40 Dias

3 Sob as estrelas.


Notas iniciais
Oiiii, venho aqui deixar pra vocês o último capítulo da semana! Espero que apreciem a leitura. ♥

Foram dias sem ver Scorpius. Quando eventualmente passamos a nos encontrar dentro daquela casa enorme, trocávamos apenas palavras cordiais. Lynx invadia o meu quarto algumas vezes, como se quisesse me mostrar que eu não estava sozinha. Desde que todo o isolamento social começou, eu tenho me sentido cada vez mais solitária. Não havia um culpado por isso, mas, ainda assim, era motivo para dor. Falar com os meus pais e com a minha família pelo telefone não era a mesma coisa. Na verdade, era completamente diferente. Eu não podia sentir o calor do amor deles, porque era como se tudo se tornasse mais frio. Como em um dia de inverno.

Eu já estava ficando cansada. Ficar trancada naquele quarto estava se tornando algo completamente exaustivo, e eu já estava começando a ficar farta. No entanto, não era apenas isso. O meu bloqueio criativo não estava ajudando em nada. Eu queria trabalhar, eu sentia que finalmente tinha o tempo que precisava para me dedicar as minhas obras. Contudo, nada do que eu escrevia ficava bom. Nada mesmo. Isso era um tanto quanto frustrante, especialmente para alguém como eu, que almejava uma boa carreira como escritora.

Já estava a ponto de atirar o meu notebook pela janela do quarto, mas eu sabia que não podia fazer isso. Não seria maduro e, bem, o computador me custou uma boa parte do meu salário, ou seja, eu definitivamente não podia atirá-lo pela janela. Apaguei e reescrevi a mesma fase quatro vezes e, ainda assim, não parecia bom o suficiente.

Fechei a tela do computador e o deixei de lado. Joguei o meu corpo fortemente contra a cama e deitei o meu rosto contra o travesseiro, onde abafei um grito angustiado. Merda, eu só queria ser uma boa escritora, será que era pedir muito?

Para a minha sorte, eu nunca fui o tipo de pessoa que desiste das coisas, especialmente quando se tratava dos meus próprios objetivos e sonhos. Eu conseguia ser muito resistente. Por isso, eu me sentei novamente na cama e respirei fundo, tentando afastar os meus pensamentos negativos.

Talvez eu precisasse de algo novo. Olhar para alguma coisa que não fosse cinza, preto ou branco, como o meu quarto. Será que Scorpius Malfoy só conhecia essas três cores? Elas eram um pouco tristes, e isso provavelmente dizia muito sobre a sua personalidade. Afastei os meus pensamentos acerca dele com um balançar sutil de cabeça. Não, eu, definitivamente, não gastaria o meu tempo precioso pensando em Scorpius Malfoy. Ele não merecia um único segundo meu.

Saí do quarto, tentando não fazer muito barulho, afinal, já era madrugada, e eu não queria acordar o meu anfitrião. Ele merecia, pelo menos, o mínimo da minha educação. Fui até cozinha e bebi um copo d’água, buscando me acalmar, mas não adiantou muito. A verdade era que eu estava me sentindo presa, quase sufocada. Não era culpa de Scorpius. Não era culpa da minha família. Não era culpa minha. Não havia culpados, na verdade. Havia apenas as circunstâncias as quais estávamos submetidos, sem escapatória.

Foi quando eu me lembrei do único local, além do quarto de Scorpius e de seu escritório, que eu nunca visitei na casa. O terraço. Talvez um local aberto fizesse eu me sentir melhor e, quem sabe, eu conseguiria dormir depois de relaxar um pouco. Aquela era a minha única e última esperança.

Andei pelos corredores cuidadosamente. Estava tudo escuro, e eu não queria correr o risco de, acidentalmente, machucar Lynx, que passaria despercebido facilmente se eu não estivesse atenta. Não demorou muito para que eu encontrasse uma escada ao fundo de um dos corredores. Senti um pouco de receio ao subir o primeiro degrau. Será que Scorpius ficaria chateado? Bom, ele não havia mencionado o terraço nas regras, então eu esperava que não.

Quando abri a porta ao final da escadaria, deparei-me com um espaço enorme e, rapidamente, senti uma brisa gélida contra a minha pele, bagunçando os meus fios de cabelo encaracolados. Era como se eu pudesse respirar novamente. Uma sensação boa que eu não sentia há um bom tempo. Inevitavelmente, um sorriso discreto surgiu em meus lábios. Não era como se eu tivesse me recuperado completamente dos meus pensamentos pessimistas, mas já era alguma coisa.

— Você também perdeu o sono? — ouvi uma voz masculina me perguntar, calmamente.

Virei-me na direção do som automaticamente. Era Scorpius, estava sentado sobre um banco de madeira, observando as luzes da cidade.

— É, acho que sim — respondi.

— Não quer se sentar? — ele perguntou, e inclinou levemente a cabeça, como se indicasse o espaço ao seu lado.

