42 - Violet Hill
42 ... Como no Inferno
Notas iniciais
Povs Sam:
— Merda, merda, merda! — eu xingo levantando da cama. Eu entro o mais rápido possível em minhas peças de roupas, Freddie faz o mesmo. Temos um problema para ser resolvido.
Eu dou um pulo pela janela. Gibby roda em círculos rosnando enquanto tenta se comunicar. Eu preciso me transformar.
— Não faça isso Sam! — Freddie me empata segurando meus braços — O bebê.
Ele tem razão. Eu não posso colocar a vida do bebê em risco.
— Gibby eu não posso me transformar, você vai ter que me dizer o que é. — eu informo ao Gibby que assente com a enorme cabeça e simplesmente corre. Ele quer ser seguido.
Freddie e eu partimos atrás do lobo castanho avermelhado.
A floresta passa como um flash diante de nós. O lobo rosna enquanto corre. Ele parece nervoso. Aflito. Freddie se retrai durante a corrida, sentindo as emoções do Gibby se intensificarem.
Eu não posso me enganar, tenho que esperar o pior. Algo muito perigoso aconteceu com a Carly. As teorias são claras, ela está morrendo, alguma coisa aconteceu ao bebê ou o próprio diabo resolveu dar as caras. Tudo gira em torno de protege-la, por que eu não quero falhar novamente. Ela errou em diversos sentidos, mas ainda si uma parte dela quer se libetar. Minha missão é salva-la. É minha obrigação. Meu dever. Eu não quero sentir culpa novamente e muito menos quero as pessoas sentindo pena. As coisas precisam ser diferentes agora.
O trajeto que Gibby está fazendo, nos leva para o salão em que ocorreu o baile de máscaras.
Eu paro de correr ao chegar ao estacionamento. Freddie me abraça com medo de alguma coisa. Agora que seu coração bate, noto o ritmo irregular, mas não de cansaço e sim de pavor.
— Você está bem? — ele pergunta preocupado — Quero dizer... Ele está?
Oh. Ele... Freddie quer saber do Flint. Eu espero isso seja realmente uma mudança.
— Estamos bem. — eu respondo.
Freddie suspira relaxando.
Gibby uiva chamando nossa atenção. Freddie e eu nos entreolhamos buscando uma resposta.
— Você deseja que entremos lá? — Freddie pergunta ao Gibby.
Gibby gane mexendo as orelhas. Seus olhos parecem marejados. Ele uiva com medo de algo invisível para nós.
Freddie segura a minha mão. Andamos para dentro do salão. As memórias do baile me fazem pensar a respeito de tudo que passamos desde então.
O local está empoeirado. Tem um clima sombrio pairando sobre tudo. Uma luz incandescente faz tentativas vãs de se manter acesa. No meio do salão está a Carly. Ela treme sentada em uma cadeira com cordas prendendo os seus pulsos.
Eu corro em direção à Carly, mas algo me lança para trás. Eu sou arremessada para alguns metros longe. Minhas costas batem contra a madeira do chão. Isso me faz ficar sem ar por alguns segundos. Freddie se abaixa. Suas mãos me erguem com cuidado. A voz dele está distante por que tudo que ouço é minha respiração. Meu olhar se prende na Carly sentada na cadeira com os olhos verdes.
— Deus... — eu sussurro assustada.
— Ele não vai te ajudar. — uma voz mórbida parte da Carly.
Alguém entra correndo no salão. Spencer e Hayes surgem com os livros nas mãos.
— Não sabemos quando nem onde, ela apenas insistiu para ser colocada em um lugar onde não ferisse ninguém. Talvez ela soubesse que ele estava vindo. — Spencer nos conta.
Eu me levanto e vou na direção dela novamente. Freddie não precisa nem agarrar meu braço, mais uma força invisível me empurra.
— Eu não consigo me aproximar. — eu caio sentada.
— Pare Sam. Você vai acabar se machucando. — Freddie me diz segurando meus ombros.
— Precisamos fazer o exorcismo agora, não temos mais tempo. — Hayes avisa.
— Fodam-se. — Carly murmura.
As telhas do lugar começam a balançar. Um vento frio sopra furiosamente. Carly grita. As janelas se quebram. Um impacto me arrasta pelo chão. Hayes, Spencer e Freddie são jogados para lados opostos do salão.
— Fredward! — eu grito seu nome com medo.
