diferente. Sua voz, seu jeito de andar, até o seu cheiro... Tudo está se transformando em necessidade para mim e eu quero lutar contra isso, e eu vou conseguir — Freddie mantém a voz baixa, o que está aumentando a minha respiração. Deus, o que está acontecendo comigo?

— Você... — Não tenho palavras.

— Eu sei sobre a história do imprinting e sei com toda a certeza do universo que um lobo jamais teria isso por um vampiro.

Lembro-me de um ponto-chave nessa história.

— Freddie.

— Eu sei. Eu só quis ser sincero.

— Fredward — chamo novamente.

— Talvez a Wendy esteja certa, meu futuro desapareceu por que tomei a decisão de contar a verdade para você — ele não para de falar.

Aperto seu braço com força e ele me olha com as veias saltando ao redor dos olhos, mas se acalma aos poucos.

— Garotas não tem imprinting. Então não espere que eu vá me apaixonar por alguém através dessa magia — tem descaso na minha voz. — Eu sou livre para escolher quem eu quiser.

— Então você escolheria... — A esperança dele se acende. Sim. Eu quis responder.

— Não Freddie. Escolher você seria errado e estranho.

— Eu sei... Por um segundo eu pensei que... — Ele começa a se afastar. — Deixa para lá.

— Errado, estranho... Mas não impossível — não quero mentir para o Freddie.

Ele prefere ficar em silêncio e eu também.

Quando me levanto da cama ele parece triste.

— Aonde vai?

— Comer alguma coisa, você quer... — levo a mão à boca por cogitar perguntar algo tão idiota.

— Gostei que você se esqueceu que eu sou um vampiro — ele fica em pé e corre porta à fora.

Abuso da minha velocidade e também corro atrás dele, mas sem levantar suspeitas.

Chego à pequena cozinha e Freddie já está sentado na cadeira, que fica próxima a janela que está fechada.

Ignoro sua presença e pego algumas coisas para fazer o jantar, tenho que embrulhar tudo e guardar na geladeira, já que os garotos vão vir comer aqui e a comida de um mês inteiro acaba praticamente em uma noite.

Freddie permanece em silêncio, mas tem uma pergunta que eu quero fazer.

— Posso te fazer uma pergunta? — Eu falo enquanto corto uns legumes.

Freddie se levanta e caminha até o meu lado normalmente, ele é gracioso demais, o que me irrita. Mais uma vez ele está tão próximo que roça o braço no meu se apoiando de costas na pia.

— Pode fazer quantas perguntas quiser — Freddie responde olhando o que eu estou fazendo.

— Sua família... Seu clã. Eles também são como você? Se alimentam somente de sangue de animais? — A pergunta sai simples.

— Sim... — Percebo que não são todos. — Mas a Trina escapa às vezes. Ela é meio incontrolável. Fazemos o possível — ele retira um fiozinho solto da minha blusa.

— Posso te fazer outra pergunta? — Largo a faca em cima da tábua de cortar.

— Pode — ele me olha daquela maneira poderosa de novo.

— Por que fica sempre tão perto de mim? — Fito seus olhos em busca de uma resposta.

— Minha aproximação te incomoda? — Freddie parece magoado.

— Não — nego imediatamente o que faz seu humor voltar ao normal. Vampiros são bipolares. — Então responda minha pergunta.

— Eu gosto muito de ficar perto de você — ele pega a minha mão e eu tenho que pensar em outra pergunta.

— Eu sei que a Trina tem o dom de dar uma descarga elétrica. Robbie pode influenciar nas decisões das pessoas. Cat consegue paralisar os inimigos. André controla os quatro elementos. Nevel lê pensamentos... E você? — Aperto sua mão com carinho.

Ele não parece querer responder, mas passa a mão livre do cabelo desgrenhado como se a resposta fosse surgir sozinha.

