40 Dias
4 Trégua.
Notas iniciais
Segunda semana de quarentena. Cerca de três semanas longe de casa, das minhas coisas, do meu conforto, da minha família. Meu coração estava ficando cada vez mais apertado, e o sentimento de solidão tornava-se inevitável.
Dizem que mente vazia é oficina do diabo, e eu já estava começando a concordar com essa afirmação. A verdade era que eu estava me sentindo cada vez mais triste e desanimada, mesmo sem qualquer motivo aparente. E quando não temos nada para fazer, nós começamos a pensar em coisa que não deveríamos, ou em coisas que deveriam ser esquecidas, ou em coisas que não deveriam ter tamanha importância.
A cada dia que se passava, eu sentia cada vez mais que eu era um fracasso como escritora, o que consequentemente me fazia acreditar que eu era um fracasso como pessoa. Eu odiava ter esse sentimento me consumindo, porque eu nunca fui uma desistente, e também não estava pronta para desistir da profissão dos meus sonhos. No entanto, era difícil quando, em sete dias, não havia nenhuma página nova na minha estória.
Além disso, escrever não era só um sonho, era a minha forma de sustento, e os meus livros antigos já não vendiam tão bem quanto antigamente. Eu precisava de uma novidade com urgência, mas essa porcaria de bloqueio criativo teimava em me perseguir.
Levantei-me da cama às duas e dezessete da manhã, sem sono algum. A insônia estava se tornando minha nova melhor amiga, já que, nos últimos dias, resolvera aparecer em todas as noites. As olheiras debaixo dos meus olhos serviam apenas para comprovar isso. Toda noite era a mesma coisa: eu me deitava meia noite, acordava uma da manhã, voltava a dormir por volta das quatro e acordava às seis. Ou seja, não estava tendo as minhas devidas horas de sono.
Enquanto eu caminhava por um longo corredor dentro daquela casa enorme, senti-me como um zumbi. Certamente, se aquele fosse um cenário de filme de terror, os mocinhos me confundiriam com uma morta-viva, e eu não os culparia.
Não demorei muito para encontrar a escadaria que levava ao terraço. Cuidadosamente, a fim de evitar fazer barulho para não acordar o anfitrião ou Lynx, subi, degrau por degrau, lentamente, até chegar ao topo. Estava bastante frio naquela noite, a ponto de eu encolher todo o meu corpo quando a primeira brisa gélida me atingiu em cheio. Caminhei até o banco de madeira mais próximo e sentei-me, flexionando os meus joelhos e abraçando-os, como se precisasse me aquecer.
Olhei para cima e observei as estrelas no céu, porque era algo que me trazia certa tranquilidade. Sempre fui apaixonada pelos astros. Não demorou muito para que eu me afundasse em meus próprios pensamentos, com memórias saudosas, primeiro dos meus pais, depois do Hugo, depois de Albus, e obriguei-me a acordar dos meus devaneios quando percebi que estava pensando em Scorpius Malfoy. Contudo, não consegui.
Era uma memória razoavelmente antiga, considerando que tínhamos catorze anos na época. Aconteceu um pouco antes de começarmos a implicar um com o outro feito loucos. Quer dizer, nós sempre alfinetamos um ao outro, mas eu diria que, a partir dos catorze, as coisas se intensificaram um pouco. Ok, muito.
Nós estávamos na escola nesse dia, e lembro-me que um garoto idiota ofendeu o meu irmão. Eu sempre fui pavio curto, mas, quando se tratava da minha família e, especialmente, do meu irmão, o meu pavio era menor ainda. Quando escutei com os meus próprios ouvidos as barbaridades que ele falava sobre Hugo, que sempre fora muito inocente, eu não consegui me controlar e resolvi tirar satisfações.
No início, eu tentei ser educada, pedi para que ele parasse de pegar no pé do meu irmão, porque ele não havia feito nada. Contudo, para piorar toda a situação, que já não era agradável, Luke, o tal menino, resolveu caçoar do fato de eu ser uma garota, e disse que eu não tinha o direito de me envolver em briga de homem. Então, eu lancei o meu punho contra o seu rosto, bem no meio do pátio e, de repente, toda a escola estava me encarando e cochichando coisas.