— Não se mexa Sam! — ele tenta vir até mim, mas Carly balança a cabeça e Freddie é jogado no teto. Ele cai e se afunda na madeira do piso.
— Vocês vão morrer esta noite. — eu ouço Carly dizer.
— Não! — fala Freddie se levantando — Me mate, mas deixe os outros viverem.
— Sua alma vale por todos? — a pergunta da Carly sai abafada, definitivamente não é ela falando.
— Sim. — Freddie limpa o sangue da boca.
Carly encara o Freddie. Ele começa a gritar e cai de joelhos.
— Por favor, pare! Machuque a mim! Não ele! — eu imploro e vou ao encontro dele.
Os gritos do Freddie param. Ele treme e rosna. Algo faz seu corpo esquentar.
— Eu vou fazer o exorcimo. — sussurro a ele.
— Eu faço. — ele sussurra de volta.
Spencer e Hayes se aproximam com rapidez.
— Vamos te ajudar. — diz Hayes.
— Nos diga o que fazer. — pede Spencer.
— Não. — nega Freddie — Vocês vão permanecer longe o bastante. Ele não vai parar se não matar todos nós.
— Freddie... — eu seguro seu braço.
— Pelo menos uma vez na vida me escute. — suas mãos seguram meu rosto — Me deixe lidar com isso Sam.
— Mas se você morrer...
— Um parte de mim estará com você. — ele sussurra a contra gosto e alisa minha barriga rapidamente — Saia daqui.
— Não! — eu me nego.
— Spencer, Hayes. — Freddie chama.
Eles não pensam duas vezes. Cada um agarra meu braço e me arrastam para longe do meu noivo.
Eu ainda tenho um vislumbre do Freddie cerrando as mãos em punhos.
Povs Freddie:
— Sempre dando a vida pelos outros Fredward Benson. — Carly murmura rindo — Assim na Terra, como no inferno.
— Eu não quero falar com você dessa maneira. Não quero falar com você dentro dela. — eu uso uma tática boa.
Outra risada parte dela.
— Traga um espelho.
Eu vou para os fundos do salão. Tem alguns espelhos do antigo balé que existia aqui. Eu retorno para o salão principal. Estrela da Manhã permite que eu me aproxime. Eu seguro o espelho em sua frente.
— Se mostre. — eu exijo com meus dentes trincados de maneira tão forte que nem o ar passa entre eles.
O espelho esquenta. Eu retiro minhas mãos, mas ele não cai, continua de pé. Eu caminho para trás da Carly. Me arrependo imediatamente ao olhar o meu reflexo. Tem um homem sentado na cadeira. Ele é loiro. Olhos azuis. Suas roupas são pretas. Ele me encara de volta.
— Não era o que esperava? — pergunta ele batucando os dedos no braço da cadeira.
— Não.
— Você não suportaria me ver em minha verdadeira forma. — ele ri novamente. Tem um líquido preto escorrendo pelo canto da sua boca.
— Eu saberia lidar. — eu sou corajoso.
— Não saberia. — ele mexe as pernas — Ela pediu ao Gibby para ser amarrada aqui, mas eu posso me soltar, o que seria uma briga injusta.
Eu cruzo os braços contra o peito. Preciso ganhar tempo enquanto procuro uma fraqueza. Deus, por favor, me ajude.
— Sou tão digno a ponto de querer brigar comigo?
— Você sabe que sim, mas não irei perder meu tempo. Você aceitou morrer por eles, então eu quero a sua alma.
— Minha morte não é o suficiente?
— Não seja insolente. — ele rosna — Você não vai para o inferno se morrer e sabe disso. Eu quero que toda sua existência tenha sido em vão... Ou até mesmo quero te usar para que mate os outros por mim.
É minha vez de rir.
— Para um anjo caído, até que você é burro. Sério, não tem um plano melhor?
Mãos invisíveis socam meu abdômen. Eu me curvo segurando minha barriga.
— Eu vou te matar.
— E além disso é mentiroso. — eu arrisco ir mais longe na provocação.
— Eu sou o pai da mentira. — ele se vangloria disso.
— Então você não vai me matar.
— Não. Um suicida não tem perdão divino, então você mesmo irá arrancar seu coração. — ele aumenta sua ameaça.
De repente minhas mãos estão tremendo. Elas tocam meu peito. Meus dedos afundam em minha pele de granito. Não sou eu que estou fazendo isso.