— Meu dom é parecido com o do Robbie, mas é de total ilusão. Enquanto Robbie pode fazer um humano decidir se matar por vontade própria, eu crio um sentimento na pessoa: tristeza, raiva, amor, ódio... Mas é apenas ilusão. Já me ajudou em batalhas, posso fazer a pessoa sentir dor, mas não está acontecendo de verdade, porém só posso utilizar em uma pessoa por vez, Robbie pode usar em várias pessoas ao mesmo tempo — Freddie finaliza e eu começo a ficar brava.

— Então você está controlando minhas emoções agora? — Mordo a língua com tanta força que sinto o gosto do sangue, mas terá se curado antes mesmo que eu tenha tempo de engolir.

— Não. Eu não consigo controlar o que você sente.

— Quer dizer que tentou me infligir dor, ou qualquer outra coisa?

Freddie aparenta estar calmo.

— Sim — responde ele e eu vejo que vou perder o controle de novo. — Mas não dor. Eu tentei projetar calma em você, mas eu não consigo. Cat não conseguiu te paralisar, Nevel não consegue ler seus pensamentos, Trina não consegue te eletrocutar. Ninguém que tem um dom apenas mental consegue derrubar você. O dom de Robbie funciona por que ele trabalha com a razão e com a lógica, coisas que acontecem de verdade. Ilusões não te afetam.

Uma calma paira sobre mim. Mas é inacreditável por que a calma vem de dentro de mim mesma.

Pego a carne na geladeira ao meu lado, coloco na tábua e começo a corta-la em cubos.

— Então quer dizer que você não pode influenciar nas minhas emoções? Não é você que está me fazendo gostar de você?

— Você está gostando de mim?

Vacilo mas não tenho como voltar atrás.

— Estou.

— Fico feliz em ouvir isso.

E pela segunda vez desde 1880, Freddie e eu não queremos matar um ao outro. Hoje não.

Eu continuo cortando a carne, Freddie olha com repulsa para o alimento e volta a sentar-se na cadeira, mas de repente um raio solar invade a janela quando ele mexe na persiana e em segundos sua camisa começa a pegar fogo. Mas o fogo não é da camisa e sim do seu corpo.

— Droga! — Ele corre para perto de um armário, sua camisa fica com um buraco no peito esquerdo e eu fico com pena dele.

— Como você vive desse jeito? — Isso realmente dói.

— Não é viver. É sobreviver — ele olha para a camisa polo que agora está rasgada com pedaços queimados.

— Tem algumas roupas aqui... Os garotos costumam deixar — lavo as mãos com a intenção de ajuda-lo.

— Que garotos? — Ele fica com ciúmes,

— Os da minha matilha, Freddie — eu rio da sua cara. — Caso precisem de roupas por se transformar nas pressas tem por aqui.

— Legal — Freddie continua bravo com a roupa rasgada.

— Vem — pego sua mão e ele entrelaça nossos dedos. — Vamos procurar algo para você vestir.

Ele concorda com a cabeça.

Freddie e eu subimos de mãos dadas para o meu quarto. É estranho subir as escadas dessa maneira, nunca imaginei que isso aconteceria.

Entro no quarto sem soltar a mão do Freddie e nos guio para o armário. Abro a porta, pego uma camisa xadrez presa a um cabide e entrego ao Freddie. Ele torce o nariz com o cheiro de lobo.

— Obrigado — ele agradece soltando minha mão.

— Disponha — uma amizade renasce entre nós.

Ele deixa a camisa que está no cabide em cima da cama e retira a sua.

Desvio o olhar do seu peito perfeito. Freddie não faz piadas, mas vejo-o dar um risinho. Quer saber? Dane-se. Olho para seu corpo. Os ombros são perfeitos demais, o peito musculoso se projeta para frente, deve ter sido desenhado por Deus. Os braços fortes da maneira certa. Ele não possui defeitos. Absolutamente nenhum defeito.

Eu ando para perto dele, que retira a camisa do cabide para vesti-la, mas eu coloco a mão contra seu peito gelado, onde seu coração devia bater. Freddie se arrepia com meu toque quente. Os cabelos do seu peito fazem cócegas na palma da minha mão direita.

