Eu, minha mãe e meu padrasto fomos uma família feliz, e completa, entre aspas... Nunca cheguei a ver meu pai pessoalmente, só a partir de fotos, e bem antigas por sinal. Nós três vivíamos numa fazenda um pouco distante da cidade. Éramos bastante ricos, pois nosso terreno era o melhor em fertilização e tínhamos até nosso avião para vermos como o terreno está com mais clareza.

A única coisa que sei é que meu pai me deixou assim quando nasci, pois minha mãe dizia que o mesmo não teria condições de criar um filho junto com ela e fugiu no dia seguinte, logo após meu nascimento. Minha mãe nunca foi de cobrar pensão do meu pai, contanto que ele fique bem longe da nossa família. Às vezes me pergunto se minha mãe foi rigorosa com meu pseudo-pai, ou se ele realmente merecia aquilo tudo que ela exigiu.

Não passou muito tempo e minha mãe começou a namorar um cara bacana até que se casaram. Meus colegas de classe que tinham padrastos me invejavam porque o meu era sempre o mais legal. Sempre o chamei de pai e sempre irei chamar. Ele esteve disposto a cuidar de mim e da minha mãe quando mais precisamos e eu tenho a total gratidão.

Não muito tempo, um pouco após o almoço, umas quatorze horas da tarde, vi algo se mexer no milharal da janela do meu quarto. Curioso, continuei a observar e de lá saía um homem com cabelos longos e, aparentemente, mal cuidado e pior ainda vestido, arrastando uma pá velha com ele. Achei que era um mendigo ou algo do tipo que estava precisando de ajuda. Enquanto me arrumava para descer, o rapaz misterioso apareceu para minha mãe e meu padrasto. Minha mãe parecia nervosa ao "reconhecer" o rosto daquele homem e o mandou embora com uma expressão que nunca vi no rosto dela.

O rapaz levantou sua pá e começou a fazer gestos, como se quisesse atingir meus pais e eu, assustado, observando tudo pela janela do meu quarto. Fiquei nervoso porque já sentia que estava longe de ser algo bom e que coisa pior estava por vir. Após descer as escadas, vi meu padrasto bem surrado e com a roupa rasgada fugir enquanto o homem misterioso estava de frente para minha mãe jogada no chão. Quando eu finalmente cheguei à porta para saber o que estava acontecendo, vi o rapaz golpear o rosto da minha mãe com a pá enferrujada 7 vezes até conseguir, digamos, destruir o rosto dela. Ele saiu em direção ao meu padrasto andando lentamente e arrastando sua pá, deixando para trás um enorme rastro de sangue.

Minutos depois, ao perceber que o rapaz já estava longe, fui, desesperadamente, ver o estado da minha mãe — que já não apresentava mais sinais de vida — e, não quero nem pensar no dia em que vi o rosto da minha mãe completamente desfigurado. Por que em momento de desespero meu padrasto não reagiu da melhor forma para proteger minha mãe? A dor no meu peito sempre aumentava cada vez mais que continuava naquela fazenda, sozinho.

Decidi entrar para o exército, para ter forças o bastante para que nunca mais eu tenha que passar por isso de novo. Alguns míseros anos se passaram e percebi que nem no exército eu estava seguro. Todo mês um tipo de magnata aparecia em nosso quartel, levava um de nossos homens e passava dois, três, ou até sete dias fora, com um soldado. Descobri, por meio das conversas, principalmente da do suposto magnata com o Tenente, que o tal magnata ajudava no orçamento não só do quartel, como também ajudava a família do Tenente e, em troca disso, ele saía com um dos soldados e passava "noites" com ele. Quase todo mês ele sai com um diferente e, tem vezes em que ele vem mais de uma vez por mês. Ninguém pode sequer questioná-lo, pois ou o Tenente manda matar o soldado, ou prende o "questionador". Chegou a minha vez, ele queria sair comigo e aceitei, na esperança de dar um basta nisso tudo. Ao chegarmos num motel, tirei fotos do magnata e do local que estávamos, até que ele percebeu e chamou os seguranças. Ele descobriu que eu estava tirando fotos e gravando tudo que ele dizia. Era óbvio que ele sabia que eu queria incriminá-lo. Pouco antes dos seguranças chegarem e depois do "magnata" perceber o que estava acontecendo ali, eu o ataquei com uma fúria que nunca achei que tive, era como se eu lembrasse da minha mãe e das pessoas inocentes que eram abusada pelo rapaz. Não só o magnata, como também o Tenente fizeram de tudo até conseguirem me colocar aqui, onde estou, na prisão, e com a ficha de um maluco, ou de um doente mental. Eram as palavras deles contra as minhas. Tudo me faz pensar que não passava de um plano para que eu não pudesse conseguir passar por cima nessa história.

Tudo que aconteceu não passa de uma bandidagem! Só me fez perceber que nada (ou quase) neste mundo está a salvo e que a ambição é um dos nossos maiores inimigos. Quero acabar com isso de uma vez por todas!

São tantas perguntas que surgem em minha cabeça que não sei qual resposta eu procuro primeiro. Só sei que aqui, na prisão 301, tenho uma ficha de número "07" e me chamaram para uma reunião. Só espero que tudo saia bem, ou então lá vamos nós mais uma vez. Eu na verdade tenho dois nomes, mas atendo apenas por Arthur por segurança.