— Jesus Cristo. — eu chamo.
— Cale a boca. — ele se enraivece — Você irá se matar e será agora.
Ele faz com que minha mão não se mova para nenhum lugar, somente para frente pela minha vontade. Se eu ceder, irei fracassar.
— Deus, a destra da sua justiça me sustenta. — eu recito.
— Senta no meu colo papai. — ele fala rindo — Samantha irá ficar triste quando souber da sua morte, mas o filhote vai lidar com ela.
Ele acaba encontrando minha fraqueza.
— Não! — eu grito prevendo o pior.
— Veja por si mesmo.
O reflexo do espelho se perde. O que eu estou olhando agora, é uma cena na qual Sam está deitada em uma cama. Sua barriga está sendo destruída. Eu fecho os olhos não querendo mais ver aquilo.
— Ela não vai morrer. — meus dentes se batem tremendo.
— Você sabe que sim. Você mesmo disse. Essa é a verdade. E se você não morrer agora, você vai ver tudo isso em breve.
Balanço a cabeça.
— Eu não acredito em você.
— Acredite!
— Maior é o que está comigo, do que o que está no mundo. — eu fecho os meus olhos.
— Ela vai morrer. Você vai assistir.
— Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte... — eu me foco na palavra de Deus.
— A morte não vai precisar vir te buscar, eu estou aqui pessoalmente para isso.
— Não temerei mal algum. — eu digo mais alto.
— Se mate.
— Retorne ao lugar de onde veio. — eu começo a ordenar.
— Em seu nome?
— Em nome de Jesus Cristo!
Ele grita se contorcendo. As cordas se rompem.
— Feche a porra da boca!
— Exorcisamus te, omnis immundus spiritus!— minha voz sai firme.
— Filho da puta. — ele sai da cadeira. A mão da Carly se levanta e eu me vejo sendo lançado no teto de novo. Meu corpo tomba no piso após a queda.
— Omnis satanica potesta!— eu não vou parar.
— Pare seu merda!
Um nevoeiro verde preenche o salão.
Eu retiro um colar de cruz que eu costumo carregar no bolso.
— Omnis incursio inferniis adversarii!
Ele vai para trás e quebra uma parte da cadeira. Uma estaca fica em sua mão.
— Segure isto. — a estaca voa para mim.
Não tenho tempo de desviar. A madeira se crava no meu peito. Machuca. Dói. Estoura meu pulmão. Eu tusso sangue.
— Omnis legio, omnis congregato et secta diabolica... — eu murmuro tentando retirar a estaca do meu peito.
— Dê lembranças a Deus por mim. — ele pega outro pedaço de maneira e vem em minha direção. Sua boca espuma aquele líquido preto.
Eu vou me afastando dele chão com os cotovelos.
— Ergo, draco maledicte.
Ele para tremendo. O corpo da Carly tem espamos perturbadores. Seus joelhos tocam o chão. Não sei qual dos dois está sofrendo. As mãos se espalmam no piso.
— Eu. Não. Vou. Sair! — um grito gutural faz meus ouvidos doerem. Um apito surge em minha audição.
— Eclesiam tuam secri tibi facias liberte servire, te rogamus! — eu procuro forças para gritar e retiro a estaca de mim.
Agora o grito vem da Carly. Está tudo um caos.
— Não me mande de volta! — a voz do Lucifer surge de novo.
— Eu te condeno de volta ao inferno, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo! — eu proclamo o que faltava — Adios!
Outro grito vem. A mão dela com a estaca se crava em sua barriga. Eu fico em choque sem conseguir me mexer. Uma fumaça preta sai de sua boca. Tudo fica em silêncio. Os olhos verdes retornam ao seu castanho ao leite. Carly olha para suas mãos que seguram a madeira.
— Freddie... — ela sussurra e tomba para trás.
— Carly! — eu já estou ao seu lado.
Ela chora sem emitir ruídos.
— O bebê. — ela me lembra
— Meu Deus. — eu a pego nos braços.
Eu corro para fora do salão. Sam aparece e toca na barriga da Carly, suas mãos se enxarcam de sangue.
— Ah não! — ela se comove.
— Se ainda quer alguma chance de salva-la, precisamos leva-la para o hospital. — eu digo rápido.
— Leve-a para o Seattle Grace. — Spencer murmura quase chorando — Chegaremos lá em breve.