Pego a camisa xadrez. Freddie me ajuda a passa-la pelos seus braços. Agora me resta abotoar. Começo pela parte debaixo e ele olha para minhas mãos. Não damos uma palavra. Quando termino de abotoar a camisa, saímos do quarto em silêncio e retornamos para a cozinha.

Freddie e eu conversamos sobre diversidades. Ele me conta sobre como é difícil controlar a Trina e eu explico sobre o por que não quero Carly com o Brad, mas agora eu também não quero dar um motivo para Freddie escolhê-la.

Enquanto a carne cozinha, eu me sento em uma cadeira. Freddie tamborila os dedos na mesa como se quisesse perguntar alguma coisa.

— Se você é a alfa da tribo... — Ele inicia como se eu não fosse a chefe da matilha. — Por que não ordena ao Brad que fique longe da Carly?

— Porque não posso tirar a vontade própria dele. Eles não são meus escravos, são meus amigos.

— E a Carly não te escuta?

— Ela quer tomar as próprias decisões e digamos, quebrar a cara sozinha — explico fazendo gestos com a mão.

— Entendo.

Freddie volta a me olhar daquela forma e eu tenho que perguntar por que.

— Por que me olha assim?

Ele aperta os olhos como se tentasse ver através de mim.

— Tem algo... Inquietante em você... E você sabe que eu sei.

Estamos entrando em um assunto perigoso.

— Deve ser por que eu estou oscilando entre arrancar a sua cabeça e lhe dar um beijo.

— Eu fico com a segunda opção — ele passa a língua nos lábios.

Pergunto-me se conseguiria beijá-lo sem realmente o matar.

— Hoje não — melhor não arriscar.

Ele não parece desapontado, está apenas pensativo.

— Então talvez outro dia...

Um trovão alerta o começo da chuva e Freddie se alivia, ele detesta o sol, coisa que eu amo. Morar em Seattle sabendo que temos 266 dias nublados no ano me desanima. Freddie vê isso como uma bênção para ele e para seu clã.

Uma coisa martela na minha cabeça.

— Como entrou aqui?

— Pela janela — ele responde normalmente.

— Não. Como entrou na minha casa? Vampiros só entram quando são convidados.

— Talvez por que alguém que more aqui seja um vampiro — me apavoro por não ter pensado nisso antes, ele vai acabar descobrindo. Ele ri da minha cara de espanto. — Carly me convidou para entrar naquele dia que ela torceu o pé e eu a trouxe para cá. Ela tem tanto direito sobre a casa como você, se chama vínculo, não preciso fazer bruxaria para saber disso, mas se tiver dúvidas pergunte a Wendy.

Quero dizer ao Freddie que já mencionei sobre isso com a Wendy e que o meu vínculo com a Carly não era suficiente para permitir a entrada de vampiros aqui, não temos laços de sangue, mas por hora o deixarei pensar assim. Burra! Burra! Me censuro. Como não me toquei que se eu sou metade vampira ele poderia entrar quando quisesse?

Fico calada fingindo que irei perguntar para a Wendy depois, por hora tive uma ideia.

— Benson? — Começo a abrir um sorriso. Ele me olha esperando que eu fale de uma vez. — Quer sair em uma patrulha? Até a fronteira do Canadá? Poupa metade do trabalho dos garotos de noite e eu sei que a Jade detesta ir muito longe.

— Agora? — Ele avalia o tempo mexendo devagar na persiana, nenhum raio solar.

Faço que sim com a cabeça,

— Você vai secar rapidamente na volta, a chuva não vai durar muito e o sol não vai sair nem tão cedo.

— Tudo bem. Eu topo — ele se levanta, mas depois fica meio desapontado.

— O que é?

— Não vamos realmente conversar... Não vou te ouvir em forma de lobo e tem a probabilidade de você querer me matar.

— A primeira coisa é verdade, mas sério que você acredita na segunda mesmo depois de tudo o que eu te falei?

— Tudo? Tudo o que?

— Esquece — ergo as mãos desistindo. — Se quiser me acompanhar venha, se quiser ir pra casa, vá. Eu não me importo — oh eu me importo sim e muito, mas não vou dar esse gostinho a ele.