Ponderei um pouco, e ele pareceu perceber.

— Eu não vou te matar, Rose. — Revirou os olhos.

— Se você me matar, o Albus vai ficar muito bravo — falei, enquanto aproximava-me dele para me sentar ao seu lado.

— É, esse é o único motivo que me impede de cometer esse crime — brincou, mas sem muito humor.

— Claro, o único — reafirmei.

— O que está tirando o seu sono? — ele perguntou, de repente, depois de alguns minutos de silêncio.

— O que está tirando o seu sono? — devolvi.

— Meus pais — respondeu, sem dar detalhes.

Scorpius não era o tipo de pessoa que se explicava, mas era sempre muito transparente e verdadeiro. Confesso admirar isso nele, porque essa tem sido uma qualidade cada vez mais rara de se encontrar nos seres humanos. A sinceridade, ultimamente, estava em falta, e era algo lamentável.

— O trabalho, minha família, acho que um pouco de tudo — falei, sentindo que lhe devia uma resposta.

— Sente falta de casa? Da sua família? — perguntou, descontraído.

Por algum motivo, senti-me confortável para responder.

— Sim.

— Vocês sempre foram muito unidos.

Concordei, acenando positivamente com a cabeça.

— E quanto ao trabalho, as coisas não andam saindo como esperava? Desculpe, não entendo muito bem esse lance de escritor.

— Não, nem um pouco. — Deixei um suspiro escapar, frustrada. — Absolutamente nada que eu escrevo fica bom, eu sou um fracasso literário.

Eu não deveria estar admitindo a minha derrota para Scorpius Malfoy, ele provavelmente usaria isso contra mim futuramente. Entretanto, não havia como voltar atrás, já estava feito.

A princípio, seus lábios se contraíram e, honestamente, não soube desvendar sua expressão facial.

— Você não é um fracasso — ele me respondeu, e eu o encarei, surpresa. — O que? Surpresa por eu pensar algo positivo de você?

— É — não fiz questão nenhuma de esconder o que eu pensava.

— Ótimo. — Meio sorriso apareceu em seus lábios. — Espero que saiba que você é realmente muito boa no que faz. E guarde essas palavras para sempre, porque eu nunca vou repeti-las.

— Mas como você poderia saber? — perguntei, desafiadora.

— Você é a autora Rowe na amazon? — ele respondeu com uma outra pergunta, completamente despreocupado.

Contudo, eu gelei, porque aquele definitivamente era o nome que eu usava na amazon, e eu não tinha ideia de como ele sabia disso. Eu queria negar; dizer que não era eu, mas eu repudiava mentiras, como poderia me tornar uma mentirosa?

— É, mas como você sabe? O Albus te contou? Aquele traidor, eu pedi para ele não contar para ninguém.

— Ele não precisou — deu de ombros, como se não fosse nada demais. — Você costumava assinar as suas coisas assim quando era mais nova. Trabalhos da escola, cartas, esse tipo de coisa, não se lembra?

— Sim. — Ele não estava mentindo. — Mas por que você se lembra disso?

— Porque eu tenho uma memória boa, já disse.

— Chato.

— Tampinha — não demorou para rebater.

— Você... Leu alguma coisa minha? — indaguei, um pouco hesitante. Eu queria e, ao mesmo tempo, não queria saber a resposta.

— Sim — falou, sem detalhes.

Eu congelei por um instante e engoli seco, um pouco tensa.

— E...? — estimulei-o a dizer mais alguma coisa.

— Eu já disse, você não é um fracasso, Rose. Pare de se colocar para baixo, você não costumava ser assim.

Eu voltei o meu olhar para ele e encarei seus profundos e misteriosos olhos cinzentos. No entanto, não consegui desvendar nada. Apesar de muito sincero, ele era bom mascarando seus próprios sentimentos, e isso sempre me deixou curiosa e muito intrigada.

— Eu não estou me colocando para baixo — disse, completamente decidida.

— Vejo que continua teimosa.

Bufei. Detestava quando ele tinha razão. A mamãe, o papai e o Hugo sempre faziam questão de lembrar-me de quão teimosa eu costumo ser.

— Mas eu não estou, eu só... — Passei as mãos pelos meus fios de cabelo, como costumava fazer quando estava nervosa, e mordi meu lábio inferior, como se pensasse se deveria ou não desabafar com ele. Que mal faria, afinal? Eu já era uma fracassada, e ele era a única pessoa que eu tinha para me ouvir. — Eu só sinto que não estou sendo muito produtiva e não gosto de nada do que eu tenho escrito ultimamente. Odeio essa sensação.

— Não se cobre tanto. — Um sorriso discreto surgiu no canto dos seus lábios e, por incrível que pareça, eu senti um pouco de conforto. — Você é boa no que faz, seja confiante. Não vou repetir isso, Rose, então trate de fazer entrar na sua cabeça. E tudo bem não estar sendo produtiva agora, ainda terá muitos dias para escrever e, eventualmente, as coisas vão melhorar.