Eu parto na escuridão da lida segurando a Carly contra mim. Ela vai perder o bebê e a culpa será minha... Mas eu aceito a dor, não me importo. Eu evitei que a Sam assumisse a culpa por isso. Que todo o peso caia sobre mim. Que toda a dor seja minha. Eu não quero que a Sam sofra. Eu sofrerei tudo por ela.
Povs Sam:
Ao lado de fora do salão, aguardamos um sinal. Não se atrevemos a escutar nada que não seja o som dos carros na rodovia. Gibby foi para casa com Hayes, eu exigi que ele fosse trocar de roupa e que voltasse depois, pois quando Carly saísse da possessão ela precisaria dele.
O tempo se arrasta. A chuva fraca molha o estacionamento. Spencer está com o rosto afundado nas mãos. Eu gostaria de saber onde a Shelby está.
— Cade a Shelby? — eu pergunto.
— Ela e Dice foram resolver assuntos de patrulha. Gibby pediu por que não queria deixar a Carly sozinha. — responde Spencer.
— A Carly vai ficar bem, não se preocupe, ela não pode morrer. — eu acaricio suas costas quentes.
— Não é esse o problema, é que esse Oráculo define nosso futuro, nossas escolhas, nós nem podemos andar com nossas próprias pernas. Você não desejaria viver sua própria vida? Ter seu próprio trajeto? Sem ter um pedaço de papel dizendo seu destino? — ele faz uma pergunta atrás da outra.
— Mas as escolhas do Oráculo são as nossas... Eu não sei como te explicar.
Ele está perturbado.
— Está dizendo que o Oráculo sabe do nosso futuro? Ele sabe exatamente o que vamos escolher? E se quisermos mudar? Não quero seguir a risca um pedaço de papel.
— O que te perturba tanto?
— O livro revela que um parente da Kimera, sentará no trono de Viena após se afastar de sua família. Eu serei tio dessa garota, sou o único parente dela. Por quê eu me afastaria de vocês? Eu não vejo isso acontecendo... — ele me olha de soslaio — E você lutará pelo Alfa, ou é ele? Nem você sabe seu lugar no mundo. Hayes não nos conta nada. Está tudo uma bagunça.
— Tenho coisas piores para me preocupar no momento, começando que eu estou... — eu não consigo terminar, por que Freddie sai do salão com Carly em seus braços.
Eu vou até eles. Coloco minhas mãos na camisa da Carly empapada de sangue. O bebê dela... Não, não, não.
— Ah não. — eu suspiro.
— Se ainda quer alguma chance de salva-la, precisamos leva-la para o hospital. — diz Freddie.
— Leve-a para o Seattle Grace. Chegaremos lá em breve. — fala Spencer segurando as lágrimas.
Freddie não se demora e parte.
Spencer e eu vamos até o seu carro. Precisamos contatar o Gibby e o Hayes.
Entramos no SGH. Corremos até a recepção e somos mandados para o terceiro andar. Gibby toma a frente.
Freddie está sentado no banco de espera. Ele tem alguns tremores. Suas mãos ainda estão manchadas de sangue.
Freddie se dá conta da nossa presença.
— Gibby eu sinto muito. — Freddie lamenta.
— Ela morreu? — pergunta o Gibby.
— Não, mas não puderam salvar o bebê. — responde Freddie sem nos olhar.
Gibby se aproxima do Freddie.
— Ela estava... Grávida?
— Ela ia te contar, mas não estava pronta... — eu justifico.
— Meu Deus... — Gibby se senta em uma das cadeiras com as mãos na cabeça — De quem era?
Eu estou roendo a unha. Freddie se levanta e dá um tapinha no meu braço.
— Oi? — eu me faço desentendida
— Era do Gatlin. — Freddie responde por mim me olhando de cara feia — Foi antes de vocês ficarem juntos.
— Eu vejo. — Gibby suspira e me olha — Você também está grávida?
— Sim. — eu respondo.
— O que é um erro, por que não sabemos o que o bebê vai se tornar, isso se ela sobreviver ao parto. — Freddie se intromete.
— Você tem razão... É um perigo, mas a escolha é da Sam. — murmura Gibby.
— Você está do meu lado? — eu pergunto cantando vitória antes da hora.
Gibby balança a cabeça negando.
— Não. Eu estou lado do Freddie. Se os anciãos souberem disso vão querer nos mandar intervir.