Eu saio pela porta da cozinha, começo a tirar a roupa e joga-la na garagem aberta que fica atrás da casa. As roupas aterrissam nas caixas. Eu me lanço para frente e em segundos estou transformada. Meu olfato é muito mais apurado nessa forma, o que faz o cheiro do Freddie ficar ainda pior. Contorço-me e solto um ganido de dor ao sentir meu nariz queimar, minha parte vampira não alterou isso.

Freddie olha para mim confuso. Ele se coloca ao meu lado e me espera correr em alguma direção. O bom é que ele praticamente já sabe como as patrulhas são feitas. Minha alcateia e eu contornamos as terras da reserva até a fronteira do Canadá, procurando rastro de vampiros ou de lobos que possam ser uma ameaça. Ir longe é bom para cobrir mais terreno.

Corro como um raio para dentro das árvores atravessando a rua deserta e chuvosa. Freddie corre atrás de mim e assim seguimos. Eu corro e farejo ao mesmo tempo, nada novo. Apenas os mesmos rastros da minha alcateia e cheiros de alguns vampiros nômades que já temos conhecimento, não são um perigo para a aldeia, mas vão se alimentar em algum lugar da região.

Escuto os passos do Freddie no meu flanco, ele permanece impecável enquanto corre pela vegetação, sem nem sujar a roupa, enquanto eu devo estar com meu pelo todo enlameado. Corto o trajeto pelo rio para que eu possa me limpar, Freddie prefere pula-lo.

Quando eu sei que fomos longe o bastante decido voltar. Freddie quis ir mais longe, porém eu soltei dois ou três palavrões em rosnados que ele deve ter entendido como um "vamos voltar agora!".

Ele ficou esperando no carro, enquanto eu entrei na garagem para me vestir. Fico contente por ele também estar usando uma camisa xadrez, a imagem dele sem camisa retorna a minha mente e eu me xingo por ter tido um pensamento impróprio. Ora bolas ele é um vampiro, não viaja Samantha! Meu subconsciente em forma de lobo me repreende.

Meus cabelos estão um pouco úmidos e por mais que eu seja quente o tempo todo — assustadoramente acima da temperatura de uma pessoa normal e alguns graus a mais que os membros da matilha — eu me sinto melhor com o ar quente que o Freddie ligou no carro.

— Pra que isso? — Fecho a porta e coloco o cinto, mais cheiro de vampiro.

— Tori não gosta do frio — ele pensa na irmã como sempre.

— Claro, claro — olho para a camisa xadrez que emprestei a ele, o jeans que o Freddie está usando ficou um pouco sujo e em alguns pontos meio desfiado após a nossa patrulha, ele parece um garoto Klautriny e sinceramente... Ele fica muito bem usando roupas de lobisomem.

— O que está olhando? — Ele pergunta de forma rude.

— Seu corpo perfeito — mostro a língua para ele.

— Eu sabia que você me desejava na cama — Freddie desvia o olhar de mim e vira o rosto para olhar pela janela, sei que está sorrindo.

— Que piada safada.

— Como se você fosse santa — ele bufa. — Aliás como são as coisas com o Gibby?

— Não é da sua conta — me encolho no banco.

— Claro, claro — ele ri roubando a minha frase.

Chegamos ao colégio no pior horário. O pessoal já está sendo dispensado e a coisa toda não podia ser pior. Eu saio do carro e Freddie também, em vez de ele seguir o caminho reto até suas irmãs que nos olham com sorrisinhos bobos, diferente dos outros que nos olham com certo nojo, Freddie vem para o meu lado e pega na minha mão. A escola inteira para de andar nos observando, minha matilha olha com raiva, Wendy ergue as sobrancelhas e Gibby parece que comeu algo ruim.

— Realmente me perdoe por hoje de manhã. Eu sinto muito — Freddie olha nos meus olhos falando baixinho, mas sei que os outros podem ouvir, com exceção de Tori, Gibby, Wendy e... Onde diabos estão Carly e Brad?!

— Eu perdoo você — olho para nossas mãos juntas e permaneço parada enquanto somos alvos de olhares.