Albus foi quem me tirou da confusão, afastando-me do garoto antes que a situação se tornasse ainda mais crítica. Claro, eu fui parar na diretoria e recebi uma suspensão de dois dias que manchou o meu histórico escolar anteriormente perfeito. Óbvio, levei uma bronca enorme dos meus pais, mas decidi não contar para eles qual foi o real motivo da briga. Quando voltei para a escola, todos me olhavam torto e sussurravam pelos corredores. Até mesmo Albus, que costumava ser meu grande defensor e fiel escudeiro, deu-me um sermão e acabamos brigando. O primeiro dia em que retornei às aulas foi terrível e deplorável, a ponto de eu passar parte do intervalo sozinha naquele dia.
Eu estava prestes a voltar para a aula, quando, de repente, encontrei com Scorpius. Encaramo-nos por alguns segundos, inicialmente em silêncio, até que ele falou:
— Não diga para Albus, mas eu realmente acho que o Luke merecia aquele soco — falou, convicto. — Ele é um pé no saco, e seu irmão não merecia ter que lidar com aquilo. Eu ficaria feliz se tivesse uma irmã como você, tampinha.
Agora, eu conseguia perceber que, naquele dia, Scorpius estava tentando me animar. No entanto, naquela época, tudo o que eu fiz foi bufar e respondê-lo, irritada:
— Não me chame de tampinha.
Ele franziu o cenho e, em seguida, suspirou.
— Rose, Rose! — Ouvi uma voz ao fundo, finalmente acordando-me dos meus pensamentos.
Naquele instante, percebi que minhas roupas estavam úmidas, tal como os meus longos fios de cabelo, e o meu corpo parecia tremer de frio. Tinha começado a chover, e eu nem sequer havia percebido, porque estava profundamente imersa em minhas próprias lembranças.
— Droga, Rose, saia da chuva!
Scorpius caminhou até a minha direção, e ele parecia extremamente furioso. Quando se aproximou de mim, levou uma de suas mãos até o meu pulso, ao qual agarrou firmemente, e puxou-me para fora do banco, fazendo-me ficar de pé. Não tive tempo de pensar, apenas deixei-me levar conforme ele me guiava para dentro da casa, sentindo meus dentes batendo uns contra os outros devido ao frio que parecia ter aumentado infinitamente mais, provavelmente por causa das vestes molhadas.
— O que diabos você estava fazendo, Rose Weasley? — ele quase gritou, depois que retornamos para dentro da casa. — Por acaso você quer ficar doente? Droga, Rose! Na situação em que estamos é difícil ir para um hospital. Como pôde ser tão inconsequente? — suas palavras praticamente atropelaram umas as outras.
E ele tinha razão. Eu odiava admitir, mas Scorpius tinha razão, eu fui inconsequente. Por causa disso, engoli todo o meu orgulho.
— Eu... — engoli o nó que se formava na minha garganta. Por algum motivo, eu estava muito sensível naquele dia. — Eu sinto muito, não sei o que deu em mim, eu nem percebi quando começou a chover.
Scorpius levou uma de suas mãos até as têmporas, que massageou, como se buscasse por paciência e, em seguida, suspirou.
— Você precisa tomar um banho quente, antes que fique doente.
Não fiz nada além de concordar com um aceno de cabeça.
— Céus, Rose, você parece uma criança, só me dá trabalho — resmungou. Eu queria respondê-lo, mas não o fiz. — Vamos até o seu quarto.
— Como assim “vamos”? — indaguei, descrente do que eu havia ouvido.
— Vamos, Rose. Eu e você. Nós dois. Precisa que eu explique mais do que isso?
— O que você quer fazer no meu quarto?
— Eu só vou sair de lá depois que você tomar um banho.
— Eu não sou uma criança! — explodi, chateada.
— Então por que está se comportando como uma? — perguntou, soando provocativo.
— Eu não estou — retruquei, completamente sem argumentos.
— Quanto mais rápido formos, mais rápido eu te deixo em paz, se é isso o que você quer. — Ele passou a mão direita pelos seus fios de cabelo, bagunçando-os. — Você está encharcada, vamos logo.
— E por que você se importa com isso? — insisti, ainda irritada.
— Droga, Rose, porque eu estou preocupado com você! — Dessa vez, foi ele quem pareceu explodir.