— Ótimo. — eu saio de perto de ambos.
Spencer pergunta ao Freddie informações sobre a Carly. Eu me sento o mais longe possível deles. Claro que ele ia ficar do lado do Freddie. O bebê é uma ameaça para mim. Eles se importam demais comigo e ignoram todo o resto. Flint não vai ser um problema, como algo tão puro, vindo de um amor tão verdadeiro poderá ser um monstro? Penso novamente no garoto de cabelos loiros e olhos castanhos. Preciso viver para vê-lo mesmo que por pouco tempo. Preciso de alguém além da Shelby para concordar comigo e eu sei que esse alguém é Carly.
Carly passou por uma cirurgia para fechar o lugar onde a estaca de madeira entrou. Freddie inventou uma boa história, a qual eu não ouvi e nem pretendo. Quando ela acordou deixei todos falarem com ela primeiro, optei por ser a última.
— Oi garota. — eu sussurro ao lado da sua cama.
— Eu sabia que isso ia acontecer. — ela responde de maneira fraca — Eu sinto que perdi alguém que eu não conheço. Eu nunca vou superar isso... Foi como ter meu filho tirado de mim e foi exatamente dessa forma que aconteceu. Diga ao Freddie que não foi culpa dele e que isso iria acontecer de um jeito ou de outro. — uma lágrima escorre pela sua bochecha rosada.
— Carly eu sinto muito... Se eu tivesse...
— Não. — ela me interrompe — Foi a maldição da Mabel. Se eu não o perdesse agora eu perderia depois, não vê que nem tudo está em seu controle, Sam?
— Poderia ter sido diferente, eu poderia ter feito mais.
— Você fez tudo que pôde. — ela fecha os olhos devagar.
— Carly, eu estou grávida e agora me sinto culpada por dizer isso a você, após uma situação como esta.
Os olhos dela se abrem de novo.
— Essa é a melhor notícia que eu poderia receber. — ela dá um sorriso sincero.
— Freddie e eu não sabemos no que o bebê vai se transformar, ele está... Preocupado. Eu talvez não sobreviva ao parto e eu não sei se o Freddie gostaria de ficar com ele.
— O que está me pedindo, Sam? E como assim o Freddie não cuidaria do próprio filho?
— Ele não quer o bebê. É um monstro para ele e Freddie já o menospreza de todas as formas possíveis.
— Oh Sam... — Carly se comove como a Shelby — O bebê vai ser algo bom, eu sei que vai.
— Se eu não sobreviver, você vai ter que cuidar dele como se fosse seu próprio filho, é tudo que eu te peço.
Carly pega a minha mão na cama.
— Eu prometo que irei cuidar dele. — outra lágrima surge — No momento eu me sinto sufocada e tenho um vazio enorme dentro do meu peito. É como se eu tivesse perdido a coisa mais importante da minha vida.
— Eu sinto muito pela sua perda, de verdade.
— Eu sei que sente.
Ficamos um tempo em silêncio. Eu dou carinho nas costas da sua mão com meu polegar. Carly chora sem omitir sons. Se eu estou bem ciente da maldição, Carly jamais irá superar a perda do bebê. Nada que Gibby ou qualquer um de nós fizer vai mudar o futuro. Em pouco tempo ela terá a Kimera, mas nunca será a mesma coisa.
— Quando Gatlin vir buscar o bebê, simplesmente entregue a ele, não discuta. — eu menciono.
— Ele irá vir buscar?
Mexo a cabeça de forma positiva.
— O bebê será da família Real.
— A história não pode ficar pior. — ela seca o rosto.
— Não, não pode.
— Será que em algum livro explica onde finalmente o Alfa surge e estabelece a paz? Está na hora disso tudo acabar.
— Sim está.
Carly abre um sorriso confuso.
— Já pensou na possibilidade de seu filho ser o Alfa?
Eu me surpreendo com sua hipótese.
— Você acha?
Ela morde o lábio pensando.
— Você é uma loba, Freddie é um vampiro, Hayes disse que o Alfa precisaria ser os dois, que o Alfa precisaria entender os dois lados da mesma moeda. A união mais detestável do mundo, se tornaria a mais poderosa para selar a paz.
— Será que se eu dissesse isso ao Freddie, ele passaria a detestar menos o bebê?
— Já tentou conversar com ele?