Peguei-me surpresa por suas palavras reconfortantes. Inevitavelmente, eu sorri para ele. E ele retribuiu. Senti-me estranha. Naquele momento, sob as estrelas, apreciando a brisa fria ao nosso redor, senti que poderia confiar nele. Havia uma sensação boa de aconchego e acolhimento que me envolvia por completo, aquecendo-me naquela madrugada de inverno. Senti quase como se eu pudesse gostar de Scorpius Malfoy. Como se pudesse considerá-lo um amigo. O meu maior inimigo. Ou quase isso.

— Obrigada — agradeci, um pouco surpresa e, se ele percebeu, não demonstrou. — De verdade.

Novamente, o silêncio pairou no ar, deixando-nos em uma situação um tanto quanto esquisita. Eu detestava momentos silenciosos e constrangedores.

— Scorpius — chamei a sua atenção, e ele finalmente voltou o seu olhar para mim novamente.

Suas sobrancelhas se ergueram, como se dissessem “sim?”

— Por que você foi embora da Inglaterra? — perguntei, com uma curiosidade sincera.

Scorpius fora embora da Inglaterra sem que eu mesma soubesse. De fato, quando Albus me contou, ele já estava na França, sem nem sequer ter se despedido. Não que eu precisasse do seu adeus, na verdade, eu estava longe disso, mas eu só fiquei surpresa. Meu primo, no entanto, nunca me contou o motivo. Eu não o culpava, afinal, eu também nunca o perguntei, porque era orgulhosa demais para fazê-lo.

— Foi um pedido da mamãe, e eu, bem, queria deixar tudo para trás, reiniciar. Meu pai também achou que seria uma boa ideia, então unimos o útil ao agradável.

— Entendo... — Eu não queria perguntá-lo mais sobre o assunto e parecer invasiva, mas era quase inevitável, eu sempre fui uma menina muito curiosa. — E você gosta de morar aqui?

— Digamos que eu já me acostumei — falou tranquilo.

— E funcionou? Quer dizer, sair da Inglaterra funcionou para você? — Droga, eu não queria parecer uma fofoqueira, como ele havia me chamado da outra vez, mas a curiosidade estava falando mais alto, e talvez eu estivesse um pouco interessada em conhecê-lo. Apenas um pouco.

— Em partes, sim — ao mesmo tempo em que dizia aquelas palavras, sua cabeça se movia em concordância. — Mas nunca podemos deixar o passado completamente para trás. Não é como se pudéssemos passar uma borracha e apagar tudo.

— É, acho que tem razão.

A vida seria mais fácil se pudéssemos passar uma borracha e simplesmente apagar tudo o que nos magoava, mas não era bem assim. E talvez fosse exatamente isso que tornasse o viver algo tão grandioso.

— Rose Weasley está concordando comigo? — ele perguntou, quase incrédulo.

Deixei uma risada irônica escapar em resposta.

— Não vá se acostumando, Malfoy.

— É, acho que a nossa trégua acabou, então. — Suspirou, fingindo frustração.

— Definitivamente — falei, com um sorriso divertido nos lábios.

— Foi bom enquanto durou, Rose.

— É, foi.

...

Acordei sentindo a minha vista pesada, embora o sono tivesse desaparecido por completo. Meu corpo parecia completamente exausto, provavelmente devido às poucas horas de sono da noite anterior. Mesmo contra a minha vontade, forcei-me a levantar da cama. Tomei um banho quente, na esperança de que aquela sensação de corpo cansado passasse. Por sorte, aliviou um pouco.

Assim que terminei de me trocar, fui até a cozinha. Minha barriga estava roncando, o que indicava que eu estava completamente faminta. Quando eu cheguei ao cômodo, lá estava Scorpius, sentado sobre uma das cadeiras, com seu jornal em mãos e uma xícara de café ao seu lado. Percebi que ele me encarava por cima das folhas, mas fingi não notar.

Quando fui fazer uma xícara de café, queimei a minha mão e, como resposta, dei um pulo e murmurei um palavrão, irritada.

— Você se queimou? — ele perguntou.

— O que acha?! — respondi, mal humorada.

— Que você é uma idiota, porque se esqueceu de colocar a xícara.

Fiquei quieta por alguns segundos, envergonhada por ele estar certo e indignada por ter me queimado por um erro tão banal. Como eu pude ser tão boba?

— Idiota — murmurei, irritada.

— Tampinha — ele retrucou.

Tudo havia voltado ao normal.

Notas finais
Boooooom, parece que as coisas estão evoluindo, não acham? Tivemos um soft moment aqui, afinal, não foi? Confesso que adoro esses momentos mais leves quando ainda estamos na fase "enemies". O que acharam? Vejo vocês de novo na semana que vem!