— Que bom Sammy... — Freddie se inclina devagar e beija minha bochecha de uma forma lente e gostosa, tento não me encolher com o frio, mas aprecio a sensação.

— E aquele papo de que iria lutar contra isso? — Me refiro aos sentimentos dele por mim.

— Isso foi antes de eu saber que você não pode ter imprinting — ele solta a minha mão. — Até mais — Freddie caminha quase pulando para perto das suas irmãs, então olho para suas costas, eu sei por que todos estão tão chocados, Freddie trocou a camisa, eu estou com os cabelos molhados... É... Isso vai dar o que falar.

Caminho de cabeça erguida até meus amigos, Gibby me espera com uma feição desapontada.

— Onde está a Carly? — Dirijo a pergunta a todos que abaixam a cabeça disfarçando, Jade finge estar beijando o Beck, Griffin brinca com os cabelos ruivos da Wendy.

Wendy é a única que toma coragem para ser dedo-duro.

— Ela matou aula.

— Ela fez o que? — Minha voz sai fina em total choque.

— Eu disse que o futuro dela desapareceu... — Wendy dá de ombros.

— Merda! — Bato a mão na coxa. — Ela foi para a casa do Brad?

— Sim — Griffin me responde. — Disse que só voltava à noite para o jantar na sua casa, disse que não era para você ficar preocupada e que ela não tinha que dar satisfações a ninguém.

— E ela acabou de fazer isso dando esse recado — levo as mãos ao rosto, a Carly é uma criança ainda.

— Também achei estranho — ele funga e olha para minhas roupas. — Você está fedendo a sanguessuga — Griffin murmura baixo para Gibby não ouvir.

— Te perguntei alguma coisa? — Ergo o tom e ele recua por causa da autoridade em minha voz.

— Eu vou para casa — Gibby passa esbarrando no meu braço.

— Você devia falar com ele — Wendy faz uma careta. — É sério.

— Tá. Vocês... — Me direciono à Jade, Beck e Griffin. — Vão jantar na minha casa ao anoitecer, não se esqueçam. Griffin?

— Fala — ele está cansado de receber ordens, mas sei que no fundo gosta de mim como uma grande amiga.

— Busque o Dice, pelo menos hoje ele tem que participar.

— Sim senhora.

— Wendy? — Me dirijo à bruxinha mais linda da escola. — Vai no jantar também?

— Não. Tenho que levar a minha mãe para a casa da minha tia em Tacoma, inventaram de fazer reunião mística hoje, sabe como é? Fortalecer a magia e blá, blá, blá — ela rola os olhos.

— Nos vemos de manhã então — trocamos um abraço, mas ela me segura e beija meu rosto.

— Foi onde o Freddie beijou — ela começa a rir e eu me solto.

Distancio-me dela segurando um riso.

— Vejo vocês em breve.

— Ele não estava com aquela camisa — Jade murmura. — É estranho e repugnante.

Caminho de costas para ficar de frente para a Jade.

— Não fizemos nada — conto a ela.

— Nós não podemos ler seus pensamentos, como vamos saber que é verdade? — Beck pergunta defendendo a tese da Jade.

— Porque eu nunca menti para vocês — faço um coração com as mãos para os dois.

Viro-me e procuro o Gibby na multidão, não encontro seu cheiro de mel e pinho, meu próprio ursinho Pooh.

Outra fragrância faz a minha garganta arder um pouco, a parte vampira sente desejo, mas é fácil controla-la. A fragrância que cheira a shampoo de cereja com um leve toque de rosas só pode ser de uma pessoa: Tori Vega.

— Espero que a carne alimente seus cachorros — Freddie faz piada de mau gosto enquanto anda para o carro com Tori e Trina. — Oh, ficou ofendida? Desculpa linda.

— O jantar vai ser perfeito, não se preocupe, você me viu preparar — relembro nosso momento na cozinha.

— Eu tenho minhas dúvidas — ele abre a porta do carro para as meninas.