Eu não o respondi. Na verdade, eu não sabia como reagir àquelas palavras, então fingi que não tê-las ouvido. Scorpius pareceu não se importar, uma vez que permaneceu em silêncio durante todo o trajeto até o meu quarto.
...
Meu corpo estava dolorido, como se um trator tivesse passado por cima de mim. Cada junta minha doía. A minha cabeça latejava de modo horripilante, a ponto dos meus olhos arderem. Meu corpo estava totalmente escondido sob os dois cobertores grossos que inutilmente tentavam me manter aquecida, e minha garganta parecia queimar.
Tentei me levantar, mas confesso que não tive forças, porque minhas pernas bambearam antes mesmo de tocarem o chão. Eu era o tipo de pessoa que praticamente nunca ficava doente, mas, quando eu ficava, era completamente derrubada, porque todos os sintomas pareciam fortes demais. Era exatamente o que estava acontecendo.
Desisti de me levantar na segunda tentativa, afinal, a dor no corpo parecia piorar a cada movimento. Por isso, encolhi-me na cama novamente, sob as cobertas e, sem nem mesmo perceber, adormeci.
Horas depois, acordei apavorada, com o que pareceu um estrondo. Tenho certeza que eu teria saltado de susto, se as dores não fossem tão fortes a ponto de negarem meus músculos de responderem ao estímulo. Do lado de fora, o Malfoy batia o seu punho contra a porta, nada sutil.
— Rose? — ele chamou, do outro lado.
Cobri a minha cabeça com o travesseiro, mas não adiantou, porque suas mãos socaram a madeira com mais força.
— Rose! — o meu nome soou quase como um grito.
— O que é? — respondi, quase sem forças.
Minha garganta pareceu ser arranhada a cada palavra dita, o que me fez choramingar baixinho.
— Rose, você está bem? — ele perguntou, desconfiado.
Eu só queria que ele me deixasse em paz, então, mesmo indo contra todos os meus princípios, optei por uma mentira branda.
— Sim, eu estou bem, só estava dormindo...
— Você não comeu nada hoje e já são três da tarde — falou, parecendo confuso. Não o respondi. — E a sua voz está esquisita.
— Não é nada... Eu vou comer daqui a pouco — respondi, tentando parecer o mais firme possível, mas minha voz vacilou devido à dor na garganta.
Sem qualquer aviso prévio, Scorpius abriu a porta do quarto, fazendo-me tirar o travesseiro que escondia o meu rosto de cima de mim. Por algum motivo, ele parecia completamente furioso, eu conseguia ler isso facilmente em sua expressão facial.
Ele não disse uma única palavra quando se aproximou de mim e colocou sua mão direita sobre a testa, como se quisesse verificar a minha temperatura. Automaticamente, encolhi-me ainda mais sob o cobertor, como se já esperasse por um sermão. Scorpius, por outro lado, manteve-se em silêncio por alguns segundos. Impacientemente, ele levou as suas mãos até os próprios fios de cabelo e os empurrou para trás.
— Você está queimando em febre, Rose — falou, completamente perplexo. Engoli seco, sem saber exatamente o que responder, mas ele continuou. — Você está queimando em febre e achou que seria uma boa ideia não me contar sobre isso?
— Eu... — Fiz uma careta ao sentir a minha garganta doer. — Eu já sou adulta, posso lidar com isso sozinha.
— Você nem sequer se alimentou hoje! É assim que pode lidar com isso? — Ele riu, mas não havia humor, apenas incredulidade.
Eu realmente não tinha como argumentar contra ele.
— E por que raios você se importaria?
— Droga, Rose, quando é que você vai entender... — Ele suspirou. — Deixa para lá.
— Ótimo — respondi. — Acho que você já pode ir, então.
Mesmo que meu corpo ainda doesse, virei de costas para ele.
— Não — ele falou, firme. — Você precisa tomar um banho, acha que aguenta?
— Malfoy, você não é o meu pai, pode me deixar em paz? Realmente não estou a fim de seguir as suas ordens! — gritei, enquanto abraçava o travesseiro mais próximo, a procura de uma posição que não fosse tão desconfortável.
— Rose Weasley, eu estou preocupado com você, será que dá para você deixar de ser tão teimosa e orgulhosa, pelo menos uma vez na vida, e aceitar a minha ajuda? — desabafou, as palavras quase atropelando umas às outras.