— Qualquer conversa terminava com minha segurança em questão, mas não precisamos falar disso. Você precisa descansar. — eu planto um beijo na sua testa.
— Você também precisa descansar, vá para casa eu ficarei bem.
— Eu funciono com bem menos horas de sono do que você, então não me mande te deixar aqui.
— O Gibby vai ficar por aqui e o Spencer também, eu ficarei bem. Cai fora Sam. — ela ri um pouco mas faz uma careta de dor.
— Eu te amo, Carls.
— Eu também te amo Sam, obrigada.
— É bom ter você de volta.
— Eu sei. — ela cora.
— É sério.
— Sai daqui antes que eu te bata com o desfibrilador.
— Te vejo em breve. — eu me despeço.
Eu não sei para onde o Freddie foi. Não o encontro no hospital. Está de madrugada e procura-lo agora não é uma opção. Eu realmente preciso ir para casa comer e dormir. Flint não pode ficar necessitando de alguma coisa. Acho que se ele fosse realmente um vampiro, repudiaria qualquer comida humana, mas na verdade agora eu como o dobro, parece até um lobo.
Eu entro em minha cozinha. Como um prato rápido de micro-ondas. Vou andando para o meu quarto. Freddie está deitado na cama. Ele está chorando com força contra o travesseiro.
— Freddie! — eu me jogo em cima dele — Não foi culpa sua! Não foi culpa sua! Não chore! Pare! Eu te amo!
— Ela perdeu o bebê e a culpa foi minha... — ele soluça como uma criança — Culpa minha... Tudo é culpa minha.
— A mãe do Gibby lançou uma maldição sobre a Carly e você sabia disso, por favor, não se culpe. — eu tento fazê-lo se virar para mim.
— Eu destruo tudo e todos... Eu estraguei... A vida dela. Eu não deveria... — ele gagueja chorando — Ter deixado a conversa com ele ir tão longe... Eu devia ter sido rápido.
— Você não pode se culpar por tudo.
— E você está grávida, vai morrer e também é minha culpa. Tudo é minha culpa. — ele não vai parar de chorar.
— Freddie... — eu procuro segurar seu rosto, mas ele sai da cama e minhas mãos se fecham no ar.
— Eu preciso ir. — ele enxuga o rosto e se vai pela janela.
— Fredward! — eu grito. Eu corro para a janela procurando ele na escuridão, mas não existe mais nada. Nem um sinal do homem que eu amo.
Freddie retornou na manhã seguinte. Ele estava mais calmo, porém ainda se sentindo culpado. Não conversamos sobre o Flint, na verdade somente eu falava e Freddie me ignorava completamente. E foi assim durante duas semanas. Sua atitude e postura continuaram a mesma. Não existe esperanças. Não existe um amanhã melhor. Freddie jamais irá aceitar esse bebê e está na hora de eu aceitar esse fato. Espero que quando eu morrer, ele sofra por que eu estou sofrendo agora. Freddie age como se eu já estivesse morta para ele. Não nos beijamos em nenhum momento. Ele se mantém frio. Os olhos sempre furiosos ou em pânico. Toda vez que ele olha para a minha barriga — que agora está com um volume muito aparente, rápido demais para o normal, mas já esperado em uma gravidez como essa — Freddie se contorce como se quisesse acabar logo com isso. Será que ele realmente não está pensando em me dopar e tirar o bebê a força?
Ainda me lembro de uma dessas discussões. Acabou que todos se envolveram. Foi na segunda semana ruim, no começo de Agosto.
Flashback On:
— É como sentar e esperar a morte chegar. — murmurou Wendy sentada no sofá da minha casa.
— Claro que tinha algo errado, as coisas nunca podem ser normais. — disse Jade.
— Não importa o que vocês acham, nada se aplica a vocês, a decisão é da Sam. — Shelby me defendeu.
— A decisão da Sam está colocando todos nós em risco. — reclamou Brad.
— Essa discussão não faz bem para a Sam. — Carly interviu.
— O feto que não está fazendo bem para a Sam. — Beck disse.
— É um apenas um bebê, ele não tem culpa. — Spencer está do meu lado.
— Vocês estão errados, é algo desconhecido. Perdão Sam, mas eu não concordo com isso. — se desculpou Dice.
— Exatamente por ser algo desconhecido não quer dizer que seja ruim. — Tori ofereceu uma boa visão.