— Jantar? Eu adoro jantares... — Tori olha para mim, ela é outra que brinca de faz de conta, uma hora também vai se machucar nisso tudo.

— Você está convidada. Pergunte se seu irmão gostaria de ir, sabe né, como líder do clã em uma missão de paz no território inimigo — pisco para ela.

— Diga a ela que eu adoraria, Tori — Freddie abre a porta do motorista.

— Ele disse que adoraria, Sam — Tori me fala.

— E quanto a você Trina? — Pergunto para ser educada, mas já sei a resposta.

— Eu prefiro não ir. Não quero voltar para casa cheirando a cachorro. E falando nisso, que camiseta é essa Freddie? Meu Deus, tira isso daí... Quer saber? — Ela se afasta do carro. — Eu vou voltar andando — andando ela quer dizer correndo. — Bem longe desse fedor, cruz credo — Trina joga os cabelos sobre os ombros. — Xau para vocês.

— Desculpa pela Trina — Tori sussurra quando Trina se afasta.

— Eu ouvi isso hein! — Trina berra do outro lado da rua.

— É claro que ouviu, sanguessuga chata — cuspo no chão e Freddie limpa a garganta. — Com ofensas — adiciono sem me importar.

— Melhor nós irmos — Tori entra no carro. — Até o anoitecer Sam.

— Até mais Tori — aceno para ela.

Freddie liga o carro e eu me pergunto se está cogitando a ideia de me atropelar, isso não me mataria é claro, mas levaria algumas horas para os ossos voltarem para o lugar, os grandes pelo menos.

— O jantar é de que horas? — Freddie pergunta de dentro do Audi.

— Às sete e meia — lhe respondo.

— Estaremos lá — ele me dá uma piscadinha.

Observo o carro sair do estacionamento. Pouco a pouco os estudantes vão deixando o colégio. Lembro-me do meu problema com a Carly, mas isso vai ficar para depois, agora tenho que falar com o Gibby. Corro para o bosque, mas não para me transformar e sim para correr. Talvez ter um lado vampiro tenha suas vantagens, velocidade certamente é uma delas.

Chego à casa do Gibby em segundos. Bato na porta hesitando um pouco, sua mãe vem me receber e diz que ele está no quarto. Ando pela casa sem omitir barulho.

Quando chego ao corredor do seu quarto, vejo a porta fechada. Vou entrando sem bater, e ele se assusta por estar deitado na cama lendo um livro qualquer.

— Como chegou aqui tão rápido? — Ele retira os fones de ouvido.

— Peguei carona com um vendedor de burritos — respondo sentindo uma necessidade de ficar perto dele.

— Você matou aula para ficar com o Freddie? — Ele pergunta sem enrolação.

Oh droga. Como vou explicar a ele?

— Não exatamente. Ele passou lá em casa na hora de vir buscar as irmãs, é que a Tori vai jantar lá hoje — mentira super esfarrapada.

— E por que ele não foi para a aula? — Gibby não parece convencido.

— Eu sei lá. Não me importo com o que o Benson faz ou deixa de fazer — caminho para a cama do Gibby, subo nela e o empurro para que deite, subo em cima dele deixando minhas pernas em volta do seu quadril.

Ele deixa as mãos nos meus antebraços.

— Você é quente — ele fala respirando mais forte.

— Sério? — Apoio minhas mãos no seu peito.

— Não quente nesse sentido — ele faz um círculo no próprio peito se referindo a minha ousadia. — Mas quente de temperatura — Gibby se senta e nossos narizes se encostam.

— Te preocupa eu ser anormal? — Entrelaço minhas mãos no seu pescoço.

— Não. Eu gosto de você assim, anormal.

Lembro-me do que o Freddie falou sobre um amor que te aceita como é... E é isso que o Gibby tem a me oferecer, mas eu poderia escolhê-lo agora, sabendo que eu estou ficando perdidamente e loucamente apaixonada por Fredward Benson? Eu não tenho uma resposta para isso.

Povs Fredward Benson:

— O que fez com a Sam praticamente a manhã e o dia todo? — Tori me pergunta curiosa dentro do carro.