Ficamos em silêncio por um instante, enquanto eu processava o que ele havia dito. Preocupado? Scorpius Malfoy estava preocupado comigo? Isso não fazia sentido algum.
— Quanto mais cedo você sair desse quarto, menos chance de ficar doente também, se é isso o que te preocupa.
— Rose Granger-Weasley, você pode calar a porra da boca e engolir esse orgulho gigantesco pelo menos por hoje? — Nunca, em toda a minha vida, eu vi Scorpius tão irritado.
Nem mesmo nas inúmeras vezes que eu o chamei de “idiota”, ou que brigamos por algo estúpido. Nunca. Na verdade, ele sempre foi um menino muito centrado e calmo, por isso eu estava tão surpresa. Sem saber como reagir, recusei-me a respondê-lo.
— Desculpe... — ele disse, ao perceber que havia passado do ponto. — Eu só quero ajudar. Bem, eu vou até a cozinha esquentar um pouco do almoço e trazer para você, depois disso, você toma um antitérmico e um banho. Será que pode cooperar? Podemos ter uma trégua só por hoje? — pediu, e parecia sincero.
Respondi com um lento aceno de cabeça, assentindo. Scorpius, por sua vez, pareceu aliviado.
— Ótimo, eu vou trazer o almoço.
Demorou cerca de quinze minutos até que ele retornasse com a comida. Apesar de saber que devia me alimentar, eu estava completamente sem apetite. Talvez esse fosse um dos sintomas de seja lá qual doença fosse essa. Comi feito uma tartaruga, fazendo algumas caretas, que provavelmente eram engraçadas, uma vez que Scorpius tentava esconder um risinho todas as vezes que eu as fazia. Quando terminei, ele me entregou o antitérmico, e eu fiz um bico ao observar o remédio. Eu detestava ter que ser medicada.
— Não aja feito uma criança — ele pediu. — Por favor, tome logo esse remédio.
— Eu não sou uma criança, eu só detesto remédios.
— Crianças detestam remédios — ele argumentou.
— Chato — resmunguei, em seguida, peguei o remédio em mãos e o tomei. — Feliz?
— Satisfeito, eu diria — corrigiu-me. — Você deveria mesmo tomar um banho — ele reforçou.
— Eu não quero. — Escondi-me debaixo dos lençóis.
— Mas vai ajudar com a febre.
— Eu não quero — insisti.
— Vai fazer bem, Rose. Por favor.
— Você é insistentemente chato, sabia? — reclamei.
— Sim — ele concordou, em um tom que parecia divertido. — Isso quer dizer que você vai tomar banho?
— Eu vou tomar banho! — cedi. — Feliz agora?
— Satisfeito — corrigiu-me, mais uma vez.
— Você pode virar? — pedi, um pouco tímida.
— Mas por que... — ele mesmo se silenciou. — Não me diga que você dorme sem roupas nesse frio.
— Não é isso! — respondi, rapidamente. — Eu estou de pijama, eu só não quero que você me veja assim. Não quero te fornecer nada que possa usar contra mim futuramente.
— É uma trégua, não podemos usar nada que fizermos um contra o outro hoje futuramente — explicou.
— Quem criou essa regra?
— Eu.
— Ah, claro. — Prendi o riso. — Você já se virou?
— Sim.
— Não pode espiar.
— Está bem, Rose. Apenas vá logo para o banho.
— Certo.
Eu não demorei muito para me banhar. Quando senti minhas pernas trêmulas, desliguei o chuveiro e, com o resto de força que eu tinha, obriguei-me a me vestir, ainda que meu corpo mal ficasse firme de pé. Ao sair pela porta, notei Scorpius me encarando. Não demorei muito para deitar naquele colchão maravilhosamente macio e deixar o meu corpo relaxar. Ao finalmente retornar o meu olhar para ele, notei-o me observando novamente. No entanto, ao contrário do que ocorria costumeiramente, eu não fiquei incomodada.
— Sente-se melhor? — ele perguntou, ajeitando as pernas sobre a cadeira na qual estava sentado.
— Um pouco — disse, e não era mentira, afinal, há alguns minutos atrás eu sequer conseguiria ter me levantado para tomar um banho.