— Eu estou com a Tori. — claro que Griffin concordaria com ela.
— Eu acho que vou chutar todo mundo para fora. — ameaçou Shelby.
— Começando pelo o Freddie. — Carly murmurou baixinho.
— Eu estou calado. — disse Fredward.
— Mas você não está do lado dela. — implicou Carly.
— Já perceberam que estão discutindo e não deixaram a Sam falar? — perguntou Gibby.
— Você não tem direito de opinar, por que se pudesse já teria feito ela desistir do bebê. — relembrou Shelby.
— Eu teria e Freddie me ajudaria com isso. — Gibby respondeu sem hesitar.
Eu olhei para eles sabendo que estão divididos. Eu causei essa divisão. Eu deveria ter imaginado que Shelby, Carly, Spencer, Griffin e Tori ficariam do meu lado. Os mais sentimentais. Os mais presentes.
Aqueles que vão pela razão e lógica ficariam contra mim, eu sabia que seriam Wendy, Brad, Jade, Beck, Dice, Gibby e... Eu odeio dizer que Freddie faz parte desse grupo.
— Você é tão idiota Freddie, esse era o momento de ficar do lado da sua noiva. — disse Carly com a voz preocupada.
— Você só diz isso por que se o bebê nascer e a Sam morrer, ele será seu. Você está vendo tudo como um prêmio. — disparou Freddie.
Carly se levantou da escada que estava sentada e foi até o Freddie.
— Retire o que disse.
Shelby foi em direção ao Freddie também.
— Você deveria ficar de boca fechada. — ela sussurrou.
— Chega, chega. — Spencer se colocou entre eles.
Freddie retirou Spencer do caminho e fez posição de ataque.
— Pode vir Shelby, faz um tempo que eu tenha esperado isso.
— Estou do seu lado. — Gibby falou se levantando da cadeira.
— Ninguém vai brigar aqui. — Spencer avisou.
Eu apenas andei e empurrei o Gibby para a cadeira. Me aproximei do Freddie e encarei seu rosto.
— Sai daqui e leva o seu time com você. — eu ordenei — A decisão é minha, parem de querer me controlar.
— E você Hayes? Está calado desde que chegou aqui. — proferiu Dice.
— Não estou do lado ninguém. — respondeu Hayes presunçoso.
— Saiba que existe um lugar no inferno feito para aqueles que ficam em cima do muro. — Shelby fez uma citação.
— Flint não gosta de discussão, acho melhor darmos um pouco de espaço para a Sam. — Carly se preocupa demais com o meu filho.
— Eu não saio daqui, eu sou seu noivo. — sussurrou Freddie me olhando.
— Bem, você não está agindo como se fosse. — eu dei as costas para ele.
— Então é isso, você vai ter o bebê e morrer? E depois? O que acontece depois? Vamos ter que perder você? — Gibby perguntou triste com minha escolha.
— Sua namorada é outra, não precisa me proteger. — eu resmunguei e subi as escadas para o meu quarto.
Entrei no banheiro. Me apoiei na pia para respirar. Estou me sentindo sem ar. Freddie entrou no banheiro e me observou da porta.
— Está terminando comigo? — ele perguntou e vi que estava tenso. Oh, foi essa ideia errada que eu passei para ele. Eu não posso viver sem o Freddie, eu posso estar ocupada querendo proteger o Flint dele, mas não irei abrir mão do nosso relacionamento.
— Não. Eu só não quero você me rondando, nada do que disser vai me fazer mudar de ideia. — eu respondi.
— Pensamos da mesma forma, apenas com objetivos diferentes.
— Era para você me apoiar.
— Não quando a sua morte está em questão.
— Freddie...
Ele vem me abraçar.
— Sam, quantas vezes eu vou ter que implorar?
— Nenhuma vez, por que eu não vou abandonar o Flint.
Ele me olhou sem qualquer expressão.
— Se você morrer, eu vou me desligar de novo.
— Qual é o problema? — irei usar suas próprias palavras — Eu não vou estar aqui para ver.
— Para de ser teimosa.
— Pare de ser um babaca.
Freddie recuou estressado e saiu do banheiro.
Flashback Off
Essa cena se grudou na minha cabeça. Nada no mundo irá fazê-lo mudar de ideia. Pelo menos eu ainda tenho pessoas do meu lado, mas a pessoa que eu mais queria não está.
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