— Conversamos — respondo por cima, minha garganta arde sentindo sede, mas já sei manter isso longe do meu pensamento. Tori é minha irmã e eu jamais faria mal algum a ela.

— Só conversaram? — Tori é ávida por informações.

— Fizemos uma patrulha também até a fronteira do Canadá, chegamos a Birch Bay... Sam não quis avançar até Blaine — relembro dos seus rosnados quando propus que fôssemos mais longe, aposto que eram palavrões.

— Por isso trocou de roupa? — Ela continua curiosa.

— Não. Um raio de sol me atingiu por acidente, meu peito pegou fogo e queimou um pedaço da roupa, Sam me ofereceu esta camisa.

— Ela é uma boa pessoa.

— Sim. Ela é — eu olho de rabo de olho para Tori.

— E você está apaixonado por ela.

— Sim. Eu estou — conto a verdade.

— Isso é demais — ela ri achando tudo divertido.

— É repulsivo.

— Não para você — ela dá um tapa no meu braço de rocha, uma coisa boa é que a Tori faz eu me sentir humano às vezes, ela é tudo para mim, assim como Trina e eu somos tudo para ela.

Trina e Tori entraram na minha vida de uma forma nada convencional. Logo após a batalha de Violet Hill, meu pai decidiu viver a vida dele. Ele já não se alimentava mais de sangue animal, matava humanos por puro prazer, mulheres eram suas vítimas preferidas. Até que dezoito anos atrás ele se apaixonou por uma humana da tribo Klautriny, Sam detesta esta história pois, acha que ele simplesmente seduziu a moça para um banquete. Minha mãe não teve conhecimento disso por que já não ligava mais para o casamento. Meu pai se envolveu tão profundamente com a mulher humana que a engravidou.

Já ouve casos assim, a mãe nunca sobrevivia ao parto e dessa vez não foi diferente, o que meu pai não esperava era que a mulher chamada Amberlyn estivesse grávida de gêmeas. Com muito esforço e com muita dor, Amberly deu a luz primeiro a Trina e em seguida a Tori. Amberly não resistiu e falecera poucos minutos depois de escolher o nome das filhas.

Trina nasceu vampira, mas continuou envelhecendo até chegar aos dezoito anos onde está paralisada para sempre. Tori foi a surpresa que ninguém esperava, ela nasceu totalmente humana e não apresenta nenhuma característica de vampira. Meu pai foi morto por vampiros rivais – problemas do passado – eu o vi queimar em uma pira e as meninas tiveram que ficar conosco quando ainda não passavam de bebês. Eu as criei desde então junto com a minha mãe.

E como já era de se esperar, Trina foi insuportável para criar. Quando pequena tentamos alimenta-la com comida humana, ela rejeitava, então passamos para sangue humano de bolsas que minha mãe pegava no hospital, era o que podíamos fazer e quando chegou na adolescência foi quase impossível fazê-la se alimentar de sangue animal, nós ainda tentamos mas como eu disse à Sam, ela escapa ás vezes e sei que escapou hoje, temo pela sua vítima. Temo por que talvez seja alguém conhecido.

Notas finais
Esse foi o capítulo dessa semana, horário diferente pq agora estou programando a postagem para 16:05 já que eu não disponho de tempo no sábado para postar o capítulo de 20 horas, mas não faz tanta diferença... Agora sobre vocês do Whats: Parem de me ameaçar por eu não querer dar spoiler e não venham dizendo "Eu sei quem é o alfa, mas me diz quem é primeiro para eu saber se estou certo" que isso não vai colar, se alguém acertar o nome do alfa eu vou dizer sim ou não, até lá parem de tentar me ludibriar kkkkkk vcs são top hein huehue... Comentem leitores fantasmas, e não tenha vergonha de me chamar no Whats ou no Twitter, eu respondo na hora, beijão! A pedido de um pessoal aqui está a estimativa de pessoas que me chamam durante a semana: Contabilizando pessoal do Whatsapp: 267 pessoas Contabilizando pessoal do Twitter; 39 DMs See you soon guys!