— Ótimo, deixe-me verificar a sua temperatura. — Scorpius se levantou e pegou um termômetro na mesinha que ficava ao lado da cama, em seguida, estendeu em minha direção.
Em poucos minutos, o termômetro digital apitou, e ele o pegou, a fim de checar o resultado.
— 38,7 ºC, você ainda está com febre, mas acho que está começando a ceder — disse, enquanto sentava-se novamente na cadeira.
— É... — Pigarreei, sentindo a minha garganta doer. — Droga — murmurei, incomodada.
— Eu vou trazer um pouco de água para você — falou, ao mesmo tempo em que se levantava.
— Obrigada — agradeci, um pouco sem jeito.
Rapidamente, Scorpius foi até a cozinha e retornou com uma garrafa de água. Quando ele me entregou, eu logo tomei um gole, mas senti a minha garganta reclamar. Ainda assim, não havia nada que eu pudesse fazer, porque eu estava com muita sede, então apenas lutei contra a minha dor.
— Sabe, você não precisa ficar aqui, se não quiser — pronunciei-me, logo após colocar a garrafa na mesa ao lado da cama. — Pode ir trabalhar ou fazer... Seja lá o que você faz no seu escritório e no seu quarto.
— Você é mesmo muito teimosa e orgulhosa, eu me lembrava disso, mas não lembrava que era tanto assim — reclamou. — Eu não vou a lugar algum até a sua febre passar, e você se sentir melhor.
— Andou pensando em mim durante esses anos para falar de maneira tão convicta? — brinquei, e ele sorriu.
— Não seja convencida, Weasley. — Revirou os olhos. — Eu sou amigo do seu primo, se esqueceu? Às vezes, infelizmente, ele comenta algumas coisas sobre você. Acho que é inevitável.
— Ah, claro. — Fingi acreditar. — Você vai ficar sentado aí o dia inteiro olhando para a minha cara, então?
— Se for preciso...
— Você é mesmo um idiota. — Dessa vez, fui eu quem revirou os olhos. — Stalker.
— Você fala muito para quem está com a garganta ruim — proferiu, e eu fiz uma careta.
— Talvez um pouco — admiti, mais uma vez, encolhendo-me sob o cobertor, sentindo o frio aumentar.
De repente, senti a dor de cabeça apertar, o que provavelmente tornou-se perceptível pela minha expressão facial.
— O que houve? — ele me perguntou, parecendo realmente preocupado.
— É a minha cabeça — choraminguei. — Está doendo para caramba.
— Quer uma toalha úmida? Acha que pode aliviar?
— Não precisa, acho que é só questão de tempo, eu já tomei o remédio, então agora é só esperar pelo milagre.
— Ciência — ele me corrigiu.
— Cético.
— Talvez um pouco — confessou.
— Você sempre foi mais racional mesmo.
A conversa pareceu acabar e ficamos em silêncio por um tempo. Por algum motivo incompreensível, eu havia gostado de conversar com Scorpius. Na verdade, ele estava se mostrando uma pessoa muito mais gentil do que eu me lembrava e, especialmente naquele momento de vulnerabilidade em que eu me encontrava, eu me senti grata. Não havia a mamãe para me ajudar, ou o papai, nem mesmo Hugo, mas lá estava Scorpius, tentando o seu melhor, mesmo sem ter obrigação nenhuma de fazer isso.
Virei-me delicadamente e espiei a sua feição calma, encarando o seu celular, mesmo que estivesse bloqueado. Scorpius, apesar de suas implicâncias e atitudes parcialmente infantis, era mesmo um rapaz muito tranquilo, e isso ficava nítido todas as vezes que eu olhava para ele. Por isso, quando ele saiu do sério mais cedo, estranhei. Não era algo que acontecia com facilidade.
— Por que você está me encarando? — ele perguntou, quando seus olhos encontraram os meus, então eu abaixei o meu olhar.
— Você pode se sentar na cama, se quiser — ofereci, ignorando, por um segundo, que a casa era dele.
— Não precisa, eu estou confortável aqui — respondeu-me, mas eu sabia que era mentira.
— Ninguém fica confortável em uma cadeira de madeira, Scorpius. — Rolei os olhos de um lado para o outro. — É sério, você pode vir para cá, se quiser. É uma trégua, não é?
Sua feição foi tomada por uma expressão pensativa que eu não soube decifrar. Então me mantive quieta e voltei a encará-lo, enquanto esperava por sua decisão. A princípio, ele não falou nada, apenas levantou-se da cadeira e, hesitante, sentou-se ao meu lado, na cama.
— Obrigado.
— Sabe, a casa é sua, o mínimo que eu podia fazer era deixá-lo sentar na sua própria cama — brinquei e, quando fui rir, fiz uma careta, sentindo a minha cabeça pulsar. — Droga — resmunguei.
— Está tão ruim assim? — ele perguntou.
Assenti.
— Você deveria tentar dormir, quem sabe não acorda melhor?
— Acho uma boa ideia — confessei. — É sério, você não precisa ficar aqui se não quiser, eu vou ficar bem.
— Eu sei que vai ficar bem, você é uma garota forte — disse ele. — Mas eu quero ficar aqui.
Fechei os meus olhos e virei-me de costas para ele, agarrada a um travesseiro. Em poucos minutos, senti os dedos dele se movimentando entre os meus fios de cabelo suavemente, em uma carícia extremamente agradável.
— Obrigada, Scorpius — falei baixinho.
Depois disso, peguei no sono.
...
Me mexi sobre a cama, até que fui interrompida por algo. Aos poucos, abri os meus olhos e, com a minha visão ainda turva, notei que havia alguém deitado ao meu lado. Pisquei algumas vezes, até que minha vista revelasse uma imagem mais nítida. Lá estava Scorpius Malfoy, com seus olhos fechados e uma feição serena, completamente pacífica. Permaneci observando-o por alguns segundos. Ele estava quase imóvel, exceto pelos ombros que subiam e desciam conforme respirava. Eu não sabia o porquê, mas, por um momento, eu admirei aquela paisagem.
Tentei prender a tosse quando a senti vir, mas não consegui e, por isso, despertei-o do seu sono. Ele pareceu consideravelmente confuso quando acordou. Seus olhos estavam parcialmente abertos, mas ainda davam indícios de sono. Não sabia que horas eram, mas sabia que já estava de noite. Scorpius demorou um pouco para voltar à realidade e, quando o fez, um sorriso brotou em seus lábios.
— Admirando a paisagem enquanto eu dormia? — disse, em tom de brincadeira.
Idiota. Convencido. Arrogante.
— Só se for a sua feiura — rebati e era mentira.
— Está se sentindo melhor?
— Estou com frio — respondi, enquanto me escondia debaixo do lençol.
— Deixe-me ver. — Scorpius ergueu uma de suas mãos e tocou a minha testa. — Acho que está com febre de novo.
A mão dele deslizou pelo comprimento do meu rosto, em uma espécie de carícia que eu estranhei, mas não disse nada.
— Eu vou pegar um remédio, depois disso eu te deixo em paz, acho que já teve sua dose diária de mim por hoje.
Não o respondi, apenas deixei que ele fosse até a cozinha e esperei até que ele retornasse com um copo de água e um comprimido. Quando ele retornou, sentei-me na cama e, hesitante, tomei o remédio.
— Eu odeio remédios — constatei, apenas para que ficasse claro.
Ele prendeu o riso.
— Parece uma criancinha.
— Não, não pareço — falei, apenas para contrariá-lo, porque eu sabia que ele estava certo. A mamãe sempre dizia o mesmo quando eu adoecia.
— Certo — deu-se por vencido. — Eu acho que vou para o meu quarto, então. Você pode ir até lá e me chamar, se precisar. Ou me ligar, porque eu vejo a ligação e venho até aqui — sugeriu. — Acho que seria mais prático.
Ele estava prestes a se afastar, quando eu agarrei a manga do seu moletom preto, sem nem mesmo saber o porquê de eu ter feito isso. Então, ele se virou para mim, e encarou-me no fundo dos meus olhos, de um modo intenso. Seu olhar me passava uma certa expectativa, como se parecesse ansioso pelo que eu estava prestes a dizer.
— Obrigada — agradeci, completamente sincera.
— De nada, tampinha.
— De novo isso de tampinha? — resmunguei. — Cadê a trégua?
— São meia noite e um, Rose. — Ele riu baixo, enquanto se afastava de mim. — Acabou a trégua.
Sem dizer mais nada, ele saiu.
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